Jogos perigosos

Jogos perigosos

É com satisfação que informo aos leitores, sobretudo os mais velhos, que a proposta de reunir forças e convicções de avós em favor da defesa de nossos netos contra os males dos joguinhos eletrônicos mereceu declarações de apoio e solidariedade. Vários deles se disseram preocupadíssimos com o que estavam vendo. Duas pessoas queridas, que passarão à condição de avós em breve, prometeram se preparar para enfrentar a situação quando o problema se apresentar.

Amiga de Brasília contou que sua filha, mãe da sua neta, não tem conseguido dar conta de negar o “posso jogar?”. Atenta, passou a oferecer papel, pincel e lápis de cor para induzir a menina a desenhar, tendo, inclusive, autorizado que pintasse na porta do seu guarda roupa. Em conversa com ela sobre o valor dos quadros de Chagall, a danadinha lhe perguntou se ela iria vender a tal porta do armário.

Em uma outra linha de enfrentamento, um velho amigo, lá de Viena, disse que já está tomando as devidas providências: resolveu se aperfeiçoar no controle de sticks e botões para jogar contra os miúdos, que agora se gabam, com os amigos, de que o avô performa.

Por aqui, tratei de fazer a espada que Biel me pediu e já estou me programando para produzir um arco e flecha poderoso, atendendo o pedido de Quim Quim, de modo a que Bento, meu filho, possa levar para São Paulo, na próxima semana.

Numa outra frente de batalha, trato de acompanhar as movimentações políticas neste ano de eleições. Aqui, o que tenho visto não me faz tranquilo nem esperançoso. O lenga-lenga e a desconfiança parecem tomar conta da cena.

A terceira via ainda não conseguiu avançar a ponto de gerar expectativas animadoras e atrair apoios expressivos e votos dos indecisos e insatisfeitos. O lançamento do nome de Bivar como candidato para compor a chapa, deixa claro o propósito de reforçar seu partido nas bancadas federais e nos estados, para além da disputa pela cadeira de presidente. Ao que tudo indica, Ciro Gomes deverá se manter em posição confortável, fora da linha de tiro, explorando oportunidades para crescer nas pesquisas e ir para o segundo turno.

Enquanto isso, o candidato à reeleição, totalmente livre de embaraços e escrúpulos, inteiramente focado na campanha, vai nadando de braçada, voando pra todo lado em avião da presidência, comprando apoios com dinheiro público, distribuindo ameaças com convicção, tendo que se esquivar das denúncias de corrupção que brotam diariamente, envolvendo ministros e aliados. Pesquisas de opinião já indicam que a estratégia adotada está surtindo efeito, atenuando o clima de “já perdeu”, vigente até pouco tempo.

A candidatura de Lula, por sua vez, vai perdendo fôlego por obra do próprio candidato que, destreinado, sem o antigo vigor e com alguma culpa no cartório, não consegue atrair apoios, irrita potenciais aliados, se junta a dono de malas de dinheiro e, sobretudo, não oferece caminhos que possam trazer de volta antigos eleitores desiludidos e encantar quem esteja chegando. Destituído do poder da caneta e prejudicado pelo esquecimento de seus méritos antigos, parece enfrentar dificuldades em gerar certezas dentro do seu próprio partido e em núcleos organizados de interesse e de poder. A elevada rejeição ao seu nome, restrição dificilmente contornável, limita o universo dos votos úteis no primeiro turno. O antigo clima do “já ganhou” começa a se mostrar inconveniente e perigoso.

Vitória, 13 de abril de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Missão de avós

Missão de avós

Ganhei de Denis Barreto, colega do grupo escolar em Cachoeiro, 4 pedaços de bambu balde, trazidos de seu sítio em Vargem Alta. Eles têm mais de metro de comprimento, uns 15 cm de diâmetro e paredes bem grossas. Pesadíssimos e portadores de destino nobre, ficaram encostados, um ao lado do outro, no muro do jardim, para serem apreciados até de longe. Deitado na rede, me dei conta de que um deles era tudo o que eu precisava para fazer a espada, dessas de samurai, que Gael me pediu de presente de aniversário: gomo de 70 cm de comprimento para uma lâmina grande, e metade de um outro, para o cabo a ser segurado por duas mãos.

A notícia correu no grupo da família e um áudio de Biel, neto que mora em São Paulo, me fez prever que a inveja vai se instalar na alma de moleques querendo espada para lutar contra guerreiros do mal, desses que estão por todo lado nas redes.

Gael bem que tentou facilitar o meu serviço, segurando bambu, apanhando ferramentas, dando palpites, aprovando as formas que iam surgindo, mas sempre com um joystick nas mãos e os olhos na pancadaria na TV, ao lado. Numa das vezes que pedi ajuda, ele falou que não podia parar, porque estava jogando com outra pessoa. Quis saber contra quem, mas ele disse não saber e que poderia ser alguém em qualquer lugar do mundo.

Sem interromper o que estava fazendo, pedi que desligasse tudo pra gente conversar um pouco sobre espadas, joguinhos viciantes, perda de tempo e, também, sobre o ato de produzir alguma coisa e a satisfação que se sente ao ter feito algo bonito ou com alguma utilidade. Na medida em que fui enaltecendo o poder das mãos, a capacidade de inventar, a vontade de fazer cada vez melhor, a carinha dele foi ficando a de moleque sagaz e os olhinhos ganharam brilho.

As mudanças nos hábitos das crianças de hoje, provocadas pelo poder de comunicação das redes e por estratégias sofisticadas de marketing que incluem publicidade sedutora e uso de influenciadores digitais, vão ocupando as atenções, consumindo o tempo livre da garotada, empobrecendo o universo das experiências de brincar e de aprender. Isso tudo, além de restringir os momentos de convivência com os mais velhos da família, frequentemente vistos como retrógrados e ultrapassados.

Fazendo a espada, fiquei pensando na função nobre dos avós no mundo de hoje. Avós que viveram em outros tempos, quando as partidas eram disputadas cara a cara, nas mesas de pingue-pongue e de sinuca, nas caixas de totó, nos campos de futebol de botão, e também na porrinha, no pique esconde, no carrinho de rolimã, nas pipas e peladas de rua.

Gosto de pensar que somos pessoas experientes, informadas e sabidas, donas de ótimas lembranças e histórias interessantes para contar, ainda que insuficientes para enfrentar a concorrência digital e os males da overdose de joguinhos eletrônicos que vêm afetando nossas crianças e adolescentes.

Está mais do que provado que iniciativas de os afastar dos celulares, tablets e joysticks podem resultar em protestos de toda ordem, choros desvairados, xingamentos infantis e até em argumentações constrangedoras de pais já derrotados em tentativas anteriores.

Sendo assim, convém que cada um de nós esteja munido da disposição do exército de Brancaleone, da imaginação de Leonardo da Vinci, da paciência de Jó e da sabedoria de Buda para irmos à luta por netos saudáveis, criativos, corajosos, participantes e realizadores.

Vitória, 31 de março de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Banana, café e mamão

Banana, café e mamão

Na semana passada estive no sítio de Carlinhos e Flavinha Larica, amigos de décadas, para fazer uma foto para um livro que estou finalizando. Queria mostrar a varanda da casinha construída por imigrantes italianos, onde começou essa minha mania de fazer colheres de bambu. Ele fica na região de Batatal, na beira da estradinha que sai de Marechal Floriano e vai dar em Alfredo Chaves.

Achei muito bom ver que, passados mais de quarenta anos, os caseiros Antônio e Alício, junto com suas esposas, ainda estão por lá trabalhando. Melhor ainda foi ver que seus filhos são prósperos produtores rurais, cada qual vivendo com sua família em casas amplas com todo conforto. Todos na lide da banana e do café. Na volta, Carlinhos disse, com uma ponta de orgulho, que eles aprenderam a usar técnicas modernas que favorecem os resultados.

Não faz muito tempo, o pessoal da região cortava as bananeiras e deixava os cachos no pé dos morros até a hora de empilhar no reboque do Tobata para despejar no terreiro e, depois, jogar na carroceria do caminhão. Para arrumar a carga, acabavam pisando nos cachos de bananas. Por isso, quando vejo bananas com manchas escuras na casca, me vem a figura de um homem bronco andando sobre elas.

A conversa me fez lembrar de quando ajudei a criar o Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café – CETCAF, ao lado de técnicos do governo e de associados e dirigentes da cooperativa de São Gabriel da Palha, liderados por Frederico Daher e Dário Martinelli. Até então, o setor cafeeiro era controlado por grandes produtores e por poucas empresas exportadoras, que nunca se dispuseram a promover e investir na melhoria das condições de cultivo e trato do café, nosso principal produto agrícola, e que sustenta uma boa parcela da população capixaba. Depois de trinta anos, dá gosto ver a produção de café de qualidade e saber que muitos produtores colocam seus produtos em mercados exigentes, mundo afora, recebendo um bom dinheiro por saca.

A evolução observada nas cadeias produtivas da banana e do café me lembrou de uma passagem da história de sucesso do mamão capixaba, que pouca gente conhece. Ao saber que o mamão de Linhares não estava fazendo sucesso no Ceagesp, em São Paulo, Ricardo Santos, com quem eu trabalhava no BANDES, mobilizou a contribuição de uma agrônoma para investigar as razões do problema e sugerir soluções.

Anita, esse era o nome dela, adotou uma abordagem bem prática: depois de acompanhar de perto a colheita das frutas e colocá-las num caminhão, viajou ao lado do motorista até o destino. Em meio à agitação do lugar, identificou rapidamente uma explicação elementar: as frutas não estavam separadas por tamanho nem por estágio de maturação. Oferecidas nessas condições, caberia aos compradores de grandes quantidades escolher, separar, embalar e encaixotar as frutas que gostariam de levar. Como daria muito trabalho e a pressa era muita sempre, jogavam o preço pra baixo ou saíam em busca de outros fornecedores com cargas mais organizadas.

Na volta, ela reuniu os produtores mais interessados e sugeriu que as atividades de classificação e embalagem fossem incorporadas ao processo de produção. Mais ainda, que era urgente encontrar quem produzisse caixas de madeira de eucalipto, padronizadas para colocar mamão. O sucesso das vendas veio de imediato no mercado nacional e as exportações ganharam escala.

A danação é o nosso mamão Formosa está sendo oferecido a R$12 por quilo, bem mais caro do que melão que vem lá do Nordeste.

São Paulo, 17 de março de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Mares de lagosta

Mares de lagosta

Comecei a mergulhar em busca de lagostas com uns 13 anos. Éramos uns 4 ou 5 moleques que passavam horas no mar procurando antenas e tentando acertar as pontas do tridente na carapaça de lagostas miúdas.

O material de mergulho era bem simplório: tridentes e bicheiros eram feitos em casa e meu par de pé-de-pato foi achado na calçada. A chegada das lagosteiras Helmar, de mola, foi um grande avanço. Ninguém tinha roupa de borracha pra se proteger do frio e a gente torcia pela chegada de vento sul, que garantia águas mais limpas.

Os primeiros mergulhos foram nas pilastras do trampolim que existia em frente ao Miramar e no paredão que ia da Praia do Barracão até a casa da família Michelini. Logo passamos a explorar a encosta da Western e a orla entre a Pedra do Relógio, no Iate Clube, e a praia do colégio das freiras.

Remando, exploramos, sempre em duplas, a ilha das Andorinhas, a borda quase completa da Ilha do Frade, com destaque para as pedras das praias da Castanheira e das Panelas, sem falar no famoso Pegador. Mergulhar nas águas profundas do Pesqueiro Grande e da ilha Rasa, áreas de lagostas maiores, exigia mais tarimba e fôlego apurado. Logo passamos a pescar também no lado norte da Ilha do Boi e das Gaeta de Dentro e de Fora. A bordo da lancha Bacanau, ficou fácil chegar na Ponta de Piranhem, hoje Tubarão, e nas águas frias das ilhas de Itapoã, dos Pacotes, das Escalvadas e das Três Ilhas. De carro, não se perdia viagem aos arrecifes escuros de Manguinhos, Jacaraípe e Nova Almeida. Comer lagosta crua ajudava a matar a fome.

Ao entrar no mar, num final de tarde da semana passada, bateu uma enorme saudade do meu tempo de rapaz arrojado e uma vontade danada de mergulhar, o que não fazia desde 1994, quando infartei.

Pedi a Nélio, meu genro, que me emprestasse seu material pra que pudesse observar novamente trechos do fundo do mar, que conhecia de cor. Em especial, eu gostaria de inspecionar uma toca relativamente espaçosa, situada pertinho da beira, onde sempre havia uma lagosta das grandes. Por habitar lugar tão improvável, ela ficava escondida dos mergulhadores desavisados.

No dia seguinte, sob olhares incrédulos do meu pessoal e no foco das lentes dos celulares, lá fui eu devidamente armado e paramentado, em busca do meu passado. Cumprindo um ritual antigo, passei cuspe no vidro da máscara antes de vesti-la, calcei os pés-de pato já dentro d’água, conferi as pontas do bicheiro e do tridente e, em seguida, armei a lagosteira. Tudo sob as melhores expectativas de sempre. Ao afundar, o frio da água percorreu as costas e fez tremer o corpo e acelerar o coração.

Batendo os pés sem pressa, acalmei a respiração e fui em frente, sempre observando o fundo, até chegar na região da bendita toca. Com a água limpa, foi fácil encontrá-la de longe. Emocionado, permaneci um tempo boiando, respirando fundo antes de me aproximar daquele lugar meio mágico. Seria uma verdadeira glória dar de cara com uma logostona esverdeada me esperando.

Foi duro constatar que a tal loca estava totalmente aterrada, impedindo sua utilização por lagostas de qualquer tamanho. Dei mais uns mergulhos e voltei pra casa sem o trunfo e uma história fantástica pra contar no resto da vida. Bento editou um vídeo safadinho sobre a façanha do pai e jogou nas redes pra quem quiser conferir.

Vitória, 03 de fevereiro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

De utilidade pública

De utilidade pública

Panela antiga, grande, própria para fazer comida pra muitas bocas. Parte valiosa da herança que me coube na divisão das coisas da casa da minha mãe. Veio pra se juntar a uma outra, bem menor, mas de mesmo design, sem quina viva no encontro do fundo com a parede lateral. Feita de alumínio grosso, tem a parte de baixo abaulada, muito útil pro serviço de fritar alho e cebola para os refogados. Pois foi na nossa cozinha, depois dos tantos anos de uso diário, que o seu cabo se soltou.

Tenho boa experiência em consertar panelas velhas, inclusive colocando cabos de bambu de gomo curto, que proporcionam excelente pega. Mais uma vez tentei “fazer o meu melhor”, como se diz por aí, agora usando araldite, poderoso recurso para usos variados que, nesse caso, se mostrou insuficiente para resistir aos esforços de tracionamento demandados.

A cena da queda da panela, patética e perigosíssima, aconteceu longe dos meus olhos, mas ouvi o barulho e a gritaria vindo da cozinha. Ao tirar do fogo, ela foi ao chão com o peso da água e das jabuticabas que colhi no jardim durante 3 dias seguidos, para fazer geleia, dessas azedinhas e travadas, que prefiro.

Soube, por fonte de confiança, que na feira do Bairro de Lourdes tinha um senhor que consertava cabos e, relevantíssimo, tampas de panelas de pressão. No domingo passado, lá fui eu levando a minha, disfarçadamente, numa dessas sacolas de fazer compras. Não foi difícil encontrar a banca apinhada de ferramentas, vidros de doce repletos de parafusos, rebites, arruelas, suportes, um martelo de borracha, um pé de ferro e muito mais. Confesso que fiquei com inveja do martelinho de cabeça redonda usado para golpear o que requer precisão.

Ele trabalhava sentado num banquinho, com um pano grande cobrindo as pernas e as costas apoiadas no paralama traseiro de um Fiat desses pequenos bem surrado. Sempre que necessário ele se virava para o lado, de modo a acessar o banco traseiro, espécie de prateleira repleta de cabos de todos os tipos, tampas variadas, panelas consertadas esquecidas pelos donos e coisas afins.

Mostrei o que havia levado e recebi a promessa de que consertaria em seguida. Aproveitei pra ir comprar 3 cordas de caranguejo, meio quilo de chouriço de porco e umas flores que tinha visto na vinda. Quando cheguei de volta ele estava começando o serviço. Escolheu o cabo, separou 2 arrebites, o suporte e o parafuso e, conferiu se daria certo, colocou tudo no seu respectivo lugar e testou. Para completar o reparo, tratou de desamassar a borda, com o martelo de borracha e olhar de pontaria.

Perguntado, disse que o valor do conserto era 17 reais. Quis saber porque não cobrava 20 e ele reafirmou, sem pestanejar, que era só 17 e mais não disse. Aquilo me fez pensar que aquele homem é um dos últimos que se dedicam à arte dos consertos e reparos de coisas que vão quebrando e se desgastando com o uso diário. Um nobre e valioso cidadão, desses de grande utilidade pública, como são os sapateiros e os alfaiates.

Vitória, 20 de janeiro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Férias em Cotia

Férias em Cotia

Meu pessoal adora se juntar pra festejar, seja lá o que for: aniversário, lançamento de livro, sucesso de exposição, casamento, chegada de ano novo e tudo o mais que se mostre um bom pretexto ou uma ótima oportunidade para reunir os adultos e a garotada dessa espécie de clã que vai se formando. Está comprovado que muitos se divertem tomando providências para viabilizar ajuntamentos familiares. Aproveitando expertises, preferências e disponibilidades de cada um, atuam em harmonia e com boa antecedência.

Definem as datas e os lugares, inventam os motes, compram o que for preciso, alugam o que for necessário, escolhem parcimoniosamente o menu, enfeitam as paredes pra ficar bonito, arranjam flores no jardim e compram em loja se preciso for, desenham figuras nos vidros das janelas, montam árvores de Natal e barraca na grama do jardim pras crianças, fazem fogueira se puder, selecionam as músicas, botam pra tocar e dançam sem parar, cozinham e botam pra assar, fazem bolo com cobertura, se for dia de aniversário de alguém, inventam saladas e risotos de vários tipos, fritam ovos, criam sanduíche especiais e canapés coloridos, fazem pão de queijo e tortas de maçã ácida e de limão, assam peru e pedem pra destrinchar e fatiar para servir, cortam, picam, temperam e mexem panelas, acendem a churrasqueira, amolam faca para cortar as carnes, lavam louça com pouca destreza e alguma má vontade, varrem se alguém pedir ou mandar, pedem tudo que precisam para quem vai ao supermercado.

Usam o celular o tempo inteiro, trocam mensagem de montão, fotografam tudo e postam imediatamente, bebem cerveja, gim, uísque, vinho, cachaça e muitos drinks com gelo, passeiam na trilha da floresta no parque, deitam ao sol de meio dia, jogam baralho seriamente e brincam com um jogo de palavras, ensinam a fazer colher e os segredos das gravuras, comem como gulosos ao lado de crianças que adoram pizzas, biscoitos e chocolate e disputam o último pedaço do bolo e o restinho do doce de leite.

Chutam bola pra todo lado, tentam fazer cesta no aro da tabela, se jogam na piscina fazendo careta, assistem filme na parede da sala em silêncio ou torcendo pro mocinho, brigam por quase nada e fazem as pazes rapidinho, praticam o vício de disputas em joguinhos eletrônicos, fazem manha pra que deixem jogar mais, dormem no sofá, acordam tarde, voltam a jogar autorizados ou escondidos.

Desta vez o ajuntamento aconteceu numa casa confortável de um condomínio antigo nos arredores de Cotia. As ruas tranquilas e arborizadas me trouxeram as minhas de antigamente, com a garotada indo e vindo sem qualquer dessas preocupações modernas. Amora e Pingo nos receberam com a alegria que uma arara e um cachorro podem demonstrar para os seus donos ​depois de longa ausência.

Vitória, 06 de janeiro de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Bem que merecemos

Bem que merecemos

No sábado passado fui à quarta festa desta pandemia. Antes disso, só um casamento, um lançamento de livro e um aniversário, eventos alegres sempre em ambientes espaçosos e abertos. Desta vez, foi em casa de amigos queridos, também um lugar amplo e arejado. Apertados só os abraços das pessoas com astral nas alturas, todas elas conhecidas há décadas e saudosas há meses. Mais uma reunião oficial de uma confraria de mulheres maduras, produtivas, animadíssimas e poderosas.

Pelo que imagino, a prática corriqueira de se encontrarem para se divertir conversando, bebendo, comendo e dançando, começou a acontecer na varanda, com vista para o mar da Praia da Costa, da casa de uma família de muitos filhos, pais festeiros e amistosos com seus respectivos amigos. Mais adiante a coisa foi ganhando força e se ampliando para além dos muros baixos da casa da família, incorporando paqueras, noras, genros e contra-parentes.

Conheço bem essa condição de pai de 5 filhos, morador de uma casa no caminho de praia frequentada por muita gente. Depois de décadas, ainda acontece de encontrarmos quem diga ter entrado para tomar uma chuveirada no jardim, beber água geladinha e trocar de roupa a caminho do mar.

Como o riso sempre correu frouxo e o papo animado, as garotas da casa foram trazendo colegas de escola e amigas do peito. Foi numa dessas que Carol entrou na roda e achou muito bom e pouco. Numa festa de aniversário, ela achou por bem me levar pela mão, prometendo que outros maridos estariam lá também. Foi assim que conheci uma turma inteira de pessoas que gostam de se reunir com frequência, pelo simples prazer do encontro e de conversas entusiasmadas.

Só vejo gente se abraçando forte, beijando bochechas alheias, alisando cabeças, elogiando as roupas e os cabelos já mais brancos, perguntando pelos filhos e netos, querendo saber se deu certo, o que está pensando em fazer agora. Isso, quando não estão requebrando um samba, gesticulando um rock antigo e rodopiando um foxtrote arretado. As garotas adoram dançar enquanto os garotos bebem cerveja e piscam os olhos de longe, em sinal de aprovação.

Pois, desta vez, foi ainda mais emocionante do que das vezes anteriores: foram 7 horas de festa, em ritmo de uma grande comemoração do reencontro da turma completa, depois de tanto tempo querendo estar junto sem poder. Como está provado, o convívio intenso pelo Whatsapp sustenta as relações pessoais mas nem de longe substitui o afago das mãos, a emoção dos abraços nem o estalo dos beijinhos.

Vitória, 21 de dezembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ventos vindos do Sul

Ventos vindos do sul

A chegada de um vento sul em Vitória sempre foi prenúncio de uma chuva contínua e acompanhada de alguma friagem e muita umidade. Pra muita gente é sempre motivo de transtornos e incômodos, seja por falta de agasalho, seja na movimentação de um lugar para outro, a pé ou de bicicleta. No final dos anos 1960, muito pouca gente tinha carro pra circular pela cidade, o bonde já não existia, os ônibus eram bem poucos e só rodavam pelas avenidas e ruas principais.

Por provocar dias de recolhimento forçado e gerar eventuais melancolias, temas constantes dos escritos de Carmélia de Souza, o vento sul me faz lembrar da minha querida cronista, que hoje desfruta das vantagens do céu ou do inferno ao lado de muita gente boa que partiu daqui. Imagino que ela possa estar abismada com as mudanças que a sua cidade experimentou nas últimas décadas, meio sem saber o que fazer com o slogan “Esta ilha é uma delícia”, meio debochado e cheio de ironia, que cravou para a Vitória de seu tempo.

Para uns poucos, abnegados como eu, que mergulhavam ao redor das ilhas do Boi, do Frade e nas pedras de Ponta Formosa em busca de lagostas, a chegada do vento sul era sempre muito bem vinda, festejada até. Era garantia de contar com uns poucos dias de água do mar transparente, condição indispensável para que a gente enxergasse suas antenas mais de longe e com maior facilidade.

Devo dizer que estou estranhando essa sucessão de temporadas de vento sul por estas bandas. Nos últimos meses foram muitas as frentes frias que chegaram por aqui, trazendo chuvas e baixas temperaturas, inclusive neste começo de dezembro. Pode ser bobagem minha, mas acho que elas devem ser mais uma expressão do desarranjo climático de que tanto se fala mundo afora.

Pois as recentes investidas desse vento frio vieram trazendo lá do sul uma enxurrada de más notícias, na forma de anulações de condenações de crimes e falcatruas bem conhecidas e comprovadas. Sob argumentos variados, homens poderosos da justiça anularam algumas das penas e processos que foram imputados a Eduardo Cunha, Flávio Bolsonaro, Lula, Sérgio Cabral e, de quebra, a Jacob Barata, o “rei dos ônibus” do Estado do Rio.

O que me intriga é constatar que tais decisões mereceram pouquíssimos espaços na imprensa e quase nenhuma crítica contundente de políticos por motivos que desconheço, mas que posso supor serem os mesmos de sempre. De uma coisa tenho certeza: essas decisões produziram muitas alegrias para os respectivos advogados de defesa. Isso, sem falar na felicidade inesperada dos que passaram a compor a fila dos injustiçados por obra e graça dos votos de uns poucos ministros do STF.

Vitória, 09 de dezembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nem parece o mesmo

Nem parece o mesmo

Abatido, fora de prumo, fraco e sem o charme e a convicção de sempre. Deu espanto e uma certa pena. O vigor, a agilidade mental e a sagacidade política parecem ter ido pro ralo. Passou a impressão de que está cansado, cumprindo tabela em missão pela Europa em busca de algo valioso e estratégico.

Nas imagens que pude ver, ele parecia estar numa sinuca de bico, completamente incomodado, doido para se livrar da arapuca em que tinha se metido. As duas repórteres pareciam decepcionadas, sem graça e demonstrando dó do entrevistado. O formalismo estava constrangedor pra os três. Não imagino quem tenha armado o circo, mas dá pra supor que seja coisa de profissionais do marketing do próprio candidato. A sua figura envelhecida, sem brilho nos olhos e firmeza nos gestos, nem de longe lembram aquelas captadas pelo seu fotógrafo de sempre. Em momento algum apareceu como um líder nato nem como um salvador de qualquer pátria.

Faz tempo, escrevi aqui que a melhor alternativa pra ele seria a de entrar para a história como o cara que abriu mão de ser presidente mais uma vez para ajudar a tirar o capitão do Palácio do Planalto. Fazendo as contas inteiras, ele se livraria do tiroteio e não precisaria ficar se defendendo nem ir trabalhar todo dia. A glória lhe garantiria auditório cheio para suas palestras remuneradas e seria curtida com os amigos de verdade, sempre na frescura das sombras e diante de comida boa e bebida honesta.

Muita gente deve ter achado graça da minha imaginação fértil e considerado a formulação totalmente fora de propósito e ingênua. O fato é que a imprensa nanica e atenta publicou que ele está avaliando se de fato vale a pena a aventura de se candidatar a mais um mandato nas condições que se apresentam.

Digo isso sem querer entrar no mérito das declarações dadas durante a tal entrevista. O bate-boca no partido e nas rodas de conversa já tratam disso, com um certo regozijo para quem é do contra e algum constrangimento para seus antigos admiradores. A sensação que me fica é a de que o homem perdeu potência.

Pelo que se pode ver, a entrada de Moro na disputa representa fato muito mais relevante do que se imaginava. Fera ferida, além de tirar votos do atual presidente, ele deverá bombardear duramente quem já foi presidente duas vezes, dando um troco contundente com conhecimento de causa e muita convicção pessoal.

Vitória, 25 de novembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Impressionante

Impressionante

A notícia foi recebida com emoções variadas aqui em casa. A queda de um avião era um fato ruim por si só e atiçou a curiosidade de todos: Pequeno ou grande? Onde foi? Muitos passageiros?

Na pandemia, as perdas sofridas e as mortes anunciadas ganharam condição de rotina para praticamente todos nós. Basta estar ligado em alguma fonte de informação pra ficar sabendo das mortes e dos números atualizados.

A notícia do desastre se tornou mais relevante ao se saber que se tratava de uma cantora muito famosa. Para mim, motivo de espanto: Como assim? Nunca ouvi falar nessa pessoa, jamais escutei seu canto nem vi sua imagem na TV. Ela cantava qual tipo de música? Sertaneja? Então deve ser por isso. Não gosto muito desse estilo musical e sou do tempo dos chitãozinhos e xororós, dos tonicos e tinocos.

Pouco sei sobre essas duplas que existem de montão por esse Brasil afora e se apresentam em cidades do interior, viajando em ônibus enormes com os nomes escritos nas laterais. Uma solução prática e econômica para movimentar músicos, equipe de auxiliares, instrumentos e equipamentos de som e iluminação, com vantagens de viajar ensaiando e compondo com parceiros, jogando baralho e vendo a paisagem.

Digo isso porque já tive um ônibus desses bem grandes, transformado em motorhome, com cama para 12 pessoas, duas mesas, pia, geladeira e banheiro a bordo. Uma alternativa para levar a família grande, com conforto e segurança, por lugares fora das rotas tradicionais, livre das incertezas, do entra e sai em hotéis, de idas e vindas de aeroportos, de carros alugados.

Fiquei impressionado com a quantidade desses ônibus estacionados ao longo de um trecho da estrada por onde passaram os caminhões de bombeiro com os corpos das vítimas. Uma espécie de reverência silenciosa, um último adeus para uma pessoa muito querida, uma irmã do peito, uma referência de vida, uma guerreira das nossas.

Vi muita gente de pé nas calçadas, aglomerada em lugares estratégicos, em filas enormes para se despedir da ídala. A solidariedade e a tristeza estampadas no rosto de cada uma, algumas desoladas por completo. Cenas que me fizeram lembrar dos cortejos fúnebres de Tancredo e Ayrton Sena.

Também fiquei impressionado com as declarações de amigos, parceiros e artistas consagrados, jovens e gente mais velha, de todos os estilos, além de jornalistas, profissionais do ramo. Unanimidade geral e irrestrita. Todos confessando sua dor e, sobretudo, a admiração pela pessoa muito especial que foi para sempre. A sensação de vácuo, de perda de uma criatura muito valiosa, que fez o bem em grande escala.

Mais chocante foi saber que eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher tão querida e admirada e me dar conta de um Brasil vivo e pulsante que desconheço por completo.

Vitória, 11 de novembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA