Festa na Granja

Festa na Granja

No último volume, a velha eletrola se tremia toda. Era dia de festa na granja. O motivo era forte. Não me lembro se aniversário de Iveraldo ou de Iracema.

Manhã de sol quente, não parava de chegar carro lotado de convidados. Como de costume, cada qual trazia alguma coisa de comer ou beber, pra reforçar a fartura.

A família do casal era enorme. Muitos parentes diretos e indiretos, muitos agregados. Tudo gente habituada a frequentar aquele lugar. Iveraldo, o próprio coronel nordestino de fala mansa e sorriso amigo. Iracema, mulher de muitas providências, regulava o movimento falando alto e andando ligeiro.

A granja era muito agradável. Ficava a uns 30 minutos de João Pessoa, na estrada para a praia de Tambaba, onde o nu ainda não era praticado oficialmente. A casa era parecida com as que existem pelo interior da Paraíba. Telhado de quatro águas, arrodeada de varandas. Muita flor em volta.

Pra cortar o gosto forte da pinga, um bom pedaço de caju maduro, catado no quintal. Uma frutinha vermelha, de um pé ainda pequeno, também caia bem depois da talagada. Era acerola.

A água de coco era das mais doces que se conhecia e as mangas, rosa e carlotinha, verdadeiras delícias. Aqui e acolá, uma touceira de cana caiana. Pé de pinha também tinha. De goiaba e araçá, nem se fala.

A criação era variada. Um cavalo velho, três vacas holandesas. Galinha, tinha muita, sobretudo pescoço-pelado e carijó. As galinhas d’Angola eram mais para enfeite. O galo do terreiro era vermelho, com rabo amarelado e preto. Esporas curvas, de tão grandes.

Nas noites quentes, quem estivesse na varanda ganhava a companhia de um velho sapo enorme, que pesava quase um quilo. Surgia não se sabe de onde e, em silêncio, ficava espiando o movimento.

Naquela manhã, a movimentação era grande em volta do tanque, na varanda dos fundos. Era dia de buchada de bode. Quatro mulheres cuidavam da limpeza das tripas e dos miúdos de dois cabritos, comprados por Iveraldo na feira do Conde, logo cedo.

Servicinho duro e enjoado de fazer. Muita gente nem chegava perto. As vísceras são escuras, feias. O cheiro é bem forte. Mas as mulheres, já acostumadas com tudo aquilo, trabalhavam firmes. Riam alto, animadas pelos goles de Rainha, a cachaça oficial da granja. Ela vinha em garrafão, direto do alambique das redondezas de Bananeiras, terra de Iveraldo. Forte, mas muito saborosa.

O trabalho já estava bem perto do fim quando, metida num impecável macacão bege e de bolsa a tiracolo, Dona Dadá chegou na beira. Parecia supervisionar, com muito rigor, tudo o que via. Assustada, distribuía caras e muxoxos de discreta reprovação.

– E pensar que alguém vai comer isso…

Frequentadora assídua dos sítios da Fazenda Inglesa, na serra de Petrópolis, onde a granfinagem carioca passa fins de semana. Ela já demonstrava querer voltar pra casa, quando apareceu uma garrafa do melhor uísque nacional.

– Um duplo, por favor. Com bastante gelo!

De copo na mão, saiu para dar uma volta no quintal, à cata de novidade.

A tarde já ia longe, quando o almoço foi servido no pagode, perto da piscina que estava sendo inaugurada. Grandes travessas e muitas panelas sobre a mesa. Dava gosto de ver: de tudo, um pouco. Galinha de cabidela, carne de sol, ensopado de costela de vaca, feijoada, cabrito assado e rubacão. Pra acompanhar, pirão de leite, feijão de corda, macaxeira, jerimum e salada de tomate.

Lá estava, também, uma enorme travessa de arroz frio e sem qualquer tempero. Naquele lugar ninguém levava o arroz a sério. Ele era cozido em água abundante e depois escorrido numa peneira, como macarrão.

Como era costume, de barriga cheia, os convidados procuraram um lugar para fazer a sesta. Os mais espertos conseguiram vaga numa das muitas redes estendidas na varanda. A fresca corria solta e ninguém falava em colesterol.

A buchada já havia sido colocada no fogo, num caldeirão enorme. Os miúdos de bode, picados em pequenos pedaços, haviam sido ensacados dentro dos buchos, que eram costurados com fio urso para não deixar vazar o recheio. As tripas estavam enroladas nos ossinhos da canela. Muito alho, cebola e tempero verde. Um pouco de pimenta crua pra dar gosto. Na panela, um caldo ainda ralo cobria tudo.

– Pronto, agora é só deixar cozinhar em fogo brando.

O fogão, como convinha, era a lenha. Havia sido construído na varanda, bem perto da porta da cozinha, pra dar conforto a quem cozinhasse.

Na chegada da noite, Dona Dadá já parecia ambientada. Encontrara uma pessoa para escutar suas histórias. Exímia jogadora de baralho, aceitou de imediato o convite pra uma partida de canastra.

Da mesa de jogo dava para sentir o calorzinho do fogão e o cheiro que saía da panela. Era jogo de gente grande, sem menino em volta.

Mais uma vez, muitos adultos e crianças se preparavam para dormir. Uma boa parte deitaria em colchonetes espalhados no chão da copa e das duas salas. Por cima, uma camada de redes garantiria acomodação para mais umas vinte pessoas. Difícil era ir ao banheiro no meio da noite.

O ambiente da jogatina era alegre e descontraído. As troças, as birras e as piadas, apesar de surradas, ainda faziam rir. As manhas e malandragens de cada jogador eram previsíveis, pelo tempo de convívio. As possibilidades contidas nas cartas e o movimento pendular da sorte mantinham vivas as expectativas de cada um.

Como mandava a tradição, lá pelas onze da noite, o jogo foi interrompido para que os jogadores pudessem experimentar o caldo resultante da ferveção de mais de 10 horas em fogo brando. Se quisessem, poderiam também experimentar a buchada.

Dona Dadá distribuía as cartas do morto, quando Iracema veio de lá, trazendo um dos buchinhos num prato fundo. Ao ver aqueles estranhos objetos serem colocado na mesa de apoio, ao lado, a expressão dela era de aversão. Educada, ela sabia que não poderia fazer desfeita para a dona da casa.

– Vou aceitar só um pouquinho, para provar.

Iracema caprichou. Jogou duas gotas de pimenta de cheiro sobre aquela espécie de sarapatel molhadinho e cobriu tudo com uma fina camada de farinha bem branquinha. Salpicou com cebolinha verde. Era pra comer de colher.

Quem prestasse atenção poderia notar a metamorfose: o sabor forte daquela comida havia transformado aquela elegante senhora na menininha franzina que morava no sobrado verde da rua 25 de março, em Cachoeiro de Itapemirim.

Com os olhos brilhando e a respiração meio acelerada, ela comeu o tanto que lhe deram para provar, pediu mais, repetiu mais uma vez e arrematou, por gula, uma última porção caprichada. Depois de tudo, tomou um gole de cachaça.

– Uma verdadeira maravilha!

Os anfitriões, satisfeitos, sorriram do que ouviram. É bem provável que, em seu discreto silêncio, Iveraldo tenha se lembrado da modinha que Wilson Batista compôs, na intenção de destratar Noel Rosa: “por uma cara feia perde-se um bom coração”.

A buchada de bode de Iracema havia conquistado mais uma adepta.

Vitória, 06 de março de 2025

Alvaro Abreu

Reescrita para A GAZETA

Dá gosto de ver

Dá gosto de ver

Acordei com o sol, tomei os remédios pra tireoide e pro coração, arrumei a mesa pra dois, cortei mamão, coloquei bananas da terra descascadas no microondas, dei as pontas delas pra Amora, passei o café já enchendo minha xícara. Limpei minha bancada, lasquei uma tira comprida de bambu fino e entalhei o que seria uma colher pra canhoto. Coloquei meu calção ainda novo, vesti camiseta fresca, apanhei o chapéu de aba larga, calcei minhas havaianas, apanhei a faquinha de lâmina curva que Gustavo Vilar fez pra mim e desci pra praia, com Carol ao meu lado, animadíssima.

É que a manhã daquela quarta-feira estava perfeita para quem prefere luz matinal de sol ainda baixo, vento terral soprando moderadamente, mar liso com água cristalina, passarinho ciscando na areia já varrida pelos garis. Sem qualquer constrangimento, gosto de pensar e dizer que aquele lugar é o meu ateliê de luxo, meu lugar preferido para trabalhar, cuidar da saúde e pensar na vida.

Notei que já tinha muita movimentação no mar de entre ilhas, com gente remando pranchas, canoas havaianas de diferentes tamanhos e vários nadadores solitários rebocando bóias coloridas. Trata-se de um recurso multi-função, recém-inventado para guardar celular e chave de carro, para servir como flutuador em emergência e para facilitar a localização dos seus usuários por quem esteja em terra ou navegando em lancha e jet ski.

No meu tempo de rapaz frequentador da praia do Barracão (em cujas areias foram construídos os edifícios San Thomas e Paulo VI), eu era praticamente o único que arriscava nadar até a Ilha das Andorinhas e, umas poucas vezes, até a Ilha do Boi. Era uma proeza que servia pra impressionar as morenas, mas nadar de volta era sempre no sacrifício e com alguma preocupação.

Na verdade, naquela época – estou falando dos anos 60 – não existiam academias de ginástica. Quando muito aulas de judô, em sala improvisada. Eram pouquíssimas as pessoas que se exercitavam de forma sistemática, a não ser um ou outro halterofilista. Que me lembre, só mesmo remadores dos clubes Saldanha, Álvares e Náutico treinavam diariamente, no comecinho das manhãs, nas águas espelhadas da Baía de Vitória.

Para um ex-nadador, que treinava braçadas e batidas de pé na piscina do saudoso Praia Tênis Clube, impressiona a quantidade de homens e mulheres de meia idade praticando natação no mar, por todo lado.

Ali na praia da Esquerda, umas vinte pessoas, nadavam sob orientações e estímulos de um simpático treinador a bordo de uma prancha. Uns poucos demonstravam dificuldades em acompanhar o ritmo, mas acreditando que conseguirão vencer suas limitações físicas e psicológicas. A sensação que tenho, ao passar por eles nas idas e nas voltas, é a de que todos darão conta do recado.

Terminadas as atividades na água, dá gosto de ver a interação entre aquelas pessoas molhadas e alegres, formando um grupo de colegas de propósito e de disposição. Vistos de longe, dá pra imaginar que comentam o que fizeram e o que não conseguiram fazer dentro d’água, naquele dia e nos anteriores. Dores e cansaços relatados por alguém devem gerar solidariedade honesta por parte de quem tenha passado pelo mesmo perrengue nas primeiras vezes que entrou no mar. Os que se destacam pela velocidade na água e pelo preparo físico certamente servem de referência e estímulo aos principiantes.

Nessa manhã, como volta e meia acontece, aquelas pessoas que nadaram em busca de saúde e de satisfação se juntaram para tirar fotos na areia, todas ainda em roupa de banho, com o melhor dos sorrisos, fazendo gestos de vitória.

Vitória, 06 de fevereiro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

Movimentações familiares

Movimentações familiares

Formamos uma família numerosa, incluindo pai e mãe, cinco filhos, uma nora, dois genros e oito netos.  Algo raro nos dias de hoje.

Este ano, nosso pessoal que mora em São Paulo veio passar as festas aqui, em função da regra de alternância de local dos festejos, para agradar gregos e troianos. No ano passado, os que vivemos em Vitória fomos passar o Natal em Cotia, pertinho da capital, onde mora Bento e sua turma.

Com o preço das passagens aéreas nas alturas, o ônibus leito foi a opção adotada pela família de Manaira. Fui buscá-los cedinho na Praça do Papa e as caras de felicidade de quem está chegando de férias superaram com folga as marcas de uma noite mal dormida.

Bebel veio de avião, com passagem comprada preventivamente, há muitos meses. Veio trazendo duas malas, abarrotadas de presentes.

Bento, com mulher, três filhos, violão e bagagem farta, veio dirigindo o carro de uma grande amiga que resolveu voltar a morar aqui em Vitória, depois de mais de uns 10 anos vivendo em Joinville e São Paulo. Na verdade, sua decisão é fruto de um longo processo de reflexão em família, em busca de alternativas para aglutinar novamente o que deveria ser entendido como uma espécie de clã dos Albuquerque, composto por mãe, pai, 4 filhos e 7 netos.

Antes dela, já tinha chegado de volta sua irmã caçula, que vivia no noroeste dos USA há uns 8 anos, trazendo marido americano e duas crianças ainda pequenas. Seu único irmão já tinha optado, faz tempo, por voltar a morar em Vitória, que considera um lugar muito bom pra criar seus dois filhos e pra trabalhar no que gosta.

Em breve, será a vez do retorno dos meus queridos amigos Fred e Fátima, os pais, pra se instalarem em apartamento de frente para o mar, como bem merecem, depois de anos vivendo no lugar de origem dos antepassados dela, no interior de Minas Gerais.

A outra irmã, por fortes razões profissionais, ficará na paulicéia por mais um tempo, certa de que estará sempre aqui, pra aproveitar a furuba familiar, algo que valoriza de montão.

Da minha parte, confesso que fiquei com uma certa inveja mansa desse movimento de reaglutinação familiar. Digo isso sem o menor constrangimento e mais do que sabendo da quase impossibilidade de que isso possa vir a acontecer com o nosso pessoal.

Tendo vivido 17 anos fora de Vitória, bem me lembro da felicidade de mamãe e de meus irmãos e parentes quando chegamos de volta em julho de 1987, trazendo uma penca de filhos. Logo depois, em outubro, na festa dos meus 40 anos, foi a vez de confirmar muitas das amizades que havia deixado aqui. Como conhecia poucas pessoas na cidade, Carol precisou de um tempo pra criar sua própria turma. Carioca, depois de mais de 53 anos afastada do Rio de Janeiro, ela se considera uma autêntica “carixaba”.

Como já disse aqui, o nosso pessoal adora festa e tem grande disposição para fazer o que precisar para que tudo aconteça da melhor maneira, dentro dos conformes. Pois dessa vez, inventaram de alugar um sítio nas redondezas de Parajú para os tempos natalinos.

Meio que na sorte, acreditando na palavra dos donos e nas fotografias da internet, conseguimos passar 5 dias comendo, bebendo, cozinhando, fazendo churrasco, enfeitando, jogando sinuca, bocha, totó, baralho e futebol, conversando dentro e fora da piscina, assistindo filmes na parede, fazendo colher, tocando, batucando e cantando, brincando com os cachorros que levamos, fotografando e filmando com celular e drone, lavando panelas, louças e talheres de montão, abraçando com mãos cobertas de tinta para imprimir nas camisetas dos “Frota de Abreu” e tudo o mais que se faz necessário e prazeroso.

A passagem do ano, como convidados de amigos queridos, foi em clube à beira-mar, com música de Dj com som tipo “bate-estaca” e conjunto de “covers” de rock. Tudo com os olhos bem abertos e aparelhos auditivos desligados.

Vitória, 09 de janeiro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem inventou o Ovo de Colombo

Quem inventou o Ovo de Colombo?

Na crônica anterior escrevi sobre um show sensacional da banda Aurora Gordon, liderada por um filho de Afonso, meu irmão mais velho, com belas músicas e letras expressivas que ele criou, com parceiros, no início dos 70, do século passado.

Aproveito o embalo familiar para contar a história de como surgiram as ideias do meu irmão mais novo, Cláudio, que apropriadas pela equipe econômica do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, viabilizaram a implantação do lendário Plano Real, que completou 30 anos. O assunto foi pauta da imprensa e de manifestações de júbilo e afago de egos de economistas que atuavam na PUC/Rio e no governo federal.

O Plano Real produziu resultados relevantes para o país, a começar pelo extermínio de uma inflação inercial que se mantinha na casa dos 40% ao mês e, também, ótimos resultados para o PSDB nas eleições de 1994, incluindo a presidência da República.

Não corro qualquer risco em afirmar aqui que foi Cláudio quem inventou e sugeriu que fosse adotada uma solução técnica inovadora e ainda totalmente desconhecida dos ambientes universitários e de órgãos governamentais.

