Sinal Vermelho

Sinal Vermelho

Estou ficando velho, tomando tenência da finitude da vida, sabendo que o tempo passa a ser, e cada vez mais, uma variável extremamente relevante.

Percebo que a minha paciência se esgota muito mais rapidamente do que antes, quando achava que tinha tempo sobrando. Tenho tido a prudência de não gastar meu tempo tentando convencer, amigos teimosos de nascença, eleitor fiel de candidato desvairado, torcedor do Flamengo, e assim por diante. Além de economizar o que tenho pouco, diminui o risco de perder amigos e parentes. Dependendo da situação, tento mudar de assunto e faço uma pergunta ingênua, me faço de desentendido e, se não for deselegante e indelicado, saio de perto.

Passo horas cortando e raspando bambu em busca de uma forma que seja funcional e simpática, uma atividade onde o tempo não é levado em consideração, sobretudo se estou fazendo algo para presentear alguém. Sempre aproveito a ocasião para passar em revista histórias que temos em comum. Consertar o que estragou também é algo que faço com satisfação, sobretudo se o serviço incorporar dificuldades que vão exigir habilidades, competências e recursos especializados. Quanto maior o desafio, mais me instiga e diverte, independente da sua duração.

Agora, ficar parado diante de um semáforo no vermelho, numa esquina sem viva-alma, comprovadamente sem veículos de qualquer tipo, tem me irritado muito. Muitíssimo, para ser mais exato. A sensação que me invade é a de que estou fazendo papel de otário, de corno manso, de cidadão totalmente reprimido, medroso de ser penalizado por falta grave.

Há de existir quem se disponha a estimar o tempo total que se perde a cada dia esperando o sinal abrir para seguir em frente com total segurança e educação. Se deixar de lado a precisão, é conta de multiplicação relativamente simples, que considera a quantidade de semáforos existente na cidade, o número de vezes que fica fechado durante um dia, a duração média de cada ciclo completo de abre e fecha, a quantidade de veículos esperando a vez de seguir viagem com motorista e passageiros a bordo, e tudo o mais.

Fazendo contas grossas, encontrado um número espantoso, caberia aplicar um desconto radical e generoso para não parecer exagero. Mesmo assim, o resultado final indicaria uma quantidade absurda de anos de vida que a população perde esperando, sem qualquer razão razoável, o semáforo abrir.

Na semana passada estivemos em Brasília para comemorar o aniversário de 84 anos de Itiro Iida, amigo meu desde 1971 e com quem muito aprendi. Além de rever muita gente querida, me dei conta de que a solução viária do Plano Piloto, definida na década de 1950, prima pela inexistência de semáforos a cada esquina, proporciona fluxo de veículos de altíssima eficiência e, também, segurança aos pedestres, que têm preferência total para atravessar ruas e avenidas.

Que o fluxo de carros está cada dia mais intenso, demandando adequação das vias e gerenciamento inteligente do tráfego em busca de racionalidade e conforto aos usuários de veículos e aos transeuntes, todos nós sabemos.

Se não for pedir muito, que venham mais conversões liberadas à direita nas esquinas da cidade, recomendando a devida atenção dos motoristas em favor dos que não tem tempo de vida a perder.

Vitória, 22 de agosto de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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