Indo e voltando

Indo e voltando

Na semana retrasada fui a Cachoeiro com Carol. Fazia tempo que não ia na terrinha, como se diz. Saímos cedinho pra garantir que não chegaríamos atrasados no compromisso.

Fomos pela Rodovia do Sol, sem enfrentar os engarrafamentos constantes na região de Itapuã, quase sempre provocados pela completa falta de sincronização dos sinais de trânsito. Dá raiva ficar parado em cada cruzamento, vendo que não passa carro algum indo pra praia ou dela voltando.

Confesso que fiquei animado com as várias frentes de obras de duplicação da BR 101, uma movimentação que nunca tinha visto. Minha impressão é que, até então, a concessionária usava apenas os dinheiros arrecadados com os pedágios, sem investir um tostão de recursos próprios.

Mais animado ainda, fiquei com as obras da estradinha que vai da BR até o bairro Coronel Borges, um lugar rio Itapemirim abaixo, ao qual Vovó Neném se referia como sendo o “Borges”, sem a patente, argumentando que sempre dançava com ele quando vinha da fazenda do Frade pra passear na cidade.

O sistema “Pare-Siga” estava em vigor, nos fazendo supor que poderíamos perder a hora. Cachoeirense convicto, quero crer que São Pedro, padroeiro da cidade, tenha intercedido a nosso favor e deu tudo certo.

Voltando pela estrada da Safra, inventei de oferecer pra “minha senhora” uma moqueca de badejo num restaurante antigo em Ubu. Aumentaria a viagem em uns 40km, mas valeria a pena.

Aprendi que a expectativa pode, mesmo, prejudicar a experiência. E foi no que deu. Levamos um baita susto com os preços exorbitantes. É bem verdade que voltamos pra estrada de barriga cheia, mas com a sensação de turista mineiro arrependido.

Preferimos passar por dentro de Guarapari, o que eu não fazia há um bom tempo. O trânsito pesado, os prédios altíssimos, muita gente na rua, me fizeram pensar que a economia do lugar está girando com força.

Confesso que ao passar na ponte, agora duplicada, bateu uma certa nostalgia. Na segunda metade dos anos 1960, a gente ia lá num fusca, sempre lotado, para aproveitar a animação da boate Caparaó, no começo da Praia das Castanheiras. O bailarino Lennie Dale, o cantor Altemar Dutra, o pianista Antônio Adolfo e tantos outros alegravam as noitadas.

A fama de Guarapari, naquele tempo, foi confirmada quando Maria Teresa Goulart, hospedada na Casa do Governador, em Vila Velha, quis ir conhecer o balneário. Há quem diga que ela chegou lá em companhia de amigas e rodeada de guarda-costas, que teriam distribuído bofetes em alguns engraçadinhos.

Pois, na volta, não tivemos como escapar do engarrafamento em Itapoã. Foi aí que me lembrei de que aquela avenida é, na verdade, um trecho urbano da Rodovia do Sol. Pior: dessa estrada também fazem parte a Terceira Ponte e as avenidas da orla da Praia do Canto e de Camburi.

Em outras palavras, tudo que já engarrafa hoje nos horários de pico, poderá se transformar em algo desesperador para quem anda de carro e de ônibus, sobretudo se continuarem a construir prédios de dezenas de andares e a vender carros novos de montão.

Pra acabar de danar esse cenário, a invasão das calçadas da orla por aquelas bicicletas motorizadas de pneus grossos poderá gerar muitas chateações aos pedestres que as utilizam por necessidade, por esporte ou pelo simples prazer de andar sozinho ou bem acompanhado.

Vitória, 30 de outubro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viagem a São Paulo

Viagem a São Paulo

Quem tem muitos filhos e muitos netos morando longe tem bons motivos pra viajar. Neste final de setembro fomos a São Paulo para os aniversários de Bebel, minha filha do meio, e o do meu neto Antônio, conhecido por TomTom, dono de chutes poderosos e certeiros.

Esperando a hora do embarque, confirmei mais uma vez que não vejo nenhum conhecido entre os passageiros que desembarcam e os que vão embarcar. Até poucos anos atrás, o saguão do aeroporto era ponto de reencontros, comuns nas cidades pequenas. Vitória já está com jeito de metrópole.

Gosto de viajar ao lado da janela pra ir vendo o mundo do alto. Pois desta vez, nada pude ver, pois o avião navegou, de ponta a ponta, em meio a uma camada de nuvem que estimei ter mais de uns 4 mil metros de espessura, o que eu jamais havia visto.

A bordo, senti uma pequena fisgada na garganta, anunciando a chegada de uma gripe, embora tivesse me vacinado no começo do mês. Pra encurtar a conversa, passei 3 dias de molho, debaixo de cobertas, com nariz escorrendo e tossindo bastante. Perdi as comemorações da filha e fui um avô borocochô nos festejos do moleque, ao lado de 30 crianças barulhentas e 20 adultos animados.

Na terça, cedinho, tomamos o caminho de casa. Viemos trazendo duas malas cheias de livros da Bebel Books para serem oferecidos na primeira edição da FLIC – Festa Literária Internacional Capixaba, em meados de outubro.

Animadíssima, Bebel vai trazer os primeiros exemplares do cordel que escreveu e ilustrou com xilogravuras, sobre uma viagem a Belém. Manaira, por sua vez, orgulhosa que só, deverá trazer, no colo, exemplares de uma simpática publicação, que está editando, com versos e desenhos que Carol fez para homenagear as Paneleiras de Goiabeiras.

Como nem tudo são flores, passei um perrengue ao enfrentar o serviço de segurança do aeroporto, como muita gente já deve ter passado. A revista dos passageiros, que começou com um processo bem básico, com a ajuda de um detector manual de metais, vem sendo ampliada e sofisticada a cada tempo.

Confesso que tenho implicância antiga com aquele aparato na forma de esteira, caixas, conferência eletrônica de malas, bolsas, bagagens, roupas e acessórios. Funcionários formais e educados orientam os passageiros a se livrarem de tudo o que não seja a roupa do corpo, incluindo toda e qualquer espécie de casaco, inclusive chapéu panamá.

Já presenciei senhoras tendo que tirar sandálias dotadas de fivelinhas e adereços para consegui​r atravessar o detector que apita e acende, constrangendo muita gente. Já vi de um tudo, como se diz, nesses ambientes.

As pessoas com próteses, marcapassos e afins são criaturas suspeitas por excelência e são obrigadas a se submeter aos rigores das normas e das leis que foram criadas após o 11 de setembro. Sempre sob grandes constrangimentos, inclusive dos funcionários.

Pois desta vez, ainda que totalmente livre de tudo que carrego nos bolsos e na minha velha pochete de guerra, fui selecionado por critério, possivelmente impessoal, a me submeter a uma revista completa.

Obediente, mas achando ridículo e sob protestos, fui orientado por um funcionário gordinho a tirar meu velho sapato de couro e sola de borracha, a não tocar nos meus objetos sobre a esteira e a pisar em cima de duas marcas no chão, me obrigando a ficar com as pernas afastadas.

Sob o olhar de muitos e sempre protestando, acompanhei o funcionário calçando luvas de plástico, lentamente, talvez pra expressar algum tipo de cuidado e de poder misterioso. Em seguida, sempre reclamando e olhando nos olhos do opositor, fui recebendo instruções, do tipo: abra os braços, vire de lado, levante uma perna, agora a outra, e assim por diante.

Aí começou a parte mais incômoda do processo: o rapaz resolveu passar as suas mãos nas partes tocáveis do meu corpo. Perguntei se ele estava gostando, mas não tive resposta.

Em seguida, para não deixar qualquer dúvida de sua suspeição profissional sobre a minha pessoa, recebi ordens de levantar as bocas da calça para que minhas canelas fossem revistadas.

Como se não bastasse, o poderoso gordinho, sempre ouvindo minhas educadas intempéries, pediu delicada e firmemente que eu apoiasse as mãos no balcão e dobrasse minhas canelas para trás para que ele pudesse revistar as solas dos meus pés. Achei aquilo ridículo e protestei com convicção.

Saí dali, torcendo para que o tal revistador tenha aceito as minhas considerações e tenha resolvido começar a procurar uma outra ocupação menos constrangedora de pessoas idosas e perfeitamente inocentes.

Vitória, 02 de outubro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções bávaras

Emoções bávaras

Nesta semana recebemos a visita de Carolzinha, amiga nossa que trabalhou um bom tempo com Carol no IPHAN e vive em Munique há vários anos.

Tenho Munique em grande conta. Estive lá duas vezes. Na primeira assisti, pela TV, na casa de um amigo, cenas marcantes da derrubada do muro de Berlim. Em 2002, fui para participar da EXEMPLA, uma fantástica exposição internacional organizada anualmente por uma instituição de formação profissional que tem como norte a excelência do trabalho manual.

O tema da edição daquele ano era a madeira e seus mais diversos usos, incluindo a produção de barcos, móveis, instrumentos musicais, utensílios, brinquedos, estruturas, telhados, portas, janelas, escadas, pontes, cachimbos, potes, toneis, cestaria, tamancos, barris e, também, colheres de bambu. Foi uma experiência incomum, com acontecimentos e desdobramentos inimagináveis.

Pelo que sei, fui convidado a participar da exposição pelo seu organizador, Peter Nickl, depois ver as fotos das minhas colheres, que nossa amiga pintora Heidi Liebermann me pediu que fizesse para levar pra Hamburgo, na Alemanha, onde mora. Realizador entusiasmado e atencioso, Peter nos recebeu para um jantar em sua casa, acompanhado de sua gentil esposa Binette Schroeder, artista ilustradora. Foi dele a ideia de usar, na capa do catálogo da exposição, a foto de um pote de bambu, que eu havia relutado em enviar.

Dentre milhares de pessoas que visitaram o estande aberto, duas foram determinantes para importantes desdobramentos: Corinna Rösner, curadora chefe do Museu de Design de Munique e Hans Hansen, renomado fotógrafo alemão, que vive em Hamburgo.

Corinna e o diretor do museu se encantaram com uma placa que Carol havia criado com 52 colheres delicadas, fixada na parede do estande. Disseram que tinham a intenção de adquiri-la para colocá-las ao lado da coleção de joias na nova sede do museu.

Por não misturar dinheiro com colheres, as negociações resultaram na ida de Bebel, nossa filha, arquiteta recém-formada, para estagiar por um ano no museu. Corinna esteve aqui em Vitória por duas vezes, tendo visitado a exposição das colheres no Museu Vale. Tempos depois, estivemos juntos no Museu de Design em Winterthur, na Suíça, em meio a colheres e fotos.

Por obra e graça de anjos da guarda e a ajuda de nossa filha Manaira, Hans Hansen, que estava expondo suas fotos em Munique, também se encantou com as colheres: para comemorar seus 50 anos de carreira, 10 anos depois, escolheu fazer um belíssimo livro com 20 fotografias delas. Fez isso com o apoio da designer Annette Kröger, que se tornou amiga de Bebel.

Pois foram muitas as lembranças de acontecimentos e emoções associadas a Peter, Corinna e Annette que voltaram à tona nas horas de conversas com Carolzinha e, mais ainda, durante o tempo em que passei fazendo colheres para ela levar e entregar pessoalmente a cada um.

Posso garantir que caprichei na escolha dos bambus que trouxe de Brasília e no uso das ferramentas suecas que Peter me mandou de presente. Fiz o meu melhor, como se diz por aí, na expectativa de retribuir um pouco do que eles vêm me proporcionando há mais de duas décadas.

Para Peter, que já deve estar beirando os 80, tratei de fazer uma colher comprida, fininha e flexível, que pode ser usada para coçar as costas, com ótimos resultados.

Para Corinna, que me trouxe pinheirinhos de madeira branca feitos com canivete amoladíssimo, fiz uma bem parruda, de concha larga e cabo de boa pega, própria para comidas mais densas e pesadas.

Para Annette, achei por bem fazer uma de concha ovalada, para diferentes usos. Imagino que ela tenha à vista as 12 colheres pequeninas que fiz para Pierre Mendell, artista gráfico genial, de quem ela era assistente. Com apoio dela, Bebel produziu uma mostra itinerante de seus expressivos cartazes, em diversas capitais brasileiras.

Fomos levar Carolzinha na estação ferroviária para que pegasse o trem pra Belo Horizonte. Entreguei as colheres para nossa portadora, sem dizer que tinha feito uma pra ela também.

Vitória, 04 de setembro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pinturas e colheres nos Açores

Pinturas e colheres nos Açores

No domingo passado, com a ajuda estratégica do meu genro Nélio, compramos as passagens para a ilha Terceira, nos Açores, onde acontecerá uma exposição de pinturas e de colheres de bambu.

Vou com Carol conhecer os Açores, lugar que está na pauta faz muito tempo. Pra ser exato, desde quando recebi uma mensagem de uma portuguesa recém-formada em veterinária, lá nos idos de 2002. Ela se mostrou interessada em saber mais sobre as colheres de bambu que gosto de fazer.

Percebi, logo no começo da troca de e-mails, que ela tinha visitado o site que meu pessoal havia criado pra mim, onde deve ter encontrado informações que atiçaram sua curiosidade.

Sissi, como gosto de tratá-la, revelou-se uma pessoa extremamente reservada, tanto que sugeriu que tentasse identificá-la numa foto onde estão umas 30 moças alegres, vestidas de roupa de formatura. Achei curioso e tratei de respeitar a sua precaução, tanto que só fui conhecer seu rosto alguns anos depois, numa foto em que ela aparece encostada numa camionete já bem surrada, ao lado de outras pessoas sorridentes.

