Canseira e esperança

Canseira e esperança

Ando muito triste com o que tenho visto, lido e ouvido nesses dias de acirramento da pandemia. Não é pra menos. Crescem em ritmo acelerado a contaminação, as mortes e o nível de ocupação dos leitos hospitalares em muitos lugares. Doentes graves começam a circular pelos ares em busca de leitos vagos.

Tenho preferido não acompanhar de perto as notícias trágicas nem conversar muito sobre o assunto. Me restrinjo a tentar saber das curvas de tendências. Os números por si já não me dizem muita coisa, exceto para demonstrar que a vaca está indo, sozinha, para o brejo. Carrego uma grande melancolia em viver um tempo tão ruim, desses que geram sensações de impotência em larga escala.

Não acredito na equipe do Ministério da Saúde faz muito tempo. Não vejo nela alguém em quem possa confiar. Todos, inclusive o ministro fortão, me passam a mensagem de que estão tentando me enganar, que estão mais preocupados em esconder o tamanho da tragédia anunciada e em disfarçar a falta de competência, seriedade e disposição para dar conta do recado. Já não sinto raiva nem tenho pena dessa equipe. Que a História cuide de cada um e que a Justiça faça com que todos se arrependam amargamente dos respectivos desmandos e descasos.

Como não existe vácuo de poder, vejo gente nova assumindo posição de enfrentamento da pandemia em busca de palmas e, sobretudo, de mais peso político. As eleições no Congresso mudaram radicalmente a distribuição de forças entre os Poderes da República. Os governadores e prefeitos ganham aliados importantes nessa peleja para conseguir vacinas.

Mas não há como deixar de ler as manchetes sobre as sandices e bravatas que esse presidente de alguns vai produzindo em escala. Já li, faz tempo, que ele se move de acordo com estratégia muito bem estruturada e objetiva, orientada para desgastar instituições, lideranças e valores. Isso, sem falar nos seus traços psicológicos e de personalidade, próprios dos que não aceitam contraposição, sinais de infidelidade e tudo o mais que possa expressar conspiração de qualquer natureza contra si e seus interesses. Não sei onde isso vai parar.

Sei de gente que acredita piamente nas palavras e investidas presidenciais e que apoia e acha bom que ele continue comprando briga, vendo chifre em cabeça de burro. Respeito o direito de escolha e de opinião, mas as pesquisas mostram que essa turma está encolhendo.

As eleições estão no fim do túnel. Daqui pra frente devem surgir movimentações políticas de toda ordem que vão provocar reações contundentes para tentar anulá-las no nascedouro, em favor de polarizações conhecidas.

Tenho preguiça de ver esse filme novamente. Torço para que o segundo turno das próximas eleições para Presidente ofereça ao menos uma alternativa para que eu possa dar um voto esperançoso.

Vitória, 04 de março de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pare e siga

Pare e siga

Não fomos conhecer Buenos Aires por conta da chuvarada no fim de semana. Eu tinha pedido uma chuva de limpar o céu, mas mandaram chuva pesada, de vento sul, que durou mais do que os 3 dias regulamentares. Fiquei sabendo de muita gente conhecida que já comeu a tal galinha pé duro com polenta e recebi sugestão de subir o morro no meio da semana, quando o lugar fica bem vazio.

O domingo de carnaval foi intenso. Resolvemos aceitar o convite de Thais Hilal para participar do encerramento da segunda edição do programa de residências artísticas Entre Nós, promovido pelo Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu. Um lugar meio mágico, idealizado e concretizado pelo monge Daiju, homem inspirado e determinado.

Tinha estado lá umas três vezes, há uns 20 anos, ainda bem no comecinho e quando a enorme ladeira era vencida a pé. No final do ano, fui com Carol, minha filha Bebel e seu Alex conhecer a estátua de Buda, no alto de uma pequena elevação à margem da BR 101, na entrada das terras do mosteiro. De grandes dimensões e muito bem construída, surpreende quem passa de carro e encanta quem chega perto e olha pra cima. Aproveitei a viagem pra comprar um garrafão de cachaça, a oficial da família, num antigo alambique na zona rural de João Neiva.

Neste domingo saímos cedinho, em companhia de nossa amiga Carmen, mas não conseguimos chegar lá. Um caminhão carregado com latas de sardinha tombou na estrada perto de Fundão, nos obrigando a voltar pra trás.

Pra não perder o humor, resolvemos ir comer moqueca em Santa Cruz, na beira do rio Piraquê-Açu, de memórias de vagabundagem. Também não deu certo. Encontramos o trânsito interrompido bem na entrada de Nova Almeida, onde Carol queria rever a igreja de Reis Magos e comprar quindim, pra comer de sobremesa.

Demos outra meia volta e, achando graça, resolvemos curtir a saudade dos sábados de carnaval de Manguinhos e almoçar à sombra das castanheiras do Vagão do casal Suely e Marlou, que não víamos faz tempo. Consegui finalizar duas colheres pequenas e dar pra eles, por merecimento.

Na terça, o passeio carnavalesco foi em casa de amigos no Morro de Setiba. Na estrada, quase chegando, uma moça empurrava um carrinho colorido onde se lia “Acarajé da Cris”. Parei o carro e dei marcha à ré. Surpresa e risonha, disse que me esperaria no campinho onde fazia ponto. Mas as conversas animadas e a fartura do junta-pratos me fizeram esquecer de ir lá.

Voltando pra casa com boca de acarajé, soube da prisão de um deputado fortão, desses bem prepotentes e sem papas na língua. Deu ruim, como se diz na Paraíba. A unanimidade da decisão do STF fez a quarta-feira de cinzas da pandemia virar data determinante na política brasileira, espécie de freio de arrumação, verdadeiro divisor de águas.

Vitória, 18 de fevereiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vendo de cima e de longe

Vendo de cima e de longe

Estamos em preparativos para ir passear em Buenos Aires, lugar no alto de uma montanha que não conheço e onde quero ir, faz tempo. É possível que o leitor possa pensar que eu esteja delirando, já que todo mundo sabe que a capital da Argentina fica no plano, à beira do rio da Prata. O lugar a que me refiro fica nas montanhas que são vistas da Rodovia do Sol e saindo de Guarapari pela estrada que vai dar na BR 101.

Tenho nas ideias que a vista lá de cima deve ser deslumbrante. Algo que, por si só, justifica encarar uma estradinha de barro, com cascalho nos trechos mais íngremes. Com tempo bom, de preferência depois de uma chuvarada, é provável que se consiga enxergar todas as cidades e os vilarejos à beira mar. Também estarão à vista, ao norte, os morros do Convento e do Moreno e os navios na barra e, ao sul, o Monte Agá. Ainda que minúsculas, também deve ser possível ver as Três Ilhas, entre Setiba e Ponta da Fruta, os Pacotes, no mar da Praia da Costa e, talvez até a Ilha dos Franceses, bem mais volumosa, diante de Itaipava e Itaoca. Foi nela que, ao descer do barco pra pescar, papai deu uma canelada tão violenta numa pedra que os amigos acharam por bem voltar pra trás.

É provável que os prédios altos de Guarapari bloqueiem a visão das Escalvadas, duas ilhas pequenas situadas a umas 6 milhas da costa. Mas, com certeza, será possível constatar que quanto mais longe de terra firmes as águas do mar vão ficando mais escuras e que, lá no fundão, elas são azul marinho, quase roxas.

A decisão de subir o morro foi tomada também por gulodice: é que soube que lá tem um restaurante que serve galinha “pé duro” ao molho pardo, acompanhada de polenta. Comida bruta, de lamber os beiços, que me faz lembrar do meu querido amigo Iveraldo Lucena, de João Pessoa, que adorava galinha à cabidela, como se diz no nordeste brasileiro. De barriga cheia e sem a menor pressa, ele ficava chupando os ossos enquanto a conversa corria frouxa. Como se não bastasse, também fiquei sabendo que, além de outros atrativos, lá em cima funciona uma fábrica de cerveja artesanal de boa qualidade.

As dicas são de um compadre que participa de um grupo que sai andando a pé, de bicicleta e sobretudo de van, para conhecer e aproveitar o tanto de coisa boa e de lugar bonito que ainda não foi detonado. Vão e voltam no mesmo dia, todos de máscara. Já estiveram no Parque do Forno Grande, no Caminho de Caravaggio, nas cachoeiras de Patrimônio da Penha, já andaram de Iconha a Rio Novo do Sul, e muito mais.

Escrevi isso com os olhos no que está acontecendo na Câmara dos Deputados. A decisão de colocar a deputada Bia Kicis na CCJ, seja por pretensão ou prepotência, é algo que dá preguiça e faz qualquer marmanjo pacífico, como eu, achar que estão brincando com fogo.

Vitória, 04 de fevereiro de 2021.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Com e sem pescoço

Com e sem pescoço

Assistindo um noticiário de TV, me dei conta da falta de pescoço do general que ocupa um dos mais importantes cargos do país em tempo de pandemia. Devo dizer que acreditei na informação de que ele era considerado um especialista em logística, algo extremamente relevante e estratégico em tempos de emergências, quando o abastecimento de produtos e meios se faz indispensável. Em países continentais e heterogêneos como o nosso, essa capacidade se mostra ainda mais indispensável à vida.

Morrer gente dentro de hospitais por falta de oxigênio é algo absolutamente vergonhoso e inaceitável. É uma espécie de crime de lesa pátria, uma boa justificativa para gente que é séria pedir demissão e, sobretudo, para que sejam emitidas ordens de prisão preventiva de todos os irresponsáveis.

Dói saber que estamos em pleno retrocesso na saúde pública. É mais do que sabido que o Brasil detinha, até pouco tempo, reconhecimento mundial por sua capacidade de vacinar sua população inteira, sempre que necessário. Nosso Ministério da Saúde e o SUS eram respeitados mundo afora, por oferecer serviços de alto padrão de qualidade e eficiência.

Como se isso não bastasse, está claro que a prepotência e a desfaçatez praticadas em larga escala pelo Governo Federal nas suas relações com outros países estão nos custando caro. Nas relações bilaterais e nos negócios, prevalecem as vontades, os valores e as razões dos poderosos, daqueles que decidem se pode ser, quando será e sob quais condições. É a lei do mais forte que impera, sempre. Com arrogância e idiotices não se vencem disputas, sobretudo as inventadas.

Convém não esquecer que o processo da vacinação está apenas começando e tomando forma. É algo pra durar mais de ano, sujeito a todo tipo de perrengues e interferências. É de se esperar que a China, a Índia e outros produtores de vacinas e de insumos vão fazer valer suas políticas e seus interesses de donos do mercado. Para seguir nos entendimentos, eu soube que pediram a cabeça do desvairado do Itamaraty.

Voltando ao pescoço do Ministro da Saúde, que praticamente não se vê, dá pra imaginar que ele será cortado em breve, a título de transferência de responsabilidade e em busca de sobrevivência política. O Presidente já deu mostras de que governa aos solavancos e defenestra quem esteja ao seu lado, ainda que obedecendo às suas ordens e passando vergonhas.

Vitória, 21 de janeiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para

A GAZETA.

Bodoque pra neto

Bodoque pra neto

Cá estou eu às voltas com um pedido de Biel, meu neto de sete anos. Nem imagino de onde saiu esse desejo dele de ter uma seta, um bodoque, daqueles que as crianças de antigamente usavam para brincar atirando bagas de mamona, e, os meninos mais velhos, para caçar passarinhos no alto dos morros, depois de produzir a própria munição. Passávamos horas enrolando pelotas de barro do tamanho de bola de gude, que depois secávamos numa chapa de ferro com fogo embaixo.

Doda, o caçula dos seis filhos de Bebeta e Seu Jorge, adoráveis agregados de papai e mamãe, era um exímio usuário de seta. Dono de pontaria invejável, ele acertava com facilidade rolinha pousada na ponta de um esteio e anu-branco se equilibrando num fio de baixa tensão. Caçar passarinho era programa frequente quando a gente ia passar uns dias em Cachoeiro.

Naquele tempo, a garotada fazia seus próprios brinquedos: botão de coco pra jogar futebol de mesa, pipas com papel de seda e rabiolas de pano, vara de pescar, carrinho de rolimã. Até hoje uso muito do que aprendi menino pra dengar neto.

Pra começar o serviço, precisei arranjar um bom gancho de seta, que fosse adequado para um menino canhoto. A firmeza é a alma da segurança e da pontaria. A forquilha deve permitir a passagem da pedra com folga e o cabo tem que oferecer pega cômoda e bem firme, com os três dedos pressionando a madeira contra a palma da mão. O polegar e o fura bolo são usados para controlar a angulação da forquilha, indispensável à precisão da mira.

Cortei com dó um galho da nossa fertilíssima goiabeira, para aproveitar uma bifurcação jeitosa que estava mais perto do chão. As tiras de borracha serão cortadas de uma velha câmara de ar de bicicleta e o porta pelota será feito de couro branco. Nas amarrações, usarei fio de tucum feito por índio.

Os dois elásticos, fixados nas pontas do Y e numa tira de couro, lugar da munição, deverão ser esticados com algum esforço com o braço se afastando do corpo e a mão sendo trazida para perto do olho de pontaria. Os movimentos de esticar os elásticos devem ser contínuos e precisos, de modo que a mira vá sendo calibrada durante o processo. É pá, pou! Nada de ficar mirando o alvo com os braços estirados, que começam a tremer.

A produção de pelotas será intensa nos próximos dias. Vou arranjar barro com uma amiga que acaba de virar ceramista. O problema vai ser ensinar o moleque a atirar pelotas na direção certa. Afoito que é, corre o risco de acertar cabeça de irmão e vidro de janela na vizinhança. Por precaução, vou fazer um alvo de madeira e pedir que Manu pinte direitinho.

Enquanto isso, o Presidente da nação, talvez ciente do que esteja vindo por aí, intensifica a falação de abobrinhas disfarçantes, ao tempo que o seu colega do norte perde de vez a compostura e o respeito.

Vitória, 07 de janeiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Férias em Cotia

Férias em Cotia

Meu pessoal adora se juntar pra festejar, seja lá o que for: aniversário, lançamento de livro, sucesso de exposição, casamento, chegada de ano novo e tudo o mais que se mostre um bom pretexto ou uma ótima oportunidade para reunir os adultos e a garotada dessa espécie de clã que vai se formando. Está comprovado que muitos se divertem tomando providências para viabilizar ajuntamentos familiares. Aproveitando expertises, preferências e disponibilidades de cada um, atuam em harmonia e com boa antecedência.

Definem as datas e os lugares, inventam os motes, compram o que for preciso, alugam o que for necessário, escolhem parcimoniosamente o menu, enfeitam as paredes pra ficar bonito, arranjam flores no jardim e compram em loja se preciso for, desenham figuras nos vidros das janelas, montam árvores de Natal e barraca na grama do jardim pras crianças, fazem fogueira se puder, selecionam as músicas, botam pra tocar e dançam sem parar, cozinham e botam pra assar, fazem bolo com cobertura, se for dia de aniversário de alguém, inventam saladas e risotos de vários tipos, fritam ovos, criam sanduíche especiais e canapés coloridos, fazem pão de queijo e tortas de maçã ácida e de limão, assam peru e pedem pra destrinchar e fatiar para servir, cortam, picam, temperam e mexem panelas, acendem a churrasqueira, amolam faca para cortar as carnes, lavam louça com pouca destreza e alguma má vontade, varrem se alguém pedir ou mandar, pedem tudo que precisam para quem vai ao supermercado.

Usam o celular o tempo inteiro, trocam mensagem de montão, fotografam tudo e postam imediatamente, bebem cerveja, gim, uísque, vinho, cachaça e muitos drinks com gelo, passeiam na trilha da floresta no parque, deitam ao sol de meio dia, jogam baralho seriamente e brincam com um jogo de palavras, ensinam a fazer colher e os segredos das gravuras, comem como gulosos ao lado de crianças que adoram pizzas, biscoitos e chocolate e disputam o último pedaço do bolo e o restinho do doce de leite.

Chutam bola pra todo lado, tentam fazer cesta no aro da tabela, se jogam na piscina fazendo careta, assistem filme na parede da sala em silêncio ou torcendo pro mocinho, brigam por quase nada e fazem as pazes rapidinho, praticam o vício de disputas em joguinhos eletrônicos, fazem manha pra que deixem jogar mais, dormem no sofá, acordam tarde, voltam a jogar autorizados ou escondidos.

Desta vez o ajuntamento aconteceu numa casa confortável de um condomínio antigo nos arredores de Cotia. As ruas tranquilas e arborizadas me trouxeram as minhas de antigamente, com a garotada indo e vindo sem qualquer dessas preocupações modernas. Amora e Pingo nos receberam com a alegria que uma arara e um cachorro podem demonstrar para os seus donos depois de longa ausência.

Vitória, 06 de janeiro de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Quem poderia prever

Quem poderia prever

Dezembro está fértil em acontecimentos políticos significativos, sem contar aqueles diretamente associados à pandemia. Na terça feira, acordei com a notícia da prisão de Crivella, prefeito do Rio. Não gosto daquela pessoa, que incluo na turma ruim da política brasileira que mistura ações de governo, falcatruas gordas e negócios religiosos. Ele tinha recebido endosso do presidente da República na eleição pra prefeito, mas perdeu fragorosamente. Perderam, pra ser mais exato.

Também fiquei satisfeito em saber que a Procuradoria Geral da República pediu ao STF que anule a decisão monocrática do seu mais novo ministro. Demonstrando claramente o que veio fazer na Corte, em nome de quem o indicou e o aprovou para um cargo vitalício, ele tratou de reduzir as penalidades da Lei da Ficha Limpa. Com isso, virou uma espécie de bucha de canhão e, como tal, deverá levar um corretivo dos colegas, para tomar tenência, como se diz.

A eleição de prefeito de oposição em Macapá, por sua vez, deve ter deixado mais uma marca profunda no espírito de jogador aloprado do Presidente. Durante a campanha, ele declarou apoio ao então candidato favorito, irmão do presidente do Senado, com quem estava em pleno conchavo político. O apagão de energia elétrica no Amapá deixou a nú o padrão de desgoverno e irritou profundamente os eleitores. Os Alcolumbre foram pro vinagre.

A coisa também ficou muito ruim pro Presidente lá no Congresso, a ponto de ele declarar que não mais pretende influir na escolha dos dirigentes das duas casas. Na Câmara, sob a batuta de Rodrigo Maia, político hábil que se viu instado a medir forças, a oposição se armou e adotou a independência e autonomia do Poder Legislativo como mote eleitoral, um lema rico em corporativismo agregador. É provável que o PT queira fazer bonito somando votos contra o candidato, às voltas com a justiça, do Presidente.

Também deve estar aumentando bastante o desassossego do Presidente ao ver o pessoal da justiça e da polícia fazendo andar processos de investigação e denúncia de gente da sua família. Nos últimos dias, para engrossar o caldo, entrou na mira oficial algo muito delicado, dotado de poder explosivo: os relatórios oferecidos por gente da Agência Brasileira de Informações para municiar os advogados de defesa no processo das rachadinhas de um dos seus filhos zero à esquerda.

O fato é que, por essas e muitas outras que vêm vindo por aí, vou entrar em 2021 com otimismo na alma, bem diferente do que senti no começo de 2020, quando tudo indicava que teria que encarar 8 anos seguidos de prepotência e crimes diversos. Minha impressão é a de que o governo Bolsonaro começou a acabar, de vez.

Vitória, 23 de dezembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Começou a temporada

Começou a temporada

Com a chegada de Manu, Quim Quim e Tom Tom, trazidos de São Paulo por Manaira e Gustavo, tios de uma e pais dos dois, comemoramos a abertura oficial da famosa Creche da Vovó Carol. Para animar a festa, na próxima semana, também vindos de lá, entrarão pelo portão Tetheo e Biel e a mãe Dani. Os netos Alice e Gael, residentes na cidade, já passaram o sábado com os primos e voltarão com boa frequência para as risadarias, as correrias, os lero-leros, as implicâncias e as disputas de costume.

Os preparativos do local incluíram montar uma árvore de Natal até o teto, fazer um par de baquetas de bambu, trocar as pilhas do controle da TV lá da frente (para evitar amontoação de menino na minha cama), tirar do armário farto material de desenho, caixas de joguinhos infantis e nem tanto, além de brinquedos e bola de futebol, lubrificar as rodas do carrinho de rolimã do verão passado e providenciar a instalação de um pula-pula de uns 3 metros de diâmetro na varanda da frente.

Numa ida preventiva ao supermercado compramos biscoitos, pão de queijo e frutas para todos e brócolis para Tom Tom. Da Vila Rubim, trouxemos um saco com um quilo de jujuba para distribuição em momentos adequados, de uma em uma, sempre a título de recompensa por bons modos e bem feitos. Trata-se do melhor investimento de R$9,00 que se pode fazer, tamanho o sucesso dos rendimentos.

Ontem, a pedido de Quim Quim, cortei galhos carregados de vagens secas do pé de pata de vaca na rua, pra ele tirar as sementes e levar na bagagem de volta. Talvez por acreditar nos super poderes do avô, ele também pediu uma casinha em cima de uma árvore, o que dificilmente conseguirei atender nesta temporada.

Como parte dos festejos, no sábado, aconteceu um longo e animado churrasco de adultos, enquanto as crianças maiores faziam piquenique em cima da casa, subindo e descendo pela nossa gloriosa goiabeira. Falando nisso, o campeonato de “quem tira mais goiaba” já está em andamento, com Manu na liderança, mesmo assistindo aulas e fazendo provas on line e cuidando de um filhote de Bem-te-vi, recolhido no caminho de volta da praia. Satisfeito com a mistura de fubá e ovo e batizado de Beija-mim, ele fica chamando a mãe, aos gritos, pousado no dedo da sua ama seca.

Para não perder a mania, fui fazendo colheres para dar de casamento para a minha primeira sobrinha neta que, espantada pela minha cara barbuda, me chamava de Papaco. Inclusive ao levar os netos menores lá do final da rua pra ver navios, ondas, tartarugas, aviões e urubus voando.

Tudo isso em meio às notícias de um querido amigo com covid e da perda do grande Hélio Demoner, a quem não via faz muito tempo.

Vitória, 10 de dezembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Em compensação

Em compensação

As notícias de jornais indicam que os números negativos da pandemia voltam a crescer e que as curvas de contágios e de internações voltam a ser ascendentes, como que anunciando a tal segunda onda, ainda mais perigosa e aterrorizante. Fica-se com a impressão de que esteja morrendo mais gente do que nunca, pelo fato de que, agora, a morte está atingindo um maior número de pessoas conhecidas e parentes ou amigos de alguém que se sabe quem seja.

Tenho me mantido em estado de resguardo, praticando protocolos e recomendações, evitando, sempre que possível, aproximação e contato físico com outras pessoas, sobretudo com as que circulam por ambientes sabidamente de maior exposição ao contágio. A condição de participante de grupo de risco elevado me colocou sob controle rigoroso, quase neurótico, exercido por cinco filhos, deixando pouca margem para circular pela cidade, mesmo que em carro com janelas fechadas. Isso me exige o uso de uma sonseira mansa para garantir um mínimo de satisfação de estar ao lado, guardando distância prudente, de gente muito amiga, que faz falta.

Em compensação, como algo que mostra que tem sempre o outro lado da moeda e como argumento otimista de que nem tudo está perdido, fui um dos dois primeiros a saber de uma baita novidade: em meados do próximo ano serei avô de mais uma criança, vinda de Diana, nossa caçula, e de Nélio, que está bobão, bobão.

Desde ontem, quando a notícia da gestação do oitavo neto foi liberada para o grande público, Carol, completamente feliz e animada, não solta o celular, entoando uma espécie de grito de auditório: “oitavinho vem aí, pampam pampampampam, oitavinho vem aí”. Mais comedido, fico achando graça e imaginando como vai ser bom ter mais gente em volta, pedindo pra consertar brinquedo, querendo me ver fantasiado de Papai Noel.

Pelo que sei, esse mesmo tipo de compensação está acontecendo com quatro de dez casais que sempre encontramos nas reuniões de comemoração e festas de aniversário. São pessoas mais novas do que eu, cujos filhos estão começando a ter seus primeiros filhos agora.

Dá pra imaginar o tititi das avós contando vantagens dos netinhos recém nascidos, dos netos que vão dormir pela primeira vez na casa delas, das noites maldormidas da criança e da avó, da roupinha que compraram pro neném, enfim, conversas leves, próprias para ocupar o tempo e distrair as atenções daquelas senhoras festeiras, avós de primeira.

O tamanho da amostra é bem restrito, tudo bem, mas proporção tão relevante de famílias grávidas, faz pensar que tantos nascimentos podem representar, para além de mera coincidência, uma reação natural em favor da sobrevivência de uma espécie ameaçada.

Vitória, 26 de novembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá e cá

Lá e cá

Devo dizer, sem ao menos corar, que senti uma inveja boa ao assistir à festa de comemoração dos resultados da eleição nos USA, realizada num palanque iluminado e protegido por vidro contra tiros, na cidade natal do presidente eleito. Um acontecimento muito alegre, eminentemente familiar, restrito à participação dos respectivos cônjuges e dos filhos, netos, genros e noras dos eleitos e eventuais agregados. Boa parte da inveja foi por conta das caras sorridentes, leves e amistosas. Não identifiquei ninguém com jeitão de bandido de origem, de malandro na espreita, de mocinho falcatrua e de mocinha piriguete.

Gostei sobretudo do sorriso largo e do jeito franco de mulher positiva da senadora Harris. Depois de vê-la comemorando a vitória, li com atenção redobrada um release sobre suas origens, incluindo as atitudes e os valores de seus pais, que foram, ainda adolescentes, estudar nos USA por convicções pessoais. Posso estar redondamente enganado, mas fiquei com a impressão de que ela vai chegar à presidência do país, seja em substituição ao titular ou eleita, nas eleições de 2024.

Também gostei do discurso do presidente eleito. A serenidade e a firmeza de suas palavras abrem espaço para convergências consistentes em torno de questões graves, de repercussão no futuro do país e de alhures. Me pareceu que elas foram ditas com sinceridade, atestando a serenidade e a determinação de um homem público muito experiente.

Também assisti a figura patética e arrogante de um canastrão posando de poderoso, incitando seus seguidores a não aceitarem os resultados das urnas. Tudo para juntar gente para sustentar jogadas políticas posteriores. Ao que tudo indica, esse teatro profissional só terminará com a posse do novo presidente, em fins de janeiro.

Por aqui, vejo o Itamaraty e o Planalto sem saber o que fazer para disfarçar a encrenca em que se meteram ao não reconhecer a derrota do topetudo lá de cima, da qual, forçosamente, vão ter que sair. Sob a crescente pressão do tempo, quanto mais se esquivarem de enfrentar a realidade dos fatos, pior será para seus respectivos mandatários. Sabe-se que apenas um deles é demissível com caneta bic.

Sem querer rogar praga, acredito que os resultados das nossas eleições, no domingo, vão tirar mais um pouco de terra do chão do chefe e jogar pra dentro dos seus sapatos. O incômodo deverá aumentar ainda mais sua irritação e sua insegurança, e acelerar a produção de rompantes desvairados e altamente desgastantes. Sempre na linha do tiro de pólvora seca que deu no pé pra comemorar uma falsa vitória na peleja contra a vacina inimiga.

Tudo isso com o Centrão achando bom e pouco, querendo muito mais. Nessa altura do campeonato, a novidade é a turma das beiradas se assanhando com as oportunidades que vão surgindo de graça e já ensaiando botar as garras pra fora. Quem viver, rirá.

Vitória, 12 de novembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA