A produção de um livro com crônicas selecionadas começou com a leitura, por alto, das que foram publicadas entre 2009 e 2019, servicinho maneiro que deverá estar finalizado nos próximos dias. Continue lendo “Presente inesperado”
Livro de crônicas
Estou pensando em soltar um livro com crônicas que andei escrevendo nesses últimos anos para serem publicadas em A Gazeta, aqui de Vitória. Percebo que essa vontade é a mesma que muita gente que escreve já deve ter sentido: uma mistura da falta do que fazer e, sobretudo, de vontade de se fazer presente e lembrado. Para disfarçar, posso dizer que a tal publicação seria também de alguma utilidade para pessoas queridas, muitas delas leitoras assíduas do que escrevo. Continue lendo “Livro de crônicas”
Viva o ciático
No final de novembro fui, com Carol, aos Açores, a convite de uma pessoa muito especial, que entrou na minha vida pela internet, há mais de 20 anos. Fomos levando umas 90 colheres para serem expostas ao lado de pinturas dela e de outros convidados. Na volta, passamos uns poucos dias em Porto e fomos conhecer Braga, terra natal dos meus antepassados portugueses. Continue lendo “Viva o ciático”
Viva Natal
Nosso liquidificador parou de funcionar, impossibilitando alguns serviços básicos na cozinha, incluindo fazer suco de maracujá e bater receitas de pudim. Emperrou completamente, talvez por falta de uso e ação da maresia trazida pelo vento nordeste. Continue lendo “Viva Natal”
Banquete tropical
Fui chamado para fazer um cozido para comemorar os 45 anos de Daniel, meu sobrinho, filho de Ana Maria e Astrogildo, meus queridos Nena e Neném. Continue lendo “Banquete tropical”
Indo e voltando
Indo e voltando
Na semana retrasada fui a Cachoeiro com Carol. Fazia tempo que não ia na terrinha, como se diz. Saímos cedinho pra garantir que não chegaríamos atrasados no compromisso.
Fomos pela Rodovia do Sol, sem enfrentar os engarrafamentos constantes na região de Itapuã, quase sempre provocados pela completa falta de sincronização dos sinais de trânsito. Dá raiva ficar parado em cada cruzamento, vendo que não passa carro algum indo pra praia ou dela voltando.
Confesso que fiquei animado com as várias frentes de obras de duplicação da BR 101, uma movimentação que nunca tinha visto. Minha impressão é que, até então, a concessionária usava apenas os dinheiros arrecadados com os pedágios, sem investir um tostão de recursos próprios.
Mais animado ainda, fiquei com as obras da estradinha que vai da BR até o bairro Coronel Borges, um lugar rio Itapemirim abaixo, ao qual Vovó Neném se referia como sendo o “Borges”, sem a patente, argumentando que sempre dançava com ele quando vinha da fazenda do Frade pra passear na cidade.
O sistema “Pare-Siga” estava em vigor, nos fazendo supor que poderíamos perder a hora. Cachoeirense convicto, quero crer que São Pedro, padroeiro da cidade, tenha intercedido a nosso favor e deu tudo certo.
Voltando pela estrada da Safra, inventei de oferecer pra “minha senhora” uma moqueca de badejo num restaurante antigo em Ubu. Aumentaria a viagem em uns 40km, mas valeria a pena.
Aprendi que a expectativa pode, mesmo, prejudicar a experiência. E foi no que deu. Levamos um baita susto com os preços exorbitantes. É bem verdade que voltamos pra estrada de barriga cheia, mas com a sensação de turista mineiro arrependido.
Preferimos passar por dentro de Guarapari, o que eu não fazia há um bom tempo. O trânsito pesado, os prédios altíssimos, muita gente na rua, me fizeram pensar que a economia do lugar está girando com força.
Confesso que ao passar na ponte, agora duplicada, bateu uma certa nostalgia. Na segunda metade dos anos 1960, a gente ia lá num fusca, sempre lotado, para aproveitar a animação da boate Caparaó, no começo da Praia das Castanheiras. O bailarino Lennie Dale, o cantor Altemar Dutra, o pianista Antônio Adolfo e tantos outros alegravam as noitadas.
A fama de Guarapari, naquele tempo, foi confirmada quando Maria Teresa Goulart, hospedada na Casa do Governador, em Vila Velha, quis ir conhecer o balneário. Há quem diga que ela chegou lá em companhia de amigas e rodeada de guarda-costas, que teriam distribuído bofetes em alguns engraçadinhos.
Pois, na volta, não tivemos como escapar do engarrafamento em Itapoã. Foi aí que me lembrei de que aquela avenida é, na verdade, um trecho urbano da Rodovia do Sol. Pior: dessa estrada também fazem parte a Terceira Ponte e as avenidas da orla da Praia do Canto e de Camburi.
Em outras palavras, tudo que já engarrafa hoje nos horários de pico, poderá se transformar em algo desesperador para quem anda de carro e de ônibus, sobretudo se continuarem a construir prédios de dezenas de andares e a vender carros novos de montão.
Pra acabar de danar esse cenário, a invasão das calçadas da orla por aquelas bicicletas motorizadas de pneus grossos poderá gerar muitas chateações aos pedestres que as utilizam por necessidade, por esporte ou pelo simples prazer de andar sozinho ou bem acompanhado.
Vitória, 30 de outubro de 2025
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
Viagem a São Paulo
Viagem a São Paulo
Quem tem muitos filhos e muitos netos morando longe tem bons motivos pra viajar. Neste final de setembro fomos a São Paulo para os aniversários de Bebel, minha filha do meio, e o do meu neto Antônio, conhecido por TomTom, dono de chutes poderosos e certeiros.
Esperando a hora do embarque, confirmei mais uma vez que não vejo nenhum conhecido entre os passageiros que desembarcam e os que vão embarcar. Até poucos anos atrás, o saguão do aeroporto era ponto de reencontros, comuns nas cidades pequenas. Vitória já está com jeito de metrópole.
Gosto de viajar ao lado da janela pra ir vendo o mundo do alto. Pois desta vez, nada pude ver, pois o avião navegou, de ponta a ponta, em meio a uma camada de nuvem que estimei ter mais de uns 4 mil metros de espessura, o que eu jamais havia visto.
A bordo, senti uma pequena fisgada na garganta, anunciando a chegada de uma gripe, embora tivesse me vacinado no começo do mês. Pra encurtar a conversa, passei 3 dias de molho, debaixo de cobertas, com nariz escorrendo e tossindo bastante. Perdi as comemorações da filha e fui um avô borocochô nos festejos do moleque, ao lado de 30 crianças barulhentas e 20 adultos animados.
Na terça, cedinho, tomamos o caminho de casa. Viemos trazendo duas malas cheias de livros da Bebel Books para serem oferecidos na primeira edição da FLIC – Festa Literária Internacional Capixaba, em meados de outubro.
Animadíssima, Bebel vai trazer os primeiros exemplares do cordel que escreveu e ilustrou com xilogravuras, sobre uma viagem a Belém. Manaira, por sua vez, orgulhosa que só, deverá trazer, no colo, exemplares de uma simpática publicação, que está editando, com versos e desenhos que Carol fez para homenagear as Paneleiras de Goiabeiras.
Como nem tudo são flores, passei um perrengue ao enfrentar o serviço de segurança do aeroporto, como muita gente já deve ter passado. A revista dos passageiros, que começou com um processo bem básico, com a ajuda de um detector manual de metais, vem sendo ampliada e sofisticada a cada tempo.
Confesso que tenho implicância antiga com aquele aparato na forma de esteira, caixas, conferência eletrônica de malas, bolsas, bagagens, roupas e acessórios. Funcionários formais e educados orientam os passageiros a se livrarem de tudo o que não seja a roupa do corpo, incluindo toda e qualquer espécie de casaco, inclusive chapéu panamá.
Já presenciei senhoras tendo que tirar sandálias dotadas de fivelinhas e adereços para conseguir atravessar o detector que apita e acende, constrangendo muita gente. Já vi de um tudo, como se diz, nesses ambientes.
As pessoas com próteses, marcapassos e afins são criaturas suspeitas por excelência e são obrigadas a se submeter aos rigores das normas e das leis que foram criadas após o 11 de setembro. Sempre sob grandes constrangimentos, inclusive dos funcionários.
Pois desta vez, ainda que totalmente livre de tudo que carrego nos bolsos e na minha velha pochete de guerra, fui selecionado por critério, possivelmente impessoal, a me submeter a uma revista completa.
Obediente, mas achando ridículo e sob protestos, fui orientado por um funcionário gordinho a tirar meu velho sapato de couro e sola de borracha, a não tocar nos meus objetos sobre a esteira e a pisar em cima de duas marcas no chão, me obrigando a ficar com as pernas afastadas.
Sob o olhar de muitos e sempre protestando, acompanhei o funcionário calçando luvas de plástico, lentamente, talvez pra expressar algum tipo de cuidado e de poder misterioso. Em seguida, sempre reclamando e olhando nos olhos do opositor, fui recebendo instruções, do tipo: abra os braços, vire de lado, levante uma perna, agora a outra, e assim por diante.
Aí começou a parte mais incômoda do processo: o rapaz resolveu passar as suas mãos nas partes tocáveis do meu corpo. Perguntei se ele estava gostando, mas não tive resposta.
Em seguida, para não deixar qualquer dúvida de sua suspeição profissional sobre a minha pessoa, recebi ordens de levantar as bocas da calça para que minhas canelas fossem revistadas.
Como se não bastasse, o poderoso gordinho, sempre ouvindo minhas educadas intempéries, pediu delicada e firmemente que eu apoiasse as mãos no balcão e dobrasse minhas canelas para trás para que ele pudesse revistar as solas dos meus pés. Achei aquilo ridículo e protestei com convicção.
Saí dali, torcendo para que o tal revistador tenha aceito as minhas considerações e tenha resolvido começar a procurar uma outra ocupação menos constrangedora de pessoas idosas e perfeitamente inocentes.
Vitória, 02 de outubro de 2025
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
Emoções bávaras
Emoções bávaras
Nesta semana recebemos a visita de Carolzinha, amiga nossa que trabalhou um bom tempo com Carol no IPHAN e vive em Munique há vários anos.
Tenho Munique em grande conta. Estive lá duas vezes. Na primeira assisti, pela TV, na casa de um amigo, cenas marcantes da derrubada do muro de Berlim. Em 2002, fui para participar da EXEMPLA, uma fantástica exposição internacional organizada anualmente por uma instituição de formação profissional que tem como norte a excelência do trabalho manual.
O tema da edição daquele ano era a madeira e seus mais diversos usos, incluindo a produção de barcos, móveis, instrumentos musicais, utensílios, brinquedos, estruturas, telhados, portas, janelas, escadas, pontes, cachimbos, potes, toneis, cestaria, tamancos, barris e, também, colheres de bambu. Foi uma experiência incomum, com acontecimentos e desdobramentos inimagináveis.
Pelo que sei, fui convidado a participar da exposição pelo seu organizador, Peter Nickl, depois ver as fotos das minhas colheres, que nossa amiga pintora Heidi Liebermann me pediu que fizesse para levar pra Hamburgo, na Alemanha, onde mora. Realizador entusiasmado e atencioso, Peter nos recebeu para um jantar em sua casa, acompanhado de sua gentil esposa Binette Schroeder, artista ilustradora. Foi dele a ideia de usar, na capa do catálogo da exposição, a foto de um pote de bambu, que eu havia relutado em enviar.
Dentre milhares de pessoas que visitaram o estande aberto, duas foram determinantes para importantes desdobramentos: Corinna Rösner, curadora chefe do Museu de Design de Munique e Hans Hansen, renomado fotógrafo alemão, que vive em Hamburgo.
Corinna e o diretor do museu se encantaram com uma placa que Carol havia criado com 52 colheres delicadas, fixada na parede do estande. Disseram que tinham a intenção de adquiri-la para colocá-las ao lado da coleção de joias na nova sede do museu.
Por não misturar dinheiro com colheres, as negociações resultaram na ida de Bebel, nossa filha, arquiteta recém-formada, para estagiar por um ano no museu. Corinna esteve aqui em Vitória por duas vezes, tendo visitado a exposição das colheres no Museu Vale. Tempos depois, estivemos juntos no Museu de Design em Winterthur, na Suíça, em meio a colheres e fotos.
Por obra e graça de anjos da guarda e a ajuda de nossa filha Manaira, Hans Hansen, que estava expondo suas fotos em Munique, também se encantou com as colheres: para comemorar seus 50 anos de carreira, 10 anos depois, escolheu fazer um belíssimo livro com 20 fotografias delas. Fez isso com o apoio da designer Annette Kröger, que se tornou amiga de Bebel.
Pois foram muitas as lembranças de acontecimentos e emoções associadas a Peter, Corinna e Annette que voltaram à tona nas horas de conversas com Carolzinha e, mais ainda, durante o tempo em que passei fazendo colheres para ela levar e entregar pessoalmente a cada um.
Posso garantir que caprichei na escolha dos bambus que trouxe de Brasília e no uso das ferramentas suecas que Peter me mandou de presente. Fiz o meu melhor, como se diz por aí, na expectativa de retribuir um pouco do que eles vêm me proporcionando há mais de duas décadas.
Para Peter, que já deve estar beirando os 80, tratei de fazer uma colher comprida, fininha e flexível, que pode ser usada para coçar as costas, com ótimos resultados.
Para Corinna, que me trouxe pinheirinhos de madeira branca feitos com canivete amoladíssimo, fiz uma bem parruda, de concha larga e cabo de boa pega, própria para comidas mais densas e pesadas.
Para Annette, achei por bem fazer uma de concha ovalada, para diferentes usos. Imagino que ela tenha à vista as 12 colheres pequeninas que fiz para Pierre Mendell, artista gráfico genial, de quem ela era assistente. Com apoio dela, Bebel produziu uma mostra itinerante de seus expressivos cartazes, em diversas capitais brasileiras.
Fomos levar Carolzinha na estação ferroviária para que pegasse o trem pra Belo Horizonte. Entreguei as colheres para nossa portadora, sem dizer que tinha feito uma pra ela também.
Vitória, 04 de setembro de 2025
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
Pinturas e colheres nos Açores
Pinturas e colheres nos Açores
No domingo passado, com a ajuda estratégica do meu genro Nélio, compramos as passagens para a ilha Terceira, nos Açores, onde acontecerá uma exposição de pinturas e de colheres de bambu.
Vou com Carol conhecer os Açores, lugar que está na pauta faz muito tempo. Pra ser exato, desde quando recebi uma mensagem de uma portuguesa recém-formada em veterinária, lá nos idos de 2002. Ela se mostrou interessada em saber mais sobre as colheres de bambu que gosto de fazer.
Percebi, logo no começo da troca de e-mails, que ela tinha visitado o site que meu pessoal havia criado pra mim, onde deve ter encontrado informações que atiçaram sua curiosidade.
Sissi, como gosto de tratá-la, revelou-se uma pessoa extremamente reservada, tanto que sugeriu que tentasse identificá-la numa foto onde estão umas 30 moças alegres, vestidas de roupa de formatura. Achei curioso e tratei de respeitar a sua precaução, tanto que só fui conhecer seu rosto alguns anos depois, numa foto em que ela aparece encostada numa camionete já bem surrada, ao lado de outras pessoas sorridentes.
Ao longo do tempo, fui conhecendo seus gatos, cachorros e galinhas, suas hortas e jardins, além de alguns cômodos da casa. Pode parecer mentira deslavada, mas digo aqui que recebi de presente de aniversário um potinho revestido de uma palha chamada de corriola, repleto de uma geleia feita com frutinhas ácidas que ela colheu nos altos do Pico. Como não bastasse, vieram também dois queijos deliciosos, que comi com a maior parcimônia.
O curioso é que só fui conseguir conhecer suas feições, em fotos tiradas ao lado de um casal de amigos velejadores que, por sugestão minha, aportaram nos Açores após atravessarem o Atlântico, uns cinco anos atrás. Em 2024, uma prima de Carol, que viaja pelo mundo com o marido, esteve na casa dela na Ilha Terceira e nos mandou duas fotografias com a anfitriã e seu esposo.
Há uns poucos anos, determinada que só, ela resolveu começar a pintar, tendo recebido meus estímulos na forma de comentários sinceros e favoráveis.
Como era de se esperar, seus quadros foram surgindo em ritmo intenso, sempre com formas instigantes, fundadas em emoções fortes, tiradas do fundo da alma. Todos os que conheço trazem imagens enigmáticas, que produzem estranhamentos que fazem pensar.
Depois de conhecer o livro que escrevi durante a pandemia, sobre fazer colheres de bambu, ela, irrequieta e determinada, resolveu escrever e publicar um livro sobre suas pinturas, seus pensamentos e suas relações com parentes e amigos. Nele, apareço aos leitores como alguém que contribuiu à distância para a evolução do seu trabalho com pincéis e telas, sempre tratado como “meu amigo além-mar”.
Mais do que isso, escreveu que gostaria de fazer uma exposição de seus quadros e das minhas colheres no dia 28 de novembro de 2025, dia em que completará 50 anos de idade. Recentemente ela confirmou o convite e informou que a exposição será realizada no Centro Cultural e de Eventos de Angra do Heroísmo e vai durar 2 meses.
Como a vida vai dando voltas, na segunda-feira passada re-encontramos um casal de vizinhos no estacionamento do supermercado e a nossa ida aos Açores entrou na conversa. A surpresa boa foi saber que ele, Marcos Moulin, está capitaneando um projeto experimental de plantio de diferentes espécies de café capixaba na Ilha Terceira.
Animado com a coincidência, ele contou que atuou durante mais de 20 anos no CETECAF – Centro de Tecnologia do Café – que ajudei a criar naqueles idos de 2002, e ao qual atribuo o grande salto de qualidade dos nossos cafés.
Para aproveitar, vamos conhecer Braga, de onde meu bisavô saiu para vir morar no Brasil e de onde surgiu nosso sobrenome. De quebra, soube que é naquela mesma região que vive a família da Sissi.
Vitória, 21 de agosto de 2025
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
Nós cegos
Nós cegos
Mais uma vez, fomos lá na Vila Rubim comprar ração numa loja pra lá de tradicional de produtos para animais domésticos que cantam, falam, abanam o rabo, se enroscam e se movem lentamente.
Pode ser que alguém ache isso um despropósito, uma perda de tempo. Da minha parte, digo que se trata de uma espécie de viagem ao passado, tamanha a variedade de situações que por lá acontecem.
É lá que também compro vassoura de palha pro quintal, pomada poderosa pra dor muscular, queijo com gosto de curral, bala Itabira de côco queimado, frutas secas a granel, farinha grossa pra fazer farofa, bucha vegetal, cabo de enxada e muito mais.
Na peixaria, gosto de passear diante das bancas repletas de peixes inteiros, limpos e em postas, de camarões do mar e de cativeiro, de sururus do alto e do mangue, polvos fresquinhos, sardinhas e tudo o mais. Comprador fiel de duas bancas faz tempo, vou andando e fazendo caras de interessado, perguntando preços. Ao sair, sempre compro temperos que colorem a calçada do beco em frente. Outro dia comprei uma cana caiana que fez grande sucesso com os netos, que pouco praticam essa atividade de antigamente.
Desta vez, no lugar de enchovas, compramos uma pescada fresquinha, de uns 4 quilos, vinda lá de Marataízes. Enquanto acompanhava Beto tratar o peixe com a competência de sempre, me lembrei de uma foto que funciona como uma espécie de testemunha dos bons tempos.
Nela estão papai, de boina, e Chico, maratimba dos bons que sempre ia com ele pro mar. Com as melhores caras deste mundo, eles sustentam um remo enorme com umas 10 pescadas de uns 5 quilos, que haviam pegado, curricando a uns 200 metros da praia, na direção da Ponta do Siri.
Papai adorava pescar. Exatamente uma semana antes de morrer de apendicite na Santa Casa, na Vila Rubim, fui com ele a Marataízes para pescar nos baixios de pedra em alto mar, que os pescadores experientes localizavam com a ajuda de marcas que faziam, usando as montanhas como referências.
Aquela foi a minha primeira pescaria de fundo e dela guardo imagens de um homem todo prosa com os resultados: duas garoupas gordas, um olho de boi e uns tantos badejos criados.
Também me lembro de papai, agora esbaforido, tentando soltar o nó da linha que apertava meu dedo indicador, depois do arranco que um badejo deu ao se sentir fisgado. Chico havia me ensinado a amarrar a linha no banco do barco e, depois, fazer uma espécie de alça pra que ela pudesse correr, com alguma dificuldade, evitando que o nylon pocasse com um tranco mais forte.
Depois de escrever essas cenas, fui assistir os noticiários da noite e, para meu espanto e tristeza, vi imagens de dezenas de deputados ocupando completamente a área destinada à mesa diretora do plenário da Câmara dos Deputados, a exemplo do que senadores faziam no Senado.
Aos berros e com gestos enérgicos e compassados, aqueles deputados gritavam palavras de ordem, exigindo a aprovação de anistia para quem tenha cometido crimes contra a democracia, previstos na Constituição.
Exaltados e convictos, eles me fizeram lembrar das cenas de aloprados e raivosos se mostrando vitoriosos e vingados ao ocuparem aquele mesmo lugar no dia 08 de janeiro de 2023. Dá pra supor que uns ajudaram a eleger os outros.
Hoje, andando cedo na praia fiquei tentando imaginar quem seria capaz de desatar essa espécie de nó cego.
Vitória, 07 de agosto de 2025
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
