No Mercado da Vila Rubim

No Mercado da Vila Rubim

Não sei de pessoas conhecidas, além do meu cunhado Astrogildo, que tenham o hábito de frequentar o Mercado da Vila Rubim e seus arredores. Mas posso garantir que sei o que estão perdendo, seja pela animação das calçadas, seja pela variedade de produtos oferecidos em lojas, vendas e bancas ou pela cara de satisfação de seus donos e vendedores.

Faz tempo que compro lá comida para as minhas araras canindé: primeiro pra Aurora, a que trouxe de Brasília nos idos de 1980/90 e que passeava em cima dos muros da nossa casa, até o dia em que sumiu; agora, pra Amora, que ganhei de presente dos filhos e amigos quando fiz 70 anos.

É bem verdade que boa parte das emoções ocorrem, em parte, pelo contraste com a decadência surda e progressiva, percebida por quem passa pelas avenidas do Centro da Cidade, repletas de portas de aço arriadas, sem indicação de recuperação da vitalidade de outros tempos.

Pois ontem foi dia de ir lá fazer compras, ainda que com pressa, pra não atrasar o almoço. Antes de mais nada, adorei ver que acabaram com a calçada inútil que separava as pistas na reta de chegada ao mercado. Ficou fácil estacionar pra comprar jujuba e, sobretudo, balinha de coco Itabira, que me oferece sabor de infância em Cachoeiro.

Pra começar, compramos um bom tanto de carne num açougue movimentadíssimo, onde a falação é animada e os preços são compensadores. Trouxe também um pouco de chouriço de porco, produzido por uma empresa de renome, que já provei e aprovei com louvor.

Aproveitei pra arranjar outro pote de gel de arnica com sebo de carneiro, um poderoso remédio pra dores lombares, torcicolos, pancadas na panturrilha e muito mais. O que havia comprado antes foi levado pra São Paulo. Na mesma lojinha, comprei uma daquelas vassouras feitas com palha durinha bem amarrada, ideal para varrer jardim, e confirmei que as peneiras perderam qualidade, talvez pela pressa dos descendentes dos que as faziam com todo capricho.

Desta vez não deu tempo pra ir na peixaria, onde gosto de comprar sarda na banca do vendedor que nem sempre concorda em me vender as que estão na pedra. Em retribuição a tal atitude, e por limpar peixe com todo cuidado, lhe dei um exemplar do meu livro das colheres. Na vez seguinte ele me perguntou, já sabendo a resposta, se o nome de mamãe era Gracinha, e foi logo dizendo que sua esposa era quem cortava os cabelos dela. Foi uma maneira emocionante de confirmar que o mundo é bem pequeno.

Também não entramos na nossa loja preferida de produtos a granel, onde freguês indica o tipo e a quantidade do que quer levar, e o vendedor, do outro lado do balcão, sempre pergunta se quer provar o que está comprando. Algo quase impossível de acontecer nos supermercados. Em compensação, não deixamos de trazer um queijo pasteurizado e um outro daqueles que dizem ter cheiro de curral, o que prefiro.

Na volta, me lembrei dos meus tempos de estagiário, exercendo funções de desenhista, no antigo Departamento de Obras do Estado, quando me coube desenhar as plantas dos prédios que seriam construídos naquele lugar e que, décadas depois, foram destruídos por um incêndio devastador.

Vitória, 27 de julho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viagem a Cachoeiro

Viagens a Cachoeiro

Tenho ido muito pouco à minha terra natal. Este ano estive lá em janeiro, para uma consulta médica, e em outubro passado para o lançamento do meu livro sobre as colheres, no Cervejiiinha, onde se pode apreciar de pertinho as águas mansas do rio Itapemirim.

Teve um tempo, na virada da década de noventa, que ia lá quase toda semana, sempre com Luiz Henrique Toniato. Aprendi que boleia de camionete rodando em estrada vazia é lugar próprio para conversar com calma e gargalhar de bobagens. Nas idas, debatíamos possibilidades e urgências; nas voltas, quase sempre à noite, avaliações eram assunto predileto. Sanduíches de pernil ou pastéis com caldo de cana, em Iconha, acalmavam eventuais fomes no percurso.

Estávamos às voltas com um belíssimo trabalho coletivo em favor da modernização das condições de operação das empresas de mármore e granito, para que produzissem mais rápido e melhor. A primeira Feira de Mármore e Granito de Cachoeiro foi uma espécie de atestado de ousadia e de determinação de muitos, um verdadeiro marco na transformação de valores e de atitudes correntes em favor de um futuro preferível.

Pois foi exatamente nela que fiquei pensando enquanto ia pregando fita adesiva em uma centena de colheres, para Carol usar na montagem da composição que ela criou para mostrar na segunda edição da Feira de Engenharia, Arquitetura e Design.

Nosso stand estava localizado, por generosidade dos organizadores, bem na entrada do pavilhão principal. Por ali passaram visitantes ávidos por novidades, gente conhecida de épocas passadas, algumas pessoas que se emocionam diante de colheres, além de muitos estudantes.

Tínhamos ido dormir em casa de amigos em Iriri, para chegar cedinho na feira, a tempo de preparar o stand para a abertura dos portões às 11h. Um “pare-siga” de mais de 40min, na estrada, foi danação completa, impondo urgência a um serviço delicado e prazeroso.

Aliás, é bom que se diga que viajar de carro se transformou numa espécie de corrida de obstáculos, na qual o motorista, além de dirigir com os devidos cuidados, é obrigado a incorporar doses extras de atenção e se valer de memória permanentemente atualizada a cada trecho para escapar das multas pesadas, por desatenção.

Hoje, as placas de velocidade máxima assumiram a condição de elementos vitais da paisagem e aqueles postes dotados de câmeras denunciantes cumprem a função de um atento pegador, das brincadeiras de pique-pega, que tenta flagrar competidores escondidos e prontos para bater na marca do pique antes dele.

Não sei se pelo meu bom senso, já bem maduro, ou por considerar que os carros atuais têm freios super eficientes, acho um total despropósito impor limite de 80km por hora em estrada com pista dupla. E, vou além, entendo que as placas de velocidades de 50 e de 30, determinadas por algum burocrata transitório (para fazer um joguinho de palavras), podem ser substituídas, com total segurança, pelas de 60 e 40, respectivamente.

Acredito que milhares de motoristas adorariam não serem mais taxados como contraventores e irresponsáveis e serem multados por dirigirem acima dos limites de velocidade que alguém estabeleceu para cada trecho da estrada.

Vitória, 13 de julho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita pra A GAZETA

Fortes emoções

Fortes emoções

Os últimos dias foram de ótimas emoções, pra mim e pra muita gente. Para começar, fui ao 244 Club ver meu querido irmão Afonso tocar, no melhor estilo de showman, daqueles que fazem caras e bocas em perfeita sincronia com os sons que vão saindo da caixa acústica de madeira do seu contrabaixo. Houve quem dissesse que ele “cavalga” naquele instrumento. Lá estava ele, inteiramente tomado por emoções, interagindo, com olhares e marcações com a cabeça, com Marco Antônio Grijó, baterista que faz mágicas sonoras com suas baquetas e vassourinhas, seu parceiro desde os anos 60, também afastado dos palcos faz tempo. Posso imaginar a felicidade dos dois em estarem tocando novamente pros amigos e parentes, todos de olhos atentos e expressões de cumplicidade.

Pois lá estava, também, o pianista mais alegre e safadinho que conheço, agora com cabelos grisalhos, Pedro Alcântara, espécie de irmão caçula temporão dos outros dois. Mesmo que por trás do piano de cauda, dava gosto de vê-lo fazendo movimentos com a cabeça e o corpo, meio que regendo o conjunto, em busca de sincronia total.

Dias depois, foi a vez de ir ao teatro da UFES. Confesso que fui, quase que por obrigação, na condição de marido que sempre acompanha a mulher. É que minhas dificuldades auditivas prejudicam o entendimento das falas dos atores. Foi com uma certa má vontade que comecei a ver, no telão, as imagens de uma enorme favela, filmadas de helicóptero.

Mas, como num passe de mágica, a entrada em cena de um homem carregando penosamente grandes tubos brancos, alterou a minha respiração, que acelerou de vez ao acompanhar a entrada sincronizada de pessoas tentando fazer coisas imaginárias com aquele recurso único. Sons pesados marcavam o ritmo e reforçavam a intensidade dos esforços.

Daí pra frente, até o final, foram surgindo no palco, coreografias instigantes, engraçadas, denunciantes, desafiadoras, delicadas, exuberantes e belíssimas. A precisão dos movimentos de cada ator e de grupos deles, perfeitamente sincronizados e apoiados por sonoplastia poderosa, me fez sentir um certo orgulho de morar numa cidade onde se produz coisa tão relevante. Palmas para Marcelo Ferreira e sua trupe de bem-aventurados por nos mostrar sua Metrópoles.

Pra finalizar, tive a satisfação de estar na TecVitória, incubadora de empresas de base tecnológica que ajudei a criar, para dar palestra sobre o que ando fazendo com bambu. Foi animador ver que ela recuperou sua capacidade de apoiar pessoas dispostas a criar empresas inovadoras e a sua condição de liderança no ambiente de inovação aqui no Estado.

Antes mesmo de começar a falar, e com algum constrangimento, fui pego de surpresa com uma homenagem muito afetuosa de seus atuais dirigentes, com placa e tudo, e sob aplausos de gente amiga e de muitas pessoas que foram ouvir o que tinha pra contar. Foi dificílimo começar a palestra sob emoções tão fortes.

Vitória, 29 de junho de 2023
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Fruteiras no quintal

Fruteiras no quintal

A nossa goiabeira pode ser considerada um equipamento de capacitação e diversão de crianças já mais taludinhas. Em dezembro de 2021, com a casa cheia de netos, instituí um campeonato pra ver quem tirava mais goiabas. Foi um grande sucesso. Como fomos anotando, foi possível montar uma planilha, indicando data e quantidade tirada por cada um, naquela safra de 840 frutas. Ganhei com folga, sem qualquer mérito.

É bem provável que tal iniciativa tenha sido inspirada na fotografia, das poucas que tenho da infância, que papai fez do filho do meio agarrado no tronco da goiabeira que existia na nossa casa em Cachoeiro. O curioso é que a cena permanece intacta me fazendo lembrar da emoção que senti em estar ali, sem a ajuda de ninguém.

Não é pra me gabar, nem fazer inveja mansa, mas digo que, apesar do pouco espaço, temos um pomar bem produtivo: um pé de cajá anão, um de romã sem graça, duas jabuticabeiras doidinhas, uma pitangueira das boas, um mamoeiro em fase de crescimento, dois pés de maracujá graúdos, uma goiabeira poderosa e, de quebra, acesso às pontas de galhos do abacateiro fincado no terreno da vizinha querida.

Gosto de acompanhar as florações e o desenvolvimento das frutas e costumo colher o que estiver “de vez”, antes dos passarinhos atacarem. Sempre que há fartura, aproveito pra fazer sucos, compotas e geleias, para comer em casa e dar de presente.

O interesse de Yara, neta com 2 anos, em acompanhar o serviço de colheita, faz pensar na satisfação que ela deve ter em poder usar suas mãozinhas para arrancar jabuticabas, pitangas e goiabas pra colocar na boca, ali mesmo, sem lavar. Isso, sem falar no tanto que gosta de se ver nas fotografias, posando ao lado das frutas.

Nas últimas semanas, logo que chega aqui ela me pede pra tirar goiaba. Decidida, trata de pegar uma sacola, colocar as alças no ombro e, com carinha de menina esperta, me oferece a mãozinha pra irmos juntos até a goiabeira. Munido de vara com cestinha dentada na ponta, vou tirando uma por uma e trazendo pra perto dela, que as apanha com todo cuidado e coloca na sacola.

De volta à cozinha, faz questão de mostrar o resultado da colheita e de ver o avô escolher uma delas, descascar, tirar os caroços e cortar em pedaços. Come tudinho com cara boa e pede mais.

Outro dia, depois de tirar 4 abacates do alto do muro, pedi que Alice, neta já bem crescidinha, subisse no telhado pela goiabeira, mais uma vez, agora pra conferir se havia maracujás maduros. Deu super certo: além de colher 6 enormes e amarelinhos, que foi jogando pra eu pegar, ela aproveitou o sol do fim de tarde para projetar a sua sombra na parede da casa ao lado, fazendo graça pra prima e pros avós, que olhavam pra cima, morrendo de rir.

As fotos que fiz ficaram ótimas e, imagino, ajudarão a manter vivas, na cabeça das duas, as emoções daquela tarde.

Vitória, 15 de junho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai pocar

Vai pocar

Esta sexta-feira é dia da abertura do ESX 23, na Praça do Papa. Soube que são esperados mais de 20 mil visitantes na faixa dos 20 a 25 anos, muitos vindos de outras cidades. A convite da TecVitória, estarei lá, ao lado de colegas das antigas, me emocionando ao ver o que verei.

Em 1987, depois de passar 4 anos em João Pessoa e outros 10 em Brasília, em duas temporadas, voltei pra Vitória. Vim animado em atuar na promoção do desenvolvimento tecnológico, mesmo sabendo que o pessoal que tratava disso por aqui cabia num Fusca. O estado ainda era bem carente de iniciativas nessa área, com expectativas de progresso centradas nos chamados grandes projetos.

Trouxe na bagagem experiências interessantes, algumas das quais pude colocar em prática no BANDES, ao lado de Ricardo Santos, sob a batuta de Odilon Borges. Começamos por criar linhas de apoio financeiro para atividades de capacitação, pesquisa e desenvolvimento, até então só disponíveis nas agências federais.

É dessa época a implantação de centros tecnológicos para atuarem na modernização de setores tradicionais da economia capixaba, incluindo os de mármore e granito, de metalmecânica e do café, que continuam a produzir resultados expressivos até hoje.

Como aquelas linhas de apoio foram extintas na gestão seguinte, por um presidente desavisado, trazido do BNDES, tratei de aproveitar os bons ventos que sopravam da Prefeitura de Vitória, sob o comando de Vitor Buaiz, Rogério Medeiros e Fernando Bettarello. A ideia de criar um fundo e um conselho para estimular e promover iniciativas e negócios, baseados em conhecimento técnico, inteligência e criatividade, foi muito bem recebida. Nossa capital sediava universidades, laboratórios, empresas e órgãos públicos, havia alguma demanda por produtos e serviços de base técnica e, importante, contava com dinheiro em caixa. A cidade inovou e tornou-se pioneira ao incorporar tais instrumentos à gestão municipal.

Seria uma rota alternativa para contornar, a médio prazo, as restrições impostas pela geografia do município, que limita a agricultura e a produção industrial em escala. Era estratégico estimular a criação de empresas de base tecnológica para produzir bens e serviços a serem exportados para outras regiões. Ajudaria a melhorar o balanço de pagamento do município, onde tudo o que é usado e consumido é comprado fora de seus limites.

Pra começar, a PMV mobilizou Governo do Estado, BANDES, FINDES, SEBRAE e UFES para criar a TecVitória, a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Espírito Santo. Há quem diga que ela nasceu de parto prematuro, dada a baixíssima procura pelas facilidades que oferecia. Na época, seus potenciais usuários estavam focados nas oportunidades de emprego oferecidas pelas grandes empresas. Pois lá se foi esse tempo dos empregos atraentes.

O ESX 23 é um evento para pessoas curiosas, inquietas e dispostas a criar seu próprio negócio e a correr riscos. Nele, elas poderão ver de perto as experiências das mais de 80 startups presentes, bem como conhecer instrumentos e modalidades de apoio ao empreendedorismo adotados por agentes públicos e privados, na disputa pelos mais talentosos e promissores.

Esta edição tem tudo pra pocar, como se diz por aqui.

Vitória, 31 de maio de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Meu reencontro com Niède Guidon

Meu reencontro com Niède Guidon

Passamos 10 dias de abril passeando com amigos, vendo muita coisa boa e relevante no Piauí. Estive em Teresina em meados de 1980, a mando de Lynaldo Cavalcanti, Presidente do CNPq, para conversar com a arqueóloga Niède Guidon.

Ele queria saber o que ela estava precisando para continuar a pesquisar vestígios de ocupação remota na Serra da Capivara, no sul do Piauí. Na ocasião, conheci uma pequena mostra do que a sua equipe, formada por arqueólogas francesas, já havia descoberto.

Me contaram que tudo havia começado no início dos anos 1970, quando lhe apresentaram uma fotografia de inscrições rupestres, existentes no Piauí, que entendeu serem tão antigas quanto as que sabia existirem na França.

Depois disso, ela passou 5 anos estudando em Lascaux, sempre encasquetada com a ideia de que a presença do homem no lugar onde tinha sido tirada aquela foto era muito anterior ao que vinham indicando as pesquisas feitas em universidades dos EUA.

Voltei para Brasília impressionado com sua convicção em descobrir a verdadeira história da ocupação das Américas. E foi sua determinação que a fez seguir em frente, apesar da descrença e má vontade de muita gente, inclusive de governantes locais.

Para tanto, ela decidiu enfrentar o descaso, exigir decisões dos poderes públicos e buscar apoios internacionais. Brigou com deus e o mundo, até conseguir a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979, reconhecido, anos depois, pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Ela enfrentou poderosos e burocratas para seguir pesquisando e preparando o lugar para receber visitantes, incluindo abertura e pavimentação de trilhas e estradas. Para garantir integridade e proteção do Parque, conseguiu desocupar e reflorestar as áreas inteiras, engajando os moradores das comunidades da região a partir de seu desenvolvimento. Liderou a instalação de escolas e postos de saúde, de água encanada e energia, trouxe cursos de capacitação e criou oportunidades de trabalho para muitos.

Com a mesma determinação, ela conseguiu construir o Museu do Homem Americano, nos arredores de São Raimundo Nonato, que também ganhou aeroporto graças às suas insistências. No ano passado, inaugurou o Museu da Natureza, com 1600 m2, no alto de uma colina dentro do Parque. Ambos oferecem, com primoroso tratamento expográfico, conteúdos de grande impacto sobre a formação do planeta e sobre os homens que o ocuparam há milênios.

Faz tempo, estive empenhado em fazer um documentário sobre as relações do homem com as pedras. Destaque especial mereceriam as inscrições feitas por nossos antepassados distantes nas rochas, entendidas como as primeiras páginas de registro do que viam e faziam: incluindo lutas, caça, sexo e rituais. Procurei por ela, que prontamente prometeu gravar um depoimento, mas, infelizmente, o filme não vingou.

Encontramos a dra. Niede Guidon nos seus 90 anos, metida numa blusa vermelha, atenta e interativa, perfeitamente ciente do que fez de bom na vida. Contei pra ela, emocionado, minha grande admiração por tanta dedicação e perseverança em fazer o que achava certo.

Pra fechar a visita, lhe dei uma colher de bambu, fininha e comprida, que havia feito na véspera, sugerindo que a usasse para coçar as costas. Foi o bastante para fazê-la rir de satisfação. Pra minha sorte, ela é do tipo de gente que gosta de colheres.

Vitória, 27 de abril de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vivendo e aprendendo

Vivendo e aprendendo

Depois de algumas experiências, cheguei à conclusão que é muito bom fazer lançamentos de livro. Semana que vem vai ser a vez de fazer festa no Rio de Janeiro e, de quebra, dar uma palestra pra falar sobre como faço colheres.

Faz tempo que descobri que lançamento de livro não é acontecimento comercial e sim uma oportunidade para reencontros do autor com os amigos que não vê faz tempo e, importantíssimo, dos convidados entre si.

Indispensável que o lugar escolhido seja dotado de ambiente agradável e de espaço confortável para muitos. Ninguém gosta de desconforto, sobretudo ao enfrentar a fila de autógrafos, cada vez mais lenta em função da coqueluche dos selfies.

Um ex-aluno dos idos de 1972, que mantém a turma coesa em torno dos prazeres da amizade com convívio sistemático, sugeriu que optássemos por um dos restaurantes que funcionam no terreno do Jóquei.

Resolvido o lugar, a tarefa de localizar parentes, amigos e antigos colegas é absolutamente fundamental. Em se tratando de cidade distante, é uma tarefa penosa. A cadernetinha de telefones perdeu sentido e utilidade, os números dos celulares são desconhecidos, os endereços não são mais os mesmos, sem contar que muitos já não usam e-mail com frequência.

Mas posso garantir que a alegria se instala quando acontece de se localizar alguém que não se vê desde os tempos de grupo escolar, das pescarias de praia, das festas de debutantes, dos bancos da universidade, dos bailes, das paqueras livres de compromisso. A promessa do abraço apertado, a possibilidade de poder ver como o outro envelheceu, de saber quantos filhos e netos tem, o que anda fazendo com o tempo livre e tudo o mais. O lançamento é momento de lembrar dos tais bons tempos.

O fato de 3 dos nossos filhos morarem em São Paulo nos afastou do Rio, onde eu ia passear nos anos 1960 e lá morei ao fazer o mestrado na UFRJ, como era usual nos idos de 1970. Nessa época, os rapazes de Cachoeiro iam fazer faculdade e por lá ficavam, sempre vindo passar as férias de verão em Marataízes, viagem própria pra reencontros de amores antigos e de companheiros de pescarias e de redes de vôlei.  Sei de alguns desses esperando o dia da festa me ver. Isso faz um bem danado pra saúde.

Pra Carol, que nasceu e se criou naquela cidade maravilhosa e dela saiu casada pra ir morar em Brasília, está sendo muito emocionante ir, aos poucos, localizando e convidando gente querida que deixou pra trás.

Para aproveitar a viagem, aceitei convite de uma escola de design para dar palestra sobre como é fazer uma colher após a outra, sempre diferentes, por mais de 27 anos. Imagino que na plateia estarão pessoas que gostam do trabalho manual e que sabem de mim pelas redes. Estou preparando o roteiro e escolhendo as fotos para criar um ambiente que favoreça o interesse e a sensibilização.

As inscrições antecipadas comprovam que colher de bambu atiça a vontade de tocá-las e a vontade de aprender a fazê-las. Eu não acredito que garfos e facas tenham poderes parecidos.

Vitória, 16 de março de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cozido de despedida

Cozido de despedida

Fazer cozido pra muita gente deveria ser considerado esporte olímpico, tamanha a trabalheira que dá. Digo isso baseado nos que andei fazendo desde quando os filhos ainda moravam conosco.

“Pai, faz um cozido pra comemorar meu aniversário?”.

“Pra quantas bocas?“

“Umas 40…”

Engenheiro de produção, ao longo dos anos e na base da tentativa e erro, fui aprimorando os métodos de trabalho, sempre sob a supervisão de Sara, nossa cozinheira desde sempre. Mas o que fez a diferença foi um poderoso macete que garante controle total do processo.

Tantos foram os cozidos, que minha irmã Beatriz me deu, com cara de interesseira, um belo panelão de 60cm de diâmetro e uns 20cm de altura, inaugurado numa festa de aniversário de Afonso, gêmeo dela. Isso faz um bom tempo.

Desta vez, a motivação foi a despedida de nossa Margô Dalla, que em breve volta pra Holanda, onde mora com saudades daqui. Era comida pra umas 25 bocas sorridentes.

Para tanto, na sexta cedo compramos carne de porco e barriguinha com costela na feira de Santa Lúcia e, no sábado, embutidos e defumados na barraca de Alex, na de Jardim da Penha, onde sempre compro carne seca atraente, carne de sol confiável, farinha de mandioca branquinha e aipim que desmancha na boca.

O projeto desse cozido incluiu: abóbora vermelha, banana da terra madurinha, cebola miúda, milho e batatas dos tipos inglesa, doce e baroa, para contrastar com os verdes da couve, da vagem, do jiló escuro e do quiabo tortinho. Pra completar a paleta de cores na arrumação das travessas, trouxemos cenouras e dois repolhos roxos pequenos. Isso, sem falar na dúzia de ovos caipira para, cortados ao meio, contribuírem, também, na apresentação.

Descascar e dividir os legumes em partes adequadas, que facilitem montar pratos sortidos, é um servicinho bom de fazer, mas meio trabalhoso. Picar boa quantidade de alho, cebola, salsinha e cebolinha é atividade prioritária, indispensável para refogar e cozinhar as carnes cruas e, também, a seca, depois de ter sido amolecida na panela de pressão. Em pouco tempo, forma-se uma cena borbulhante que faz acreditar que o cozido vai dar certo. Prontas, é recomendável reservar as carnes no forno aquecido.

A etapa seguinte é a de cozinhar os legumes. É aqui que mora o perigo do cozido desandar. Como se sabe, cada legume tem um tempo específico de cozimento, e é absolutamente fundamental garantir que todos eles estejam inteiros e durinhos, em perfeitas condições de compor o espetáculo na mesa e produzir água na boca dos convidados, todos com os pratos vazios nas mãos.

Terminada essa operação, é a vez de preparar, com aquele caldo rico e colorido, um pirão dos deuses, meio ralo, e uma cumbuca de pimenta saborosa e educada.

É bom saber que foi com Lulu Beleza, que nos deixou faz pouco, que aprendi o tal macete que fez de mim, além de um colhereiro contumaz, um cozideiro (sic) eventual.

É bem simples: deve-se colocar cada um dos legumes em uma daquelas redinhas de nylon, garantindo que fiquem folgados para serem arrumados no fundo da panela, imersos no caldo e, eventualmente, reorganizados. Aqueles finos e compridos devem ser amarrados com linha de costura, para que não escapem da redinha e se dispersem.

Feito isso, é só acender as bocas do fogão, ficar de olho na panela e ir tirando, com todo cuidado, cada legume que estiver no ponto exato de cozimento e reservar. Na sequência, é hora de abrir as redinhas com uma tesoura e derramar os recheios em travessas, sob orientação rigorosa de Carol, interessada em arrumá-las para atiçar a gulodice.

Teve quem dissesse, ao se despedir, que esse também estará no rol dos cozidos inesquecíveis.

Vitória, 02 de março de 2023.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vamos nessa, pessoal

Vamos nessa, pessoal?

Na semana passada fui visitar a Stone Fair, no parque de exposição em Carapina. Entrei sem precisar de crachá de visitante, por gentileza dos filhos de Ilsinho e Cecília Milanez, que sempre tocavam a feira. Depois de ficarem anos sem poder realizá-la, os três estavam felizes e orgulhosos com o que tinham pra apresentar.

Nem bem entrei no galpão, a animação nos corredores apinhados de gente e a movimentação nos estandes me fizeram lembrar das primeiras edições da feira de mármore e granito de Cachoeiro, que ajudei a criar e coordenar.

Elas eram uma espécie de festa de comemoração dos esforços coletivos para fortalecer o que se mostrava promissor para muitos, além de ótima oportunidade para rever amigos e abraçar pessoas que só se comunicavam por telefone e fax.

Quem esteve na primeira delas, há de se lembrar dos estandes montados nos galpões das baias para touros e vacas do parque de exposições. Por conta dos improvisos, além da queda da energia logo na abertura, faltou água no restaurante do Curuca por volta das 10 da noite.

Tenho em ótima conta o que fizemos em favor da modernização das condições de produção e de gerenciamento das empresas de extração, beneficiamento e comercialização de mármore e granito. O movimento envolveu um grupo de empresários do setor e contou com entusiasmo de fornecedores de máquinas, insumos e serviços.

Em prazo bem curto, foi possível conseguir saltos extraordinários na produtividade dos teares, redução relevante dos custos das serradas, melhor qualidade das chapas, com consequente aumento significativo na lucratividade das empresas. Tanto, que ficou comprovado que olho grande e inveja boa são fatores de desenvolvimento empresarial e deu no que deu.

A existência da feira modernizou as práticas comerciais em vigor, a começar pela marcação da data e do local pra mostrar, comprar e vender pedra. Um caderno especial da antiga Gazeta Mercantil mostrou ao Brasil que Cachoeiro era a capital do mármore e granito e estimulou atitudes e providências para atrair visitantes de lugares distantes, inclusive do exterior.

Dentro daquele galpão refrigerado, três décadas depois, vi estandes enormes e sofisticados, expondo placas de materiais coloridos, muitos deles translúcidos e cheios de veios que devem ter feito brilhar os olhos de arquitetos e decoradores. Pelo que soube, os negócios foram animadores.

Saí da feira me sentindo uma pessoa importante, tamanhas as atenções que recebi de herdeiros dos pioneiros Scaramussa, Nemer e Secchin, os abraços de ex-alunos, agora bem sucedidos empresários do ramo. Em meio ao alvoroço, confirmei mais uma vez que valeu a pena dar o empurrãozinho que faltava nos conterrâneos que fizeram Dona Gracinha, minha mãe, se gabar e me dizer, nos idos de 1985, que Cachoeiro estava cheio de indústrias.

Vitória,16 de fevereiro de 2023.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Haja emoção

Haja emoção

Passei um bom tempo longe do teclado para compor uma crônica. A última foi publicada aqui às vésperas do primeiro turno das eleições, semanas antes do meu aniversário. Nela, sem muita esperança, pedi, de presente antecipado, a vitória dos meus candidatos. De lá pra cá, muita coisa aconteceu.

O final de 2022 e começo deste ano foram tempos de fortes emoções, a começar pelas festas de lançamento do livro que escrevi sobre a produção prazerosa de colheres de bambu. Em Cachoeiro, num bar na beira do rio Itapemirim, foi ótimo rever conterrâneos de infância e companheiros de realizações relevantes. Em São Paulo, naquele varandão do Museu da Casa Brasileira, abracei e fui beijado por amigos queridos e por muitos convidados dos filhos que moram lá. Aqui, num restaurante da Curva da Jurema, não senti cansaço ao passar 5 horas dando autógrafos para muitas das 350 pessoas que lá estiveram. Em Brasília, em ritmo de confraternização, revi velhos amigos dos anos que trabalhei no CNPq.

Com o coração nas mãos, acompanhei a apuração da disputa apertadíssima pela presidência da República e tomei duas cachaças em comemoração. Depois, temeroso, acompanhei as movimentações descaradas de forças insatisfeitas com os resultados do segundo turno das eleições.

A festa de comemoração dos nossos 50 anos de casados, em meados de dezembro, foi animadíssima e varou a madrugada e, de quebra, marcou a reabertura da famosa colônia de férias da Vovó Carol, para mais de mês de casa movimentadíssima e cozinha a pleno vapor. Num período chuvoso, foi uma maratona de muitas alegrias e alguns perrengues com a participação direta de cinco filhos, uma nora, dois genros e oito netos. Pena que a goiabeira não deu um fruto sequer, impossibilitando a realização do famoso campeonato infantil de tira-goiabas.

Senti alguma esperança ao ver imagens das cerimônias de posse dos eleitos e de pessoas nomeadas. Com tristeza, acompanhei pela TV a demonstração de desatino de um bando de bolsonaristas imbecis e mal intencionados, marcando o dia 8 de janeiro de 2023 na história. Indignado, comecei a torcer por um tranco bem dado, com sabedoria e efetividade, nos executores, mentores e patrocinadores daquele absurdo. Com satisfação, venho acompanhando as tais providências cabíveis, acreditando que podem surtir efeito.

Na quarta-feira, também pela TV, acompanhei as eleições nas duas casas do Congresso. Na do Senado, confesso, só senti alívio pra lá da metade da apuração. Na da Câmara dos Deputados, a vitória esmagadora de Lira me fez pensar que, obstinado por poder, ele fará tudo pra ficar com os méritos de ter conseguido aprovar reformas relevantes.

Vitória, 02 de fevereiro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA