Saudade do Caderno Dois

Saudade do Caderno Dois

Dei pra ficar saudosista. Não sei bem as razões, mas tenho me pegado lembrando de fatos corriqueiros da minha vida de morador de cidade pequena. É bem possível que alguém possa dizer que isso é coisa de gente velha.

Tenho lá meus motivos. A título de exemplo, conto que fui assistir um concerto da Camerata Brasil, que tem à frente o grande pianista, arranjador e maestro Marcelo Bratke, na Casa da Música Sônia Cabral. Merecia estar lotado, mas havia muito lugar vazio. Só soube do evento poucas horas antes, por amiga querida.

Posso garantir e até depor em juízo, se necessário for, que o mundo está ficando cada dia mais impróprio aos que foram criados afastados – por impossibilidade ou por gosto – das novidades que chegam e somem das telas num piscar de olho, para dar lugar a outras similares.

Confesso-me sem paciência com esse bombardeio de notícias e ofertas que me chegam pela internet, de “se-amostragem” individual ou de pequenos grupos, de chamamentos trepidantes ou sedutores para participar de eventos, comprar produtos e serviços. Isso, sem falar naquele monte de lixo eletrônico que pessoas que pouco produzem de bom e bonito, enviam para deus e o mundo. Sem querer tripudiar, acho que isso já virou modo de vida pra gente desocupada.

Até acredito que esse afastamento progressivo das telas pode ter consequências ruins, mas estou, a cada dia, mais saudoso dos Cadernos Dois, B e afins dos jornais impressos. Eles nos informavam, de modo organizado, em notas e matérias, o que estava acontecendo nos cinemas, teatros, galerias, bares, livrarias, e mais onde fossem mostrados resultados de processos de criação individuais e coletivos.

Com eles, os jornais ofereciam aos leitores, em poucas páginas e colunas, um panorama sobre o que estava rolando na cidade e, mais importante, o que iria rolar, fundamental para que pudéssemos nos programar para sentir emoções diante das belezas criadas, das ousadias próprias dos inquietos, das tiradas inteligentes, dos exercícios da liberdade. Passar um olho em cada página e ir aos detalhes do que interessasse era condição para se exercer o poder da escolha, inerente aos homens livres e de boa vontade.

É bem verdade que existem sites, inclusive de jornais digitais, que oferecem informações relevantes, embora com dificuldade de serem encontradas. Até bem pouco tempo isso era feito com o jornal aberto, na mesa do café da manhã. Um hábito prazeroso que celulares e computadores jamais serão capazes de oferecer.

Dito tudo isso, com as melhores intenções, acho que esteja chegando a hora para que alguém se disponha a preencher essa lacuna, criando e fazendo funcionar um site que reúna informações e dicas das mais diversas fontes sobre iniciativas e eventos que estejam acontecendo e, mais relevante, que estejam por acontecer na cena cultural na cidade.

Vitória, 22 de fevereiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá se vai nosso trunfo

Lá se vai nosso trunfo

No começo da semana recebi uma notícia desanimadora, frustrante, incompatível com o que entendo como decisão portadora de futuros promissores. Pra falar a verdade, ela me pegou de calça curta.

Gosto de pensar que as conquistas são determinadas por iniciativas e providências capazes de alterar o andamento, a direção e a intensidade dos processos em vigor, impondo mudanças de entendimentos e valores, criando fatos que possam produzir felicidades, convergências de interesses, coesões improváveis, possibilidades de ganhos para muitos.

Pois a tal notícia, fruto de decisões de uns poucos e, por certo, do respaldo de pessoas físicas e jurídicas, vem na contramão do interesse geral, destituída de compromisso com processos vitais para o setor de extração, beneficiamento e comercialização de rochas ornamentais, estratégico para a economia do Espírito Santo.

Digo isso com a maior convicção. Explico: nos idos de 1988, atuando no BANDES, sob a direção de Odilon Borges, participei de um movimento de modernização de setores tradicionais da economia capixaba.

Tenho satisfação de constatar que aquela iniciativa produziu resultados fantásticos para os setores de mármore e granito, de metal mecânica, de confecções, de produção de mamão e de café de qualidade.

Naquela época, os olhos e as expectativas estavam inteiramente direcionadas para os chamados grandes projetos, geradores de oportunidades para muita gente, embora responsáveis por lançar, em grandes quantidades, particulados poluentes para a população da Grande Vitória.

Cachoeirense descarado, fundamentado na metodologia de promoção de desenvolvimento setorial que vim trazendo do CNPq, em Brasília, e, sobretudo, apoiado por muitos empresários entusiasmados, criamos o CETEMAG para se dedicar à modernização das condições de produção, gerenciamento e comercialização de mármores e granitos.

A Feira de Cachoeiro, criada em novembro de 1989, sob nossa iniciativa, é marco decisivo de um movimento vigoroso, autêntico e coeso que foi colocado em marcha. A decisão de criar um evento desses num lugar aparentemente improvável, foi motivada pela notícia da realização de uma feira similar em São Paulo, no início de 1990.

A correria foi grande e os improvisos muitos, mas a satisfação geral foi muito mais expressiva do que os contratempos, incluindo a instalação dos estandes em baias de grandes animais e a queda de energia durante a solenidade de abertura.

A proposta de criar uma Feira em Vitória não contou, de imediato, com a minha aprovação. “Acabar com a de Cachoeiro, só por cima de meu cadáver”, teria dito em voz alta, para quem quisesse ouvir. Gosto de pensar que prevaleceu o bom senso de orientar uma para dentro do setor e a nova, na capital, para o mercado externo. Deu super certo.

A decisão de acabar com a Feira de Vitória e abrir uma similar em São Paulo, me fez pensar, com total ironia, que deveriam experimentar levar a tradicional Feira de Verona, cidade menor do que Cachoeiro, para Milão ou Roma, onde as oportunidades de negócio podem ser mais expressivas.

Deixo registrado aqui a minha inquietude com tal decisão e faço um chamamento às autoridades constituídas e às lideranças da indústria capixaba dos mármores e granitos em favor do bom senso e dos interesses locais.

Como a feira é um trunfo estratégico pros negócios de muitos, vai ser difícil explicar pros netos que ela acabou por mero desaviso e omissão de muitos.

Vitória, 08 de fevereiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Anna Graça, nossa Gracinha

Anna Graça, nossa Gracinha

Hoje, 25 de janeiro de 2024, minha mãe estaria completando 102 anos de idade. O nome dela era Anna Graça, mas era conhecida como Gracinha. Para muito além de esposa de Bolivar de Abreu, homem animadíssimo, competente e de muitas realizações, foi mãe entusiasmada e carinhosa de cinco filhos, sogra adorada, avó amorosa de 16 netos. Seria, hoje, bisavó de 17.

Filha de Chico Braga, um paulista que veio passear em Cachoeiro e se encantou com Rachel Coelho, conhecida por Neném do Frade. Vovô, homem letrado e muito respeitado, foi designado tabelião e pouco depois, nomeado primeiro prefeito de Cachoeiro.

Mamãe era a filha caçula de uma penca de seis, 23 anos mais nova do que o irmão mais velho. Tinha lembranças dos seus tempos de infância, inclusive a da viagem de trem até Marataízes, para ver o Zepelim passar. Uma fotografia comprova que sua irmã mais velha, Carmosina, dirigia um fordeco 29, conversível, levando as irmãs no banco de trás, com mamãe segurando uma bolsinha.

Era irmã de um banqueiro, que nos presenteava com notas novinhas, de um jornalista que fundou um jornal na cidade, da primeira mulher a dirigir carro, de um poeta de mão cheia que organizava carnaval e que inventou o dia de Cachoeiro, de uma irmã que foi se aventurar no Rio de Janeiro e de um cronista que nunca deixou de lado a alma de menino do interior.

Pessoa de muito bom humor, adorava contar histórias do tempo de mocinha, quando começou a namorar firme. Deixou uma grande quantidade de cartas que escrevia para papai, estudando medicina no Rio de Janeiro, como era usual.

Disposta e corajosa, grávida, em 1955 passou a mão nos quatro filhos pequenos e foi-se para La Paz, na Bolívia, para encontrar o marido que lá estava a serviço da Organização Mundial de Saúde. Tempos depois, foram viver em Bogotá, onde a altitude era menos prejudicial pra ele.

Com a viuvez prematura e o valor da pensão bem pequeno, Dona Gracinha respirou fundo e começou a trabalhar fora. Tio Rubem passou a enviar dinheiro mensalmente e mandou um carro pra que eu e Afonso, com 15 e 16 anos, a levássemos e buscássemos no Centro da cidade. Ciumento, ele dizia aos potenciais interessados na irmã: “É bom saber que os filhos dela estão em fase de crescimento e comem muito”.

Pessoa tranquila, confiante e afável, foi vizinha querida e prestativa. Mãe de músico, nossa casa abrigou por anos Os Mamíferos, grupo de rock da pesada. Mãe de nadador, torcia na borda da piscina e na mureta da Avenida Beira-mar. Mãe coruja de formandos, dançou muitas valsas. Mãe de duas mocinhas, jamais impôs limites e estabeleceu condicionantes. Nunca reclamou de falta de dinheiro e adorava entrar num ônibus para viajar.

Com os filhos criados, inventou de estudar pintura. Tanto aprendeu que as nossas casas têm vários quadros dela nas paredes. Tenho uma vista da Lagoa do Siri e um quadrinho muito bonito de vaso com rosas de cores suaves, que vejo todas as manhãs, ao me sentar pra tomar café.

Nesta sexta, a casa estará cheia para comemorar os 40 anos de Diana, nossa caçula, que ameaçou nascer exatamente no dia de aniversário da avó. Ao saber da possível coincidência, voou às pressas pra Brasília para acompanhar a chegada da neta, que só veio à luz no dia 26.

Quando fez 89 anos, fizemos um livrinho sobre ela, com as histórias que gostava de contar, com informações sobre a evolução da família dela, anotadas em um caderninho de estimação, declarações de amor de todos nós, fotografias das suas pinturas e desenhos dos móveis que trouxe da nossa casa de Cachoeiro e que pra lá retornaram para recompor o ambiente em que viveu.

Pois é exatamente esse livrinho que Carol sugeriu que Alice e Gael, seus bisnetos, conhecessem hoje, deixando de lado as telas da TV, dos celulares e do netbook.

Vitória, 25 de janeiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tombo de menino

Tombo de menino

Antigamente, queda de menino era assunto corrente das conversas de vizinhas, no portão. Pois, recentemente, foi pauta relevante de amigas de Carol, via internet.

O tombo aconteceu num dia de casa cheia de filhos de parentes e amigos que, barulhentos e agitados, brincavam de pique-esconde, aproveitando todos os espaços das varandas e do quintal.

– Minhas queridas, hoje passamos por um grande susto: o afilhado de Diana e Nélio, de 8 anos, subiu na goiabeira pra se esconder e caiu do galho. Abriu o queixo no concreto do canteiro. Salvou todos os dentes, mas abriu um talho feio.

– Nossa, Carol, que susto! Essa região sangra muito. Ainda bem que não perdeu dentes!

– Pois é, os padrinhos, mesmo desolados com o acidente, foram rápidos no socorro. Foi atendido numa boa emergência pediátrica. Pontos internos e externos. Não conseguimos saber quantos.

– A mensagem da mãe dele ajudou muito a nos consolar: ‘Não têm que se desculpar. Isso acontece e vocês são maravilhosos. Acalme o coração de todos, porque sei que fica o susto. Ele está bem, ganhou história pra contar e perdeu o título de menino de apartamento. E simmmm, podem repetir o convite. Ele está só esperando a próxima oportunidade. ”

– Que graça!

– Super gentis!

– Uma queda bem perigosa, né?

– Meu irmão caiu de um flamboyant quando era pequeno e, felizmente, não aconteceu nada grave, mas bateu a cabeça no chão e fez um som que me lembro até hoje. A criançada ficou em choque.

– Nossa, Carol, que susto!

– Que graça e que tranquilidade da mãe em encarar o fato.

– Muita confiança nos padrinhos.

– Que bom que preservou os dentes. Férias inesquecíveis!

– Nosso Tom Tom, de 6 anos, que viu a queda, chorou convulsivamente. Yarinha, de 2, também.

– O moleque foi avisado pra não subir porque nunca tinha feito isso, mas quem segura? Uma piscada, uma queda!

– Os pais certamente têm uma grande amizade pelos compadres e uma vivência de infância que os torna mais compreensivos. Enfim, o anjo da guarda trabalhou direitinho.

– Confiança me parece ser o sentimento mais forte, no caso.

– Acho que vai virar crônica!

– Também acho, querida.

– Imagino o susto. Fico feliz em saber que está tudo bem.

– Carol, lembrei de um primo do Rio, que era hiper agitado, e chegava na minha casa já se machucando. Abriu a porta do carro, correu pra pegar a bicicleta, caiu e abriu um corte grande na panturrilha. Pronto socorro na hora.

– Infância livre produz muitas histórias desse tipo. Álvaro lembrou de Rafael chegando em casa coberto de barro e sangue depois de derrapar na pista de bicicross lá em Brasília.

– Enfim, são todos sobreviventes!

– Meu filho se ralou todo nas pedras das Andorinhas, ao lado da Ilha do Frade, depois de me desobedecer e ir pular daquele pedrão. Quase me mata de susto. Tem cicatrizes no peito, no abdômen e no joelho, onde abriu um talho e levou uma cerzida. Haja coração!

– Meu irmão caiu de bicicleta numa ladeira e ficou uma semana na cama todo ralado. – – Ninguém usava capacete.

– O meu, era terrível. Se arrebentava todo. Até cair em fogueira de São João, ele conseguiu!

– Tenho pouca história de machucados, mas quando acontecia, passava um merthiolate e voltava pra brincadeira.

– Li as nossas mensagens pra Álvaro e ele disse que a crônica tá pronta, rsrsrs. Pediu nossos textos…

– Autorizado!

– Nosso papo, até agora, vai dar umas 3 crônicas. Kkkk!

– Que dia movimentado, Carol !!!!

– Adorei os pais do moleque e estou doida pra ler a crônica.

Vitória, 12 de janeiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viajar é viver

Viajar é viver

Nesses últimos 30 dias estive com Carol em São Paulo, Fortaleza e Brasília.

Fomos a São Paulo para rever filhos e netos, com direito a dengos, comida gostosa, muitas risadas e, porque não, algumas ações de regulagem amistosa em adolescentes distraídos.

A Fortaleza, para palestrar sobre o que andei fazendo, há 30 anos, em favor da indústria capixaba de rochas ornamentais. O convite era para ajudar a pensar o desenvolvimento das atividades de extração, beneficiamento e comercialização daqui por diante. Foi ótimo pra ativar emoções novas e reativar outras tantas, já embranquecidas pelas décadas.

Adorei rever Fortaleza, que me surpreendeu positivamente, a começar pelo Centro de Eventos, uma obra gigantesca, com capacidade de sediar, com conforto, várias feiras simultâneas, com estacionamento coberto pra uns 4000 carros.

Fomos visitar a UNIFOR, que comemora seus 50 anos com uma magnífica exposição de pinturas de primeira grandeza e uma outra, enorme, de obras de artistas locais. Seu campus oferece instalações propícias ao bem-estar e à circulação, pela sombra, em jardins bem cuidados.

Por recomendação, feita com orgulho, por ser o melhor da América do Sul, conhecemos o Museu de Fotografia, ao lado de alunos atentos às explicações de monitores sobre a história das técnicas e das imagens expressivas que lá estão.

Visitamos também uma retrospectiva que esmiúça a vasta e diversificada produção de Antônio Bandeira, artista cearense que morreu muito novo. Fiquei pensando no mérito de um esforço como aquele, capaz de mostrar pra muitos o tanto que um homem foi capaz de fazer em tão curto tempo e pouquíssimos recursos.

Logo em seguida, viajamos pra Brasília, para reabastecer amizades e assistir Paul McCartney no Mané Garrincha, tipo de programa que nunca pensei em fazer, por não ser chegado a aglomerações. A previsão era de que ele, nos seus 81 anos, tocaria e cantaria por 3 horas seguidas. Malandro experiente, ciente de que minhas pernas já não são de atleta, achei por bem comprar um banquinho retrátil. Ao me verem sentado, teve quem achasse graça e, sobretudo, quem ficasse de olho grande, despistando.

No dia seguinte, passei horas na banca da Bebel Books, na Feira Motim, no Museu da República, autografando livros, com cara de colhereiro-escritor, incluindo ex-colegas do CNPq e do MEC, passados 30 e 40 anos, respectivamente.

Por sugestão do meu querido professor Itiro Iida, fomos visitar o Galpão do Bambu, nos arredores da cidade, criado e mantido por Poema, dançarina acrobática que se dedica aos bambus desde o plantio, tratamento e corte até seu uso em espetáculos e em oficinas que ministra.

Como se não bastasse, acabo de receber convite para dar palestra e oficina sobre fazer colher lá em João Pessoa, onde moramos durante 4 anos e de onde trouxemos duas filhas paraibanas convictas.

Vitória, 07 de dezembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

O pó nosso de cada dia

O pó nosso de cada dia

No começo da semana, li, neste jornal, uma matéria bem completa sobre a situação dos sistemas de controle da poluição atmosférica da Grande Vitória. Gráficos apresentados demonstram que a “Eficiência de todas as estações caiu a zero em cinco anos”. Parece exagero, mas é o que a repórter constatou. Se vivo, o Padre Conselheiro dos meus tempos de aluno do Salesiano diria em alto e bom som: “Vergonheira, sô!”

O bem-aventurado vento nordeste, sobretudo em tempos de ondas de calor insuportáveis, tem soprado na mesma intensidade das rajadas que a gente enfrentava, fazendo força e achando bom, nas regatas de snipes na Taça da Cidade de Vitória, nos setembros da vida de rapaz. Só que, desde os anos 1980, continua trazendo a sujeira da Ponta do Tubarão pra cá.

Pois na noite de segunda feira, recebemos a visita de amigos queridos. Achamos por bem aproveitar a fresca da varanda, lugar próprio para colocar em dia as conversas e as emoções de provar o queijo e a cachaça que trouxeram de Teófilo Otoni.

Depois de passar vergonha, pedi licença pra limpar cadeiras e o tampo da mesa esfregando tudo em três rodadas de pano úmido. Na primeira, o preto do pó se apresentou pleno, convicto, senhor poderoso da situação. A sujeira descarada era tanta e tão consistente, que dava a impressão de ser algo normal e aceito. No passado, dava orgulho a alguns desavisados.

Como viajamos na semana passada, o carro passou bem uns 5 dias ao relento, em frente de casa. Sua lataria escura estava coberta por uma camada espessa e meio peguenta de sujeira formada pelo pó que, depois de sair das pilhas de minério e das chaminés, ganha a maresia das águas e vem se instalar nas superfícies, nas gretas e nos pulmões.

Vida que segue, na segunda-feira fui com Carol buscar Yara, neta caçula, na creche. Pois a danadinha, muito atenta, nem bem entrou no banco de trás e foi logo dizendo que queria ir lavar o carro no posto, um programa infantil sensacional, que experimentou há pouco tempo.

Ela tinha adorado ficar dentro do carro vendo o homem jogar um jato de água fortíssimo na lataria e nos vidros, fazendo barulho. Espantada no começo, logo, logo se entusiasmou ao ver o jato de espuma de sabão ir cobrindo rapidamente o que estivesse fora do carro, inclusive o rapaz que apontava o bico da mangueira pra ela.

Antes mesmo da espuma escorrer totalmente pelos vidros, foi a vez de ver um pedaço grande de esponja sendo esfregado em círculos e riscos, deixando limpo por onde passava. Ela acompanhou com atenção o rapaz esfregar, com movimentos rápidos e certeiros, todas as janelas, o capô e partes da lataria. Terminado esse serviço, ela levou um baita susto quando surgiu novamente aquele jato d’água fortíssimo, que deixava tudo livre de sujeira e da espuma de sabão.

Quando o cenário externo voltou ao normal, a danada da menina fez biquinho de não gostou e carinha de quero mais. Avô esperto, tratei de dizer pra ela que lá em casa tinha mexerica azedinha esperando por nós.

Vitória, 16 de novembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nem tudo são flores

Nem tudo são flores

A história do nascimento de dois sabiás no quintal é coisa para se guardar e para contar. Bastava me aproximar do ninho que os pais apareciam. O macho se mantinha mais afastado e a fêmea, sempre em guarda, controlava bem de perto meus movimentos, meio que querendo avaliar minhas intenções ao colocar comida num vaso ao lado.

Volta e meia ela dava um rasante sobre minha cabeça, como que dizendo pra manter distância dos filhotes. Foram tantos os rasantes que fiquei com a impressão de que ela estava me fazendo festa e resolvi incluir no cardápio, mamão e ração de arara, além das pitangas.

Foram uns cinco dias nessa mesma toada, com os sabiazinhos crescendo, ganhando penas e sempre abrindo a boca amarela quando a mãe chegava com comida na ponta do bico.

Na semana passada, ao chegar na varanda para a inspeção matinal de rotina, percebi que algo anormal havia acontecido, tamanha era a gritaria dos sabiás. Eram gritos de desespero, como que me pedindo providências para algo terrível que tinha acontecido.

Custei a acreditar, mas o ninho estava vazio. Homem experiente, passei os olhos na vegetação em torno do pé de romã, em busca dos filhotes. Nada de nada. Como eles ainda não conseguiriam sair dali voando, imediatamente me lembrei do gavião que sobrevoa o bairro em busca de comida fresca. Por instinto, Amora sempre grita ao vê-lo passar lá no alto.

Foram 4 dias de desassossego dos sabiás e dos humanos que frequentam a casa. Isso, até eu avistar, pela janela do quarto, um filhote pousado no talo de uma folha de um dos mamoeiros, talvez atraído pela cor vibrante de um mamão madurinho. Logo avistei a mãe, agora tranquila, observando a cena do alto de um galho da goiabeira.

Digo aqui que as minhas perdas recentes foram para muito além de um filhote de passarinho que mal conheci. É que perdi, em poucos dias, muita gente com quem muito convivi em diferentes fases da minha vida, incluindo: um amigo de infância, o moleque mais levado de Cachoeiro; um ex-contemporâneo de Escola Politécnica que produziu estudos que fundamentaram investimentos relevantes no estado; um simpático empresário do ramo de padaria, que apoiou o que pretendi fazer quando voltei pra Vitória e levei um susto ao saber da morte da esposa de um amigo visionário que modernizou setores tradicionais da nossa economia. Perdi também um amigo de longa data que se dedicava a publicar livros sobre personagens e lugares relevantes do Espírito Santo. Como se tantas perdas não bastassem, dia desses perdi o sorriso de uma querida senhora que viveu mais de cem anos em paz com o mundo.

A notícia boa é que fizemos a primeira colheita de mamão papaia no nosso quintal. Dois já bem madurinhos e outro, maior, ainda de vez. Com a produção caseira, além de satisfação garantida, pretendo economizar alguns reais no café da manhã. Isso porque mamão praticamente dobrou de preço nos últimos meses, talvez porque os de Linhares devem estar sendo exportados a preços elevados. Os do tipo formosa que tenho comprado vêm com selo informando que foram produzidos no Vale do Rio São Francisco, lá pelas bandas de Pernambuco.

Vitória, 18 de outubro de 2023

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu

Novos moradores

Novos moradores

Na semana passada não consegui fazer a crônica que deveria entregar na quinta-feira. Falaria sobre a trigésima edição do Vitória Cine Vídeo, uma expressão da convicção de um pequeno grupo de pessoas, sobretudo de Lúcia Caus, de realizar algo relevante pra vida da cidade.

Falaria também das vacas coloridas que estão por todo lado, criando impactos variados, inclusive nos mais distraídos e em alguns de alma mais dura. Inusitadas e instigantes, bonitas e esquisitas, expressam que é possível concretizar uma ideia fora do quadrado.

O Festival deve ter deixado saudades em muita gente e as vaquinhas estão incorporadas às paisagens urbanas, em praças e calçadas.

A danação ficou por conta das reações provocadas por duas vacinas, que fizeram de mim uma espécie de vara verde, daquelas que tremem, um senhor destituído da capacidade de produzir frases dotadas de nexo e de alguma graça, indispensáveis aos textos leves e despretensiosos.

Ainda bem zonzo, tive a grata surpresa de constatar que, finalmente, nasceram os dois tão aguardados filhotes de sabiá da praia. Vistos de longe, entre as folhas, eles ainda estão bem feios. Praticamente pelados, literalmente esgoelados, abrem um bico amarelo enorme, à espera de comida.

O ninho foi feito com galhos bem fininhos, num dos vasos de orquídea dependurados no pé de romã, bem na altura dos olhos de quem se aventure a subir na ponta dos pés para inspecionar a cena.

Não é pra me gabar, mas é bom que se saiba que a escolha daquele lugar foi feita, livremente, pelo casal de sabiás que frequenta nossa casa faz tempo. Entendo ser uma demonstração de amizade e confiança nos moradores, expressando a certeza de que suas crias serão bem tratadas e terão comida farta e saudável.

Sob a supervisão severa da mãe, venho colocando, no vaso ao lado, punhados de pitangas colhidas na hora para, depois de mastigadas, serem levadas aos filhotes. Não sobra uma.

É bom que se saiba que guardo uma foto antiga em que estou lendo o jornal aberto, sentado ao lado de uma mesa, onde um parente desse casal se refestela com um pedaço de mamão que, malandramente, eu havia colocado ali. Mais relevante do que isso, tem um vídeo, feito por Diana, nossa caçula, de uma sabiá que voa da mesa da varanda para o chapéu que estou usando enquanto caminho com cara de cidadão plenamente realizado. Com a maior tranquilidade, ela vai dando bicadas no mamão vermelho que eu tinha posto ali, sob sua observação atenta.

Por essas e outras, tenho a impressão de que, em breve, as duas sabiás almoçarão diariamente conosco, na ponta mesa da sala, no lado da varanda. Só espero que nossa querida Amora não sinta ciúmes exagerados dos novos frequentadores do lar.

Vitória, 28 de setembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre uma cidade que já foi presépio

Sobre uma cidade que já foi presépio

8 de Setembro, dia de Vitória, é data de festejar as coisas boas que a cidade oferece para quem transita por suas avenidas, ruas, calçadas e escadarias, frequenta suas casas e seus edifícios, a cada dia mais altos, se vale de seus hospitais, clínicas e postos de saúde para garantir forças, belezas e sorrisos; para quem faz compras em lojas, supermercados, mercados, peixarias e biroscas, utiliza seus restaurantes por praticidade e diversão, frequenta seus bares, pra beber umas geladas e conversar com amigos; para quem se vale de creches, escolas, faculdades e pós-graduações de qualidades reconhecidas; os que, por exercício ou prazer, saem pedalando bicicletas próprias ou alugadas por ciclovias de quilômetros, frequentam as academias de cada quarteirão, preferem caminhar nas suas alçadas com passadas cuidadosas, correr em marcha leve, ou em velocidade atlética, quase sempre atento e convicto; para quem se distrai em praças, parques e praias bem cuidadas; para os que gostam de estar em contato direto com o mar, nadando, pescando, mergulhando, velejando, remando e os que também gostam de ficar vendo a lua nascer no leste e de contemplar navios passando, imponentes.

Tenho visto na imprensa que Vitória vem se destacando como uma das melhores cidades do país para investir, empreender, trabalhar e viver. Na semana passada, li que ela é a terceira na lista das cidades mais bem varridas do país, o que me leva a pedir uma salva de palmas aos nossos garis de todos os dias, estendida ao pessoal que cuida dos jardins, da limpeza das praias e demais prestadores de serviços urbanos.

Se isso não bastasse, além da inauguração do aquaviário que facilitará a vida de muita gente e reforçará o turismo, vale incluir nas comemorações dois de fatos relevantes para os que detestam ver o dinheiro público sendo consumido pelo descaso de autoridades: a recuperação dos armazéns do Porto de Vitória e a retomada das obras do Cais das Artes.

Nutro a expectativa de ver o Centro da cidade revigorado e palpitante, livre das expressões de decadência e abandono, de lugar inservível e perigoso. Pelo que soube, alguns dos galpões, cujas fachadas compõem uma cena urbana deprimente, serão ocupados com instalações de lazer e cultura, dotados de fácil acesso e estacionamento.

Como as inaugurações do museu e do teatro devem demorar uns dois anos, seria interessante utilizar as áreas externas já cobertas e os terrenos livres de seus entornos para realizar eventos variados. Seria uma maneira de tentar incorporar, progressivamente, aquele endereço como um trunfo a mais da cidade. Ajudaria a reverter a sensação de inutilidade agressiva daqueles caixotes de concreto, que martela na cabeça de muita gente.

Vitória, 07 de setembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Fluminense e alunos do Fund╞o

Fluminense e alunos do Fundão

Tomei um voo pro Rio de Janeiro para celebrar os 50 anos de formatura da primeira turma de Engenharia de Produção da UFRJ, para qual dei aulas em 1972. Ao lado de outros dois colegas do mestrado e de Itiro Iida, um professor trazido de São Paulo, ficamos responsáveis por 4 disciplinas, tendo que preparar apostilas e materiais didáticos.

Uma trabalheira danada, um aprendizado forçado e gratificante, que tenho na conta de ter sido uma das coisas mais interessantes que fiz na vida. Celebrar junto com aqueles alunos, agora senhores de cabeça branca, era mais do que um direito.

Antes de embarcar, tomando um café com pão de queijo, notei que quatro homens vestindo camisa do Fluminense conversavam animadamente na mesa ao lado. Bateu uma inveja boa, de ver amigos fazendo programa juntos, como acontecia nos tempos de pescarias. Dali, vi torcedores na fila de embarque que ocupariam, talvez, uma metade das poltronas do avião.

Já embarcados, tricolor que sou, puxei assunto com o que estava ao meu lado e fiquei sabendo que haveria jogo importante no Maracanã. Mais: que existe uma loja do nosso time, num shopping, que vendeu mais de 740 ingressos e reservou hotéis. Tudo com desconto para associados.

A conversa seguiu animada a viagem inteira. Contei que nos idos dos anos 60/70, existia em Vitória uma movimentação similar de torcedores, conhecidos por “Malandros de Decisão”, que tomavam seus assentos num ônibus da Itapemirim por volta das 23 horas, com destino à Rodoviária Novo Rio.

Com cara de passageiros mal dormidos, pegavam um taxi até a Avenida Copacabana, onde compravam as entradas pro jogo numa lojinha no Mercadinho Azul, perto da Rua Santa Clara.

De lá, saiam caminhando até algum bar nas calçadas de Ipanema, pra ver os brotos passando a caminho das areias da praia. Tendo tomado umas tantas cervejas, almoçavam por ali e iam pro estádio com antecedência, para garantir bons lugares na torcida.

Terminado o jogo, voltavam de taxi para Zona Sul, agora para as rodadas de cerveja de comemoração ou de desgosto. Comiam alguma coisa consistente e tomavam mais um taxi, agora para a Rodoviária, pra começar a viagem de umas 9 horas de volta pra Vitória. Isso se o trecho de Morro do Coco, perto da divisa, o único ainda sem asfalto, estivesse dando passagem. Dizia-se que o atoleiro que existia ali era argumento estratégico para a empresa de Cachoeiro manter a exclusividade na exploração do trecho Rio-Vitória.

Como o mundo é mesmo pequeno, conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que o companheiro de viagem era sobrinho do meu querido Professor Ferrari, na Escola Politécnica, um dos que me estimularam a fazer o mestrado na COPPE/UFRJ, exatamente o meu destino naquela manhã.

Em terra, entusiasmado, tirou uma foto nossa e despachou pro tio, acompanhada de um áudio vibrante ao celular. Na volta, vim trazendo emoções do reencontro com meu ex-alunos sorridentes e satisfação de saber da vitória do meu time.

Vitória, 10 de agosto de 2023.

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu