Já tenho candidatos
Devo confessar que fiquei mais animado com os acontecimentos recentes das eleições nos Estados Unidos. O cenário de vitória praticamente certa de um cafajeste topetudo parecia irreversível sob vários aspectos, sobretudo pelo que poderia gerar em termos de desdobramentos políticos em outras regiões do planeta, inclusive aqui. A entrada em cena de uma mulher valente, preparada e dona de sorriso farto e poderoso, alterou radicalmente o cenário da disputa, produzindo uma inesperada reviravolta no quadro das certezas e das verdades.
Tenho a sensação de que muito dificilmente o candidato republicano vai se safar de uma derrota nos votos, ainda que apertada. Acho que acontecerá uma queda razoável nas convicções de correligionários insatisfeitos, e até envergonhados, em apoiar a reeleição de uma pessoa conhecidamente prepotente, que desagrada quem contrarie suas expectativas. Pode parecer exagero, mas a caricatura que me vem é a de republicanos desgostosos esfaqueando pelas costas o candidato que vai perder a eleição e, de quebra, o poder que acumulou.
Por aqui, tenho acompanhado, sem expectativas e entusiasmos, as eleições para prefeitos e vereadores em algumas capitais. A entrada em cena de um candidato fora dos padrões correntes, lá pelas bandas de São Paulo, tem produzido muita fumaça e emoções, com grande repercussão no noticiário de grandes jornais, redes de TV e num sem fim de canais na internet. Embora reconheça a relevância dos fatos, prefiro não gastar meu tempo com cenários de consequências possíveis e improváveis, nas eleições atuais e nas seguintes, país afora.
Aqui, posso dizer que já tenho candidatos a prefeito e a vereador. O primeiro é meu amigo há décadas, com bagagem repleta de bons serviços prestados ao público. O outro é um cidadão de uns 30 anos, disposto a ampliar o que vem fazendo em favor de pessoas envolvidas com projetos e experiências inovadoras, para muito além do conforto nos chamados empregões. Ele acredita piamente, como eu, que o futuro da nossa cidade será determinado pelo sucesso de empreendimentos de base tecnológica que brotarem aqui.
Esta semana participei, ao lado de umas 150 pessoas, de uma animada reunião da campanha do meu candidato à vereança, destinada a motivar eleitores convictos e a transformá-los em dedicados cabos eleitorais em busca de votos de amigos, colegas e familiares. Os pressupostos são bem sensatos: a indicação de um candidato confiável e com boa chance de vitória é quase um favor que se faz a quem ainda não tem um deles pra chamar de seu.
Saí de lá com a sensação de que a mobilização vai dar certo e que a cidade vai ganhar muito com sua atuação. Na volta pra casa me lembrei do esforço que fizemos para tentar eleger meu irmão Afonso para a Câmara de Vereadores de Vitória, em eleição no século passado. Sendo uma pessoa muito conhecida, respeitada e querida na cidade, a família inteira e amigos de fé se mobilizaram numa campanha sem recursos, entendendo que ele poderia ter atuação relevante em favor das atividades e projetos culturais, em continuidade ao que já vinha fazendo ao longo de décadas.
A danação foi o nosso candidato não se animar a ir pra rua para se mostrar e, sobretudo, pra pedir voto, preferindo ficar em casa às voltas com seu contrabaixo. Resultado: Afonso perdeu por pouco e acho que nem recebeu agradecimento do colega que foi eleito com a ajuda dos muitos votos que meu irmão teve, que só serviram pra engordar os da legenda do partido.
Vitória, 19 de setembro de 2024
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