Ao longo do tempo, fui conhecendo seus gatos, cachorros e galinhas, suas hortas e jardins, além de alguns cômodos da casa. Pode parecer mentira deslavada, mas digo aqui que recebi de presente de aniversário um potinho revestido de uma palha chamada de corriola, repleto de uma geleia feita com frutinhas ácidas que ela colheu nos altos do Pico. Como não bastasse, vieram também dois queijos deliciosos, que comi com a maior parcimônia.

O curioso é que só fui conseguir conhecer suas feições, em fotos tiradas ao lado de um casal de amigos velejadores que, por sugestão minha, aportaram nos Açores após atravessarem o Atlântico, uns cinco anos atrás. Em 2024, uma prima de Carol, que viaja pelo mundo com o marido, esteve na casa dela na Ilha Terceira e nos mandou duas fotografias com a anfitriã e seu esposo.

Há uns poucos anos, determinada que só, ela resolveu começar a pintar, tendo recebido meus estímulos na forma de comentários sinceros e favoráveis.

Como era de se esperar, seus quadros foram surgindo em ritmo intenso, sempre com formas instigantes, fundadas em emoções fortes, tiradas do fundo da alma. Todos os que conheço trazem imagens enigmáticas, que produzem estranhamentos que fazem pensar.

Depois de conhecer o livro que escrevi durante a pandemia, sobre fazer colheres de bambu, ela, irrequieta e determinada, resolveu escrever e publicar um livro sobre suas pinturas, seus pensamentos e suas relações com parentes e amigos. Nele, apareço aos leitores como alguém que contribuiu à distância para a evolução do seu trabalho com pincéis e telas, sempre tratado como “meu amigo além-mar”.

Mais do que isso, escreveu que gostaria de fazer uma exposição de seus quadros e das minhas colheres no dia 28 de novembro de 2025, dia em que completará 50 anos de idade. Recentemente ela confirmou o convite e informou que a exposição será realizada no Centro Cultural e de Eventos de Angra do Heroísmo e vai durar 2 meses.

Como a vida vai dando voltas, na segunda-feira passada re-encontramos um casal de vizinhos no estacionamento do supermercado e a nossa ida aos Açores entrou na conversa. A surpresa boa foi saber que ele, Marcos Moulin, está capitaneando um projeto experimental de plantio de diferentes espécies de café capixaba na Ilha Terceira.

Animado com a coincidência, ele contou que atuou durante mais de 20 anos no CETECAF – Centro de Tecnologia do Café – que ajudei a criar naqueles idos de 2002, e ao qual atribuo o grande salto de qualidade dos nossos cafés.

Para aproveitar, vamos conhecer Braga, de onde meu bisavô saiu para vir morar no Brasil e de onde surgiu nosso sobrenome. De quebra, soube que é naquela mesma região que vive a família da Sissi.

Vitória, 21 de agosto de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nós cegos

Nós cegos

Mais uma vez, fomos lá na Vila Rubim comprar ração numa loja pra lá de tradicional de produtos para animais domésticos que cantam, falam, abanam o rabo, se enroscam e se movem lentamente.

Pode ser que alguém ache isso um despropósito, uma perda de tempo. Da minha parte, digo que se trata de uma espécie de viagem ao passado, tamanha a variedade de situações que por lá acontecem.

É lá que também compro vassoura de palha pro quintal, pomada poderosa pra dor muscular, queijo com gosto de curral, bala Itabira de côco queimado, frutas secas a granel, farinha grossa pra fazer farofa, bucha vegetal, cabo de enxada e muito mais.

Na peixaria, gosto de passear diante das bancas repletas de peixes inteiros, limpos e em postas, de camarões do mar e de cativeiro, de sururus do alto e do mangue, polvos fresquinhos, sardinhas e tudo o mais. Comprador fiel de duas bancas faz tempo, vou andando e fazendo caras de interessado, perguntando preços. Ao sair, sempre compro temperos que colorem a calçada do beco em frente. Outro dia comprei uma cana caiana que fez grande sucesso com os netos, que pouco praticam essa atividade de antigamente.

Desta vez, no lugar de enchovas, compramos uma pescada fresquinha, de uns 4 quilos, vinda lá de Marataízes. Enquanto acompanhava Beto tratar o peixe com a competência de sempre, me lembrei de uma foto que funciona como uma espécie de testemunha dos bons tempos.

Nela estão papai, de boina, e Chico, maratimba dos bons que sempre ia com ele pro mar. Com as melhores caras deste mundo, eles sustentam um remo enorme com umas 10 pescadas de uns 5 quilos, que haviam pegado, curricando a uns 200 metros da praia, na direção da Ponta do Siri.

Papai adorava pescar. Exatamente uma semana antes de morrer de apendicite na Santa Casa, na Vila Rubim, fui com ele a Marataízes para pescar nos baixios de pedra em alto mar, que os pescadores experientes localizavam com a ajuda de marcas que faziam, usando as montanhas como referências.

Aquela foi a minha primeira pescaria de fundo e dela guardo imagens de um homem todo prosa com os resultados: duas garoupas gordas, um olho de boi e uns tantos badejos criados.

Também me lembro de papai, agora esbaforido, tentando soltar o nó da linha que apertava meu dedo indicador, depois do arranco que um badejo deu ao se sentir fisgado. Chico havia me ensinado a amarrar a linha no banco do barco e, depois, fazer uma espécie de alça pra que ela pudesse correr, com alguma dificuldade, evitando que o nylon pocasse com um tranco mais forte.

Depois de escrever essas cenas, fui assistir os noticiários da noite e, para meu espanto e tristeza, vi imagens de dezenas de deputados ocupando completamente a área destinada à mesa diretora do plenário da Câmara dos Deputados, a exemplo do que senadores faziam no Senado.

Aos berros e com gestos enérgicos e compassados, aqueles deputados gritavam palavras de ordem, exigindo a aprovação de anistia para quem tenha cometido crimes contra a democracia, previstos na Constituição.

Exaltados e convictos, eles me fizeram lembrar das cenas de aloprados e raivosos se mostrando vitoriosos e vingados ao ocuparem aquele mesmo lugar no dia 08 de janeiro de 2023. Dá pra supor que uns ajudaram a eleger os outros.

Hoje, andando cedo na praia fiquei tentando imaginar quem seria capaz de desatar essa espécie de nó cego.

Vitória, 07 de agosto de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Temores e palpites

A crônica de hoje é sobre o que estamos vivenciando por aqui, totalmente impotentes para interferir no rumo dos acontecimentos. No máximo, podemos cravar um palpite e esperar o que vai acontecer.

Temores e palpites

Escrevo na manhã desta quinta-feira sem ao menos passar um olho nas notícias que já estão circulando nos jornais e nos sites que costumo sapear em busca de novidades e de opiniões divergentes.

Acordei sabendo que hoje é dia de enviar crônica pro jornal, sem ter encontrado um tema que pudesse interessar a leitores variados. É que as minhas atenções, como deve estar acontecendo com muita gente, estão sendo bombardeadas por uma dose cavalar de insensatez, prepotência, cretinice, doideira e tudo o mais que vem vindo lá do Norte e encontrando eco por aqui.

Por princípio, não faço deste espaço um canal de crítica aos que estão envolvidos em embates por interesses os mais diversos, aos movidos por razões ideológicas, aos fanáticos de ocasião e aos que não estão nem aí para o que possa rolar de ruim por aqui. Cada qual que cuide de si, ao seu modo.

Como alternativa, prefiro tentar atiçar reflexões serenas dos leitores, meio que em preparação para o que poderá acontecer nos próximos dias, depois do primeiro dia de agosto.

Nessa linha, achei por bem listar as medidas que poderão vir a ser anunciadas – impostas, melhor dizendo – pelo poderoso e imprevisível norte americano, oferecendo ao leitor a chance de cravar um palpite naquela que lhe pareça mais provável de acontecer na semana que vem, sem direito a prêmio:

Postergar a entrada em vigor da taxação de 50%

Postergar a entrada em vigor da taxação de 50% e abrir negociações;

Cobrar 50% e novas medidas carregadas de maldades e prepotências.

Cobrar 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil;

Cobrar 50% sobre todos os produtos exportados e abrir negociações;

Cobrar 40% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil;

Cobrar 40% sobre todos os produtos exportados e abrir negociações;

Cobrar 30% para produtos de interesse dos USA e 50% pros demais;

Nenhuma dessas alternativas

Por mim, independente do que vai acontecer de fato, acho que o país vai experimentar descalabros temporários na economia, enfrentar fortes alvoroços na política e registrar crescentes prejuízos nas relações pessoais.

Que o bom senso se instale por aqui e que Nossa Senhora da Penha nos ajude.

Vitória, 24 de julho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre as águas do mar

Sobre as águas do mar

Apesar de uma friaca danada, abastecida por um vento sul convicto, resolvi ir tirar sururus nas pedras da ponta leste da Praia da Esquerda da Ilha do Boi. Seria tarefa bem fácil, pelo fato delas estarem à mostra, sem ondas para atrapalhar a catação dos graúdos. Tinha acordado muito cedo e, ao conferir na internet, confirmei que maré estava na cota 0,00m, por conta da Lua Nova, em vigor.

Munido de chapéu, sacola reforçada, espátula de bambu resistente e boa disposição, desci a ladeira e passei pela placa que anunciava que o mar estava Próprio para Banho. Como era de se esperar, a praia ainda estava deserta. Quando chego lá para andar, sempre já tem gente na areia e dentro d’água.

Desta vez, com as atenções concentradas nos moluscos, pude confirmar algo estranho que vinha me intrigando: aqueles milhares de sururus minúsculos que sempre formavam uma espécie de tapete escuro na parte das pedras só banhadas pelas ondas, agora deram pra crescer e formar grandes aglomerados, por falta de espaço para crescer pros lados. Eu nunca tinha visto algo parecido.

Ao comentar o fato com um tirador de sururu que conheço faz décadas, ele me disse que aquilo também era uma novidade. E foi mais adiante: não se lembrava de ter visto nem os sururus miudinhos que cresceram daquele jeito, nem a manta de alga verde claro que está cobrindo uma faixa da pedra entre as praias da Castanheira e das Panelas, lá na Ilha do Frade. Nem ele, nem eu.

Aquilo me fez lembrar da estranha fartura de tartarugas nos mares de hoje. Digo isso porque, em toda a minha adolescência, nunca vi uma tartaruga sequer nas muitas dezenas de vezes que mergulhei em busca de lagostas nas encostas das ilhas, nem quando navegava em snipes, disputando regatas, ou em cima de batera, pescando carapau, sempre vendo do alto as águas ao redor.

A explicação razoável que me vem para tamanha fartura, afora as contribuições do Projeto TAMAR, é que já não mais existem os peixes graúdos, sobretudo robalos, xaréus e pampos, que comiam as tartaruguinhas recém-nascidas, as simpáticas e apressadinhas carebas. Acho que foi meu irmão Afonso quem pescou o último xaréu de 12 quilos, corricando com linha de mão, nas águas da Ilha Rasa, numa lanchinha de motor de popa.

Pouca gente sabe que, nos idos de 2010, na monografia que apresentou para se graduar em oceanografia na UFES, Diana, nossa caçula, comprovou por A+B, com ensaios eco-toxicológicos, que os particulados do minério, produzidos e escoados pelas empresas da Ponta de Tubarão, prejudicam, chegando a inibir o desenvolvimento das larvas de ouriço nas pedras submersas. Sua descoberta foi reconhecida pela PMV, merecendo o primeiro lugar no Prêmio Tião Sá, em Pesquisa Ambiental. Torço para que os ouriços não tenham sido exterminados.

Para não deixar ponto sem nó, informo para os devidos fins, que voltei pra casa de alma leve, carregando uma sacola repleta de sururus e tão realizado como ficava ao voltar da Gaeta de Dentro, rebocando uma boia de isopor, com uma sacola de cheia de sururus enormes, recolhidos no pé das pedras, de mergulho. Manaíra e Bebel, minhas filhas mais velhas, contam morrendo de rir, que morriam de vergonha do pai saindo do mar com chapéu de palha, cheio de tralhas, em plena Praia da Direita, então reduto das cocotas e da rapaziada cheia de amor pra dar.

Soube pela imprensa que empresas espanholas virão ganhar dinheiro aqui, depois que conseguirem despoluir as águas da Baía de Vitória. Humanos, animais e vegetais vão adorar o nosso mar limpinho.

Vitória, 26 de junho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Futuro engarrafado

Futuro engarrafado

Soube, na semana passada, que está em curso um movimento capaz de produzir grandes impactos na vida de quem mora e frequenta Vitória. Me fez lembrar do que relatei numa crônica, décadas depois.

“Talvez eu estivesse exatamente onde, hoje, está o já antigo restaurante de cozinha portuguesa. A tarde ia bem avançada, com o sol atrás do Morro do Cruzeiro. A temperatura, embora fosse quase inverno, não pedia o uso de agasalhos.

Sentado na beirada do paredão de pedras, olhava o mar à minha frente. A maré alta trazia as águas pra bem perto, quase acabando com a faixa de areia.

O encontro da avenida que vinha do centro da cidade com a rua que corria paralela ao mar formava um enorme largo triangular. No terreno de esquina, meio escondida por mangueiras e flamboyants, existia uma casa avarandada, da família Michellini. Parecia uma construção de ingleses na África. No beiral da varanda tinha uma espécie de renda bordada em madeira.

Sempre tive vontade de me sentar numa daquelas cadeiras brancas e passar horas olhando o mar, como se estivesse num tombadilho. Embora parecesse muito agradável viver ali, a varanda e o jardim estavam sempre vazios e silenciosos.

No outro lado daquele triângulo, quase defronte da primeira das 62 castanheiras plantadas na calçada à beira mar, lá estava o Bar do Walter, já aberto, mas ainda vazio de fregueses.

Passagem obrigatória para pedestres e ciclistas, aquele era um ponto estratégico para quem buscasse companhia em plena tarde de um dia de semana qualquer. Sabia, por experiência, que se ficasse dando sopa por ali, mais cedo ou mais tarde apareceria alguém.

A espera foi curta. Vi de longe uma conhecida minha e fiz sinal pra ela. Moça simpática, de pele morena e cabelos ondulados, foi chegando com sorriso que demonstrava alegria por me ver de volta.

Mas nem bem acabou de dar os dois beijinhos de praxe, percebi que ela me olhava com uma expressão grave, de reprovação.

Embora a nossa intimidade não fosse muita, ela a considerou suficiente para externar o que lhe vinha na alma de adolescente bem-comportada, “careta”, como se dizia:

– Alvaro, você devia cortar seu cabelo. Pega mal para um engenheiro usar cabelo desse tamanho!

Falou aquilo com plena convicção, mais parecendo uma tia solteirona querendo proteger o sobrinho dos maus caminhos. Argumentou que o meu tempo de rapaz despreocupado tinha terminado e que aquele cabelo grande poderia atrapalhar o meu futuro promissor.

Na verdade, o cabelo nem estava tão grande assim. Em dezembro – e era maio – havia pedido ao meu barbeiro, na Praça Costa Pereira, que cortasse bem baixinho, no mais perfeito estilo “valsa de formatura”, que eu iria dançar no Clube Libanês, metido num smoking alugado.

A barba é que talvez estivesse um pouco fora do usual. Apesar de muito escura e espessa, não indicava desleixo. Afinal, ainda que já tivesse me formado, eu continuava sendo um estudante, agora de pós-graduação.

A minha figura era compatível com o tempo em que vivíamos, quando os movimentos de contracultura e de protestos políticos aconteciam país afora. E tem sido com ela que me apresento ao mundo desde aquele 1971, talvez por saudades da energia de uma época e por algum conservadorismo.

Pois pouco tempo depois, fiquei sabendo que iriam demolir aquela bela casa para construir um prédio enorme, altíssimo, completamente fora dos padrões vigentes na Praia do Canto. Aquilo sim, mereceu um sonoro pega mal, na forma de protestos coletivos de moradores, insuficientes, entretanto, para impedir sua concretização”.

Aquela obra era uma iniciativa isolada. Agora, pelo que me disseram, está em curso uma aglutinação de forças e de interesses expressivos para fazer com que Vitória venha a abrigar mais 100 mil novos habitantes, além dos 360 mil atuais.

Imaginei, imediatamente, um tanto de gente esfregando as mãos de excitação, pensando nos lucros, sem ao menos se preocupar com os perrengues e impactos que isso provocará para os que estiverem por aqui, no futuro.

Para que fique registrado, declaro que não fui consultado a respeito desse assunto e que cravo aqui a minha veemente discordância dessa perigosa pretensão de uns poucos. A título que instigação, sugiro que considerem seriamente os impactos diretos no trânsito e na qualidade de vida das pessoas, incluindo o direito à paisagem.

Vitória. 11 de junho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Olhando pra telhas

Olhando pras telhas

De uns tempos pra cá, instalou-se no país um ambiente tóxico, expresso por roubos oficiais na previdência de milhares, demonstrações de gulodice de poderoso recém-empossado, esforço organizado para desmonte da legislação ambiental com desrespeito à sua defensora desde sempre, desconforto de ministro sério nadando contra maré, dentre outros descalabros. Uma labirintite presidencial me fez lembrar do que escrevi sobre um tempo vivido em João Pessoa, na segunda metade dos anos 1970.

”A varanda interna era o melhor lugar da casa pra gente ficar. Três pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da direção do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da sala ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda do quintal. De barriga pra cima, podia-se acompanhar o progresso diário da construções de barro que os marimbondos faziam.

Quero dizer, com isso, que aquele lugar era quase perfeito para um usuário convicto de rede, tal como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitassem pudessem se sentar.

Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas, são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som de palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.

Naquela varanda, dependendo da intimidade, o visitante podia se esticar em uma outra rede e, nessas ocasiões, a conversa corria bem mais frouxa, lentamente. Na rede, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física, as conversas quase sempre rangem, como os ganchos roçando nos prendedores. Os olhares – quando possíveis – são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.

Daquele telhado, eu conhecia praticamente tudo: os pilares, as vigas, os caibros, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barro. Da marca impressa em baixo relevo não me lembro: talvez fosse Santa Rita.

Que diferença faria, saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.

As casas dos marimbondos se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas delas davam evidentes sinais de abandono, de já terem cumprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?

As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansaço, quando se sente inseguro, agoniado e tudo o mais que pode sentir em situações que se apresentam no dia a dia, fora de seu controle. Muitas vezes descarreguei nelas o que não conseguia dividir com ninguém. Depois, de alma mais aliviada, acabava dormindo tranquilo.

Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede mas falta o telhado? Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: pelo que sei, o liso do reboco e o branco da tinta não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.

Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retêm quase tudo que chega até elas.

Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando aquelas telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, nas coisas do trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de grande responsabilidade, numa terra muito distante de onde ele nasceu.”

Vitória, 29 de maio de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Se treinar, dá

Na crônica de hoje trato de uma tentativa que ando fazendo

Treina, que dá

Depois de um infarto das coronárias, em dezembro de 1994, nunca mais fui o mesmo homem. Andar na areia da praia, eu bem que consegui e consigo até hoje. Aos poucos, fui praticando passos em quantidade crescente e em ritmo mais acelerado, sempre condicionado ao que sentia no peito. A dor, aprendi com um homem sábio, é, nada mais, nada menos, do que um indicador da nossa incapacidade de fazer esforço físico, a cada momento do dia, ao longo da vida, pra ser mais exato.

Aprendi, na sequência, que a dor desaparece ao reduzirmos o ritmo dos passos e, consequentemente, do esforço. Livre da dor, pode-se acelerar e manter o ritmo das passadas até que ela ressurja, muito provavelmente em um nível mais elevado de esforço. É uma espécie de brincadeira de pique-esconde.

Como já contei aqui, estou há mais de 30 anos sem nadar nem uns 10 metros, que seja. Isso, depois de ter sido, durante uns 10 anos, um competente nadador. Em outras palavras, um nadador que competia e sempre ganhava.

Pois foi vendo aquele pessoal todo nadando na praia da esquerda foi me dando uma inveja desenfreada de dar umas boas braçadas, indo e voltando, lá no fundão.

Sempre achei que a determinação tem papel relevante na vida da gente, a insistência também. Isso, sem falar no mérito da força de vontade, da autoconfiança e da coragem. É bem verdade que, na minha condição de pretendente a nadador matinal, a inveja jogou um papel determinante. Sempre entendi que a inveja é uma potente força motriz das nossas escolhas e decisões.

Senhor das minhas deficiências físicas e de alternativas par contorna-las, resolvi testar como estaria a minha condição dentro d’água, após caminhar bastante na areia. Para minha grata surpresa, a tal dor nos peitos só foi aparecer quando forcei as braçadas, desaparecendo com a redução do esforço. Confesso que fiquei me achando um idoso de bom potencial.

O mar, nessas últimas semanas, esteve calmo, com águas quentes e limpas e os ventos quase sempre na categoria de fracos a moderados, soprando da terra pro mar. Eu sou um inveterado apreciador do vento terral. Os vindos do sul, mais frios, também sopraram, mas o morro da ilha protege os usuários da praia da esquerda de eventuais friacas.

Pois na semana passada, após um período razoável de treino de braçadas variáveis, já constatando o surgimento de “muque” nos dois braços, me programei para tentar nadar tão logo Carol voltasse do Rio. Combinei com ela que levasse o celular para registrar o início da minha carreira de nadador de travessias. Como era de esperar, demonstrou uma certa euforia, dessas de fazer marido ficar se achando o tal.

Na segunda feira acordei cedinho para ir treinar. Ainda na cama, pensando na vida, me veio uma questão relevante, merecedora de atenção. Com o passar dos minutos, ao usar meus parcos conhecimentos sobre anatomia e, sobretudo, meu bom senso, o que era uma dúvida, foi virando uma certeza. A musculatura utilizada para movimentar as pernas no nado livre, não é exatamente a mesma que é acionada para que a pessoa possa andar e correr.

Como sempre, depois de andar em ritmo forte, entrei na água e tratei de remar firme com os braços, pra frente e pra trás, pra cima e pra baixo e nada de dor aparecer. Foi o suficiente para me deitar no rasinho e com as mãos na areia, começasse a movimentar as pernas esticadas pra cima e pra baixo como se estivesse nadando na piscina. Não demorou e lá estava a danada da dor nos peitos, abrangente e cheia de razão.

Desse jeito, só me resta pegar a boia cor de abóbora, que ganhei de um nadador solidário, e começar a bater pernas em ritmo progressivo até retomar meu status de nadador sorridente, que será devidamente registrado e compartilhado nas redes.

Vitória, 30 de abril de 2025

Alvaro Abreu

Escrita par A GAZETA