Posso garantir que a ideia de criar um indexador atrelado ao dólar para ser utilizado amplamente nas relações de troca no país surgiu durante uma conversa comigo na varanda de casa, em pleno verão de 1992/3.

A coisa ganhou corpo no encontro que Cláudio teve com Betinho meses depois, quando ele esteve no BNDES em busca de apoio para o programa de combate à fome e à miséria.

O fato é que suas propostas nasceram no seu travesseiro e ganharam forma na sua mesa de trabalho no BNDES. Eufórico com suas ideias, tratou de apresentá-las aos seus dirigentes do Banco e, em seguida, de enviar seu trabalho para quase 200 profissionais, políticos e dirigentes de partidos políticos, entidades empresariais e órgãos públicos. Ele guarda até hoje todas as mensagens de agradecimento formais e educados que recebeu, incluindo as do próprio FHC e da sua equipe.

É fácil fazer uma linha do tempo precisa e completa dos acontecimentos, com tantas informações. Para dar apenas um exemplo, a versão original do trabalho de Cláudio “A Indexação Diária Negociada – Contra o veneno da cobra, só o próprio veneno da cobra” é datada de 31.08.1993.

Durante o segundo semestre de 1993, Cláudio foi criando expectativas e chegou a se animar quando soube que suas ideias estavam sendo analisadas e apresentadas em reuniões em Brasília com ministros e equipes econômicas, presidentes de partido e gente importante da política. Nunca foi convidado a participar de nenhuma delas nem viu seu nome citado em qualquer documento oficial nem em entrevistas ou matérias jornalísticas.

Meticuloso que só, movido por expectativas, desconfianças e muitas decepções, ele foi guardando reportagens, comentários animadores, respostas formais, educadas e tudo o mais, além de todas as versões de suas propostas.

Meses depois, em dezembro, a revista Exame publicou uma matéria em que um dos principais assessores do ministro FHC explica que a “URV se destina a funcionar como remédio contra mordida de cobra”.

Difícil mesmo é conseguir registrar e calcular a carga de emoções e quebras de expectativas que foram se acumulando com o passar dos dias, geradas pelo que considero um estelionato intelectual das suas ideias e criações.

Com o tempo passando e vendo as suas proposições, já rebatizadas, sendo noticiadas na imprensa, ele foi entrando em parafuso e ganhando uma tristeza grave e surda, fruto da sua impotência. Imagine saber pela imprensa que o seu Cruzeiro Cambial fora adotado silenciosamente pelos economistas oficiais e rebatizado como Unidade Real de Valor, a famosa URV.

No começo deste ano, com estímulos de parentes e amigos, Cláudio decidiu publicar um livro para contar a sua versão dos fatos e, sobretudo, pra lavar a própria alma e receber, ainda que tarde, um tanto de reconhecimento pelo que fez de bom pelos brasileiros. Nele, o leitor poderá conhecer, em detalhe, o que foi produzido, apresentado, enviado, recebido e utilizado por terceiros.

Recentemente foi o próprio André Lara Rezende que mencionou que a URV foi o Ovo de Colombo no Plano Real. Cláudio então resolveu batizar o livro de “O Ovo de Colombo do Plano Real”, depois de saber, pelo Google, que o truque do tal ovo foi na verdade inventado por Felippo Brunelleschi, um arquiteto italiano, mas foi Colombo quem ficou com a fama depois de apresentá-lo a espanhóis em um banquete.

O fato é que, talvez por puro preconceito, os economistas da PUC e adjacências não tiveram coragem de admitir que foi um engenheiro quem, na época, deu a solução ao problema da inflação. Nem coragem, nem decência, pra ser mais exato.

Cláudio lançou seu livro, com muito sucesso, nessa segunda-feira, na livraria Argumento, no Rio de Janeiro. A versão digital está disponível gratuitamente na internet.

Vitória, 12 de dezembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Aurora Gordon na Ponte da Passagem

Aurora Gordon na Ponte da Passagem

Ontem fomos ao SESC Glória assistir o show do Aurora Gordon “Afonso Abreu – Na Ponte da Passagem”, uma homenagem que o produtor musical Murilo Abreu idealizou para comemorar os 50 anos que já se passaram desde a primeira versão do espetáculo no Teatro Carlos Gomes.

Os arranjos são os originais, os músicos são outros, mas o cantor é uma cópia fiel do pai que, sentado ao meu lado, ia assistindo um trecho da sua vida passar no compasso das suas criações, poéticas e inovadoras, em parceria com Marco Antônio Grijó, Rogério Coimbra e Paulo Branco.

Sou testemunha do movimento vigoroso, criativo e rebelde que se instalou no pacato cenário capixaba, no final dos anos 1960. Era muito bom acompanhar a produção desenfreada de letras e melodias por todo lado, algumas românticas e muitas de protesto.

O show me fez lembrar de letras marcantes: “A cidade cresceu e você continua penteando os cabelos de seda, falando em solidão”, “Seus olhos espreitam um zoo, mas as feras não estão lá, Manuela”, “Via aérea.., sou meu próprio voo”, “Corina, você vem comigo, ver pontes e delírios”, “Perdi minha alma na Ponte da Passagem, esperando por você.”

Afonso tomou gosto por música logo cedo, talvez por influência de papai, que ligava a eletrola logo que entrava em casa. Seu gosto musical era bem diversificado, indo de Noel Rosa e Caymmi aos clássicos americanos.

Não me lembro de detalhes, mas sei que Afonso arranjou um contrabaixo, daqueles enormes de madeira, e começou a tentar localizar o lugar das notas nas cordas e a arrancar sons com cada uma delas. No início dos 1960, ele se juntou a um amigo, que aprendia a tocar piano, e a Mário Rui, que tocava bateria. Com o andar dos ensaios e das primeiras apresentações no Praia Tênis Clube, Afonso passou a valorizar gestos das mãos e a usar expressões faciais para realçar sons e compassos. Foi o bastante pra merecer mais palmas por suas performances com aquele instrumento enorme. A amiga Beatriz Abaurre escreveu que ele “cavalgava no contrabaixo”.

Pois até hoje dói imaginar a cena do contrabaixo “navegando” em frente ao Iate Clube, por obra de um bêbado imbecil, depois que a festa terminou. Aquele instrumento estava sendo pago, a duras penas, com a renda de apresentações.

A chegada Grijó a Vitória produziu impactos no meio musical da cidade. Baterista profissional, ele assumiu o controle das baquetas de Mário Rui, que adotou a guitarra e os pedais de distorções sonoras, e Afonso que se encantou com o baixo elétrico. Depois de muitos ensaios e brigalhadas, eles criaram Os Mamíferos em 1966, uma fonte poderosa de contracultura esbravejante.

Muitas feras – músicos e letristas – frequentavam nossa casa na Madeira de Freitas. Mamãe gostava de ver o entra e sai de gente cabeluda com roupas coloridas, carregando seus instrumentos para tocar altíssimo no cômodo que existia nos fundos do terreno. É bem provável que ela até oferecesse broa de milho e café pra alegrar a turma. Animada, ela foi ver os “meninos” na Boate Macumba. A precariedade dos recursos técnicos atrasou o início do show. Em casa, ela comentou: “Meu filho, o homem já foi na Lua e voltou e vocês continuam a pelejar com esses plugs…”

Para espanto de muitos, bacharel em direito, Afonso arranjou um emprego em Colatina, onde ia e voltava diariamente dirigindo um fusca vermelho, ano 1959. Nem imagino o que ia matutando estrada afora, mas sei que logo depois ele resolveu atuar na área da cultura, começando pela programação musical da Rádio Espírito Santo. Daí em diante percorreu uma longa carreira de servidor público, passando pelo setor de música da Fundação Cultural, armando o Circo da Cultura, dirigindo o Teatro Carlos Gomes e secretariando a Lei Rubem Braga, na Prefeitura de Vitória. Isso, sempre atuando em favor da criação de oportunidades para seus colegas de ofício e de sonhos.

Em paralelo, ele foi criando grupos musicais dedicados aos sons e compassos da Bossa Nova e do Jazz. Que me lembre: Bandônica, Mistura Fina, Quarteto JB e Afonso Abreu Trio, que sempre recebiam artistas de primeira linha, para ajudar a alegrar as noites capixabas. Jantar para os músicos depois do trabalho era condição contratual obrigatória.

Na noite desta sexta haverá uma terceira edição daquele show maravilhoso, mas os ingressos já estão esgotados. Torço para que o pessoal do Sesc encontre condições para uma nova rodada de apresentações da banda Aurora Gordon, para a alegria dos muitos que não conseguiram ingresso.

E viva meu querido irmão Afonso Abreu, um dos grandes expoentes das noites capixabas, pai muito orgulhoso de Murilo!

Vitória, 28 de novembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

História com final feliz

História com final feliz

Fomos assistir “Ainda estou aqui” no Shopping Vitória, onde não entrava há uns 2 anos, sabendo que muita gente não tinha conseguido lugar nas sessões no Shopping Jardins. Vendo metade das cadeiras vazias, imaginei que o tema não desperta interesse aos seus frequentadores habituais.

Gostei muito do filme. Por várias razões, a começar por tratar de tema relevantíssimo de maneira envolvente para quem viveu durante os chamados anos de chumbo, já distantes, que marcaram a vida de muita gente. Trata da história real sobre os impactos e os desdobramentos acontecidos após o desaparecimento de um homem de bem, marido querido, pai de prole animada, de amigos fraternos, profissional competente, um cidadão convicto sobre o que é certo e errado.

É um filme sobre valores humanos, sobre atitudes e determinação de uma companheira de vida, sobre o amor de mãe de muitos. Um filme que me tocou, ao me fazer lembrar do pai que perdi aos 14 anos, da minha querida mãe que criou exemplarmente 5 filhos, de colegas de turma que sofreram durante aquele tempo, de um colega de república que resolveu fugir pro Chile sem deixar vestígios, para nos proteger, e de um amigo então recente que foi preso num final de tarde, na saída da Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.

Em casa, contei pra Rafael, meu filho, o que aconteceu no comecinho de 1971, com Peter Ho Peng, um colega de mestrado na COPPE/UFRJ. Gaúcho falante, que havia sido líder estudantil na UFRGS, estava animadíssimo anunciando que daria uma festinha, com churrasco e cerveja, para os novos amigos, eu incluído, no sábado seguinte.

A caminho do restaurante universitário, ele me mostrou, disfarçando, uma cena no estacionamento quase vazio que o deixou preocupado: dois homens dentro de um fusca, naquele meio dia de escaldante sol a pino, em pleno verão carioca.

Como de costume, às quatro e meia da tarde, embarcamos no ônibus contratado para trazer e levar de volta alunos e professores da Zona Sul do Rio. A bordo, as conversas foram interrompidas pela movimentação de homens fardados que, aos trancos, tiraram Peter do ônibus. Pelas janelas víamos militares armados e viaturas oficiais. O silêncio na volta foi produzido pelo estado de choque e de impotência de cada passageiro.

No dia seguinte soubemos que a direção da UFRJ havia pedido informações sobre o acontecido, mas nada foi esclarecido. Nunca mais tive qualquer notícia do meu amigo gaúcho, cujo nome nunca encontrei em listas de desaparecidos.

Enquanto contava essa história, Carol pegou o celular, digitou seu nome na busca e logo anunciou ter achado um vídeo com depoimento dele para o projeto “O Grito Ecoa”, da Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Depois de passar em revista cenas e emoções que guardo por mais de 50 anos, assisti 60 minutos de histórias de incertezas e de muita determinação daquele homem nascido em Hong Kong que veio pro Brasil com dois anos de idade. Pouco antes de vir fazer o mestrado no Rio, Peter foi orador da turma de engenharia química de 1970, segundo ele sob olhar raivoso do Reitor da UFRGS.

Ele conta que ficou preso por mais de 10 meses, que foi preso uma segunda vez, que sofreu torturas e que anularam seus documentos brasileiros, obrigando-o a buscar apoio da embaixada inglesa, que lhe forneceu passaporte do Reino Unido, possibilitando que fizesse pós-graduação nos USA e lá permanecesse até retornar ao Brasil nos anos da década 2010.

No vídeo, ele chora copiosamente, por mais de um minuto, ao contar que ao receber sua nova carteira de identidade em solenidade especial da Comissão da Anistia, ele voltava a ser um brasileiro, o que nunca deixara de ser. O seu caso, expressão crua e perversa de regimes autoritários, está narrado em detalhes, em livro sobre aqueles tempos.

Fiquei sabendo que Peter voltou a viver nos Estados Unidos faz anos. Pelo que vi, ele não é muito atuante na internet. Estou tentando achar quem possa me ajudar a falar com ele. Como o mundo dá voltas e os ventos são favoráveis, tenho certeza de que dará tudo certo.

Vitória 14 de novembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vamos consertar o que estragou

Vamos consertar o que estragou

Definitivamente, sou um homem do tempo antigo. Desses que ainda não se adaptaram totalmente aos tempos modernos, com novidades sensacionais, produtos maravilhosos, valores nem tanto, e impactos diretos na vida das pessoas.

Percebo que muitas vezes sou pego de surpresa ao saber que acabou o que sempre usei, que está sendo atualizado, que existe um novo e assim por diante. Percebo que está em curso um vigoroso movimento em favor da criação de expectativas, ao sabor das decisões e de forças que utilizam o poder do marketing para atrair atenções, e, sobretudo, gerar desejos em grande escala.

Fumante inveterado, ganhei de meu filho Bento um isqueiro Zippo, daqueles com que os bonitões de Hollywood acendiam seus cigarros, em cenas que valorizavam os movimentos e a primeira baforada. Até então eu usava isqueiros Bic, que me fizeram entender que o mundo dos produtos descartáveis estava sendo instalado.

Fiquei atordoado ao constatar que, terminado o gás, seu componente mais barato, o invólucro de plástico, a capa metálica, o sistema com mola e válvula para abrir e fechar, o mecanismo de produzir faísca (com rebolo, pedrinha, mola fininha e pino), vão pro lixo.

Como se sabe, sou um cidadão que gosta de fazer colheres de bambu com ferramentas bem simples. É um servicinho leve, que exige alguma habilidade manual e que pode ser feito em qualquer lugar, inclusive andando na praia.

Tenho claro que aprendi a trabalhar com as mãos ainda menino lá em Cachoeiro. Nos anos de 1950/60, a garotada precisava fazer seus próprios botões de futebol de mesa, porque não tinha onde comprar. A matéria prima era a casca de coco e as “ferramentas” eram o cimento caracachento das calçadas e os cacos de vidro cortantes.

Além da satisfação de fazer coisas, tenho boa disposição para consertar o que quebrou, estragou, parou de funcionar e tudo o mais que acontece de problema numa casa movimentada. Curiosidade, paciência, habilidade, disposição e desafio são requisitos do sucesso nesta área.

Sou demandado com boa frequência para dar jeito em torneiras, tomadas, portas. Descobri que pedaços de bambu são de grande utilidade para consertar cabos de panelas e facas. Nas pescarias de praia desfazer “cabeleira” de nylon de molinete era um ótimo passatempo quando não tinha peixe.

Muitas vezes, por falta de competência, ferramental adequado e medo de choque, tenho que chamar alguém capaz de resolver a encrenca. Antes, os salvadores da pátria chegavam de ônibus ou de bicicleta, depois de moto e, agora, em camionetes e vans, no melhor estilo de empreendedores de soluções.

Sem falsa modéstia, acabei criando fama e é comum ser chamado para resolver perrengues em casa de amigos e parentes. Beatriz, minha irmã, é uma demandante inveterada. Há pouco tempo dei jeito numa mesa muito antiga que estava com o sistema de expansão do tampo emperrado. Além da sua carinha de satisfação, ganhei também camisa de linho em “pagamento”.

Dentre os mais criativos consertos que já fiz, está o de conseguir, usando apenas 3 palitos de mesa, fazer o ventilador de teto da casa de um amigo produzir vento refrescante, em noite calorenta, para a felicidade dos convidados.

Em Brasília, consegui desentupir a pia do lavabo, com um pedaço de cordão grosso. Era daquelas antigas, enormes, com coluna fixada perto da parede, impedindo o uso de ferramentas para desrosquear o sifão. Encasquetado, lembrei que, proeiro que fui, caçava as velas dos barcos usando  cabos enrolados em volta de uma peça cilíndrica dotada de catraca. Foi Carol quem me lembrou desse feito.

Há poucos anos, Diana e Nélio acharam uma cadeira de balanço numa caçambas de obras e me desafiaram a recuperá-la. Como o estado dela era deplorável, o serviço de raspação, lixamento e esfregação de breu consumiu uns 10 dias. No YouTube tem vídeo que mostra o que foi feito e, de quebra, o sorriso vitorioso do consertador de cadeira.

Por tudo isso, defendo, com unhas e dentes, que todas as crianças sejam estimuladas a usar as mãos para fazer e consertar. Seria muito bom se cada qual ganhasse uma caixa de ferramentas no Natal.

Vitória, 31 de outubro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem te viu, quem te vê

Quem te viu, quem te vê

Tenho andado menos do que deveria, pelas ruas e na areia da praia da esquerda. Isso me traz uma dose de culpa, por saber que caminhar, pelo prazer de andar em ritmo adequado, faz bem pra saúde. Pelos anos que ando por calçadas e asfaltos das redondezas, posso dizer que conheço razoavelmente muito do que está à vista, seus buracos e imperfeições, até a condição das sombras nos diferentes horários das manhãs.

Digo também que acompanho a evolução da produção de frutas que existem nas calçadas, nos quintais e na areia da praia: abricós, mangas, jamelões, cajás, seriguelas, amoras, pitangas e cocos, sem falar nos coquinhos das palmeiras imperiais da pracinha. Aproveito para apreciar as flores que estejam à vista, incluindo acácias, buganvílias, algodão da praia, nuvens azuis, íris, orquídeas, iucas, bromélias e tudo o mais.

Do mesmo modo, acompanho as obras que estejam sendo feitas em casas antigas da Ilha do Boi, quase todas de dois pavimentos e esquadrias de madeira, alterando o padrão estético que vigorava quando chegamos em Vitória nos idos de 1987.

Tenho acompanhado a construção de casas nos poucos terrenos ainda vazios. Quase todas no estilo caixotes decorados, escondidas por muros altos e coroados com fios de alarme, arames cortantes, farta iluminação e câmeras de vídeo. A preocupação com segurança passou a ser fator determinante na definição dos projetos arquitetônicos.

Já não existe mais o banco comprido que os primeiros moradores instalaram na calçada na parte plana da rua das praias. Dá pra imaginar o tanto de lero-lero amistoso e safadinho que eles praticavam nos fins de tarde. Na nossa rua, quase um terço das casas que existiam passaram por reformas radicais. Umas três delas foram praticamente desmanchadas, para dar lugar a outras, já no novo estilo. Dos moradores antigos restam poucos: as crianças cresceram e foram cuidar da vida e muitos pais se mudaram para apartamentos.

Nas praias, as mudanças também foram relevantes, sobretudo no perfil dos frequentadores e nos esportes que homens e mulheres praticam. Na areia, surgiu a altinha e na água as turmas que praticam natação em busca de saúde e como treinamento para travessias de longo curso. Volta e meia canoas havaianas atracam na areia, para que seus marinheiros de primeira viagem possam descansar e, sobretudo, festejar o fato de estarem fazendo força juntos, em plena manhã ensolarada.

Na semana passada, ao chegar na praia ainda deserta, vi que a areia estava repleta de tanajuras, quase todas já mortas. As vivas, caminhavam sem qualquer objetividade, como que totalmente atônitas. Pelas minhas contas, a revoada daquelas formigas aladas e bunda enorme, foram trazidas pelo vento Terral durante no comecinho da manhã.

Aquela cena me trouxe duas lembranças: a de uma longa revoada de tanajuras saídas de dezenas de buracos no gramado da nossa Superquadra em Brasília. O formigueiro devia ser enorme e todo ramificado. Tão logo elas saiam da terra, exercitavam as asas, até então coladas ao corpo, e logo alçavam voo, todas numa mesma direção.

A outra lembrança é de um menino do interior, que ouvia adultos dizerem que farofa de bunda de tanajura era uma maravilha.

Vitória, 16 de outubro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sinal Vermelho

Sinal Vermelho

Estou ficando velho, tomando tenência da finitude da vida, sabendo que o tempo passa a ser, e cada vez mais, uma variável extremamente relevante.

Percebo que a minha paciência se esgota muito mais rapidamente do que antes, quando achava que tinha tempo sobrando. Tenho tido a prudência de não gastar meu tempo tentando convencer, amigos teimosos de nascença, eleitor fiel de candidato desvairado, torcedor do Flamengo, e assim por diante. Além de economizar o que tenho pouco, diminui o risco de perder amigos e parentes. Dependendo da situação, tento mudar de assunto e faço uma pergunta ingênua, me faço de desentendido e, se não for deselegante e indelicado, saio de perto.

Passo horas cortando e raspando bambu em busca de uma forma que seja funcional e simpática, uma atividade onde o tempo não é levado em consideração, sobretudo se estou fazendo algo para presentear alguém. Sempre aproveito a ocasião para passar em revista histórias que temos em comum. Consertar o que estragou também é algo que faço com satisfação, sobretudo se o serviço incorporar dificuldades que vão exigir habilidades, competências e recursos especializados. Quanto maior o desafio, mais me instiga e diverte, independente da sua duração.

Agora, ficar parado diante de um semáforo no vermelho, numa esquina sem viva-alma, comprovadamente sem veículos de qualquer tipo, tem me irritado muito. Muitíssimo, para ser mais exato. A sensação que me invade é a de que estou fazendo papel de otário, de corno manso, de cidadão totalmente reprimido, medroso de ser penalizado por falta grave.

Há de existir quem se disponha a estimar o tempo total que se perde a cada dia esperando o sinal abrir para seguir em frente com total segurança e educação. Se deixar de lado a precisão, é conta de multiplicação relativamente simples, que considera a quantidade de semáforos existente na cidade, o número de vezes que fica fechado durante um dia, a duração média de cada ciclo completo de abre e fecha, a quantidade de veículos esperando a vez de seguir viagem com motorista e passageiros a bordo, e tudo o mais.

Fazendo contas grossas, encontrado um número espantoso, caberia aplicar um desconto radical e generoso para não parecer exagero. Mesmo assim, o resultado final indicaria uma quantidade absurda de anos de vida que a população perde esperando, sem qualquer razão razoável, o semáforo abrir.

Na semana passada estivemos em Brasília para comemorar o aniversário de 84 anos de Itiro Iida, amigo meu desde 1971 e com quem muito aprendi. Além de rever muita gente querida, me dei conta de que a solução viária do Plano Piloto, definida na década de 1950, prima pela inexistência de semáforos a cada esquina, proporciona fluxo de veículos de altíssima eficiência e, também, segurança aos pedestres, que têm preferência total para atravessar ruas e avenidas.

Que o fluxo de carros está cada dia mais intenso, demandando adequação das vias e gerenciamento inteligente do tráfego em busca de racionalidade e conforto aos usuários de veículos e aos transeuntes, todos nós sabemos.

Se não for pedir muito, que venham mais conversões liberadas à direita nas esquinas da cidade, recomendando a devida atenção dos motoristas em favor dos que não tem tempo de vida a perder.

Vitória, 22 de agosto de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já tenho candidatos

Já tenho candidatos

Devo confessar que fiquei mais animado com os acontecimentos recentes das eleições nos Estados Unidos. O cenário de vitória praticamente certa de um cafajeste topetudo parecia irreversível sob vários aspectos, sobretudo pelo que poderia gerar em termos de desdobramentos políticos em outras regiões do planeta, inclusive aqui. A entrada em cena de uma mulher valente, preparada e dona de sorriso farto e poderoso, alterou radicalmente o cenário da disputa, produzindo uma inesperada reviravolta no quadro das certezas e das verdades.

Tenho a sensação de que muito dificilmente o candidato republicano vai se safar de uma derrota nos votos, ainda que apertada. Acho que acontecerá uma queda razoável nas convicções de correligionários insatisfeitos, e até envergonhados, em apoiar a reeleição de uma pessoa conhecidamente prepotente, que desagrada quem contrarie suas expectativas. Pode parecer exagero, mas a caricatura que me vem é a de republicanos desgostosos esfaqueando pelas costas o candidato que vai perder a eleição e, de quebra, o poder que acumulou.

Por aqui, tenho acompanhado, sem expectativas e entusiasmos, as eleições para prefeitos e vereadores em algumas capitais. A entrada em cena de um candidato fora dos padrões correntes, lá pelas bandas de São Paulo, tem produzido muita fumaça e emoções, com grande repercussão no noticiário de grandes jornais, redes de TV e num sem fim de canais na internet. Embora reconheça a relevância dos fatos, prefiro não gastar meu tempo com cenários de consequências possíveis e improváveis, nas eleições atuais e nas seguintes, país afora.

Aqui, posso dizer que já tenho candidatos a prefeito e a vereador. O primeiro é meu amigo há décadas, com bagagem repleta de bons serviços prestados ao público. O outro é um cidadão de uns 30 anos, disposto a ampliar o que vem fazendo em favor de pessoas envolvidas com projetos e experiências inovadoras, para muito além do conforto nos chamados empregões. Ele acredita piamente, como eu, que o futuro da nossa cidade será determinado pelo sucesso de empreendimentos de base tecnológica que brotarem aqui.

Esta semana participei, ao lado de umas 150 pessoas, de uma animada reunião da campanha do meu candidato à vereança, destinada a motivar eleitores convictos e a transformá-los em dedicados cabos eleitorais em busca de votos de amigos, colegas e familiares. Os pressupostos são bem sensatos: a indicação de um candidato confiável e com boa chance de vitória é quase um favor que se faz a quem ainda não tem um deles pra chamar de seu.

Saí de lá com a sensação de que a mobilização vai dar certo e que a cidade vai ganhar muito com sua atuação. Na volta pra casa me lembrei do esforço que fizemos para tentar eleger meu irmão Afonso para a Câmara de Vereadores de Vitória, em eleição no século passado. Sendo uma pessoa muito conhecida, respeitada e querida na cidade, a família inteira e amigos de fé se mobilizaram numa campanha sem recursos, entendendo que ele poderia ter atuação relevante em favor das atividades e projetos culturais, em continuidade ao que já vinha fazendo ao longo de décadas.

A danação foi o nosso candidato não se animar a ir pra rua para se mostrar e, sobretudo, pra pedir voto, preferindo ficar em casa às voltas com seu contrabaixo. Resultado: Afonso perdeu por pouco e acho que nem recebeu agradecimento do colega que foi eleito com a ajuda dos muitos votos que meu irmão teve, que só serviram pra engordar os da legenda do partido.

Vitória, 19 de setembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA