Viagens a Cachoeiro
Tenho ido muito pouco à minha terra natal. Este ano estive lá em janeiro, para uma consulta médica, e em outubro passado para o lançamento do meu livro sobre as colheres, no Cervejiiinha, onde se pode apreciar de pertinho as águas mansas do rio Itapemirim.
Teve um tempo, na virada da década de noventa, que ia lá quase toda semana, sempre com Luiz Henrique Toniato. Aprendi que boleia de camionete rodando em estrada vazia é lugar próprio para conversar com calma e gargalhar de bobagens. Nas idas, debatíamos possibilidades e urgências; nas voltas, quase sempre à noite, avaliações eram assunto predileto. Sanduíches de pernil ou pastéis com caldo de cana, em Iconha, acalmavam eventuais fomes no percurso.
Estávamos às voltas com um belíssimo trabalho coletivo em favor da modernização das condições de operação das empresas de mármore e granito, para que produzissem mais rápido e melhor. A primeira Feira de Mármore e Granito de Cachoeiro foi uma espécie de atestado de ousadia e de determinação de muitos, um verdadeiro marco na transformação de valores e de atitudes correntes em favor de um futuro preferível.
Pois foi exatamente nela que fiquei pensando enquanto ia pregando fita adesiva em uma centena de colheres, para Carol usar na montagem da composição que ela criou para mostrar na segunda edição da Feira de Engenharia, Arquitetura e Design.
Nosso stand estava localizado, por generosidade dos organizadores, bem na entrada do pavilhão principal. Por ali passaram visitantes ávidos por novidades, gente conhecida de épocas passadas, algumas pessoas que se emocionam diante de colheres, além de muitos estudantes.
Tínhamos ido dormir em casa de amigos em Iriri, para chegar cedinho na feira, a tempo de preparar o stand para a abertura dos portões às 11h. Um “pare-siga” de mais de 40min, na estrada, foi danação completa, impondo urgência a um serviço delicado e prazeroso.
Aliás, é bom que se diga que viajar de carro se transformou numa espécie de corrida de obstáculos, na qual o motorista, além de dirigir com os devidos cuidados, é obrigado a incorporar doses extras de atenção e se valer de memória permanentemente atualizada a cada trecho para escapar das multas pesadas, por desatenção.
Hoje, as placas de velocidade máxima assumiram a condição de elementos vitais da paisagem e aqueles postes dotados de câmeras denunciantes cumprem a função de um atento pegador, das brincadeiras de pique-pega, que tenta flagrar competidores escondidos e prontos para bater na marca do pique antes dele.
Não sei se pelo meu bom senso, já bem maduro, ou por considerar que os carros atuais têm freios super eficientes, acho um total despropósito impor limite de 80km por hora em estrada com pista dupla. E, vou além, entendo que as placas de velocidades de 50 e de 30, determinadas por algum burocrata transitório (para fazer um joguinho de palavras), podem ser substituídas, com total segurança, pelas de 60 e 40, respectivamente.
Acredito que milhares de motoristas adorariam não serem mais taxados como contraventores e irresponsáveis e serem multados por dirigirem acima dos limites de velocidade que alguém estabeleceu para cada trecho da estrada.
Vitória, 13 de julho de 2023
Alvaro Abreu
Escrita pra A GAZETA
