Semana agitada

Semana agitada

Com a chegada das duas filhas que moram em São Paulo, a família viveu uma semana movimentada e cheia de boas emoções. A mais velha veio trazendo uma bela e expressiva barriguinha de cinco meses para ser exibida e festejada pelos amigos e parentes daqui. Um concorrido chá de fraldas encheu a nossa casa de gente falando alto, rindo de tudo, comendo esfiha profissional, bebendo suco natural, suspirando com a palha italiana feita por tia querida. Passada a canseira da festa, resolvida a compra de dólares em tempos de câmbio nervoso, viveu-se a correria da preparação das malas para filha e mãe, animadíssimas, irem passear em Nova York.

A filha do meio, por sua vez, veio trazendo na bagagem dezenas de desenhos originais que ilustraram capas de livrinhos de aventura, para a exposição As Mulheres de Benicio. Neles, sempre em poses sensuais, Brigitte, uma belíssima morena de olhos azuis, aparece enrolada em um enorme serpente, deitada na areia da praia sem a parte de cima do biquíni, segurando uma pistola esfumaçante ou subindo uma escada em vestido longo de decote generoso e grande abertura lateral. Acho que eram dela as únicas imagens de mulheres semi-nuas disponíveis nas bancas de revista de todas as cidades brasileiras nos anos sessenta e setenta, quando não existia a atual fartura de revistas de mulher pelada, sempre expostas na altura dos olhos de quem passa pela calçada. A tirar pelo que se viu na abertura da mostra, a figura daquela heroína insinuante frequentou os sonhos de juventude de muitos dos marmanjos sessentões de hoje.

Sem alternativa, tive que aceitar a intimação familiar para participar de um workshop sobre criatividade, tendo como mote de instigação a construção de um tal diário gráfico. Foram duas tardes inteiras do fim de semana fazendo colagens com pedaços de revista, pintando sem qualquer rigor o que havia feito, cortando tudo em formato de página dupla, montando pequenos cadernos para serem furados no dorso e costurados à mão. No início, fiquei constrangido em meio a tanta gente muito mais nova do que eu, inclusive um filho e uma neta, mas acabei entrando na brincadeira, sob estímulos do ilustrador Renato Alarcão, de Niterói. Terminada a oficina com papeis, já noite do domingo, fui direto para a cozinha para, sob luz de vela, finalizar o arroz de polvo que havia começado a preparar na parte da manhã. Era a peça de resistência das comemorações dos aniversários da filha do meio e da minha irmã caçula. Haja boca para rir e falar, haja boca para beber e comer.

Aprendi, na prática, que as dúvidas bloqueiam as providências e as incertezas atrasam os acontecimentos. Preparar uma exposição sempre dá frio na barriga e muita canseira. Pois foi em meio à agitação de casa cheia, que consegui juntar mãe e filhas para definirmos os detalhes do projeto da exposição das colheres de bambu que montaremos no mais antigo museu de design que existe, agora em novembro, em Winterthur, pertinho de Zurique. Resolvido isso, foi possível começar a selecionar as centenas de peças que levaremos na bagagem.

Para relaxar, passei as manhãs da semana tentando amansar de vez o casal de sabiás da praia e os seus dois filhotes que nasceram no buganvília que cobre o muro. Acreditando no sentimento de proteção próprio das mães, fui trazendo, progressivamente, os pedaços de mamão madurinho pra perto de mim. Em três dias, os esfomeados já estavam comendo o mamão colocado em cima da mesa, enquanto eu fazia de conta que lia o meu jornal. Tenho fotos que comprovam a nossa amizade.

Vitória, 01 de outubro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viva Vitória !

Viva Vitória!

Vitória, que completou 463 anos de fundação, vive uma espécie de esplendor. A cada dia mais colorida, limpa e arrumada, a cidade transmite a impressão de estar sendo bem cuidada pelos que são pagos para fazê-lo e pela população que nela mora e trabalha. Essa impressão ficou mais evidente ao levar velhos amigos paraibanos para passear. Já se foi o tempo em que eu tentava esconder o descaso com lugares públicos localizados em pontos de passagem obrigatória. Lembro-me de uma conversa que tive a esse respeito com um candidato a prefeito, há muitos anos. Sugeri que considerasse, como referência nas suas decisões, a necessidade de fazer com que o cidadão sentisse orgulho da sua cidade.

Com o trânsito cada vez mais complicado, tenho aproveitado as esperas nos sinais, muitos deles com cronometro, para olhar com calma a paisagem urbana, avaliar o piso das calçadas, observar o novo padrão das placas indicativas e de sinalização, vistoriar a manutenção dos jardins e gramados e as condições dos pontos de ônibus (agora sem cartazes de cartomantes), conferir a demarcação das pistas para bicicletas aos domingos e feriados e o uniforme dos guardinhas municipais, avaliar o serviço de varreção de ruas e calçadas e assim por diante. Posso garantir que estou satisfeito com o que tenho visto. A consciência do que se tem e do quanto a coisa melhorou é condição indispensável para fazer brotar a sensação de conquista e de apreço coletivo. Bem sei que o pessoal trabalha com a expectativa de que o reconhecimento se transforme em voto certeiro, no momento devido. O fato é que, felizmente, há o que comemorar. Em tempo de aniversário a festa se justifica.

Não sei se você reparou, mas a semana passada foi rica em acontecimentos que bem expressam os tempos que se vive aqui em Vitória. Na enseada da Curva da Jurema, um campeonato de canoa havaiana e de pranchas fez muita gente sair de casa para ir ver de perto o pessoal remar com convicção, em sincronia, feliz da vida. Confesso que senti uma certa inveja. É que remar em canoa me remete aos tempos de juventude, que já vão distantes. No fim de semana, o Centro da cidade ferveu com a realização do Viradão Cultural, um projeto ousado que mobiliza, provoca e distrai muita gente. A época de desapreço por suas ruas apertadas vai dando lugar a um sentimento de rebeldia contra a lógica perversa do crescimento urbano. Ganha força um movimento que valoriza e transforma região da Rua Sete e adjacências em uma barulhenta e colorida trincheira. Foi bom saber que as principais atividades do Vitória Cine Vídeo seriam realizadas no Teatro Carlos Gomes, uma ótima casa para receber quem gosta e quem faz cinema. Vejo que escrever isso também me remete ao passado. Era no Centro que funcionavam os cinemas, aconteciam as domingueiras e os bailes de gala, os desfiles escolares da infância, os trotes de vestibular, as passeatas e onde se bebia cerveja gelada discutindo costumes e política, noite a dentro.

Vi nas colunas sociais que muita gente foi assistir a apresentação de uma famosa companhia russa de balé clássico, com cenário montado num antigo ginásio de esporte. Soube por uma amiga que, também na semana passada, aconteceu por aqui, com grande sucesso, um simpósio de epidemiologia, com de mais de dois mil participantes, vindos de todos os cantos do país. Ela comentou, satisfeita, que os visitantes adoraram Vitória. Isso me fez lembrar de Carmélia entrando na varanda do Britz Bar, saudando os amigos com o seu conhecido grito de guerra: “Viva o Simpósio!!!”.

Vitória 17 de setembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sorriso de Marina

Sorriso de Marina

Um conhecido meu, desses de longa data, me disse que encontrou com Marina Silva no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de janeiro. Encontrou é forma de dizer: a viu passando pelo saguão, em direção ao portão de desembarque. Ela andava com passos firmes rodeada de assessores, seguida de perto por um pequeno batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Aparentando ter pressa, ainda assim ela cumprimentava, com um balançar de cabeça e acenos de mãos, as pessoas que ia encontrando pela frente. Fazia isso de forma bem comedida, sem a simpatia exacerbada, própria dos políticos em campanha.

Ele me contou que, pego de surpresa em meio ao pequeno alvoroço que se estabeleceu,  retribuiu o sorriso discreto que recebeu dela ao passar ao seu lado. Sendo ela uma mulher bem miúda, ele precisou olhar para baixo para cumprimentá-la. Sendo ele um homem muito alto, imagino que ela precisou olhar para cima para encontrar os seus olhos. Um encontro fugaz entre um eleitor indeciso e uma candidata em ascensão vertiginosa nas pesquisas eleitorais. Ele é, talvez, a única pessoa que conheço que já tenha se encontrado pessoalmente com Marina. Pelo que me disse, ela deve ter percebido que não conseguira encantar aquele homem meio espantado que a olhava criticamente. Acho mesmo que ela já esteja acostumada com esse tipo de gente. E imagino que já tenha aprendido que, diferentemente de Eduardo Campos, ela nem sempre consegue estabelecer uma relação de empatia, de amor à primeira vista, com a maioria das pessoas.

Sei de muita gente que tem assistido suas entrevistas na TV, visto suas imagens em comícios e em reuniões com políticos e, mais recentemente, em caminhadas por ruas estreitas. Muita gente tem tido a oportunidade de vê-la com um sorriso aberto no rosto, surgido, talvez, da satisfação em se saber escolhida por um grande contingente de brasileiros que votarão nas próximas eleições. Imagino que tenha chegado à conclusão de que, depois de tanto batalhar, de enfrentar desvantagens e de fazer cara feia, já é possível começar a sorrir. O semblante totalmente sério, marcado por uma testa franzida, sobrancelhas arqueadas, olhar incisivo e uma boca triste, parece que já não cabe mais. É chegada a hora de se mostrar simpática, amistosa e agregadora.

Pelo que leio nos jornais e na internet, pelo que converso com amigos, a campanha eleitoral entra em uma nova fase a partir de agora. Passados os fortes impactos provocados pela tragédia, amainadas as fortes emoções e superadas as surpresas, é chegada a hora do preto no branco, do vamos ver. Passado o susto, constatados os estragos, fica-se com a impressão de que, daqui pra frente, vão entrar em uso a força das denúncias, a consistência das cobranças por coerência, a contundência da lei dos mais fortes, o poderes da intriga e a efetividade das armações ardilosas.

Fico tentando imaginar as reuniões nervosas de avaliação de cenário e de reformulação total das estratégias da campanha de reeleição que devem estar acontecendo em palácios, repartições públicas e residências oficiais. Assessores aloprados dando palpites impublicáveis, especialistas querendo mostrar serviço e profissionais de bom senso tentando abrandar a excitação e amenizar os ímpetos dos que preferem partir pro pau. Agora, pelo que sei, a palavra de ordem é desconstrução de imagem e a estratégia de campanha bem mais delicada: atacar a candidata Marina que, finalmente, encontrou uma boa razão para sorrir, porém sem vitimizá-la, para não entornar o caldo de vez.

Vitória, 03 de setembro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Substituição de última hora

Substituição de última hora

No rádio do carro, ouvi notícia sobre um acidente de helicóptero em Santos. Na TV, logo depois, as vi imagens da tragédia com um avião. A confirmação de que Eduardo Campos estava a bordo junto com assessores me fez pensar na vida e na força do acaso.  Havia acompanhado a entrevista dele no Jornal Nacional e tinha ficado com uma boa impressão. Me pareceu uma boa pessoa, que respondia com simpatia e convicção sobre temas delicados. Mostrava-se preparado para a disputa e seguro de que a sua votação subiria durante os dois meses de campanha.

As imagens do lugar do acidente, as declarações dos bombeiros e de moradores não deixavam dúvida sobre as dimensões da tragédia. Todos estavam estupefatos, ninguém tinha explicações. Passei horas assistindo as mesmas cenas, sempre tentando encontrar alguma coisa reveladora, alguma informação que ajudasse a entender as causas da queda daquele avião de última geração. Possivelmente um urubu teria entrados na turbina ou um desses pequenos drones que estão voando por aí.

Declarações de cansaço publicadas na internet fizeram pensar em falha humana, em desorientação e tudo o mais. Vi uma senhora magrinha, com sotaque de portuguesa, dizendo ter visto o avião vindo dos céus, pegando fogo. Ela me pareceu uma pessoa confiável. Vi um senhor dizer que uma das turbinas estava em chamas. Declarações oficiais quebraram as expectativas de muita gente: os diálogos entre os pilotos durante aquele curto voo entre o Rio de Janeiro e Santos não haviam sido gravados, por razões desconhecidas. Ouvi, também, suspeitas de sabotagem. Técnicos do fabricante do avião chegaram de longe para acompanhar o trabalho de perícia. Fiquei com a impressão de que jamais saberei alguma coisa sobre as causas do acidente.

De uma coisa ninguém duvida: o acidente mudou completamente o ambiente político do país e deve ter desdobramentos relevantes nas eleições presidenciais. Os resultados de pesquisas de opinião divulgados no começo desta semana já mostram os primeiros impactos sobre o que se mostrava líquido e certo, e deixando os analistas políticos estão em polvorosa. A impressão que tenho é a de que a morte de Eduardo Campos pode criar um ambiente propício ao surgimento de uma liderança, de um estadista capaz de alterar radicalmente o rumo das coisas. A indignação que invadiu as ruas no ano passado ainda está presente na alma de muitos brasileiros insatisfeitos e desgostosos, passível de ser mobilizada. Não sei se Marina seria capaz de cumprir o papel de catalizadora das expectativas da maioria dos eleitores nessas eleições e, caso seja eleita, se teria capacidade para transformar descrença em disposição para melhorar o país.

Nesse processo de dores e incertezas, pude conhecer a figura de Dona Renata, uma mulher que transmite firme disposição para enfrentar dificuldades que surgem. No velório, ela abraçava os filhos com muito carinho e serenidade, demonstrando que os quer ao seu lado, de pé e olhando pra frente, porque a vida segue. Bem sei que, hoje em dia, poucas mulheres se aventuram a ter cinco filhos e a deixar à mostra seus cabelos grisalhos. Disseram que era uma atenta conselheira do marido. Acho que foi por essas e outras que muita gente chegou a sonhar em vê-la ao lado de Marina Silva, disputando as eleições. Duas mulheres de personalidade forte, de origens e religiões diferentes, metidas na política até os últimos fios de cabelo, cada qual a seu modo. Uma chapa liderada por uma guerreira destemida segundada pela mãe dos muitos órfãos de Eduardo Campos.

Vitória, 20 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Normalidade aparente

Normalidade aparente

Passei os olhos no jornal de segunda-feira em busca de novidades. As notícias de crimes eram as de sempre, variando apenas a quantidade de tiros e de facadas, a idade do morto, a relação com o assassino e o local do acontecido. Quanto aos acidentes nas estradas, os registros eram parecidos com os de edições anteriores: as variações ficaram por conta do tipo de veículo, quantidade de feridos e vítimas fatais, os motivos da viagem, se o motorista estava embriagado ou se perdeu o controle da direção, se a batida foi frontal ou se o carro saiu da pista e caiu na ribanceira.

No lado dos esportes, livre das imposições da Copa, o noticiário mostra que as competições vão se realizando normalmente. Ganha destaque o sucesso do meu Fluminense, que encosta no líder do Brasileirão em ótimas condições para chegar na frente. Melhor do que isso, reafirma que o Flamengo volta a segurar a lanterna com firmeza e convicção. No canto da página, a notícia sobre o sucesso das nossas meninas do vôlei lá na Itália. Elas aparecem rindo e abraçadas, de olho na lente da câmera, como que querendo compartilhar a alegria com os parentes e os amores que deixaram por aqui. No fim de semana assisti duas partidas pela TV e posso afirmar que, alem de bonitas, elas formam um time coeso de atletas danadinhas, aguerridas e determinadas. Não vi ninguém chorando de medo.

No campo da política, encerrado o período de troca-troca e das negociações de apoios, já aparecem as tradicionais imagens de candidatos em feiras-livres abraçando feirantes e fregueses e as de políticos de braços para cima, de mãos dadas, sorrindo para os fotógrafos em reuniões nas cidades do interior. Embora as matérias tentem destacar os chamados diferenciais de cada candidatos, um fato chama atenção: a preferência que eles têm pelo azul. Não sei se o leitor já reparou, mas a maioria dos políticos veste camisa azul quando em campanha. Muito provavelmente para sair bem na foto. Imagino que tal preferência encontre fundamento na psicologia dos eleitores desconfiados. Algum marqueteiro famoso deve ter estudado o assunto e concluído que o azul claro tem o poder de criar uma espécie de aura de credibilidade no candidato. Também se pode ver que são muitos os candidatos usando paletó, mas sempre sem gravata. Talvez façam isso na expectativa de passar a mensagem de que são homens sérios e, ao mesmo tempo, descontraídos. Poderosos, porém acessíveis.

Como era de se esperar, o noticiário com denúncias que envolvem candidatos em ascensão e autoridades governamentais engrossa e se renova. Praticamente não fala mais em aeroporto nas terras do candidato de oposição, mas mostra contra-ataques ao pessoal que está querendo ficar mais um tempinho no poder, destacando a nomeação de esposas de companheiros para empregos-fantasma com salários gordos em entidade patronal e retoma o escândalo da compra de refinaria americana pela Petrobras. Desta vez, colocando luz sobre uma encenação deslavada ocorrida na CPI do Senado, na forma de depoimentos previamente combinados de dirigentes da empresa, visando engambelar os resultados da investigação.

Tudo isso me faz antever o que vem vindo nessa campanha eleitoral: o tiroteio será intenso e com chumbo grosso, as denúncias serão frequentes e ardilosas e a gana visceral pelo poder será fator determinante das estratégias e dos comportamentos dos candidatos. Digo isso porque aprendi com a sociologia que os homens se movem por vontade de ganhar e, sobretudo, pelo medo de perder.

Vitória, 05 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Começou a campanha

Começou a campanha

Esse pessoal do marquetingue político não é fácil. Eles já identificaram que denúncias de desvio de verba federal, estadual ou municipal, assim como de compra de apoio nas votações no congresso, nas assembleias e nas câmaras já não produzem impactos significativos nas emoções de eleitores. Sei de muita gente que já nem se interessa mais em conhecer os pormenores dos esquemas de desvio de dinheiro e corrupção em vigor nas diferentes esferas do poder público. Eu mesmo tenho lido essas matérias na diagonal, com curiosidade suficiente para manter a indignação em níveis razoáveis, sem que afetem meu fígado ou façam de mim um homem triste ou raivoso.

Terminada a Copa, curtida a ressaca pelo fracasso da seleção da CBF, definidos os novos dirigentes que terão a incumbência de salvar o que resta do futebol brasileiro, lá veio a primeira declaração de guerra no campo da política nacional. Recebi de um amigo, desses bem roxos, cópia da matéria de capa da Folha de São Paulo deste domingo, estampando o que seria uma grande mutreta acontecida durante a gestão do candidato mineiro a presidente, quando à frente do governo de Minas Gerais. Segundo a reportagem, o que era uma pista de pouso em uma fazenda de parentes seus foi transformada, com dinheiro público, em um pequeno aeroporto. Mais do que tudo, o que chamou a minha atenção foi a fotografia de uma porteira fechada com corrente. A carga simbólica daquela imagem ajudava a engrossar a denúncia: a chave do cadeado ficava em poder dos donos da fazenda, que controlariam o uso da pista de pouso e de instalações que haviam sido construídas com verbas governamentais.

Sou forçado a acreditar que os conteúdos só agora divulgados pela imprensa tenham sido preparados com boa antecedência e que permaneciam guardados a sete chaves em alguma gaveta poderosa, em função do seu potencial de produzir estrago na imagem do candidato opositor. Afinal, sendo informações relativamente atemporais, são passíveis de serem utilizadas em momentos convenientes, rigorosamente agendados pelas equipes de campanha. Valores, projetos, contratos com empreiteiras, destinações para campanha do candidato e tudo o mais deveria ser mostrado, mas o que mereceria ser bem destacado era o controle da chave do bendito cadeado. Isso, sim, teria algum poder de indignar a alma de eleitores, a ponto de afetar sua convicção e redirecionar seu voto. Nesta segunda feira, matéria no Jornal Nacional da TV Globo repercutindo o assunto deve ter feito muita gente esmurrar o ar, dar pulinhos de alegria, babar de felicidade. Considerando isso, pode-se aferir a precisão do uso político de um material coletado para produzir a denúncia e declarar aberta a temporada de caça aos votos dos eleitores no país da Copa das Copas, da seleção que perdeu tão feio as últimas duas partidas do mundial.

Confesso que não consigo estabelecer hierarquia ou relação direta entre o acontecido em terras mineiras e a indicação de Dunga como o novo técnico da seleção da CBF. Já tem gente dizendo que ele foi escolhido a dedo, como parte de estratégia para blindar o pessoal que o nomeou, agora sem qualquer credibilidade após o fiasco futebolístico. É bem provável que o pessoal de marquetingue da CBF tenha proposto o perfil de um ferrenho guardião de meio de campo para tal função, desses que dão muita canelada e chute abaixo da cintura. Como se sabe, Dunga é do tipo que não leva desaforo pra casa, mas vi na internet que ele tem rejeição de quase 80%. Devo dizer que implico com o penteado milimétrico do presidente da entidade.

Vitória, 22 de julho de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Entrando no clima

Entrando no clima

Custou, mas finalmente a bola está rolando pelo Brasil afora em estádios repletos de gente colorida e animada. O ambiente no país é de pouco trabalho e muitas expectativas. Tenho a impressão de que as vaias e os xingamentos na abertura foram suficientes para definir posições, demarcar territórios e desatar a vontade de torcer pelo que é nosso, por princípio e direito. A festa está em andamento e parece que não tem hora para acabar por conta de uma simples derrota. O melhor é fazer corpo mole, dar uma de malandro e virar um torcedor multinacional, desses que torcem pelo Brasil e por outras seleções ao mesmo tempo. Eu mesmo já escolhi Costa Rica, Gana, Chile e Uruguai e declaro a minha má vontade com as seleções de Portugal, Espanha, Argentina e Itália. Por mim, Coreia do Sul, Rússia e Bósnia nem precisariam ter vindo.

Nesse últimos dias assisti muitas partidas. Quase sempre equilibradas e disputadíssimas. Imagino que para muitos semi-informados como eu, alguns dos resultados foram bem surpreendentes, inimagináveis talvez. Pelo que vejo, fama, tradição e prepotência não estão ganhando jogo. Dentro de campo, imperam profissionalismo e dedicação ao coletivo. Jogadores com preparo físico de fazer inveja disputam a bola, armam jogadas e se posicionam em campo de olho no reconhecimento de empresários atentos no mundo inteiro. Tenho visto poucas pancadas violentas nas canelas e, sobretudo, nos calcanhares, por trás. Imagino que por pressão dos donos da festa os jogadores têm evitado apelar para faltas violentas e maldosas, como aconteceu a rodo na Copa da Inglaterra em 1966, quando quase acabaram com o nosso ataque inteiro. Os entendidos em futebol estão entusiasmados com o padrão de jogo apresentado pelas seleções das américas e dos países africanos. Muitos de seus craques jogam na Europa, onde os negócios futebolísticos movimentam fortunas.

Na segunda feira ganhamos de Camarões por placar folgado, mas é bom lembrar que por um breve momento, durante o segundo tempo, os locutores demonstraram receio do Brasil ser matematicamente desclassificado, em função do resultado do outro jogo da chave, que corria em paralelo. Passado o susto, a nossa seleção deu mostras de bom futebol e de alegria contagiante, a ponto de fazer acreditar que poderemos ganhar a Copa. Neymar jogou com vontade e Fred voltou a fazer gol, para a felicidade geral. Oscar, Hulk e mais uns poucos bateram cabeça e devem sair do time nas próximas partidas. Noto que esta frase anterior, escrita de forma inteiramente espontânea, já saiu impregnada de opiniões próprias de quem entende do assunto e, mais do que isso, carregada de um certo otimismo. E acho que é justamente aqui que mora o perigo. Digo isso porque, embora favorecidos por uma das chaves mais fracas, começamos a disputa bem temerosos, sem muita fé no taco, como se diz.

A cada dia aparecem mais e mais vendedores de bandeiras e camisetas nas esquinas. Muita gente já se animou em colocar bandeirinhas nos carros, uma declaração pública de confiança no time. Mas há quem diga que a competição começa mesmo é agora e que os três primeiros jogos só serviram de aquecimento. Daqui pra frente, em regime de mata-mata, só vamos enfrentar equipes com disposição e com boas condições de disputar as semifinais. Demos sorte: a primeira pedreira será a seleção do Chile, em jogo que pode ter prorrogação e até disputa nos penaltis. Sou da turma que acha que teria sido bem pior se tivéssemos que enfrentar a Holanda de Robben, adversário para uma final sensacional.

Vitória, 25 de junho de 2014.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carneiro medieval

Carneiro medieval

Pela primeira vez, fui ver de perto o festival de jazz (e de comida e bebida) de Santa Teresa, do qual já tinha ótimas referências dadas por parentes e amigos. Em carro lotado, depois de pagar pedágio na BR 101, subimos a serra em rodovia estadual novinha, perfeitamente sinalizada. Difícil imaginar que pudesse ser algo tão bom e tão bem organizado. O que o olho não vê, o coração não sente e a alma não aproveita.

Os shows aconteceram em palco baixo e de bom tamanho, armado na ponta de uma grande área coberta, com cadeira para quem quisesse. Pude ouvir Wagner Tiso com a nossa Sinfônica, a banda de Saulinho Simonassi, a lenda do blues Bryan Lee e o frances Jean Luc Ponty, que não conhecia.

Mas, pra mim, Raul de Souza foi o dono da noite, o senhor dos espetáculos. Antes de começar, com voz já meio fraca, ele avisou que completará oitenta anos em breve e que sopra trombones de vara e de válvula há mais de sessenta. E como toca! Seu som está ainda mais requintado, sutil e melodioso. Conheci Raulzinho no Sexteto Bossa Rio. Gostei tanto que tive vontade de tocar trombone, mas nem cheguei a tentar, por difícil que é. Mal, mal, consegui tirar no violão um trecho do Samba de uma Nota Só e a introdução de Chove Chuva, o que não é lá muita coisa.

Os festivais de Santa Teresa e de Manguinhos renovam os festivais de jazz que aconteceram no Teatro Carlos Gomes, em Vitória, nos idos dos anos oitenta e noventa, sob as batutas de meu irmão Afonso e do saudoso Marien Calixte e os shows no Ginásio da UFES: o jazz melodioso de Dave Brubeck, a música inovadora de Astor Piazzola, o som arrojado do baterista Art Blackey e a bela voz de Sarah Vaughan. Imagino que também façam lembrar emoções vividas no Circo da Cultura ao som de Hermeto Pascoal e Paulo Moura.

Desses dias na montanha só lamento não ter comido um tal Carneiro Medieval que alguém recomendou com força. O nome do prato é provocador dos sentidos e desafiador da imaginação. Ele nos remete a tempos longínquos, quando as pessoas comiam o que houvesse nas imediações, preparado sem grandes requintes em panelas enormes no fogão a lenha ou no calor de uma fogueira. Digo que cheguei a me imaginar sentado em uma grande mesa, ao lado de barbudos barulhentos, atracados em paletas de carneiro assado, como se vê nos filmes de época. Por conta de uma espécie de gula histórica abandonamos a animação de uma rua cheia de gente falante, que bebia vinho e cerveja e comia linguiça frita com polenta.

Deu trabalho encontrar o lugar onde servem o tal carneiro. Uma pousada fora dos limites urbanos, onde se chega por uma estradinha de terra batida, após rodar por uns tantos quilômetros no asfalto. Lá, um rapaz nos disse que a cozinha havia sido transferida para o Parque de Exposição, onde acontecia o festival, para um dos doze restaurantes instalados para atender os visitantes famintos e os que preferissem ficar conversando com amigos que há muito não viam. No parque, fomos informados pelo chef que, Carneiro Medieval, só mesmo em outra oportunidade e sob demanda. Para tentar compensar, ele sugeriu costelinha de porco confitada na banha, acompanhada de massa caseira.

O fato é que descemos a serra extremamente satisfeitos com o programa, rindo do que nos pareceu ser um poderoso marketing culinário, capaz de provocar água na boca de  turistas gulosos, sem a ajuda de imagem, cheiros e sabores. Sem, ao menos, oferecer informações sobre os temperos e o modo de preparar um carneiro à moda antiga. Qualquer hora dessas voltarei lá pra resolver esse mistério.

Vitória, 11 de junho de 2014

Alvaro Abreu

Escrito para A GAZETA

Sem choro nem vela

Sem choro nem vela

A Copa está chegando e ainda não vejo entusiasmo nas pessoas nem gente correndo pra comprar aparelhos de TV. Sei de um único casal que comprou ingressos para ver uma dessas partidas mixurucas e de gente querendo completar seus álbuns de figurinhas, alguns de capa dura, de fazer inveja. Dizem que essa brincadeira movimentará uns dois bilhões de dólares mundo a fora.

Nas ruas, volta e meia, vejo comboios de radiopatrulhas e motocicletas federais se preparando para garantir segurança e proporcionar trânsito livre ao pessoal da Austrália e de Camarões que se hospedarão aqui. Uma movimentação propositadamente barulhenta, que me fez lembrar um representante do Ministério da Educação que só circulava pelas ruas de Recife em carro oficial dotado de sirene, dessas bem histéricas. Era um senhor sem qualquer competência educacional, mas com prestígio junto aos militares dos anos de chumbo. Embora os tempos sejam outros, imagino que o tal aparato policial vai querer furar sinais e pretender passar na frente de cidadãos já irritados com a lentidão do trânsito. Não será uma cena simpática nem inspiradora de bons modos.

Tenho boas lembranças da Copa de 58. Adultos e crianças em volta de um enorme rádio de madeira na sala de visitas da nossa casa, lá em Cachoeiro. A família havia se mudado recentemente para Vitória e papai resolveu nos levar para matar as saudades da terrinha. Lembro dos muitos gols que fizemos, mas não me recordo de comemorações na rua. Da nossa conquista no Chile, em 62, só me recordo das aflições pela contusão de Pelé. Apesar do clima de “ame ou deixe-o”, a Copa de 70 foi de emoções num crescendo até a vitória. Armamos uma espécie de arquibancada para uns vinte torcedores na garagem da casa de amigos da nossa rua. A televisão, colocada bem no alto, mostrava pela primeira vez imagens coloridas de futebol e um potente rádio Transglobe garantia vibrações complementares, nas vozes dos locutores de sempre. Mas, justamente no dia da grande decisão, mamãe pediu para levá-la a Cachoeiro, para o enterro de um parente. Na volta, com o rádio ligado, mas de pouca serventia, vim acelerando forte numa estrada totalmente vazia. O jogo já estava quase terminando quando estacionei o carro na Praça Costa Pereira e fomos festejar a conquista na frente do Britz Bar. Era um pequeno mar de gente animada e feliz entoando sem parar o grito de guerra “araruta, araruta, hei, hei, filho da puta”, que oficializou a liberação do palavrão na vida da classe média brasileira.

Na Copa de 86, um amigo meu sentiu enorme tristeza com a desclassificação do Brasil e  chorou que nem criança. Embora tivesse uma forte resistência ideológica em relação ao futebol, ele foi se entusiasmando com a sequência das vitórias até conhecer, na prática, a dor de um torcedor de verdade ao ver seu time perder uma partida decisiva. Das derrotas mais recentes, tenho duas raivas específicas: a do lateral esquerdo arrumando o meião na cabeça da área durante lance fatídico e a do nosso goleiro mais queixudo, que engoliu um frango mortal. Ainda tenho dó da fera italiana que perdeu o pênalti que nos deu o título de 94 em gramados americanos, mas não guardo sequer uma cena da conquista da Copa de 2002 lá no Japão.

Sou dos que acreditam no sucesso da equipe de Felipão, mas hoje acordei me perguntando o que acontecerá caso ela seja eliminada ainda na fase de classificação. E se ela conseguir chegar na final e perder na prorrogação, como o Atlético de Madrid? Será que o país inteiro ficará em silêncio como em 1950?

Vitória, 27 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carestia

Carestia

Comecei o dia diante da falta de assunto para esta crônica. Passara os últimos dois dias procurando um qualquer, sem conseguir me desvencilhar do meu espanto com o preço da pizza que comemos na quinta feira passada, em uma pizzaria bem modesta que frequento há mais de vinte anos e onde se pode comer uma marguerita honesta. Trata-se de uma espécie rara de fidelidade, praticada sem ao menos receber sorrisos e gentilezas dos proprietários. Vigora um acordo tácito em favor da convivência respeitosa entre as partes, depois de um banzé que o nosso pessoal criou por uma longuíssima espera. Era uma mesa cheia de filhos e sobrinhos comemorando um aniversário de adolescente em fase de crescimento. A coisa ficou preta depois de constatarmos que um exército de motoboys operava em ritmo frenético para atender, com prioridade absoluta, os clientes que pediam pizza por telefone. É bom que se diga que a nossa revolta acabou ganhando a adesão dos demais fregueses famintos e, até então, bem comportados.

Desta vez, o lugar estava completamente vazio. As três atendentes fizeram o possível para nos agradar, mas não houve como manter a simpatia depois que a conta de mais de setenta e cinco reais nos foi apresentada. O preço da sobremesa, um tal pudim de sorvete caseiro, ajudava a tornar o valor totalmente descabido.

O assunto altos preços continuava a martelar a minha cabeça e ganhou ainda mais destaque quando fui comprar peixe ali na Praia do Suá para nosso almoço de um dia das mães atípico. Cação vendido a mais de vinte reais o quilo e camarão rosa oferecido, com algum constrangimento, por setenta e tantos reais. Para não perder a viagem, escolhi um realito fresquinho e três camarões graúdos, um para cada uma das nossas poucas bocas. Confesso que fiz isso me sentindo na Europa, onde se compra banana e laranja em unidades. Já não havia coentro nas bancas e o saquinho de tomates estava pela hora a morte. As peixarias já estavam às moscas, talvez pelo adiantado da hora ou, quem sabe, pela reação dos compradores. Em quase todas elas os freezers estavam cheios de peixes de boa idade, desses que têm as guelras bem escuras e os olhos sem qualquer brilho. É bem provável que seriam cortados em postas e filés na tentativa de esconder as marcas do tempo.

Na volta pra casa, encontramos nosso compadre, também um “sem mãe por perto”, e tratamos de convidá-lo para almoçar conosco. Morrendo de rir, contamos o que havíamos comprado e dissemos que, caso ele aceitasse o nosso convite, seria recomendável que comprasse o seu próprio camarão VG.

Ao passar as vistas nos jornais de hoje, ainda em busca de assunto, vi que a presidente da Petrobras está defendendo uma correção nos preços dos combustíveis, uma condição para que a empresa pare de acumular prejuízos. Os preços defasados da gasolina e do óleo diesel, somados a um conjunto de operações duvidosas e de investimentos malucos, jogaram o valor das ações da petroleira lá pra baixo. Sou obrigado a concordar com ela, embora saiba que tal reajuste terá impacto direto sobre os preços, inclusive das pizzas e dos camarões. Isso, sem falar das consequências do aumento da conta de energia elétrica que estão anunciando por aí, que poderá passar dos trinta por cento. Aqui, especialistas e, sobretudo, lobistas, argumentam que se trata de providência indispensável para salvar as empresas distribuidoras de energia, vitimadas que foram por ações e políticas governamentais, no mínimo, imprudentes, também implantadas de olho nas eleições.

Vitória, 13 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA