Fortes emoções
Os últimos dias foram de ótimas emoções, pra mim e pra muita gente. Para começar, fui ao 244 Club ver meu querido irmão Afonso tocar, no melhor estilo de showman, daqueles que fazem caras e bocas em perfeita sincronia com os sons que vão saindo da caixa acústica de madeira do seu contrabaixo. Houve quem dissesse que ele “cavalga” naquele instrumento. Lá estava ele, inteiramente tomado por emoções, interagindo, com olhares e marcações com a cabeça, com Marco Antônio Grijó, baterista que faz mágicas sonoras com suas baquetas e vassourinhas, seu parceiro desde os anos 60, também afastado dos palcos faz tempo. Posso imaginar a felicidade dos dois em estarem tocando novamente pros amigos e parentes, todos de olhos atentos e expressões de cumplicidade.
Pois lá estava, também, o pianista mais alegre e safadinho que conheço, agora com cabelos grisalhos, Pedro Alcântara, espécie de irmão caçula temporão dos outros dois. Mesmo que por trás do piano de cauda, dava gosto de vê-lo fazendo movimentos com a cabeça e o corpo, meio que regendo o conjunto, em busca de sincronia total.
Dias depois, foi a vez de ir ao teatro da UFES. Confesso que fui, quase que por obrigação, na condição de marido que sempre acompanha a mulher. É que minhas dificuldades auditivas prejudicam o entendimento das falas dos atores. Foi com uma certa má vontade que comecei a ver, no telão, as imagens de uma enorme favela, filmadas de helicóptero.
Mas, como num passe de mágica, a entrada em cena de um homem carregando penosamente grandes tubos brancos, alterou a minha respiração, que acelerou de vez ao acompanhar a entrada sincronizada de pessoas tentando fazer coisas imaginárias com aquele recurso único. Sons pesados marcavam o ritmo e reforçavam a intensidade dos esforços.
Daí pra frente, até o final, foram surgindo no palco, coreografias instigantes, engraçadas, denunciantes, desafiadoras, delicadas, exuberantes e belíssimas. A precisão dos movimentos de cada ator e de grupos deles, perfeitamente sincronizados e apoiados por sonoplastia poderosa, me fez sentir um certo orgulho de morar numa cidade onde se produz coisa tão relevante. Palmas para Marcelo Ferreira e sua trupe de bem-aventurados por nos mostrar sua Metrópoles.
Pra finalizar, tive a satisfação de estar na TecVitória, incubadora de empresas de base tecnológica que ajudei a criar, para dar palestra sobre o que ando fazendo com bambu. Foi animador ver que ela recuperou sua capacidade de apoiar pessoas dispostas a criar empresas inovadoras e a sua condição de liderança no ambiente de inovação aqui no Estado.
Antes mesmo de começar a falar, e com algum constrangimento, fui pego de surpresa com uma homenagem muito afetuosa de seus atuais dirigentes, com placa e tudo, e sob aplausos de gente amiga e de muitas pessoas que foram ouvir o que tinha pra contar. Foi dificílimo começar a palestra sob emoções tão fortes.
Vitória, 29 de junho de 2023
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
