Entrando no clima

Entrando no clima

Custou, mas finalmente a bola está rolando pelo Brasil afora em estádios repletos de gente colorida e animada. O ambiente no país é de pouco trabalho e muitas expectativas. Tenho a impressão de que as vaias e os xingamentos na abertura foram suficientes para definir posições, demarcar territórios e desatar a vontade de torcer pelo que é nosso, por princípio e direito. A festa está em andamento e parece que não tem hora para acabar por conta de uma simples derrota. O melhor é fazer corpo mole, dar uma de malandro e virar um torcedor multinacional, desses que torcem pelo Brasil e por outras seleções ao mesmo tempo. Eu mesmo já escolhi Costa Rica, Gana, Chile e Uruguai e declaro a minha má vontade com as seleções de Portugal, Espanha, Argentina e Itália. Por mim, Coreia do Sul, Rússia e Bósnia nem precisariam ter vindo.

Nesse últimos dias assisti muitas partidas. Quase sempre equilibradas e disputadíssimas. Imagino que para muitos semi-informados como eu, alguns dos resultados foram bem surpreendentes, inimagináveis talvez. Pelo que vejo, fama, tradição e prepotência não estão ganhando jogo. Dentro de campo, imperam profissionalismo e dedicação ao coletivo. Jogadores com preparo físico de fazer inveja disputam a bola, armam jogadas e se posicionam em campo de olho no reconhecimento de empresários atentos no mundo inteiro. Tenho visto poucas pancadas violentas nas canelas e, sobretudo, nos calcanhares, por trás. Imagino que por pressão dos donos da festa os jogadores têm evitado apelar para faltas violentas e maldosas, como aconteceu a rodo na Copa da Inglaterra em 1966, quando quase acabaram com o nosso ataque inteiro. Os entendidos em futebol estão entusiasmados com o padrão de jogo apresentado pelas seleções das américas e dos países africanos. Muitos de seus craques jogam na Europa, onde os negócios futebolísticos movimentam fortunas.

Na segunda feira ganhamos de Camarões por placar folgado, mas é bom lembrar que por um breve momento, durante o segundo tempo, os locutores demonstraram receio do Brasil ser matematicamente desclassificado, em função do resultado do outro jogo da chave, que corria em paralelo. Passado o susto, a nossa seleção deu mostras de bom futebol e de alegria contagiante, a ponto de fazer acreditar que poderemos ganhar a Copa. Neymar jogou com vontade e Fred voltou a fazer gol, para a felicidade geral. Oscar, Hulk e mais uns poucos bateram cabeça e devem sair do time nas próximas partidas. Noto que esta frase anterior, escrita de forma inteiramente espontânea, já saiu impregnada de opiniões próprias de quem entende do assunto e, mais do que isso, carregada de um certo otimismo. E acho que é justamente aqui que mora o perigo. Digo isso porque, embora favorecidos por uma das chaves mais fracas, começamos a disputa bem temerosos, sem muita fé no taco, como se diz.

A cada dia aparecem mais e mais vendedores de bandeiras e camisetas nas esquinas. Muita gente já se animou em colocar bandeirinhas nos carros, uma declaração pública de confiança no time. Mas há quem diga que a competição começa mesmo é agora e que os três primeiros jogos só serviram de aquecimento. Daqui pra frente, em regime de mata-mata, só vamos enfrentar equipes com disposição e com boas condições de disputar as semifinais. Demos sorte: a primeira pedreira será a seleção do Chile, em jogo que pode ter prorrogação e até disputa nos penaltis. Sou da turma que acha que teria sido bem pior se tivéssemos que enfrentar a Holanda de Robben, adversário para uma final sensacional.

Vitória, 25 de junho de 2014.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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