Tempos modernos

Tempos modernos

Amora está novamente dócil e conversadeira, após uns cinco dias gritando que nem uma arara doidinha e mal-educada. Ficamos preocupados que o barulho estivesse incomodando a nossa vizinha de muro, sua admiradora declarada. Não tenho explicações sobre o que a fez ficar nervosa nem o que contribuiu para sua volta à normalidade. Tratei de pedir novamente ajuda a uma amiga cachoeirense que se vale de Florais de Bach para curar estados de alma dos bichos, incluindo os de ciúme, carência, ira, desconfiança, possessividade, traumas e um tal comportamento de reizinho mandão.

Fico imaginando que a chegada de Bebel, nossa filha do meio, para passar uns dias conosco, pudesse ter sido o gatilho que desencadeou praticamente todos esses comportamentos, tão humanos, em um animal coberto de penas e com um bico poderoso. Nestes tempos de recolhimento, de casa vazia, é bem provável que Amora estivesse se considerando dona do pedaço, merecedora de todas as atenções do casal. Vai saber.

É bom que se diga que ontem ela passou o dia muito bem. Não gritou nem uma vez, não jogou os potinhos de água e comida no chão, aceitou docilmente que Bebel coçasse sua cabeça e foi dormir de barriga cheia, sem reclamar.

Só não sei como ela vai reagir ao notar que as cascas de frutas e legumes estão sendo dadas para as minhocas da composteira que Carol achou por bem comprar.  As duas moças que vieram entregá-la se mostraram entendidas no assunto e entusiastas da tal permacultura. Elas trouxeram uma de três andares dotada de rodinhas, um tanto de compostagem já pronta, 270 minhocas californianas e um pacote de serragem, além de folhetos informativos. Daqui pra frente, ao menos em tese, não será preciso comprar adubo para colocar nas plantas do jardim e na nossa horta suspensa.

A coisa tem tudo pra dar certo, a exemplo do que acontece com a que nossa filha Manaira, instalou, com sucesso total, na varanda do seu apartamento, em São Paulo. Faz pouco tempo, uma grande amiga nossa, dona de jardim exemplar, aderiu à novidade e também está aguardando os primeiros resultados.

Nunca me ocorreu que um dia teríamos minhocas trabalhando o dia inteiro pra que pudéssemos adubar sistematicamente as duas jabuticabeiras, os pés de pitanga, de romã, de cajá, a goiabeira campeã de 2020 e, de quebra, o ipê branco que plantamos na entrada da casa, que cresce muito lentamente e ainda não se dignou a florir.

Ao juntar a chegada da composteira com a aquisição recente de uma potente câmera fotográfica dotada de celular, posso dizer, sem medo de errar, que aos poucos a modernidade está se instalando por aqui, provavelmente pra ficar.

Vitória, 29 de outubro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cultura na mira

Cultura na mira

Mais uma vez eu tenho vontade de escrever crônica falando de Amora, tamanhos os disparates e contrassensos que pipocam lá em Brasília. Basta lembrar que na semana passada um conselho nacional, criado para cuidar da proteção do meio ambiente, se prestou a tentar desmantelar uma legislação que protege os nossos manguezais e as nossas restingas contra a ganância de uns poucos brasileiros espertos. Quero crer que a Justiça vai conseguir recolocar as coisas nos seus devidos lugares, garantindo a continuidade da proteção aos caranguejos, aratus, siris, e todas as espécies de peixes e moluscos que se utilizam dessas áreas para viver e para reprodução.

Como se tal insensatez colegiada não fosse suficiente para estragar a semana de muitos cidadãos, um jornal paulista estampou, na terça-feira passada, uma foto do secretário nacional de cultura posando com uma metralhadora, dessas bem grandes e potentes, nas mãos. A cena demonstra evidentes sinais de prepotência e pobreza de espírito. É uma imagem patética, porque faz crer que a gestão cultural agora vai ser feita com rajadas de balas de grosso calibre, e que divergências de opinião e uso descontrolado da criatividade e do pensamento independente estão na mira. E quem achar ruim, que se mude daqui.

Convenhamos, uma pessoa que se mune de metralhadora pra fazer média com seus admiradores não tem condição de liderar as ações governamentais numa área onde atuam brasileiros que pensam com a própria cabeça e, sobretudo, que optam por viver dos sons, das cores, dos traços, das palavras, dos gestos, dos movimentos, das imagens e das formas, que fazem bonito e inusitado para fazer graça, emocionar, provocar, surpreender, impactar e encantar.

Me dá um frio na espinha, só de imaginar que esteja circulando nas redes sociais a fotografia de uma autoridade federal segurando uma arma poderosíssima, posando de homem de confiança do chefe, com delegação para intimidar quem, por função e obrigação, deveria apoiar, estimular e valorizar para o bem do país. Pode ser que eu esteja fazendo suposições infundadas, mas, se verdadeiras, convém que o pessoal do Centrão dê uma boa guaribada nessa área, também. E, que seja bem rapidinho.

Vitória, 01 de outubro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Fechando o bico

Fechando o bico

Pra esgotar o assunto, ao menos por enquanto, conto mais sobre meu convívio com Amora nestes tempos de pandemia. Começo dizendo que, dia desses, recebi vídeos sobre peripécias de araras Canindé: uma delas acompanhando ciclistas e pousando no braço de um deles e outra abrindo e levantando um coco com o bico pra beber a água.

Impressiona a habilidade da espécie em manipular semente de girassol, amendoim com casca, jabuticaba e tudo o mais usando apenas seu poderoso bico e sua língua seca, de grande mobilidade. Ela rompe o que apanhou, separa o que lhe interessa, joga fora o que não quer e come o resto. Faz isso quebrando e comendo os coquinhos que trago da Praça do Papa. Isso, na próxima safra. Pretendo filmar essas cenas em câmera lenta e bem de pertinho, para que as crianças e os velhos possam ver e achar sensacional.

Por essas e outras, estabeleci uma norma de defesa pessoal: não pego minha arara no colo quando estou vestindo camisa de abotoar. É que ela adora quebrar os botões e o faz de bate-pronto, pressionando a parte debaixo do bico contra o centro do botão, seu ponto mais frágil, onde estão os furos para passar a linha.

Dia desses, fotografei de pertinho uma pena azul e publiquei no Instagram. Suas cores e suas formas perfeitas fizeram o maior sucesso. Recolho todas as penas que ela vai soltando para enviá-las para amigas nossas usarem em sua escolinha de arte, em Brasília. Elas e os alunos adoram.

Três penas do meio das asas cortadas é o preço da liberdade de viver solta e da garantia da minha tranquilidade. Uma vez ela voou e pousou numa casa perto da nossa. Ao apanhá-la, deu dó de ver sua cara espantada e arrependida.

Me lembrei de ter visto, nos idos de 1965, duas araras empoleiradas ao lado da porta dos fundos da casa de amigos meus, ali perto da Gruta da Onça. Talvez as primeiras que tenha visto de perto. Recentemente, ao conferir com a irmã deles, ela confirmou minha lembrança. Contou que a mãe adorava araras, que criou muitas e que algumas faziam ninho embaixo da cama dela. Verdadeira prova de amizade e intimidade familiar.

O convívio com Amora me faz lembrar do bicudo de mamãe, que papai ganhou de Augusto Ruschi pouco antes de morrer e que ficou com ela muitos anos. O canto dele era melodioso, meio triste, talvez. Guardo uma foto que fiz dela tratando dele pela manhã, com as mãos perto da gaiola e ele olhando pra ela com atenção de passarinho manso. Morreu de velho. Era uma amizade e tanto, aquela. Acho que lhe trazia lembranças do marido.

Vitória, 17 de setembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempos bicudos

Tempos bicudos

Para não falar de assuntos desagradáveis, grandes tragédias e temores crescentes, achei por bem escrever sobre Amora, minha querida arara Canindé, que ganhei de presente no meu aniversário de 70 anos de meus filhos, irmãos e amigos próximos. Disseram que era pra me fazer companhia e matar as saudades da Aurora, que tinha vindo pra nós ainda bem novinha lá em Brasília. Ela veio conosco pra Vitória se equilibrando na barra de alumínio, um poleiro improvisado, atrás da minha cadeira de motorista do nosso ônibus. Viveu conosco por uns sete anos, circulando livremente pela varanda, no quintal e sobre os muros. Fugiu e foi levada umas oito vezes e eu não consegui recuperá-la na última vez.

Amora foi comprada de um criador credenciado no Estado do Rio e chegou no aeroporto de Vitória totalmente estressada e agressiva, com uma anilha numerada na canela direita. Gastei uma manhã inteira para ganhar sua confiança, usando uma varinha de bambu para lhe oferecer água fresca e mamão maduro. Um treinador me disse que comida e carinho são elementos básicos para firmar amizade duradoura com os animais e me informou que as araras vivem setenta anos.

O viveiro de bom tamanho que ganhamos permanece sempre aberto e está colocado diante da janela da cozinha para que Amora possa ficar, de cima de seu telhado, acompanhando a movimentação, sempre fazendo graça, se exibindo e pedindo comida.

Fiz um balanço de dois andares com paus de enxada, que ganhei de Manoel Araújo, antes que fechasse a sua utilíssima loja na Av. Leitão da Silva, e o pendurei com arame na viga da varanda. Amora adora ficar nele, sobretudo quando tem gente por lá. Para chamar a atenção ou se divertir, ela bate as asas com força suficiente para ganhar impulso e poder ficar balançando pra lá e pra cá, de cabeça pra baixo e peito aberto, dando gritinhos.

Para que ela pudesse viver solta e perto da gente, inventei um super-poleiro móvel, montado sobre um pé de cadeira de escritório com cinco rodinhas, que permite levá-la pra todo lado, em especial ao lado da minha bancada, para ela poder ficar observando atentamente o que eu esteja fazendo. Ali, vou lhe dando lascas de bambu, que ela mastiga e estraçalha sem dó. Me impressiona o enorme poder de destruição de seu bico, com o qual consegue esticar arame, partir coquinho e arrancar prego. Nisso, as araras são como cachorros em crescimento, que roem pés de mesa, esburacam tapetes e destroem brinquedos, só pra coçar os dentes.

Ninguém previu que aquele presente, meio inusitado, seria tão útil na quarentena. Tanto, que vou precisar de mais uma crônica para contar as suas peripécias e a evolução da nossa amizade.

Vitória, 20 de agosto de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa na pandemia

Casa na pandemia

Comecei a usar bambu ainda moleque, lá em Cachoeiro, para fazer pipa, vara de pescar, gaiola e alçapão. De lá pra cá, junto com borracha de câmara de ar, o bambu mantém posição relevante no rol dos recursos de “pau pra toda obra”, de grande utilidade para soluções rápidas e eficientes. Gosto de dizer que sou colhereiro especializado, pois só faço colheres com bambu. Tento tirar proveito da sua constituição, sobretudo das suas fibras, que além de proporcionar flexibilidade, resistência e durabilidade, podem apresentar formas muito simpáticas.

Nestes tempos de recolhimento, inventei de fotografar as fibras do bambu, que se revelam na forma de linhas escuras, círculos e elipses, conforme a direcionamento do corte. Sua espessura e densidade variam bastante em função do tipo da planta e da posição que ocupam em relação à casca e ao longo do gomo, sobretudo nos nós, onde perdem os padrões de organização e distribuição.

Fui fotógrafo profissional por uns meses, num tempo de grandes descobertas e satisfações com a primeira Minolta, filmes de 135 ASA, imagens em preto e branco reveladas em laboratório caseiro. Agora, estou às voltas com os avanços tecnológicos da câmera fotográfica do celular xing ling último tipo. Tento dominar o uso das suas lentes poderosíssimas para fotografar as fibras bem de pertinho e conseguir captar a sua bela estética. A danação é a enorme quantidade de recursos técnicos disponíveis e acessíveis a um toque da tela, muitos deles escondidos sob siglas e ícones, e em lugar desconhecido por gente como eu.

Nessa peleja, nossa casa vai ganhando uma nova função: a de estúdio fotográfico. Isso depois de ter sido lar de família numerosa, lugar de adolescentes animadíssimos, inclusive de ensaio de banda de rock, ambiente de restabelecimento de infarto e operações, ambiente para test drive de casamento da caçula, espaço de festas e celebrações emocionantes, de feijoadas e cozidos para muitas bocas, colônia de férias de netos e muito mais. Nesta pandemia, com frequência limitadíssima e sem previsão de normalidade, já transformamos quarto vazio em estúdio para Carol se divertir e, aos poucos, a sala de televisão, onde muita gente se esparramava, vai se consolidando como minha adorável oficina multiuso. É nela que vou instalar a geringonça de fixar a câmera fotográfica que ganhei de Vítor Nogueira, o fotógrafo primeiro das minhas colheres, e criar condições de iluminação propícias ao que pretendo realizar.

Só vai faltar aprender bastante sobre cada recurso da câmera e, muito mais difícil, dominar o uso conjugado de vários deles, para fotografar o bambu sob diferentes condições de iluminação e conseguir produzir imagens interessantes e surpreendentes.

Vitória, 06 de agosto de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempos e movimentos

Tempos e movimentos

Ao conversar com Carol em busca do tema desta crônica, ela sugeriu, com um sorriso safadinho, um assunto que é muito caro aos engenheiros de produção:

racionalidade e desempenho. E isso porque estamos numa fase da existência em que o tempo é uma variável cada vez mais relevante e que, por conta da pandemia, ele esteja sobrando pra nós dois, retidos em casa, sem poder ir a lugar algum.

Quando comecei a fazer o mestrado na UFRJ, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, enfrentava dois ônibus pra chegar lá e outros dois pra voltar pra casa. Gastava umas três horas no trânsito e, pra piorar, não podia fumar no coletivo. Logo depois que passei a ir de carona com amigos, o tempo no trânsito, ao invés de diminuir, piorou bastante com a queda do viaduto Paulo de Frontin, no caminho do Túnel Rebouças.

Em Brasília, sobrava tempo na minha vida de recém casado: gastava só uns cinco minutinhos para ir trabalhar no MEC, a bordo de um Corcel 73 novinho. Na época, havia quem dissesse que tempo sobrando acelerava os divórcios entre as primeiras levas de funcionários públicos transferidos do Rio. Lá não tinha engarrafamentos nem barzinho na esquina onde tomar cerveja com amigos.

No nosso caso, o convívio em tempo integral está muito agradável e produzindo bons resultados. Meio que virou uma boa oportunidade pra recalibrar a relação em busca de sorrisos e de obter satisfação fazendo muita coisa junto.

Na falta de quem as fizesse profissionalmente, passei a brincar de engenheiro de produção ao realizar as tarefas indispensáveis que me cabem no dia a dia. A brincadeira consiste em fazer bem feita cada uma delas, com pouco esforço e no menor tempo possível. Um dos desafios domésticos que tenho enfrentado é como conseguir lavar louças, talheres e panelas rapidamente e, de quebra, economizar água e detergente. Nessa mesma linha, venho tentando preparar, em poucos minutos, um café da manhã caprichado com o que estiver disponível na geladeira e adjacências, pra começar o dia bem alimentado e ganhar os primeiros sorrisos.

Profissional do ramo que sou, vou tomando emprestado princípios que Taylor, Fayol e Ford formularam, há mais de 110 anos atrás, para melhorar o desempenho da indústria americana. Aqui, o propósito é trabalhar achando bom e terminar tudo rapidinho, pra poder ir tratar do que não seja imposto pela rotina do lar: fazer muita colher, fotografar as fibras do bambu e minhas lixas velhas, escrever boas histórias, acompanhar as novidades nas redes, conversar com Carol, mexer nas plantas, brincar com Amora e tudo o mais.

Vitória, 23 de julho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Meu grande amigo Iveraldo

Meu grande amigo Iveraldo

Nestes tempos em que a morte vai se espalhando, por conta de pandemia nunca vista, eu perdi um grande amigo, chamado Iveraldo Lucena. Ele morreu na última terça feira, em João Pessoa, por doenças comuns a gente de idade avançada. Acompanhei de longe a evolução do quadro, sem qualquer chance de chegar perto para continuar uma conversa que começou em 1976, quando cheguei na Paraíba para atuar na universidade federal.

Foi amizade à primeira vista. Ela começou com um sorriso dele pra mim, durante uma reunião do Conselho Universitário, no dia seguinte ao da minha chegada. Talvez o único que recebi naquela sala enorme, onde homens engravatados me olhavam com cara desconfiada, depois de ter sido apresentado pelo Reitor. Eu estava com 28 anos e tinha adotado, faz tempo, meu visual riponga: os cabelos batiam nos ombros e a barba era preta e densa, dessas de espantar menino.

Na saída, ganhei dele o primeiro abraço, talvez de solidariedade, por saber da resistência que eu, forasteiro e cabeludo, iria enfrentar dali por diante. Logo depois vieram outros, agora fraternos, por eu ter trazido uma morena carioca e um filho recém-nascido pra viver longe dos nossos, em casa sem uma linha telefônica. Quando chegou cada uma das nossas duas paraibanas, ele foi o primeiro a nos visitar, já fazendo cara de avô.

Sou uma pessoa de sorte por ter encontrado Iveraldo. Homem animado, afável no trato e disposto, foi quem me ensinou, com abraços, palavras e atitudes, muito do que venho praticando vida afora. A lista é longa e inclui: valorizar a alegria de uma casa cheia e barulhenta, sentir emoções antigas diante de uma fogueira de São João, ter satisfação de fazer comida pra muitos, beber cachaça Rainha, destilada na terra onde ele nasceu. Mais do que tudo, com ele aprendi a relevância da ética, da justiça e dos valores humanitários, a importância de dizer não para filhos, amigos e colegas, e a obrigação de sempre fazer a conta inteira: multiplicando e somando tudo que seja bom, subtraindo o supérfluo e o ruim, dividindo quando preciso for.

Entendo ele não ter conseguido me ensinar a sabedoria de escutar o tanto que queiram nos dizer, a arte de enfrentar pelejas, com firmeza, mas sempre falando baixo, a sagacidade de comprar um sítio onde pudessem caber, também, as casas dos filhos nem os segredos de andar por praias e estradas, por dias inteiros, em companhia de muitos.

Hoje, vendo as centenas de mensagens e depoimentos sobre ele nas redes, tive a satisfação de comprovar que Iveraldo se tornou referência do que é ser um homem bom. Pensando nele, fui fazendo colheres, do mesmo gomo de bambu, pra seus quatro filhos queridos, usando somente a foicinha que ele me ajudou a conseguir, dias antes de nos abraçamos pela última vez.

Vitória, 09 de julho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

https://www.agazeta.com.br/colunas/alvaro-abreu/a-perda-do-amigo-que-me-ensinou–muito-do-que-venho-praticando-vida-afora-0720

Conforto e desconforto

Conforto e desconforto

A dinâmica da política está acelerada, com fatos relevantes e inesperados, se sucedendo em ritmo nunca visto. O intervalo entre crônicas quinzenais foi suficiente para prisões de comparsa familiar e seguidores desvairados, intimações e apreensões reveladoras, demissão de aliado vital, descarte de advogado de porta de cadeia, pedidos de informação, revogação oportunista de portarias incabíveis e muito mais. Na última crônica, já mais otimista, disse que o pelotão dos constrangidos estava cada vez maior e já engrossavam as tropas da oposição. Ameaças e xingamentos presidenciais, por expressarem desespero e perda de potência, já não intimidam. Instaurou-se um processo irreversível de enfrentamento político.

Há alguns anos, entrei numa peleja coletiva contra uma tentativa de ampliar um shopping e, de quebra, alterar radicalmente o gabarito de ocupação de uma área estratégica da cidade. Uma matéria na imprensa dava a coisa como certa e anunciava os passos acelerados a serem dados nos últimos dois meses do ano e dos mandatos municipais: apresentação do projeto a formadores de opinião convidados, avaliação e aprovação no âmbito do devido conselho municipal e autorização do prefeito para início das obras.

Depois de conversar com amigos, escrevi uma crônica sobre o que estavam pretendendo realizar sem ouvir as opiniões de quem seria afetado diretamente. O que seria uma reunião festiva em um restaurante, transformou-se, por ação de associações de moradores junto à Prefeitura e de cidadãos indignados nas redes sociais, em uma audiência popular, num cinema transformado em arena, como reza lei municipal que rege a matéria. Os defensores do projeto não deram conta das perguntas cabeludas e das críticas ácidas de cidadãos enfurecidos. Dirigentes de órgãos públicos se mostraram constrangidos. O projeto e penduricalho não foram aprovados.

Aquela experiência local e o andamento da crise nacional confirmam uma estratégia de enfrentamento político bastante eficaz, fundamentada no bom senso e passível de ser adotada individual e coletivamente, por pessoas físicas e jurídicas. Ela se materializa em dois tipos de ações, simultâneas e complementares: as destinadas a tirar o conforto de prepotentes e de quem se ache no direito de fazer o que bem entende, e aquelas que deem conforto para quem queira discordar e, sobretudo, para quem tenha a função e o poder legal de impedir e até de mandar prender.

Vitória, 25 de junho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Em andamento

Em andamento

Ao conferir no noticiário o que tenho pensado sobre a evolução do ambiente político, vi que crescem os blocos de constrangidos, inclusive o dos que estão ao lado do constrangedor mor, fazendo caras de tudo certo. Se campeonato houvesse, ao menos dois de seus ministros mereceriam medalhas, por acatar ordens constrangedoras.

A de ouro caberia ao da Saúde, por ter que tomar conta do chefe imediato, recomendar remédio perigoso e demitir subordinados competentes, por ver vetado seu indicado de alta potência, ser obrigado a mudar o padrão de informação sobre mortes e ter que anular a mudança que fez por imposição do STF. O general da Saúde, com fama de competente, deve estar tendo dificuldade para dormir e de se explicar pros colegas. A de prata caberia ao da Defesa por ter que soltar notas ambíguas, concordar com aumento das importações de armas e munição para abastecer malucos, andar de helicóptero sobre aglomerações indevidas, referendar autorização de compra de aviões para a tropa terrestre e ver o chefe voltar atrás sob pressão do pessoal que voa e, ainda, por ter que explicar a participação do filho do chefe nas negociações com fabricante de pistolas suíças.

Agora, por fatores diversos e interesses inconfessos, a palavra em evidência é Liberdade. Liberdade de expressão, pra ser mais exato. Cresce a insatisfação com o uso da liberdade de expressão para fazer política ameaçando, difamando, mentindo e muito mais. Muitas palavras estão sendo ditas e escritas para defender o direito de se falar o que se pensa, e também, por oportunismo, para embananar a regulamentação da punição dos que vivem de fake news.

Tem muita gente retomando a coragem que estava guardada no fundo das gavetas da alma e vindo a público defender o que pensa. Até antigas lideranças começam a voltar à cena política. Atitudes de conformismo e embates verbais vão dando lugar a providências práticas de enfrentamento: abertura de processos na justiça e de inquéritos policiais, pedidos de explicação, prorrogação de prazos de investigações, sem falar nos manifestos coletivos e na tomada das primeiras quadras de avenidas. O fato é que estão acontecendo reações em escala crescente e em várias frentes. O panorama está mudando, embora ainda não se saiba pra onde.

Vitória, 10 de junho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mais sobre quem tem bico

Mais sobre quem tem bico

Como prometido, continuarei falando de Amora, mesmo porque o mundo lá fora ainda não melhorou. Começo dizendo que já está mais do que comprovado que a arara é quase um cachorro, por tão amiga do homem que pode vir a ficar. Com sua audição apuradíssima sabe muito bem quando estamos saindo de casa e quando estamos chegando de carro. Empoleirada numa cadeira da varanda nos espera pacientemente, tendo Pingo e Bill por perto. Não seria exagero dizer ela já acata ordens básicas, tipo: “sobe”, no poleiro, “solta”, as garras do meu braço e “vem”, pro colo do dono. Aprendeu rápido que é muito bom alguém coçar a sua cabeça, mas custou a aceitar que coçasse sua barriga, o que deve exigir entrega e confiança.

Falar, Amora não ela fala, mas emite sons parecidos com os das palavras arara, amora, carol e álvaro. Ao se despedir, antes de dormir, pode produzir beijinho, estalando a língua. Theo, nosso neto, escolheu seu nome para que ela pudesse se apresentar às pessoas, tal como Carol fez com Aurora.

Demonstra entusiasmo dando pulinhos de pés juntos pra frente, no chão ou sobre a mesa da varanda. Desconfio que ela sabe que eu acho graça e faz isso pra me agradar. Em compensação, volta e meia, atira pelos ares as cumbucas de aço inox com água e comida. É a maneira que encontrou pra protestar pelo abandono que esteja sentindo. Normalmente funciona.

Posso garantir que ela adora pelejar contra minha sandália havaiana. Dá gosto vê-la se armando, de prontidão, à espera do próximo golpe e, ao se sentir poderosa, partir para o ataque ao monstro azul. A disputa, sem vencedor, pode durar minutos de pura diversão.

Movida por algum instinto, Amora tem uma tremenda psique de ficar nas grimpas, no ponto mais alto de onde esteja. Adora tomar banho no chuveirão lá de fora trepada na escadinha, mas é totalmente avessa a água de mangueira de jardim, traumatizada por quem não entende de arara.

Come ração balanceada comprada na Vila Rubim, mas prefere queijo fresco, semente de banana da terra e castanha de caju. Volta e meia come ração dos cachorros da casa sem pedir licença. Sua convivência com eles é relativamente cordial, mas ela impõe respeito, ameaçando bicar, se necessário.

Ela dorme na área de serviço e fica feliz quando chego lá de manhã. Abre as asas para se espreguiçar e ganha os primeiros dengos. Gosta de ficar puxando meus cabelos, enquanto vou limpando a plataforma do poleiro e colocando água e comida. Sempre trocamos palavras sem nexo quando a levo pra fora, de onde ficará nos vendo na cozinha. O fato é que convívio intenso com Amora, nesta pandemia, está fazendo de mim um desses passarinheiros, que começam o dia tratando dos seus bichos de estimação.

Vitória, 03 de setembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA