Quem me dera

Quem me dera

Faço aniversário no dia 23 de outubro, junto com Pelé. Por conta disso, somos considerados, pelos entendidos em astrologia, como legítimos escorpiões. Desta vez, vou completar 75.

Só por curiosidade, fui ao Google e encontrei escrito, bens nas primeiras linhas, que pessoas de escorpião “tendem a ter força e capacidade de se reinventar, mesmo diante de situações desafiadoras.”

Achei interessante e, pensando bem, a mania de fazer colheres de bambu, que incorporei na vida depois de um infarto aos 46 anos, pode servir pra confirmar tal característica.

O fato é que, independentemente do que dizem os astros, passei uma boa parte da manhã imaginando qual o presente de aniversário que gostaria de ganhar este ano.

Outra arara? Quando completei 70, meu pessoal fez uma vaquinha pra me dar Amora de presente. Acho que ela não iria gostar de dividir as atenções e os dengos que lhe dou com uma concorrente.

Um carro novo? Além de ser um presente caríssimo, não estou precisando.

Cadeira de balanço? Já tenho uma super confortável, daquelas com assento de lona grossa, comprada na Paraíba, quando moramos lá nos anos de 1970. Tem sido usada, sobretudo, pra balançar nossos netos.

Rede de balanço? Temos umas três, das cearenses, que uso com boa regularidade pra ficar matutando alguma coisa interessante na fresca das tardes mais quentes.

Foice, faquinha ou goiva pra cortar bambu? Seria um presente muito adequado, mas já tenho ferramentas pro gasto, inclusive algumas ainda sem uso e bem guardadas.

Lixas variadas? Não caberia, pois mantenho um bom estoque das que mais uso e, quando preciso, gosto de ir comprar lá no Manoel Araújo, na Leitão da Silva.

Tênis, nem pensar. Apesar de ter casado com Carol usando um branco, pra combinar com a calça, não adotei a moda por motivos que não sei explicar. Guardo um, sem cadarço, que usava quando ia pescar do alto de pedra ou dentro de uma lancha potente, em alto mar.

Relógio de pulso? Nunca tive um e não vai ser agora que vou começar a usar. A hora exata está nas telas de computadores e celulares, acabando de vez com a velha desculpa de atraso por perder a hora.

Um filhote de basset seria ótimo, mas Carol teria que aceitar de bom grado. Ela tem bons argumentos pra quebrar a tradição da casa de ter sempre dois ou três deles, pra felicidade de adultos e, sobretudo, das crianças.

Ainda que meio fora da data, as vitórias dos meus candidatos pra deputado estadual e federal, senador e presidente, seriam ótimos presentes. Escolhi os nomes por livre e espontânea vontade e os manterei em segredo.

Homem prudente, pacífico e já quase sábio, achei por bem fazer assim para evitar bate-bocas e o que mais possa vir a acontecer antes, durante e depois da votação  e, sobretudo, depois que os resultados das eleições forem divulgados.

Vitória, 29 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Depois de tanto, falta pouco

Depois de tanto, falta pouco

Durante a pandemia – sob total controle dos filhos – passei meses sem sair de casa. Caseiro inveterado, não foi difícil aceitar as restrições. Sempre inventei serviço pra aproveitar meu tempo, de preferência, algo que desafie minhas habilidades, incluindo consertos de brinquedos de netos e de coisas da casa.

Mexer com jardim também é algo que costumo fazer: podar o que estiver precisando, trocar terra de vaso, transferir planta para lugar sem sol direto, pendurar vasos e ajudar o jardineiro a cortar galhos de árvores. Melhor ainda, é colher jabuticabas, pitangas e goiabas antes que os passarinhos comam umas e comecem a bicar outras.

Revolver e adubar a terra da horta, arrancar mato, reposicionar pés de tempero e regar com fé, são servicinhos facilitados pelo fato da nossa ser suspensa, como fazem na Paraíba, onde tratam por banguê.

Pois nesse tempo de recolhimento forçado resolvi dedicar atenção às belezas dos bambus. Nessa frente, me concentrei nas fibras, que descobri durante a recuperação de um infarto nos idos de 1975. Para fotografá-las como bem merecem, usei a lente macro do celular de Carol. Para bem captar suas características e belezas, tratei de caprichar no acabamento das superfícies resultantes dos cortes de topo, inclinados e longitudinais feitos num gomo escolhido.

Ao fotografar, me veio uma vontade mansa de escrever sobre as colheres que venho fazendo há quase 30 anos, usando só foices, goivas, faquinhas, lixas e cacos de vidro. Quanto mais escrevia, mais me lembrava dos fatos, dos lugares e das pessoas e, sobretudo, das boas emoções que foram

se acumulando e formando histórias interligadas.

Sem qualquer pressa e achando bom, comecei a vasculhar gavetas, pastas e arquivos. Rever fotos, matérias de revistas, cartas e mensagens, foi trazendo à luz muito do que estava armazenado na alma e no coração.

Como se as histórias não bastassem, achei por bem tentar entender o que estaria por trás dessa mania de fazer colheres de montão. Aos poucos foi possível sistematizar os processos de trabalho que adoto e mapear os conceitos e as expectativas que orientam as minhas escolhas.

Durante meses fui escrevendo sobre o que merecia atenção, ajustando a redação, pedindo opinião de gente corajosa, reescrevendo páginas inteiras, refazendo a ordem dos textos e escolhendo fotos para ilustrar as passagens, a ponto de chegar ao que poderia ser um livro com pé e cabeça.

Amainada a pandemia e depois de muitas idas e vindas, os originais finalmente foram enviados a uma gráfica, que prometeu entregar 1000 exemplares no começo de outubro. Agora só falta definir as festas de lançamento lá em Cachoeiro, no Rio de Janeiro e em Brasília. As de São Paulo e Vitória estão confirmadas pra os dias 15 e 25 de outubro.

Vitória, 14 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Relatório de viagem no tempo

Relatório de viagem no tempo

Estivemos por 4 dias em Brasília, depois de anos sem voltar lá. A última vez tinha sido corrida, sem tempo para rever amigos que deixamos quando viemos para Vitória em 1987. Uma viagem de amizade.

Fizemos uma programação de visitas com base no tamanho da saudade e no bom senso possível. Ficamos hospedados na casa de nossa amiga que me trata por “marido” há quase 50 anos. Providência fundamental para colocar a conversa em dia, dormir com total conforto, tomar café da manhã e tricotar com liberdade e vestígios de pimenta.

Começamos o périplo na tarde de quinta nos arredores do Jardim Botânico, visitando uma amiga que esteve adoentada de doer coração. De cabelos totalmente brancos, animadíssima, ela nos apresentou sua casa em detalhes, demonstrando orgulho por ter construído um lugar tão bonito e funcional. Seus dois filhos, que só vimos pequenos, nos receberam carinhosamente como tios.

Na manhã seguinte, tomamos café com um amigo desde os idos de 1970, quando conversamos sobre um projeto ousado que tenho na cabeça faz tempo e que, por pura afinidade de nossos valores e emoções, agora também está na dele.

Depois de visitar a SQN 104 e fotografar o bloco onde moramos por 3 anos, caminhamos até a SQN 303 para rever um homem de quem fui aluno na pós-graduação, seu monitor na graduação, seu colega de trabalho, chefe e subordinado. Ele estava meio frágil das pernas, mas com a cabeça a mil, como sempre. Disse que quer escrever um livro sobre as grandes guerras da humanidade.

Depois fomos à SQS 216, para rever um amigo muito especial, sempre crítico ao que se passava em volta e intransigente com o que não estivesse dentro dos conformes. Pai de 4 e agora avô de 7, ele está ainda mais firme em suas convicções.

A feijoada de sábado aconteceu num belo apartamento reformado na SQS 215, com gente muito querida rindo alto, na alegria do reencontro. Seguindo a tradição, após as discussões acaloradas de sempre, instalou-se a mais famosa mesa de carteado do pedaço.

De lá, fomos ver o casal querido da SQS 211, onde falamos sobre um projeto para enfrentar o problema do mercúrio nos garimpos enquanto comíamos torta de frango de Pirenópolis. Ganhamos um belo livro que atualiza as andanças de Saint-Hilaire no sertão de Goiás com a contribuição dos dois. Conversa sem fim, quase sem ponto parágrafo.

No domingo estivemos na casa de candangos bolivianos na SHIN QI 14 para comer saltenha, delícia que conheci ainda menino em La Paz e nunca mais esqueci. Visitamos a plantação de lúpulos, bebemos cerveja artesanal e conversamos sobre alternativas para o lançamento do meu livro sobre colheres.

No caminho paramos na SHIN QL 3 para rever amigos dos tempos de João Pessoa. Nossas reminiscências foram prejudicadas pelo bando de capivaras que domina um pequeno lago que faz divisa com o terreno. Em casa, ninguém achou graça no primeiro debate na TV.

Vitória, 01 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá se foi Ronaldo

Lá se foi Ronaldo

Fazia um bom tempo que não o via. Talvez uns 4 ou 5 anos. Não tínhamos amizade com convívio direto e específico. Nunca esteve na minha casa e eu nunca entrei na dele. Nossos encontros eram quase sempre em lugares públicos, cheio de gente. Nossa satisfação em rever-nos era recíproca e os abraços fraternos, como convém às pessoas que se conhecem há muito tempo, se gostam e se respeitam. Sempre magro, era fácil de ser envolvido e apertado por completo.

Me lembro que o olhar dele era sempre inquisitivo, como que querendo saber como estava a minha saúde, como estava no trabalho, como iam os meus parentes e contra parentes. Sua voz anasalada era normalmente alta e contundente. As frases eram ditas com convicção, com a boca bem aberta, mostrando os dentes, e espichando as palavras relevantes da frase.

Nunca vi ou soube que se exercitava com frequência e disposição, em busca de saúde e bem estar. Na verdade, Ronaldo Nascimento era um cidadão de um tempo em que essas práticas ainda não existiam por aqui. Na Vitória antiga, pouquíssimas eram as pessoas que faziam exercícios regularmente, fora as que remavam na Baía de Vitória, um punhado de halterofilistas e uns poucos nadadores como eu. No mais, os homens disputavam campeonatos de futebol de salão, vôlei, basquete, tênis nas quadras de clubes e muita pelada na rua e frescobol na praia. A imensa maioria das mulheres, no máximo, ficava na torcida.

Dá pra pensar que ele achava graça dessa mania de caminhar em ritmo acelerado nas calçadas, com expressão compenetrada. Mais ainda, dos que andam de bicicleta de capacete, sozinhos, em duplas e em pequenos grupos, usando roupas coloridas, próprias dos ciclistas profissionais.

De uma coisa, eu tenho certeza: Ronaldo adorava a noite e, sobretudo, as madrugadas. Era formado em festas de brotos, com pós-graduação em Baile de Debutantes. Para a rapaziada mais aguerrida e as moças mais avançadinhas que circulavam por aqui no final dos anos 1960, ele se transformou numa espécie de Rei da Noite ao abrir, e manter funcionando por um bom tempo, a boate Boteko, na curva do Saldanha. Foi lá que surgiu a primeira pista onde se dançava Satisfaction com os olhos fechados, os braços pra cima e o corpo balançando no ritmo do rock and roll.

A sensação que me veio é que Ronaldo foi levando junto uma época extremamente tranquila e prazerosa que vivemos aqui. Para os saudosos, informo que meu irmão Afonso, seu vizinho de muro por décadas, sabe imitar perfeitamente a sua voz.

Vitória, 18 de agosto de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na reta final

Na reta final

A tirar por notícias recentes e opiniões de quem acompanha a política, o Presidente está ficando irritado e nervoso, com o que vai percebendo a cada dia que passa, exigindo dele atitudes cada vez mais ousadas, contundentes e até agressivas.

Como ele dorme pouco, é bem possível que esteja dando telefonemas madrugada adentro para subordinados e parentes, em busca de escuta e, sobretudo, de concordâncias para as iniciativas eleitoreiras que adotará depois que o sol raiar.

A impressão que se tem é que está em andamento uma etapa crucial de um processo preocupante, há muito anunciado. O que se vê, é um homem dotado de poder legítimo agindo de forma obsessiva, guiado por uma espécie de fanatismo messiânico:

se há corda, que seja esticada; se existe poder de compra, que seja exercido; se há medo, que se amedronte; se há mérito, que se desmereça; se há limite, que se exploda, e assim por diante.

Dá pra supor que chegará o dia em que não haverá quem consiga fazer algo que possa demovê-lo da obsessão, como se faz com criança mimada que chora aos berros, dá pulinhos balançando os braços só pra ficar com o brinquedo do irmão.

É de se supor que suas decisões e atitudes desvairadas têm produzido, de forma crescente e cumulativa, constrangimentos e vergonhas variadas em pessoas aliadas e interesseiras que o cercam, e provocado arrependimentos em uns tantos que já o apoiaram no passado. Percebe-se que o silêncio em torno dele aumenta progressivamente e se expande para fora dos palácios.

Por suas provocações estarem acontecendo em ritmo e intensidade crescentes, pessoas, instituições e entidades que se sentem desrespeitadas e cansadas de bravatas começaram a se contrapor de forma clara. Milhares e milhares têm feito isso com seu nome, CPF e endereço declarados nas redes.

Está dito e feito e não adianta ele espernear nem desprezar a convicção dos que assinam o que aprovam e defendem. Fazem-no livremente, sem atitudes de salve-se quem puder, de espírito de porco e de Maria vai com as outras. Trata-se de um basta bem firme e com traços de esperança.

Pra complicar um pouco mais, o Presidente já deve ter percebido os sinais de que a turma do Centrão começa a preparar a debandada de fininho, traiçoeiramente, conforme previsto. Pra esse pessoal pacato e interesseiro é fundamental atuar sempre ao lado dos detentores da chave do cofre e do poder da caneta.

Nem imagino o que poderá acontecer no 7 de setembro, no Rio de Janeiro. Se fosse prefeito da cidade, manteria o desfile no lugar de sempre, por puro bom senso e precaução.

Vitória, 04 de agosto de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Rota de escape

Rota de escape

Como se sabe, a dificuldade inicial de quem escreve crônicas é encontrar um bom assunto, de qualquer natureza, que possa ser usado como tema central do texto ou como pano de fundo para uma história boa de se ler.

Isso é ainda mais complicado quando se quer escapar das pautas toscas que o presidente insiste em plantar, de forma sistemática para os brasileiros, emporcalhando páginas de jornais, ocupando tempo de noticiários de TV, abastecendo as redes, consumindo horas de convivência e muito mais. A obsessão desse homem é incurável e, sobretudo, muito chata.

Sorte minha é poder encontrar refúgio em temas familiares. É que a nossa casa, normalmente sossegada, está funcionando com capacidade máxima e em regime de colônia de férias. Minha cunhada do Rio veio passar o aniversário com a irmã, uma das filhas que moram em São Paulo veio comemorar a passagem de 44 invernos com os parentes diretos e amigos de antigamente. Trouxe dois filhos pequenos e uma sobrinha, nossa neta mais velha. Pra animar a festa, dois netos que vivem aqui vieram passar uma semana conosco. Tem gente dormindo no sofá do escritório.

É fácil imaginar que teria muito o que dizer sobre as preferências de cada um deles, contar que fiz um time de botão de mesa, consertei o arco que tinha feito e ensinei a descascar laranja na maquininha que comprei em Brasília faz décadas; que fizeram animados passeios ao Parque da Pedra da Cebola e à Praça das Ciências, que brincaram na Praia da Esquerda e remaram em dupla nos caiaques alugados na Curva da Jurema; que as netas me pedem pra levar pra pescar e que uma delas fez uma montanha de panquecas; que todos disputam celulares e tablets permanentemente e que levamos o menor de todos para fazer exame de sangue, tentando embromá-lo.

A danação foi ficar sabendo da reunião do presidente com embaixadores para pregar contra as urnas eletrônicas. Mesmo sem conhecer detalhes, me fez pensar que faz parte de uma estratégia política muito esperta, de propósitos ainda disfarçados.

Mesmo que as últimas medidas para distribuição de dinheiro público para populações carentes e políticos vorazes possam aumentar as intenções de voto, Bolsonaro já deve ter entendido que sua derrota nas urnas será acachapante.

Assim, muito melhor do que perder nos votos, seria conseguir ser impedido de participar das eleições por atitudes que, vedadas pela Constituição, regulam o processo eleitoral. Sem precisar explicar a derrota, ganharia para sempre a condição de mártir injustiçado por um bando de “comunistas”, o que lhe cairia muito bem.

Excluído da disputa, mas ainda na presidência, intensificaria as movimentações em favor da desestabilização política do país, visando consolidar a liderança de seus fiéis seguidores. Findo o mandato, lhe restaria agir como um animal indomável em busca da sobrevivência.

Vitória, 21 de julho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Roçando mato

Roçando mato

A Praia da Esquerda estava deserta e a maré baixa garantia areia dura, boa para caminhar. Do alto de um pequeno mirante, guarda-vidas observavam o mar liso daquela manhã plácida, certos de que o dia passaria sem qualquer ocorrência que demandasse pronta intervenção.

Na calçada, vi chegar um grupo de uns 15 homens. Todos falantes e paramentados: macacão cor-de-abóbora, avental de plástico preto, capacete na cabeça, botas, luvas de couro, óculos de segurança no nariz e protetor de ouvido pendurado no pescoço.

Trouxeram umas 10 roçadeiras daquelas dotadas de um guidom para movê-las com facilidade, de um lado para outro, quando penduradas no ombro. Nelas, um motorzinho a gasolina faz girar, na outra extremidade de uma haste comprida, um carretel contendo nylon bem grosso. Em alta velocidade, o pedaço de nylon se transforma numa poderosa ferramenta de cisalhamento, capaz de decepar até galho taludo. Uma geringonça de grande utilidade, pois roçar mato com foice é tarefa cansativa e de baixíssimo rendimento.

Desci para andar na areia e, ao chegar pela segunda vez no final da praia, parei para acompanhar aqueles homens que vinham trabalhar no serviço de poda do capim colonião que cresce ali desde sempre.

Dava gosto de ver aquela espécie de espetáculo. Parecia uma coreografia, com movimentos certeiros e sincronizados. Na linha de frente, empunhando roçadeira mais potente, um deles atacava o mato com muita disposição, abrindo uma passagem central para os dois colegas que vinham atrás, cada qual cortando as moitas num dos lados.

Em pouquíssimos minutos, o matagal existente naquele patamar criado por um muro de arrimo foi inteiramente abatido, e os três partiram para acabar com o que tinha brotado nas fendas das lajes de pedra escura que existem ali.

Em complemento, outros dois homens desbastavam, no mesmo ritmo e igual sucesso, as capoeiras que existiam no pé do muro e, em seguida, aparavam a grama que cresce na areia da praia, propiciando ao lugar um aspecto simpático e amistoso.

Aquelas cenas me fizeram lembrar de Sorriso, o varredor de rua que fez sucesso no carnaval do Rio, sambando com uma vassoura na Sapucaí. Pois aqueles homens, coloridos e animados, bem que poderiam formar um bloco de carnaval com seus componentes cantando marchinhas conhecidas, levantando suas roçadeiras para saudar o público.

Vitória, 07 de julho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Festa nas montanhas

Festa nas montanhas

Foi muito bom rever Santa Teresa e constatar que está a cada ano mais movimentada, bem tratada e com comércio pujante e jeitão de polo turístico. Por todo lado se avista prédios em construção, casas enormes no alto dos morros e lojas e pousadas às margens da estrada.

Fui com amigos para mais um festival de música, festa aberta e tranquila, com muita gente usando roupa quentinha que comprou pra viajar pra longe. Desta vez, vi muitas pessoas com uma taça entre os dedos e uma garrafa de vinho na outra mão. Algumas fazendo estilo, se achando, como se dizia.

Assisti a dois shows impactantes: um grupo paulista fazendo base para Taryn Szpilman, cantora afinadíssima e performática que, ao descer do palco para circular na plateia, gostou do meu chapéu e acabou ganhando um beijo na mão.

Emocionante ver Jimmy Burs, músico americano de quase 80 anos, tocando blues melodiosos com poucas notas e regendo, com olhares, uma banda de Belo Horizonte, cujo baterista, dono de uma pegada muito forte, é dos melhores que já vi.

Por todo lado, gente animada abraçando quem não via desde antes da pandemia. Pois foi muito bom ser reconhecido por dois homens sorridentes, já quase sessentões, dizendo que foram meus alunos no começo dos anos 90, do século passado. O mais falante, de nome inesquecível, tratou de me incluir num grupo de engenheiros no WhatsApp que haviam criado, mas devo ter dado endereço errado.

Guardo ótimas lembranças de professores que tive, sobretudo dos que me ensinaram a gostar de engenharia de produção e, sem se darem conta, me ajudaram a ser o que sou.

Santa Teresa está limpa, colorida e animada. Muitas das casas nas ruas principais estão ocupadas por lojas, cafés e restaurantes. O que escolhemos estava lotado de turistas barulhentos, mas a nossa reserva de mesa funcionou. Não comi massas italianas feitas à mão, mas enfrentei um joelho de porco alemão muito bem acompanhado.

Entre uma garfada e outra, notei a naturalidade com que moças e rapazes atendiam os fregueses e, também, iam tomando providências para manter o lugar arrumado. Tudo feito com movimentos rápidos e precisos, como que sincronizados.

Curioso, quis conhecer o responsável por orientar cada uma daquelas pessoas em busca de harmonia e alto rendimento. Fui informado que a gerente era a moça bonita e simpática que nos recebeu e que foi embora logo depois.

Sem precisar de ordens ou orientações, aquela equipe parecia funcionar no automático, movida a satisfação pessoal, algo que só acontece em empresas muito especiais. Para mim, era mais uma clara demonstração da evolução que acontece naquela cidade do interior.

Vitória 09 de junho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Vale a pena

Vale a pena

Na semana passada, mandei de presente, para uma amiga de longa data, um potinho de geleia feita com jabuticabas do nosso quintal, colhidas de uma pequena jabuticabeira que plantamos há uns 30 anos nos fundos do terreno. Ela não tem mais do que 3 metros de altura e 2 de diâmetro, dimensões pouco maiores das que ela tinha quando chegou aqui na carroceria de um caminhãozinho da Sempre Verde, que existia pertinho do antigo aeroporto. Foi comprada como sendo de enxerto e sob a promessa de que já estava produzindo, o que se confirmou logo depois.

Com o passar dos anos, a danada tomou gosto e passou a dar duas, três, cinco safras por ano, provavelmente em função do regime de chuvas do período, para usar uma linguagem mais técnica.

O fato é que os moradores da casa, visitantes eventuais e, sobretudo, os passarinhos que frequentam o quintal em busca de comida farta e fresca, são agradecidos por tamanha produtividade. Em caso de descrença do leitor, sou capaz de mostrar fotos das frutas agarradas nos troncos e enchendo uma das peneiras compradas, faz muito tempo, na calçada do mercado de Guarapari, de um homem já bem velho que as fazia em Anchieta.

A encomenda seguiu para o Rio de Janeiro na mala de Cláudio, meu irmão. Depois de colocar o vidro de geleia em um saco bem amarrado na boca, procurei, sem sucesso, uma caixa de tamanho adequado e resolvi usar como embalagem uma garrafa de água de côco.

Para isso, cortei com cuidado quase o perímetro inteiro da garrafa na parte perto do gargalo, o suficiente para acomodar o vidro da geleia no fundo dela, preenchendo o vazio restante com um pedaço de plástico com bolhas de ar, guardado para eventualidades. Aproveitei para colocar também uma espátula de bambu para que a minha amiga pudesse se servir da geleia. Em seguida, voltei a fechá-la, agora com a ajuda de fita adesiva fixada em cima do corte, não sem antes incluir um pequeno bilhete para a destinatária.

Pra completar, colei um rótulo com o nome da amiga em letras grandes, para que não restassem dúvidas ao porteiro do edifício que estivesse trabalhando quando ela fosse lá buscar a encomenda.

Pelo que ela disse em áudio no WhatsApp, o presente fez um enorme sucesso, fosse pelo gosto travante da geleia da fruta preferida, fosse pelo design do potinho que Carol havia comprado na Vila Rubim, da espátula que fiz com bambu trazido da Suíça e do invólucro padrão Magaiver da TV. Mais do que tudo, pela descoberta de que havia um bilhete dentro da garrafa, que a fez lembrar daquelas lançadas ao mar por náufragos esperançosos. Ela contou que a emoção gerou um grande alvoroço, a ponto de atrapalhar o serviço de abrir o presente.

Moral da história: compensa ter jabuticabeira em casa, produzir geleia, fazer espátula, escrever mensagem e embrulhar tudo e pedir que um irmão leve pra uma amiga que não se vê há mais de 50 anos, nem em fotografia.

Vitória, 26 de maio de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pequenas heranças

Pequenas heranças

Imagino que muita gente já se deu conta de que as laranjas-bahia, as minhas preferidas, estão começando a aparecer, embora meio verdes e com pouco caldo. Ainda estão escassas as de bom tamanho e de casca lisa, que formam parelha com as mexericas azedinhas de muitos caroços que, felizmente, também já podem ser encontradas.

Talvez por serem produzidas em pequena escala, tanto umas como as outras, nunca são vendidas nos supermercados, que preferem oferecer produtos mais padronizados e de fornecimento garantido. Nas barracas das feiras livres, elas ficam sempre em caixas colocadas em posições de menor destaque. Acho que pouca gente sai de banca em banca procurando por elas, como costumo fazer em tempo de safra.

Fora de época só se vê aquelas de casca amarelo forte, oferecidas como importadas, que me nego a comprar por ter me sentido enganado, faz tempo. Creio que elas sejam de uma espécie geneticamente desenvolvida para atrair o olhar dos potenciais compradores pelo visual: belas por fora, mesmo que passadas por dentro.

Tendo conseguido umas tantas laranjas-bahia promissoras, é a vez de me sentar para chupar algumas delas com toda a calma desse mundo, sempre me valendo de uma faquinha de lâmina curta e perfeitamente amolada para a ocasião, e quase sempre sob olhares interesseiros do pessoal da casa.

Descascar cada uma sem ferir a pele que fica na parte de baixo da parte branca da casca é desafio que enfrento há décadas e que tem quem afirme ser mais uma mania do velho. A tal pele funciona como divisor entre a parte de fora da casca, dotada de sumo que faz arder os olhos dos desprevenidos, e da parte de dentro, que contém o caldo da laranja.

Trata-se de uma película fina, flexível e resistente, que envolve cada um dos 8 ou 10 gomos, todos contendo centenas de pequenos favos alongados e durinhos. Tenho na mais alta conta essa solução de revestimento, uma engenharia natural capaz preservar o conteúdo de cada favo contra contaminantes saídos de algum outro, que esteja comprometido.

Às vezes tento produzir uma longa tira de casca que as moças de antigamente giravam em torno da cabeça enquanto iam dizendo os nomes de rapazes conhecidos, até que se rompesse. O último nome dito por cada uma era o de com quem ela iria se casar. Embora lembrar disso me divirta, nada sei que confirme tal crença.

Escoteiro e pescador de praia, aprendi cedo que casca seca de laranja é um combustível poderoso, muito útil para acender fogueiras. Avô experiente, na semana passada comecei a introduzir Yara, a neta caçula, nos prazeres de chupar laranja-bahia. Ela começou fazendo careta, franzindo a testa e, logo, logo, passou a pedir mais outros pedaços, boa boca que é.

Vitória, 12 de maio de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.