Saudades de montão

Saudades de montão

Acabo de ver o pessoal do skate na Olimpíada de Tóquio vivendo em alegre harmonia, torcendo pelo sucesso de seus competidores. São cenas emocionantes que contrastam com a zorra instaurada em terras brasilis, por um presidente desvairado e obsessivo por poder. Decididamente, o que tenho visto nas esferas políticas por aqui não me inspira nem me alegra. Pelo contrário, me faz perder a graça e me preocupar com o que de indesejável possa estar a caminho.

Sinto saudades de Ulisses Guimarães, que comandou a Assembleia Nacional Constituinte de maneira digna e exemplar, acima de facções religiosas, grupos de gulosos, rebeldes irritados, milícias e proprietários de fato e de sempre. Ele foi capaz de fazer convergir e de criar um ambiente de tolerância, em favor de um acordo geral entre diferentes. Sinto saudades, também, de gente dotada de capacidade de conversar por horas a fio, sabendo ouvir e argumentar, com decência e convicção, sem se agredir ou inviabilizar convergências parciais, relevantíssimas.

Também tenho saudades dos tempos em que foi sendo ampliado o entendimento sobre o que deveria ser preservado e valorizado como patrimônio histórico e cultural de um lugar, de uma gente. Tenho fortes saudades de Gilberto Gil como Ministro da Cultura ou, se parecer mais adequado, de Ministério da Cultura sob a direção plural e incentivadora de Gilberto Gil.

Sempre me lembro dos técnicos, pesquisadores e dirigentes visionários, que ajudaram a criar uma mentalidade nacional em favor da proteção e valorização do meio ambiente, em especial de áreas estratégicas como a do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Sem a contribuição deles, estaríamos engatinhando e sem convicção para enfrentar a insensatez e as boiadas em geral.

Tenho saudade de figuras como Darcy Ribeiro, com sua compreensão do Brasil e do valor da educação, e de Juscelino, que estava sempre sorrindo, gostava de serenata e queria fazer tudo em 5 anos.

De situações mais recentes, tenho saudades de tardes diante da TV assistindo com atenção ao desenrolar do Mensalão e, como desdobramento, da Lava Jato, produzindo manchetes diárias sobre falcatruas políticas, negócios bilionários, processos e prisões inimagináveis. As notícias produziam uma sensação de “até que enfim” e alguma dose de esperança na melhoria dos padrões de governo. Bem sei que há quem não sinta esse tipo de saudade nem considere relevantes os bilhões de reais recuperados.

Tenho saudades das décadas em que a população brasileira tinha orgulho e confiança nas urnas eletrônicas do TSE.

De uma coisa estou absolutamente convicto: esse presidente e sua turma de seguidores não produzirão em mim, qualquer tipo de saudade, em tempo algum. Não me inspiram nem me fazem querer que fiquem por perto.

Sou da turma dos que sentem saudade do tempo em que não tinha reeleição.

Vitória, 05 de agosto de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Morrendo de rir

Morrendo de rir

A charge de Amarildo na edição do último dia 12 deste jornal previu o final de uma etapa do governo, caracterizado por bobagens, bravatas e ameaças. No desenho do nosso astuto chargista, uns tantos brasileiros estão rolando no chão de rir, diante de Bolsonaro declarando que não haverá eleições se o sistema de votação não mudar. De lá pra cá, a coisa só fez se agravar. A derrota da PEC do voto impresso é fava contada.

A substituição de um general de confiança por um político profissional, dotado de grande capacidade de mobilização de forças e apetites, será a marca da mudança de padrões. Trazer Ciro Nogueira pra dentro do Palácio é a expressão exata da capitulação do estilo capitão bravateiro. Com tal decisão, tomada por desespero, ele abre acesso aos seus segredos, delírios e intenções. E, mesmo não sendo rei, meio que fica nu e sem retaguarda confiável. Já não bastava ter Lira tomando conta do dinheiro e das votações, sempre de olho na unidade do Centrão e encantando boa parte da oposição.

O degringolamento do prestígio e do poder do presidente parece irreversível. Na impossibilidade de se manter impune no comando, só lhe resta ceder parcelas crescentes de poder e comprar apoios cada vez mais caros. E sem qualquer garantia de fidelidade e subordinação.

Não tenho conhecimento de situação tão bizarra, que até parece um torto semipresidencialismo. Teremos uma dupla de gulosos fazendo política do “venha a nós” 24 horas por dia, enquanto o Presidente engasga e rola na cama. É uma condição de sobrevivência inteiramente perigosa e incômoda para pessoas que agem por impulso e prepotência. Bom exemplo disso foi a aprovação do Fundo Eleitoral de valor astronômico, que transformou um aliado em inimigo, com ameaças de abertura de processo de impeachment.

Já se vê que muitos de seus fiéis seguidores estão ficando sem graça. Mais do que isso, já tem gente debandando. Li, esta semana, que “Weintraub articula candidatura ao governo de SP fora da órbita de Bolsonaro”.

As pressões de uma igreja evangélica multinacional sobre o presidente ultrapassaram limites e podem ter aberto mais um flanco. Na condição de enviado especial disfarçado, Mourão foi à África para reunião sobre língua portuguesa e na volta veio trazendo a negativa categórica do presidente de Angola em receber membros da bancada evangélica.

A aprovação de legislação que restringe nomeação de militares para funções no serviço público, que já conta com a simpatia do pessoal de farda, será petardo definitivo no discurso de “meu Exército”.

A esperteza de Kassab, ao defender o nome do presidente do congresso para as próximas eleições, deve ter provocado muitos soluços presidenciais, por quebra de expectativa de fidelidade eventualmente prometida. Por essas e outras, a terceira via vai ganhando força, gostem ou não os dois candidatos que se sentem invencíveis.

Vitória, 22 de julho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Jogar fora, nem pensar

Jogar fora, nem pensar

Assunto alegre é o que não falta por aqui: neta crescendo rapidinho, com cabelo de cima da cabeça arrepiado no melhor estilo cacatua; goiabeira meio maluquinha, produzindo adoidada em pleno inverno de vento sul insistente; perda de Bill, irmão do finado Kill, aos 16 anos, já bem magrinho e com andar robocop, depois de receber muitos dengos, inclusive o de poder dormir dentro de casa durante um mês inteiro; a imunização de praticamente todos os membros do nosso clã familiar expandido e do círculo de amigos; e as quedas progressivas nas perdas diárias de brasileiros por covid-19.

Mas não há como deixar de lado a insensatez e as maracutaias relacionadas aos processos de compra de vacinas pelo governo federal. A partir de uma denúncia muito bem calculada, feita ao Presidente numa tarde de final de semana, vai se descortinando uma espécie de guerra entre quadrilhas ou, para usar um termo mais em voga, entre facções, por dinheiro graúdo.

Basta prestar atenção nas notícias sobre fatos envolvendo civis e militares nomeados para cargos de chefia dos órgãos responsáveis por compras bilionárias, que afetam a vida de tanta gente, lá no Ministério da Saúde. Ao que se sabe, todos eles foram indicados por políticos e empresários conhecidos e com passado relativamente nebuloso. Em complemento, também se fica sabendo de um deputado, que lidera pelo governo, operando com potência e agilidade na aprovação de legislação e de providências relacionadas com compras governamentais estratégicas.

Para engrossar a complexidade do enredo e aumentar o suspense da novela, fica-se sabendo, também, que subiram ao palco novos atores, recém-saídos de malocas e esconderijos. Amadores e profissionais, inclusive um reverendo, oferecem ótimas oportunidades de negócio, posam de detentores de influência e de acesso a gente muito enfronhada no poder central.

O que se oferecia como uma pechincha, transformou-se numa fonte de fortunas potenciais e instigou ganâncias generalizadas. Ainda não se sabe os detalhes, mas tem todo jeito de guerra de foice no escuro. O pessoal da CPI acaba de acender a luz.

Começo a acreditar que a coisa está ficando esquisita e em bases definitivas. A divulgação de sucessivas descobertas de irregularidades e de conexões indevidas no trato do dinheiro público para salvar vidas produz estragos relevantes nos níveis de confiança no governo. Vai se consolidando a impressão de que a vaca já está indo pro brejo. Há até quem acredite que ela já teria ultrapassado o famoso ponto de não retorno, de onde ninguém, mesmo que se valendo de todo tipo de recurso e de habilidade, conseguirá tirá-la.

Ainda não dá para imaginar os próximos capítulos dessa história de terror, mesmo porque, o artista principal pode querer jogar o script oficial no lixo e tentar escrever um outro, a seu gosto e dos seus. Oremos mais um pouco.

Vitória, 08 de julho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Yara chegou

Yara Chegou (Serviços públicos)

Yara chegou. As dores começaram por volta das nove da noite e às duas da manhã ela já estava dando o primeiro choro, com a chegada do oxigênio nos pulmões. Tempo de lua cheia, a maternidade previamente escolhida estava inteiramente ocupada por crianças nascidas nos dias anteriores e grávidas aflitas. Esbaforida e demonstrando muita disposição, nasceu de parto natural num pronto socorro, sob cuidados de médica atenciosa, competente e querida. Compreensiva, nem reclamou.

Convicta e disposta, suga com tranquilidade os peitos da mãe. Serena, até hoje nunca golfou o que acabou de engolir. Uma grande contribuição para a qualidade de vida de quem a alimenta e que precisa de descanso e sossego entre as mamadas. Como era de se esperar, ela nasceu sabendo usar linguagem sonora por comida e trocas de fralda. Chora e berra, se necessário, sempre com justa causa.

Depois que desinchou, sua cabeça, que parecia redondinha, ganhou forma de manga espada, uma característica da saudosa bisavó Gracinha, da prima Manu e do avô que conta esta vantagem. A luz refletida na parede branca do quarto me fez acreditar que seus olhos são claros, puxando para os azuis. Seus cabelos escuros e fininhos produzem cenas de ternura quando alisados pela mãe, enquanto amamenta.

Sempre protegida dos golpes de vento, ela já está tomando banho de sol, só de fralda, no colo de alguém, com os cachorros da casa deitados na grama do jardim, ao lado, completando a cena para fotos.

Diferente do que aconteceu com todas as outras 12 crianças, filhos e netos, da família, estou acompanhando de perto os primeiros dias de Yara, sobretudo os que têm passado aqui em casa, sob atenções e cuidados da avó materna. Como não pego recém-nascido no colo, tento dengar a mãe no que posso. Por essas e outras, me dei conta de que a pandemia proporciona o convívio familiar para pais e avós desobrigados de sair de casa para ir trabalhar.

No começo da semana, mãe, avó e criança foram, em comitiva, ao Banco de Leite do HPM, em Bento Ferreira, em busca de instruções sobre amamentação. Ontem, elas voltaram da consulta ainda mais entusiasmadas, por saberem que, além das orientações, oferecem potinhos de leite materno pasteurizado e congelado para os bebês na UTIn e para as mães com produção insuficiente. Um verdadeiro serviço público de grande utilidade, digno de registro.

Encantada com o tratamento recebido, Carol se lembrou de mamãe contando, saudosa, que papai havia criado algo similar no Centro de Saúde que dirigia nos idos de 1950, em Cachoeiro. Operado por funcionários de sua total confiança, além de oferecer orientações às mães sobre higiene e cuidados pessoais, o banco assegurava seis mamadeiras diárias para alimentar os recém-nascidos da cidade.

Vitória, 10 de junho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vem, vem

Vem, vem

Escrevo na última quarta feira de maio, data muito significativa para os apaixonados e os que se guiam pelos astros. É que hoje acontece uma conjugação astral muito excepcional: uma tal superlua, com direito a um eclipse lunar total.

Como nem tudo é perfeito, segundo a meteorologia, o céu estará encoberto nestas nossas bandas do hemisfério sul e para completar, segundo a astronomia, o eclipse completo somente poderá ser visto no extremo sudoeste do país.

Pra quem não sabe, a chamada superlua acontece em função da Lua estar passando pelo ponto mais próximo da Terra, o que faz com que apareça maior e mais brilhante do que as demais luas cheias. O eclipse, por sua vez, acontece pelo fato do nosso planeta impedir que os raios de sol possam atingir e se refletir na superfície que nós vemos daqui.

Eu mesmo nunca tinha ouvido falar em superlua até bem pouco tempo, embora tenha tido várias vezes a impressão de que ela estava bem maior do que de costume. Como pescador insistente que fui, as movimentações da Lua sempre estiveram sob minhas atenções. É que delas dependem os horários das marés e as flutuações de nível do mar ao longo de cada ciclo.

Por superstições e razões técnicas que desconheço, aprendi que os peixes comem com mais voracidade nos dias de lua no quarto crescente, sobretudo quando as marés estão subindo. Nos dias de lua minguante e maré morta, as iscas voltam intactas, indicando que os peixes passam longe delas, fazendo pouco caso da nossa oferta traiçoeira.

Tem quem acredite que tempo de lua cheia também é tempo de nascimento de crianças, mas, ao conferir na internet, constatei que os partos de nenhum dos nossos 5 filhos confirmam a crença. Apesar do alarme da noite passada, a ultrassonografia feita no começo da manhã indica que Yara, filha de Nélio, só vai estrear daqui uns bons dias, trazida à luz por Diana, nossa caçula.

Ela vai chegar sob ótimas emoções e encontrar tudo muito organizado, imaginado, preparado, testado, construído, montado, lixado, pregado, amarrado, pintado, retocado, costurado, cerzido, pendurado, lavado, esfregado, instalado, arrumado, empilhado e alisado pelo pessoal de casa e muitos pacotes de fraldas trazidos por amigos e parentes dos pais.

Além de primogênita, ela é a primeira “filha de filha” de Carol, o que me faz pensar que corro o risco de perder espaço na agenda dessa super avó de oito.

Contrariando as previsões meteorológicas, o tempo melhorou. Aproveitei para ir ver, com a minha companheira de sempre, a lua nascer enorme e vermelha, por cima dos navios fundeados na barra.

Vitória, 26 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Ah, se eu pudesse

Ah, se eu pudesse (quem me dera 1)

Bateu uma baita nostalgia, dessas graves, que se alastram e podem provocar tristezas homéricas. Trata-se de uma emoção provocada por desgovernos e seus desdobramentos nefastos nesses últimos tempos e, desgraçadamente, pelo desânimo ao tentar imaginar o que pode estar vindo por aí, a galope.

Está complicado achar graça dos palhaços do circo que se foi armando, aceitar os novos anões do orçamento fazendo malabarismos no picadeiro e assistir à movimentação dos paus mandados nos bastidores e do lado de fora da lona. Impossível supor que o espetáculo possa melhorar, nem por um passe de mágica.

Já me bastam as tristezas pessoais e das pessoas próximas, as limitações de poder ir e vir, de abraçar apertado em segurança e as quebras de expectativas surgidas em função da pandemia que não sei se e quando acabará.

Pensando bem, perdi o direito de passar ao menos um dia inteiro sem ouvir, ver e ler notícias ruins e alarmantes na política e nas áreas de meio ambiente, da saúde e da educação. Ideal, mesmo, seria passar semanas sem gente importante falando abobrinhas, ameaçando cidadãos e instituições, alardeando providências descabidas, comprando apoios provisórios a peso do nosso ouro, tentando manter o apoio de quem pensa parecido.

É duro ter que conviver com as recentes maracutaias orçamentárias que garantiram os votos de parlamentares gulosos na eleição de comparsas para a presidência das casas. É cruel saber que há senadores da república defendendo que se deixe o assunto longe dos holofotes, para evitar problemas de segurança do Estado e, isso é hilário, riscos à suas respectivas honras e às de suas famílias. Já foram identificados problemas graves na aplicação de dinheiros do tal orçamento secreto na aquisição de tratores, por duas vezes e meia o preço de tabela. Ainda falta saber em quais bolsos foram parar os reais da diferença pra mais. Isso sem falar na quebra da equidade obrigatória entre os congressistas.

Sem medo de ser chamado de sonhador, digo que seria muito bom voltar a viver num lugar bonito por natureza, habitado por uma população gentil e animada e com a coisa pública sendo exercida por pessoas sérias, serenas, amistosas e prestativas.

A nostalgia só aumenta ao lembrar que vivi muitos anos em cidades tranquilas, jogando pelada na rua, andando de bicicleta sem capacete, dançando de rosto colado e circulando livremente por muitos lugares. Seria muito bom poder voltar a viver tempos de muito pouco dinheiro, quando os crimes mais graves eram por acerto de contas e os mais comuns eram bateção de carteira e roubo de galinha. Época em que a gratidão dos beneficiados por escolas rurais, viabilizadas por meu pai quando à frente da Secretaria de Educação, chegava lá em casa às vésperas do Natal, na forma de perus vivos.

Vitória, 13 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Para todos os gostos

Pra todos os gostos

Vacinados, eu e Carol aguardamos a imunização reforçada para circular pra mais longe e conviver de perto com nossos queridos. A gravidez da caçula, agora na lista dos grupos prioritários da vacinação e a chegada do primogênito pra matar saudades de mais de ano, somam alegrias. O texto de muitas páginas, escrito durante a pandemia, sobre o que gosto de fazer com bambu, já foi enviado para o crivo de amigos corajosos.

As notícias do mundo vegetal são ótimas: a goiabeira, carregada fora de época, mostra que é tão doidinha quanto a jabuticabeira, que produz sem parar; os cajás das redondezas proporcionam jarras de suco e paredinhas pra cachaça; e o abacateiro da vizinhança garante delícias variadas.

Enquanto isso, o Planalto Central treme com tramas, fatos e desdobramentos em ritmo frenético, alguns preocupantes e outros risíveis.

CPI instalada e fora de controle do executivo garante holofotes a senador com disposição para fazer sangrar muita gente.

Aliados dos potenciais sangráveis acionam a Corte Suprema na tentativa de destituir da relatoria o elemento perigoso, assinando requerimento redigido na Presidência. Fazem média e perdem tempo.

Senador filho de capitão reclama da ingratidão do presidente da Casa e faz muita gente gargalhar, ao argumentar cinicamente sobre os perigos de aglomerações durante as reuniões da Comissão. Deve estar de castigo.

Gente graúda do Palácio está preocupada com os brios e a sinceridade do general ex-ministro, diante de senadores curiosos dos seus segredos e, sobretudo, irritados com o que venha a dizer na Comissão. Este já está na história por bater continências sistemáticas.

Ministro generalizado e jeitoso confessa diante de câmeras indiscretas que tomou vacina escondido do capitão. Com isso, ganha lugar na história por demonstrar que hierarquia também tem limites. Tomei, tá tomado; quem não quiser, paciência.

Ministra zoiuda faz andar a denúncia-crime de ex-superintendente federal contra ministro preferido pelo chefe por proteger madeireiros fora da lei. Plenário unido transforma em réu deputado fortão por ameaça e incitação, estabelecendo sentença exemplar.

Ministro que deverá ser substituído por alguém terrivelmente evangélico obriga o Governo a realizar o Censo 2021, cancelado para atender gulodices de aliados de ocasião.

Ministro não faz economia de bobagens ideológicas sobre origem de vírus e qualidade de vacinas chinesas, em ambiente restrito, mas recua quando a gravação vai a público. Entrará para a história como nervosinho que foi desidratado no posto.

Embaixador aperta ainda mais os olhinhos, mostra os dentes e desembainha espada mortal ao ver a tal gravação. Fez crer que componentes e vacinas podem virar pó, se o desgoverno não tomar tenência. Isso, com o país inteiro aguardando desesperadamente pelo que vem da China.

Vitória, 29 de abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tá danado

Tá danado

As manchetes tratam das turbulências no ambiente político. Fazem crer que estamos vivendo um tempo de esgarçamentos, com movimentações de pré-guerra. Enquanto isso a pandemia avança, matando muitos, colocada no centro das disputas e servindo de razão e pretexto para a medição de forças. As tensões aumentam sem que surjam lideranças capazes de mediá-las, em nome da vida e do bom senso. Basta ver as notícias desses últimos dias.

Ministro das contas da União pede condenações severas por vergonhosa gestão do combate à pandemia. Procuradores federais movem ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro e auxiliares. Ministro do Supremo atrapalha os negócios religiosos em nome da saúde e irrita poderosos. Candidato disputa vaga no Tribunal com a bíblia na mão, mas só facilita pro concorrente.

Ministro manda instaurar CPI da pandemia engavetada pelo senador dono da pauta da casa. Colega do Supremo mostra serviço, paga faturas e marca posição. Presidente do Senado, contra a parede, de calças curtas e sem mineirice, encolhe e treme. Senador ex-presidente ressurge querendo botar moral no galinheiro e voltar aos holofotes.

Congressistas querem gastar dinheiro das despesas obrigatórias para tentar a reeleição. Presidente da Câmara, em luta pelo poder, impõe condições para os próximos assaltos. Ministro do posto de gasolina já nem sabe onde vai dar a estrada que passa bem em frente.

Senador coloca no ar irritações e bravatas presidenciais, mostra serviço e erra na dose. Presidente desvairado, perdendo apoio, desvaira mais, fala bosta e em dar porrada. Senador filho de bravateiro processa colega que diz ter bomba pra derrubar a República.

Senadores bem mandados esticam corda pedindo impedimento de ministro supremo. Presidente gargalha ao saber que ministro aliado relatará pedido de impedimento de ministro inimigo.

Ministros decidem em plenário sobre jogadas e conchavos de advogados do ex-presidente. Senador ressentido diz que Gilmar não tem limites e o próprio concorda se gabando disso.

Ministro da boiada quer deixar passar 200 toneladas de madeiras extraídas ilegalmente. Delegado federal abre notícia crime contra ministro por defender interesses de madeireiros.

Senador das armas consegue liberar quantidades e usos com simples golpe regimental. Ministra gaúcha usa o poder da justiça para vetar o que o tal senador conseguiu e comemora. Novas altas patentes fazem cara de paisagem e o capitão volta a falar em “meu exército.”  Presidente diz, também no cercadinho, que aguarda sinal do povo para tomar providências.

Opositores querem juntar os mais de cem pedidos de impeachment engavetados para disparar um só petardo. Ex-ministro poeta, à frente de comissão na OAB, produz arrazoado para pedir o impedimento do Presidente.

Oremus. Em latim.

Vitória, 15 de  abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Primeira dose

Primeira dose

Tenho visto imagens de artistas, políticos, de gente famosa, ex-isso e ex-aquilo sendo vacinados, todos mais ou menos velhinhos, e de anônimos dos grupos prioritários. Todos com cara boa e sorridentes. Uns com expressão de alívio e mãos coladas, outros fazendo o gesto de positivo, com o dedão pra cima, como que querendo dizer alguma coisa do tipo “siga o caminho do tigre”. Cheguei a ficar com uma certa inveja.

Volta e meia acho bom ter direito a atendimento preferencial, inclusive nos balcões dos açougues. Aprendi ainda menino a dar lugar para os mais idosos e para as mulheres. Nem sei se isso está sendo ensinado às crianças pequenas de hoje em dia. Chego a pensar que nesse mundo do salve-se quem puder, do prepare-se para conquistar, a educação de filhos deve estar sendo repaginada, como se diz. Mais do que bons modos e solidariedade, deve ter muita gente ensinando técnicas para alcançar objetivos, macetes para fazer sucesso, práticas para subir na vida rapidinho e coisas do gênero.

Pois após meses mantendo controle dos meus movimentos, a filha caçula e o marido trataram de fazer o agendamento e me levar para vacinar. Chegamos com antecedência de poucos minutos do horário marcado, entramos numa fila bem pequena e saímos poucos minutos depois. O posto de vacinação estava funcionando numa escola pública municipal muito bem cuidada.

Fui recebido com atenção, como se fosse alguém que estava sendo esperado, e saí agradecendo a cada um da equipe, por ter sido muito bem atendido. Quase dei um beijinho na enfermeira simpática que furou meu braço esquerdo e nas moças que confirmaram meu nome no sistema e me deram um cartão indicando a marca da vacina e data da segunda dose. Dei o meu melhor sorriso para a mocinha gentil que recebia os vacinantes no portão e indicava cadeiras para sentar.

Não senti nada, absolutamente nada. Nem dor, nem a agulha entrando. E olha que eu tenho boa experiência de tomar vacina e injeção e, pior de tudo, de tirar sangue pra exames. Bem que eu já tinha percebido que ninguém que vi sendo vacinado fazia cara de dor ou de arrependimento ao ser furado.

Com Carol foi ainda melhor: parei o carro ao lado da tenda armada numa rua larga e tranquila de Bento Ferreira para ela descer e fui estacionar a uns 30 metros adiante, ao lado de onde sairia, já vacinada. Pois ela nem precisou sentar para esperar a vez. Deu gosto ver a sua carinha radiante, de vitoriosa, vindo com uma mão apertando o algodão no outro braço. Ela me disse que também não sentiu nada. Diana registrou o evento e jogou na rede, como Nélio já tinha feito comigo. Parentes e amigos adoraram saber.

Digo tudo isso para atestar que tudo funcionou muito bem, proporcionando uma gostosa sensação de segurança e dando impressão de que estamos num país civilizado. Resta ver como o pessoal mais novo vai se apresentar pra vacinar.

Vitória, 02 de abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Praias em Março

Praias em Março

Gosto de andar na praia no começo das manhãs, sobretudo nos dias de lua cheia e de lua nova, quando a maré está bem baixa, a areia está mais dura e plana, o sol não está tão quente e o vento nordeste ainda está bem fraquinho. Pra quem não sabe, as marés de março são as maiores do ano. Por aqui, elas atingem a marca de 1,40m de altura, de 2,20m em João Pessoa e de incríveis 6,00m, em São Luís.

Pois as manhãs deste mês de março têm sido mais do que generosas com quem vai pra beira do mar em busca de saúde e distração, se lá isso for possível.

Somos pouquíssimos, os frequentadores habituais da praia da esquerda da Ilha do Boi nesse horário. Posso contar nos dedos: dois ou três casais com criança de colo, uma mulher com um cachorro desses pequenos e enjoados, um homem sarado que percorre, em boa velocidade, muitas idas e voltas, uma moça que se exercita com tiras de elástico, duas senhoras que, pela animação da conversa, devem ser vizinhas de longa data. Dentro d’água, um pequeno grupo de gente disposta faz ginástica sob orientação de um personal.

Outro dia, acompanhei a atracação de uma canoa havaiana com cinco remadores principiantes e um experiente, responsável pelo rumo da embarcação. Sorridentes e vitoriosos, eles rebocaram a canoa praia acima, fizeram selfies ao lado dela e voltaram a remar.

Lá estavam também os dois homens de cabeça branca, que conversam em pé, depois que nadam na beira, em paralelo à praia e sem pressa. Um deles, se interessou pela colher que eu estava fazendo e foi levando ela pra casa, prometendo trazer bambu da fazenda. O amigo fez olho comprido e pediu uma pequena, pra servir pimenta.

Na ponta oeste da praia, três pescadores com roupas apropriadas armavam suas varas e molinetes de última geração e dois rapazes, munidos de cavadeira, tiravam sururu graúdo nas pedras que ficam submersas quando a maré está alta. Pois foi lá também que encontrei um guruçá observando o mundo da boca do seu buraco. Fazia tempo que não via nenhum deles e nem as borbulhas de corrupto, um animal bem estranho, que tem cabeça de tatuí, barriga mole e cauda de camarão, a isca mais atraente que existe. Falando nisso, não tenho visto bateras e barquinhos com pescadores disputando quem pega mais carapaus, como é tradicional nos meses de março, quando eles passam por aqui em cardumes.

Também é comum acompanhar dois garis da Prefeitura rastelando, com boa disposição, a praia inteira e enchendo sacos com o lixo que recolhem, ver a dupla de salva-vidas arrumando o posto de observação do mar e das morenas e a chegada do primeiro vendedor de picolé.

Soube pela imprensa que estão avaliando a conveniência de interditar as praias por uns dias. Espero que o bom senso continue prevalecendo e as restrições se limitem às aglomerações, onde quer que elas aconteçam.

Vitória, 18 de março de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA