Sorrisos poderosos

Sorrisos poderosos

Não consegui finalizar a crônica da quinzena passada. Uma gripe tremenda (que faz o cidadão tremer) complementada por um torcicolo imobilizador (imobilização por dor), não me permitiram encontrar palavras adequadas para falar das boas emoções que senti ao saber que Kamala Harris seria a candidata do Partido Democrata à Presidência dos EUA.

Bem que comecei um texto lembrando que o sorriso dela havia me impressionado quando ela apareceu no palco para tomar posse na vice-presidência, sob o olhar de admiração de Biden e grande entusiasmo do público. Cheguei a mencionar que pouco sabia da sua história de vida e de suas andanças e realizações nesses últimos anos. Mas me dei conta de que guardava na lembrança a imagem de uma mulher que tinha um sorriso cativante.

Falei que fiquei animado com a desistência de Biden e, mais do que tudo, com a rapidez que Kamala demonstrou ao ver que as portas para se lançar na disputa eleitoral estavam abertas. Em poucas horas arranjou dinheiro para a campanha e angariou apoio de correligionários, condições indispensáveis para vencer disputas dentro do partido.

Nesta semana acompanhei a festa, é isso mesmo, de consagração da sua candidatura à Presidência. Quando liguei a TV, ela discursava com cara muito boa, convicta do seu prestígio e segura, agora sob o olhar generoso de um homem careca e muito simpático. Era o seu colega de chapa, que ao falar se mostrou um cidadão com histórico de vida elogiável, seguro de seus valores morais, uma pessoa de bem com a vida. O público foi ao delírio quando ele chamou pra briga a dupla de candidatos republicanos, que tratou de “esquisitos”.

Mais do que todos os presentes naquele ginásio, Kamala olhava para seu companheiro de campanha com grande admiração, certa de que ele será uma peça chave para ganhar a eleição, sobretudo, por ser proprietário de um sorriso, como o dela, capaz de angariar confiança e gerar entusiasmo.

Agora, ao acompanhar muitas disputas olímpicas pela TV, tenho visto sorrisos vencedores, sobretudo de brasileiras cientes de seus méritos e do poder de influência de sua imagem. São muitas as que disputam em várias modalidades, mas poucas as que já venceram. Emociona ver algumas chorarem ao ganhar medalhas e outras por perdê-las por pouco. Por enquanto, Rebeca, Bia Souza, Rayssa e Tati são as minhas preferidas.

Assisto os jogos do vôlei e sei que, para além das habilidades, da potência e da pontaria de cada jogadora, a coesão do grupo é indispensável nesse esporte. Gosto de ver a garra com que as nossas meninas disputam cada ponto, a alegria coletiva quando comemoram as vitórias e a solidariedade quando alguém erra e todas perdem. Elas vão tentar a medalha de bronze.

Passadas as disputas olímpicas, entram em campo os sorrisos poderosos de uma chapa de candidatos democratas, com boas chances de produzir uma reviravolta espetacular nos resultados de uma eleição presidencial relevantíssima. Até poucos dias, tudo indicava a vitória de um homem prepotente, de sorriso profissional, um topetudo no melhor estilo cafajeste.

Torço para que fique comprovado o poder contagiante dos sorrisos francos!

Vitória, 08 de agosto de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

No São João da Paraíba

Bom dia,

A crônica de hoje é cheia de nostalgia e boas emoções.

Na mala da volta, trouxemos queijo de coalho perfeito, mudas viçosas de samambaia, mel honesto da região da Pedra do Ingá e muito mais.

Até.

No São João da Paraíba

Recebemos um convite, maroto que só, de Diana, minha filha, para ir com o marido Nélio e a filha Yara passar o São João na Paraíba. Eles tinham trabalho pra fazer em Recife e em Campina Grande, terra do maior arraiá do mundo. Ela sabia que era um bom motivo para atiçar a vontade de passear em João Pessoa, onde moramos durante quatro anos nos idos do final da década de 1970, trazendo duas filhas paraibanas arretadas.

Fazia uns cinco anos que a gente não ia lá. Nesse tempo, perdemos Iveraldo Lucena, meu colega de pró-reitoria da Universidade Federal da Paraíba, um grande e querido amigo, dono de uma personalidade muito especial e chefe amistoso de um enorme clã de parentes, amigos e agregados em geral. Além da sua capacidade de equacionar situações delicadas, tinha enorme disposição para juntar gente pra comer comida consistente, beber cachaça de origem e comemorar tudo o que merecesse.

Na Granja Pitumirim, de porteira sempre aberta, ele tratou de instituir uma festa animadíssima na véspera do dia de São João pra comemorar com música, quadrilha, comida de milho e fogueira gigante, um reencontro de muitos com muitos. O convite que recebemos de seus filhos foi determinante pra comprar as passagens. Afinal, tratava-se de ir festar novamente no Menor Melhor São João do Mundo.

Melhor do que tudo foi o reencontro emocionante com Iracema, a “Nega” querida de Iveraldo, que já está quase sem memória nos seus noventa e muitos anos de vida bem vivida. Mulher dotada de convicções e atitudes firmes, uma espécie de rainha do pedaço, ao me ver de pé à sua frente, saiu da reclusão dos pensamentos e, com a melhor cara deste mundo, de braços abertos e mãos espalmadas, exclamou um sonoro “Barba!!!”, como gostava de me chamar, para a surpresa dos que estavam por perto. Confesso que as pernas bambearam e algumas lágrimas insistiram em rolar. Passamos os dias nos cumprimentando com acenos e sorrisos.

Fui levando livros sobre as colheres pra distribuir entre pessoas que tiveram passagens relevantes na minha história de vida. Um deles era pra entregar pra seu Nelson, líder de uma espécie de quilombo nos arredores da cidade de Conde, ao sul de João Pessoa, a quem consegui convencer, numa segunda investida, de me vender a foice poderosa de design altamente ergonômico, que ele havia comprado de um forasteiro.

Ele só me reconheceu depois de vasculhar a memória por alguns instantes. Dessa vez eu estava em missão de agradecimento: tratei de abrir o livro no final do capítulo sobre as minhas ferramentas, onde estão uma crônica sobre nosso encontro, uma foto da bendita foice e uma outra onde apareço ao lado dele e de Iveraldo, empunhando o que acabara de comprar.

Ao se ver na página de um livro grosso e colorido, aquele homem simples, senhor de sua importância, se transformou numa criança emocionada, que olhava e voltava a abraçar contra o peito o presente que acabara de ganhar. Deu pra imaginar a cena dele folheando aquelas páginas depois que ficou sozinho na varanda de sua casa.

Em Campina Grande marcamos presença no Maior São João do Mundo, que se estende por todo o mês de junho, admirados com a organização e conforto de uma grande área repleta de bares e restaurantes, dotada de palcos de tamanhos variados, trailers de comida e bebida, lojas de quase tudo, policiamento discreto, lotado de gente até tarde da noite de plena terça-feira.

Dito isso, registro aqui a enorme inveja que senti ao percorrer as estradas de pista dupla, perfeitas e bem sinalizadas, que ligam João Pessoa a Campina Grande. Fiquei pensando como seria bom se a nossa BR101 fosse duplicada até Cachoeiro, com vários trechos de velocidade máxima permitida de 100 km/h. Iria lá toda semana.

Vitória, 11 de julho de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frutas de antigamente

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do beribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça-curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente. Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um caju, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do Sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do biribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente.

Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias

que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé  de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um cajú, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Turismo no interior

Turismo no interior

Sábado passado foi dia de programa turístico no interior. Saímos de casa cedo, levando um casal de amigos, em direção a João Neiva, para participar da abertura da exposição “…talvez um dia ainda seja possível”, de Rick Rodrigues. A mostra está montada nas instalações da antiga oficina de locomotivas da então Companhia Vale do Rio Doce, desativada faz décadas, para a tristeza de muita gente do lugar.

Em meio a registros do que se perdeu, Rick montou painéis com bordados que fez no verso de caixas de remédio, com desenhos de pássaros e lugares ao lado de mensagens curtas e precisas, todas instigantes e patéticas. Ele nasceu e viveu lá até vir estudar em Vitória e, pelo que se vê, mantém forte vínculo com o lugar e sua gente.

A BR101 estava surpreendentemente desimpedida e, para a felicidade geral dos turistas, compramos mexerica, da verdadeira, nos arredores de Fundão. Adiante, uma fila enorme atrapalhava a vida de quem queria pegar a estrada pra Santa Tereza.

Como chegamos antes da hora, aproveitei pra ir comprar cachaça no alambique antigo situado às margens da estradinha que segue pra o oeste. É de lá que o pessoal da nossa família se abastece de purinha de primeira. Fomos atendidos pelo filho do dono, que se lembrou de ter cortado bambu pra mim em tempos remotos. Dei um livro das colheres pra ele que, alisando o presente, prometeu repassar pra filha que estuda na capital e que adora ler.

De volta, encontramos o lugar cheio de gente curiosa e risonha, muitos adolescentes e umas poucas autoridades. Vi e li tudo sem pressa e fiquei pensando no impacto que aquelas imagens e palavras poderão causar nas pessoas, sobretudo nas crianças maiorzinhas que visitem aquele lugar quase que abandonado de todo.

Por precaução, tratei de comprar cerveja sem álcool no supermercado no outro lado da avenida e, ao chegar de volta, fui convidado a ir, em comitiva, conhecer a raiz de uma gameleira frondosa que existe no barranco da margem oposta do Rio Piraquê Açu, que corre nos fundos do terreno do alambique, perfeitamente exposta num barranco que existe logo depois de um grande remanso.

O que se viu era uma espécie de dinossauro de pele amarelada, dotado de corpo, pernas, rabo e de um baita focinho. Devia ter uns 10m de comprimento, com espessuras de até uns 80cm. Um verdadeiro espetáculo da natureza, que as águas de uma grande enxurrada fizeram surgir ali. Soube que foi feito um documentário sobre aquele achado fantástico e que ele anda fazendo o maior sucesso por aí.

De lá, partimos pra um almoço festivo na casa recém construída por um casal de amigos recentes e totalmente promissores. Fomos levando, de presente, três mudas feitas com sementes de mamão trazidas da Serra da Capivara, lá do Piauí, e outra, já bem taluda, feita do caroço de um abacate que Carol tinha apreciado bastante.

Gente animada, falando alto, bebendo cerveja, descascando alho, picando temperos, catando feijão, cortando carne seca, linguiça e paio, fazendo arroz, farofa e salada, mexendo panela. Isso tomando cachaça das boas e sob sons trepidantes de caixa bem pequena.

Mesa completa, farta e colorida, fome já no ponto, muitos pratos já sendo montados. Antes mesmo das primeiras garfadas, pedi uma calorosa salva de palmas pros cozinheiros focados e seus simpáticos aprendizes. Deu gosto de ver a sinceridade e a convicção dos gulosos e esfomeados.

A viagem de volta, sem qualquer susto, perigo ou contratempo, serviu pra passarmos em revista as emoções dos encontros, os prazeres das descobertas e, também, pra confirmar que vale a pena sair de casa pra passear por aí.

Vitória, 2 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Dos Açores até Vitória

Dos Açores até Vitória

Gosto de dizer, com a melhor cara deste mundo e sem qualquer constrangimento, que faço colheres para ganhar elogios. Descobri, depois de um infarto no final de 1994, que elogios verdadeiros reforçam a autoestima e fazem bem pra saúde. Mais adiante, fui percebendo que os tais elogios vão se desdobrando na forma de reconhecimento de mérito e, porque não, de fama criada.

Virou rotina na vida de muita gente postar nas redes o que fez de bom, onde e com quem esteve, o que pensou, o que sentiu e muito mais. Isso, para reforçar amizades, abastecer grupos de pessoas e, também, para atrair a atenção de muitos. Comentários, likes, curtidas e elogios são moedas de um mesmo saco, que têm a capacidade de nos fazer satisfeitos, orgulhosos, “se achando”, como se diz.

Bem sei que melhor do que nos chega pelas redes são os beijos, os abraços e as declarações emocionadas que ganhamos ao entrar num bar, ao andar nas calçadas, ao participar de uma festa de gente conhecida.

Eu mesmo fui achado na internet por uma moça que tinha acabado de se formar em Zootecnia, lá nos Açores, por ter se encantado com as fotografias das colheres que faço. Isso, lá nos idos do início deste século.

Desconfiada, mas curiosa que só, foi ganhando confiança com a troca de mensagens. Hoje a tenho como uma amiga de longa data e que espero conhecer pessoalmente um dia. Ela se chama Cidália e a trato por Sissi; ela me trata por “amigo além mar”.

Por incrível que pareça, ela teve a pachorra de me mandar um baita presente de aniversário de 65 anos: dois queijos enormes feitos na Ilha de São Jorge e um potinho com geleia feita com frutinhas que colheu nos altos do Pico, elevação cônica e imponente que existe por lá. Para completar, ela tratou de colocá-lo numa cestinha que teceu com folha de uma planta chamada de correola. Luxo só.

Pois no começo da semana recebi um exemplar do livro que ela acaba de escrever, movida, segundo ela, “pela faúlha que respingou do livro do meu amigo além mar em mim e pelo que ele havia me dito faz algum tempo: escrever um livro deveria ser obrigatório a toda gente”.

Motivos e assuntos ela tinha aos montes. Mas no centro de tudo estavam os quadros que vem pintando nos últimos 3 anos, quase sempre para presentear amigos e parentes. Não conheço nada parecido com suas pinturas, cada qual surgida de algo muito forte das profundezas da sua alma irrequieta, sofrida e despojada de medos. Ela diz que cada qual tem motivações específicas e se realiza com os comentários, feitos a seu pedido, por pessoas da sua confiança.

Mulher disposta, habilidosa e decidida, Sissi escreveu, imprimiu, encadernou, numerou e dedicou os primeiros exemplares. O meu é o de número 7 e a sua dedicatória inclui um trevo de 4 folhas e fios de cabelos sob um selo daqueles antigos, usados para lacrar documentos.

Pelo que está devidamente registrado no seu livro, faremos uma exposição de quadros e colheres em algum lugar dos Açores, bem no início de dezembro de 2025, para comemorar os seus 50 anos em festa animada e concorrida.

Vitória, 18 de abril de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viva o Velho Urso

Viva o Velho Urso

Fui convidado a participar da abertura da Semana de Linguagens na Escola Americana de Vitória, em homenagem a Rubem Braga. Marcelo “Bamba”, músico amigo de Afonso, meu irmão mais velho, veio trazendo pessoalmente o convite e sustentou uma longa conversa na fresca da nossa varanda.

A estratégia pedagógica era pegar os alunos pelas emoções e levá-los a refletir sobre o que um homem bom e íntegro é capaz de realizar. Sempre entendi que a função primordial da escola é formar cidadãos e cidadãs de primeira grandeza, aptos a melhorar o mundo, a começar pelo que esteja ao seu alcance. Para tanto, tio Rubem me parece um ótimo exemplo, por se mover fundamentado em convicções e valores muito bem definidos.

Sugeri que convidassem, também, José Augusto Loureiro, meu colega de Salesiano, que criou e atua numa peça de teatro, na verdade um monólogo, com trechos muito bem escolhidos da vastíssima obra do nosso maior cronista. Fui levando Carol e minhas irmãs Beatriz e Ana Maria.

Para começar, acompanhamos a apresentação dos trabalhos que grupos de alunos fizeram sobre o homenageado, a partir da leitura do livro Crônicas do Espírito Santo. Fiquei com a sensação de que a plateia estaria interessada no que eu tinha preparado pra dizer, ressaltando que Rubem, sem contar Roberto Carlos, é o capixaba mais famoso e admirado no Brasil.

E tratei de lembrar que seu sucesso não foi fruto de estratégias de marketing ou coisa parecida. As explicações de sua fama estão nos seus escritos, que expressam sua maneira de ver o mundo e os valores que fundamentaram suas escolhas e atitudes.

Comecei contando que ele era filho de Chico Braga, um paulista que veio passear em Cachoeiro e por lá ficou. Encantado por Rachel Coelho, conhecida por Neném do Frade, constituiu família. Homem letrado, era pessoa querida e respeitada na cidade, tanto que foi seu primeiro prefeito.

Rubem teve 6 irmãos: Jerônimo, o mais velho, fundou e dirigiu um jornal; Newton, poeta e realizador, inventou a festa da cidade; Armando foi banqueiro; sua irmã Carmosina foi a primeira mulher a guiar carro; Yedda casou-se com um jornalista e foi viver no Rio; Gracinha, a caçula, enviuvou muito cedo de Bolívar de Abreu e criou seus cinco filhos com o apoio dele.

Rubem se movia guiado por referências que foi incorporando durante seus tempos vividos na cidade pequena, entre peladas na rua de paralelepípedos, brincadeiras nos córregos e rios, nas noites com trovoadas, junto ao cajueiro e na sombra do pé de fruta pão do quintal, ao lado do cachorro da família, comendo frutas de época, convivendo com amigos e personagens da cena urbana, incluindo Mané Sapo e Orlando Sapateiro. A casa de seus pais, sempre aberta e movimentada, foi modelo para as suas.

Ele reconhecia o valor do trabalho. Totalmente sem jeito, pagava muito bem a quem fizesse algo pra ele. Suas gordas gorjetas eram famosas. Generoso, gostava de dar presentes. Guloso, tipo esganado, adorava requeijão da Safra, doce de jaca e broa de milho, que comia gemendo.

Lembrei de contar que Rubem saiu de Cachoeiro depois de fincar o pé que não estudaria mais no colégio, porque o professor de matemática o tratou por “seu burro”. Com total apoio do pai, foi morar com contraparentes em Niterói, sempre voltando nas férias. Tenho na conta de que essa passagem foi determinante para que ele se tornasse um cidadão independente e corajoso, livre da influência de poderosos de plantão, fosse por dinheiros, cargos ou patentes. Escrevendo o que pensava, chegou a ser preso pela ditadura de Getúlio Vargas.

Pra finalizar, tomo a liberdade de usar este espaço para dizer que ler Rubem Braga faz bem pra alma e orienta a cabeça. Para tanto, seria interessante que mais gente conhecesse as Coisas boas da vida, a história da Borboleta amarela que voou no centro do Rio de Janeiro, a importância de um Pé de milho num mundo em guerra, a essência e o valor da Cidade e a Roça, as emoções provocadas por um simples Cartão de Paris, soubesse de uma praga antiga em Ai de ti, Copacabana, que imaginasse as belezas dos Retratos Parisienses, reforçasse suas Memórias de infância e muito mais, muito mesmo.

Vitória, 16 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Abrindo a roda

Abrindo a roda

No começo da semana fui lá na Biblioteca da Praia do Suá para desmontar a instalação que havíamos feito como parte da Roda de Conversa “Fazer bem feito compensa. Tratamos de contar, com máxima atenção, a quantidade de colheres que foram colocadas dentro de um grande expositor, uma espécie de vitrine, em lugar de destaque do saguão do piso superior.

Tínhamos feito uma brincadeira, um desafio, para ver quem conseguia dizer a quantidade de colheres que lá estavam. Rafael, meu filho, usou um aplicativo desses modernos, acessível pelo celular, que permite que as pessoas deem seu palpite clicando num QR code.

A conversa tinha sido muito animada e intensa. Ao todo umas 50 pessoas, entre gente conhecida, de perto e de longe, e outras tantas de carinha amistosa que eu nunca tinha visto. Deu gosto de ver o ambiente que se manteve durante quase duas horas, com perguntas cheias de curiosidades, comentários instigantes e até salvas de palmas aos que se pronunciavam.

O que eu tinha a dizer era fruto da experiência de estar às voltas com os prazeres de produzir, com ferramentas manuais, objetos e utensílios de bambu que podem ser chamados de colheres. Convém lembrar que nem só de fazer vive o homem, mais do que isso, que ele é movido por emoções. Boas, de preferência.

É nesse plano que as melhores coisas acontecem e fazem bem pra saúde. Elas começam a se instalar ao se escolher o que se pretende criar, ao se conseguir avançar na direção pretendida e ao se ver o resultado, pronto e acabado, seja ele uma peça, um quadro, um texto. O que aprendi, na prática, é que o melhor chega quando surgem elogios pelo que foi produzido, sobretudo pelo que foi bem feito, que não tenha defeitos perceptíveis.

Fazer algo que encanta e emociona alguém é condição natural para desdobramentos pretendidos e, porque não, até mesmo alguns impensáveis. Deixando de lado os aspectos relacionados com valor de venda, gosto de me concentrar nas demonstrações de apreço na forma de convites para expor, artigos em revistas e tudo o mais que acontece por obra e graça do que pessoas podem sentir ou pensar diante de uma simples colher.

Para compor o registro emocional e marcar de vez a satisfação dos presentes, menciono aqui que uma artesã de carinha sorridente soltou uma mensagem na rede intitulada “Ainda bem que eu fui”. Trata-se de uma comprovação de que foi muito prazeroso estarmos naquela roda, conversando sobre a vida e o fazer.

Outro desdobramento ocorreu ontem, quando voltei lá, levando um exemplar do meu livro, como prêmio para a bibliotecária, cujo palpite mais se aproximou das 1011 colheres expostas na vitrine. Uma festa, com selfie e tudo, se instalou quando entreguei uma colher grande que fiz para ela e uma bem pequena para a secretária que havia nos ajudado o tempo todo.

Muita gente adora facas e até faz coleção delas. Mas acredito que pouca gente já se deu conta de que adora colheres. Faz tempo, aprendi com um professor alemão de design de joias, dono de uma belíssima coleção delas, que essa atração tem motivações e origens ancestrais: a colher era o primeiro objeto que a criança tomava contato na vida, fosse ela feita com uma folha, uma casca ou um pedaço de madeira. Vai saber…

Além do prazer de fazer as colheres, me surpreendo sempre ao constatar como elas são assunto leve, bom pra abastecer conversas sobre a vida e provocar palavras, gestos e iniciativas de reconhecimento e aprendizado. Fazer bem feito compensa. E muito!

Vitória, 04 de abril de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Contando vantagens

Contando vantagens

Isso de ir ficando velho, tem lá suas vantagens. De alguma forma, elas compensam as reduções progressivas da audição e da potência muscular, e mais um tantão de coisas interessantes que vão deixando de acontecer.

Pois nesses últimos dias, tive oportunidade de reviver ótimas emoções que fui incorporando ao longo da vida, depois do infarto que tive aos 46 anos, em pleno voo de gente que trabalha muito. Por imposição da fraqueza das pernas e braços, na certeza de ter gerado emoções graves em muita gente próxima, me vi na obrigação de mudar, radicalmente, o rumo da minha vida.

Uma boa parte desse processo está registrado no livro “Crônica do meu primeiro infarto” que escrevi em 1995, a partir de um esforço de tentar entender o que havia acontecido antes, durante e depois de entrar e sair de clínicas e hospitais. As lembranças e reflexões foram surgindo durante caminhadas diárias, no ritmo possível, na areia da praia, sempre cortando bambu com minha faquinha. De banho tomado, sentava diante de um computador novinho que havia comprado com muitos dinheiros e que me foi trazido de avião lá do Rio de Janeiro.

Como o mundo dá muitas voltas, esse livro foi lido por um cardiologista que atuava na UTI do Hospital Madre de Deus, em Porto Alegre. Entusiasmado, me convidou para apresentar as emoções sentidas para a diretoria do hospital, interessada em melhorar os serviços e procedimentos. Homem prático que sou, fiz uma lista do que senti, indicando os fatores que as provocaram. A conversa durou uma manhã inteira e, acredito, deve ter produzido bons resultados para os futuros pacientes.

Foi essa lista, com mais de 60 emoções, algumas positivas e outras nem tanto, que apresentei para uma turma de alunos de medicina da UFES, no começo da semana retrasada. Posso garantir que foi uma conversa muito animada e animadora. Pra reforçar a argumentação, lembrei que as emoções do paciente são fatores relevantes para sua saúde e, radicalizei, dizendo que morre-se de raiva, de medo, de tristeza, de susto e muito mais.

Na segunda-feira passada foi a vez de falar, lá na Biblioteca Estadual na Praia do Suá, sobre o meu trabalho com bambu, em sala cheia de gente querida e pessoas que ainda não conhecia. O título da conversa, “Fazer bem feito compensa”, me veio à cabeça ao ver impresso o livro “Viva a Produção Prazerosa”, que escrevi durante a pandemia e gerou muitas alegrias em cinco festas de lançamento.

Os primeiros capítulos tratam do que gira em torno do fazer, incluindo lugar de trabalho, ferramentas, bambus, colheres e processos de produção. Os seguintes, falam sobre a divulgação das colheres e seus desdobramentos, com fotografias, histórias emocionantes sobre encontros, viagens, exposições e oficinas, dentre o que se destaca um belíssimo livro sobre meu ofício de colhereiro, produzido por um renomado fotógrafo alemão para comemorar seus 50 anos de carreira.

Tentei demonstrar por A+B aos participantes que, além de todas as satisfações associadas ao trabalho com as mãos, estão aquelas provocadas pela expressão do encantamento diante do que produzi. Se a produção prazerosa vai desde a excitação que a gene sente ao definir o que pretende fazer até o sentimento de realização que surge ao completar cada etapa do trabalho e do orgulho por ter conseguido fazer algo bonito, simpático ou funcional, ela se completa – e aqui mora a mais espetacular de todas as minhas satisfações – no elogio sincero de pessoas insuspeitas, ao ver o resultado do trabalho.

Esse encantamento tem sido se materializado em matérias de revistas, publicações nas redes, convites para exposições, oficinas e palestras, muitos presentes, incluindo ferramentas, aquarelas, geleias e pedaços de bambu. Diferentes formas de elogios expressam reconhecimento e, mais do que isso, atestam generosidade e, também, uma espécie de agradecimento. Digo isso, porque dá gosto de ver a alegria de uma pessoa, expressa por um gemido agudo e prolongado, ao pegar uma colher nas mãos e alisá-la.

Definitivamente, fazer bem feito compensa!

Vitória, 21.03.2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA”

Fortes emoções 2

Fortes emoções e tentativas

Não é pra me gabar, nem fazer inveja a ninguém, mas devo dizer que esses últimos dias foram tempo de acontecimentos relevantes, que produziram ótimas emoções.

Depois de idas e vindas, foi ao ar uma entrevista que dei para Francisco Grijó, nos estúdios da TV Vitória, sobre os meus livros Crônica do meu primeiro infarto e Viva a produção prazerosa. A nossa conversa, franca e animada, tem produzido comentários bons de ouvir. Entendo que reconhecimento é uma poderosa métrica para aferir e computar os resultados do que foi feito e, para que ele possa acontecer, é indispensável levar o que foi produzido ao conhecimento das pessoas.

Também, recebi muitos comentários safadinhos e declarações de solidariedade ao que escrevi sobre a prova de natação que ganhei, com muito esforço e alguma sagacidade, mas da qual não levei a medalha de ouro por um erro inacreditável. A evolução da competição, nas águas salgadas e oleosas do canal, foi acompanhada da calçada por muita gente, que se esgoelou nos últimos acontecimentos na chegada. Impressiona como o fato ficou na memória de tanta gente.

Falando em natação, experimento, há alguns dias, a sensação de estar rompendo com uma verdade em que acreditei por mais de 30 anos: mesmo que conseguindo andar boas distâncias em ritmo acelerado, tinha em conta, depois de algumas tentativas, de que não mais conseguiria nadar nem uns poucos metros, sem que aparecesse uma forte dor nos peitos. Pois bem, por estímulo de conhecidos que nadam na Praia da Esquerda, resolvi começar a “nadar” parado, de pé e com água no suvaco. Em outras palavras, estou dando braçadas pra frente e pra trás, em ritmo lento, como se nadando a favor de uma correnteza.

Pode parecer bobagem, mas digo, com algum orgulho, que estou conseguindo bons resultados e que em breve vou tentar nadar deitado e batendo os pés, uma atividade que me proporcionou ótimas emoções durante muitos anos. A bem da verdade, sinto uma dose de inveja quando vejo aquele pessoal nadando, como se estivessem se divertindo, em busca de saúde.

No começo da semana recebi convite da direção da Action e da Assespro, entidades que agregam as empresas de software do Estado, para participar de um encontro no início de abril, na FINDES, e beber vinho em comemoração aos resultados alcançados pelo setor em 2024. Fui informado, com toda simpatia, que as lideranças pretendem fazer a homenagem que me fariam no ano passado durante um grande evento, inviabilizado por uma falta de energia na região do Aeroporto. Ao fazer um roteiro de lero-lero de agradecimento, revi muito do que realizamos juntos a partir dos anos de 1990. Digo que me senti um cidadão moderno, apesar da minha vasta incompetência digital.

Na semana passada recebemos filho do meio e nora que aniversariava, que vieram de São Paulo para ajudar a animar as comemorações de uma década de casados que Rodrigo e Ivana Larica lá na Curva da Jurema, com muitos comes e bebes e ao som de um tremendo DJ que me fez lembrar de Jairo Maia e suas “eletrolas mágicas” comandando as festas nos clubes da cidade de antigamente.

No início da semana, recebemos a visita de Alex “Pirata”, uma pessoa muito especial, que vive na Europa faz um bom tempo, que já namorou filha nossa e que nos tem em alta conta. Foram dois dias de muita conversa sobre o que aconteceu e que deixou de acontecer e sobre os planos para aproveitar o que sabe fazer de bom e bonito. O fato de ter consolidado a incorporação de mais um agregado, por livre e espontânea vontade das partes, é animador pra nós, que temos alguns sob as asas e muitos ao lado.

Como se sabe, vivo cortando bambu em busca de uma colher qualquer. Pois bem, no ano passado fui ao Teatro da UFES assistir a uma apresentação de “Sagração”, um maravilhoso e instigante espetáculo de dança, da coreógrafa Débora Colker, de quem sou fã de carteirinha. Em cena, uns 20 bailarinos se movimentando sem parar, sempre empunhando varas de bambu de uns 4 metros e diâmetro de poucos centímetros. Na saída, procurei uma pessoa da produção e pedi que me arranjasse um pedaço daqueles bambus. Ela achou curioso e prometeu tentar conseguir.

Pois bem, no meio desta semana fomos ver a exposição de meu amigo Vilar lá no Palácio Anchieta, como ele bem merece. Estava apinhado de gente conhecida que não via faz muito. De repente, uma moça agitada olha pra mim e exclama algo como “Você é o homem do bambuuuu???” Como era de se esperar, respondi, sem pestanejar, que eu realmente gostava muito de bambu. Ela fez a melhor cara deste mundo e disse que tinha conseguido bambus com o pessoal do balé e que não sabia como me entregar. Combinamos de buscar meus bambus na próxima semana. Pretendo fazer uma colher pra Taty, esse é o nome dela, com aquele bambu cênico.

Pra finalizar, a título de comprovação de nem tudo é só alegria na minha vida, informo para os devidos fins que a manhã de ontem foi inteiramente consumida pela busca de Amora pelas ruas do bairro. A danada evadiu-se sem ao menos avisar e foi pousar no alto de um pé de cajá, lugar praticamente inacessível para quase todos. Após pedidos de socorro ao Corpo de Bombeiros e à Polícia Ambiental, coube a Nélio, meu genro mais forte e corajoso, escalar o tronco, chegar nas grimpas, sempre sob expressões de “cuidado, segura firme, …”, corromper a fujona com queijo branco e, malandramente, envolvê-la com uma toalha de mesa e colocá-la num enorme saco, agora sob palmas dos presentes. Ela vai ficar calma e reclusa no viveiro, sob meus olhares pela janela da cozinha.

Vitória, 20 de março de 2024.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na praia da esquerda

Na praia da esquerda

Vejo muita gente caminhando nas calçadas da orla da cidade, sobretudo pela manhã, sempre de tênis e roupa de academia. Eu prefiro caminhar nas areias na Praia da Esquerda, da Ilha do Boi, em busca de saúde e de alguma distração. Isso, quando estou livre de chuvas matinais, dores musculares eventuais e preguiças sistemáticas. Sempre tem novidades.

Com os anos, aprendi que andar é muito bom pra ficar matutando sobre o que está acontecendo com a gente e, sobretudo, o que estamos pretendendo fazer.

Nesta quarta-feira, cheguei lá cedinho, praticamente junto com o sol, que já nasceu disposto a torrar tudo que estivesse por aqui. A praia estava deserta, com a maré bem baixa e ondas gordas e pesadas, do tipo caixote. A faixa seca de areia grossa era bem larga e plana. A molhada era rampada.

Sem qualquer sinal de vento, o mar estava completamente liso, como bunda de anjo, como se dizia. Espelhado, ele favorece a brincadeira de localizar cardumes, o que prezo muito. A movimentação dos peixes perto da superfície faz o mar tremer, encapelar-se. Foi fácil localizar um de bom tamanho, a menos de 20 metros da beira.

Em praias abertas, é comum ver pescadores observando o mar a partir de um ponto mais alto, para orientar o pessoal que lança as redes de arrasto, visando melhorar os resultados dos lançamentos.

Desde que me entendo, durante os meses de março, grande quantidade de carapaus, peixe pequeno da família dos chicharros, frequenta as águas em torno da Ilha do Frade e das Galheta. Para a felicidade dos pescadores de berés.

Sem usar redes, munidos de varas fininhas e de camarão como isca, marmanjos de todos os tipos praticam, de cima de pedras ou embarcados, uma espécie de pescaria de competição.

Pelo que vejo, pouca gente sabe que a pesca desses peixinhos, valentes que só, pode reforçar amizades antigas e proporcionar lembranças duradouras.

Andando sem pressa e cortando bambu com uma faquinha, localizei uns vinte guruças, caranguejos brancos que habitam a areia da praia. Ariscos, eles ficam ao lado do buraco, atentos à movimentação em volta e tratam de emburacar diante de qualquer ameaça. Eram todos ainda bem pequenos.

Mesmo procurando bastante, não encontrei sinais de corruptos, bichinhos bem estranhos que vivem em buracos feitos na parte da areia só vista na maré vazia. São iscas de primeira, para peixes graúdos.

Já pensando em voltar pra casa, vi de longe um casal chegando. O homem chutava uma bola e a mulher falava ao celular. Ela se sentou em posição de lótus e ele, caminhando na minha direção, puxou assunto. Simpático, aceitou meu convite de ir até a ponta leste da praia, para ver o espetáculo que eu acabara de presenciar: arraias nadando em volta de uma pedra enorme, quase submersa, a menos de 5 metros da gente.

Contei pra ele que na semana passada, andando com Gael, meu neto, tinha avistado duas delas saltando e batendo de barriga na água. Com cara de entendido, disse que elas deviam estar comendo os sururus pequenos, que este ano se apresentam abertos sobre a laje de pedra, coisa que eu nunca tinha visto na vida.

Na verdade, sou um homem experiente em sururu, desses que acompanha o crescimento das conchas e, no verão, arranca os mais graúdos, em lugares estratégicos, pra comer em casa.

Tem quem saiba que foi caminhando na Praia da Esquerda que consegui juntar e organizar ideias e lembranças para escrever dois livros. Pois agora, pretendo me preparar para uma roda de conversa sobre o mais recente deles, com histórias relacionadas às minhas colheres de bambu. Vai ser lá na Biblioteca Estadual, na Praia do Suá.

Vitória, 07 de março de 2024.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA