Contrangimento, s.m.

Constrangimento, s.m.

Sei de constrangidos confessos e imagino os muitos enrustidos nestes tempos de embates. A palavra constrangimento está na ordem do dia. Confirmei no Google que ela expressa muitos estados de alma, todos negativos e desagradáveis, incluindo: aborrecimento, acovardamento, aflição, arrependimento, desconforto, depressão, desconfiança, embaraço, encabulamento, impotência, insatisfação, introversão, raiva, recolhimento, vergonha.

Convivemos com situações constrangedoras as mais variadas, pontuais e abrangentes, eventuais e permanentes, de menor e maior alcance e impacto. As piores envolvem ameaça, assédio, imposição, coação, intimidação, opressão, repressão, violência física ou moral, atitudes muito associadas ao jogo de poder. Embora possa se abater sobre qualquer um, o constrangimento atinge mais pesadamente as pessoas de boa fé, crédulas, ingênuas, inseguras, temerosas e tímidas.

Ao se repetirem com frequência, esses acontecimentos podem gerar emoções silenciosas e cumulativas, em cadeia. Embora sentidas individualmente, podem afetar muitas pessoas ao mesmo tempo. Constranger sistematicamente é uma estratégia de enfrentamento temerária, nem sempre bem aceita. Na esfera do governo federal, por exemplo, seria interessante saber o grau de constrangimento dos que assinam notas de apoio, medem palavras em depoimentos, participam de reuniões toscas, não concordam que se arme a população nem que se façam visitas e ingerências indevidas, desaprovam o uso de fake news, agressões a jornalistas e a instituições, e barganha com cargos públicos.

Sei, por experiência, que sensações de alívio, indignação, rebeldia e de desejos de revanche são próprias dos que se livraram dos constrangimentos a que foram submetidos. Imagino que coletivos de ex-constrangidos podem surgir por empatia, identificação, compaixão, solidariedade e sensação de pertencimento, em favor de causas coletivas.

E daí? Otimista que sou, torço para que o bom senso e o discernimento ajudem a agregar, mobilizar e organizar os que vêm sendo constrangidos, os insatisfeitos e os indignados, onde estiverem. E assim, fortalecer poderes legítimos para enfrentar as fontes de constrangimentos e agir para ajustar o curso da política, enquanto é tempo.

Vitória, 28 de maio de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Muito chato, chatíssimo

Muito chato, chatíssimo

Sempre fui um homem caseiro, desses que não têm agonia de ir pra rua todo santo dia. Sei de muita gente que tem uma espécie de coceira quando fica muito tempo sem sair de casa. Saem pelas mais diversas razões e justificativas, plausíveis mas nem sempre verdadeiras. Mamãe era uma delas. Volta e meia telefonava pra dizer que estava com uma vontade danada de dar uma voltinha pra aproveitar a fresca e ver o fim da tarde ou, simplesmente, pra tomar um sorvete. Usava a argumentação de sempre, dizia que estava enjoada de ficar dentro de casa, independente de onde estivesse: na dela mesmo ou na de qualquer um dos filhos. Aqui em Vitória, em Guarapari ou no Rio de Janeiro.

De alma leve e sempre muito disposta, imagino que ela devia falar coisa parecida pra papai, no começo da vida de casada, lá em Cachoeiro: “Bolivar, meu querido, vamos dar uma voltinha na praça, pra ver o movimento?”. Nas férias, em Marataízes, o convite podia ser alguma coisa do tipo: “Ai, Bolo, estou com muita vontade de ver o mar. Deve estar uma beleza! Vamos lá?”

Depois de um infarto, fraco do peito e das pernas, fui obrigado a reduzir o ritmo da vida e a ficar em casa, de repouso, em busca de recuperação. Acabei aprendendo a fazer colheres de bambu e escrevendo muitas páginas sobre o que estava se passando na minha cabeça. Em alguma delas está escrito que eu tinha a certeza de que não estava na hora de morrer. É que naquele início de 1995, estavam começando os governos de Paulo Hartung em Vitória, de Vitor Buaiz no Estado e de Fernando Henrique Cardoso lá em Brasília. Lembro muito bem das boas emoções que sentia vendo aquilo. Cada qual no seu estilo, eles transmitiam confiança, seriedade e a impressão de que governariam pensando grande, para o bem comum. A sensação era a de que os próximos anos seriam um tempo muito bom pra quem estivesse vivinho da silva.

Pois bem, cá estou eu, novamente dentro de casa, também por imposição de cuidados com a saúde, fazendo uma colher após a outra, só que agora sem as boas perspectivas. Ando totalmente desesperançoso com o que vejo. Estou cansado de bravatas diárias e de disse-me-disses chatíssimos, tendo que assistir o toma-lá-dá-cá de sempre. Em plena pandemia, aqui estou eu: sem pai, sem mãe e sem governo pra chamar de meu.

Vitória, 14 maio de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vizinhança

Vizinhança

Fui criado em ruas onde todos se conheciam, sabiam onde cada um morava e de qual família era. Filho de beltrano, pai de fulano, mulher de sicrano. O trecho da rua 25 de Março, antes da ponte, em Cachoeiro, era ocupado pelas mesmas famílias há décadas. Em Vitória, a antiga rua da Árvore e a Madeira de Freitas tinham apenas 2 quadras. Nelas, afora uns poucos que se cumprimentavam de longe, seus moradores eram vizinhos.

Por vizinhos entenda-se aqueles que frequentavam a varanda do outro, eram convidados para as festas e, mais do que isso, faziam circular entre suas casas pacote de açúcar, meia dúzia de ovos, pedaço de broa, jambos, rabanadas e, também, bujão de gás, pregos, serrote e tudo o mais. Namoricos no nosso quarteirão eram raros, mas amizades consistentes era o que mais se via.

Pois esta quarentena faz brotar demonstrações de boa vizinhança. No meu caso, comecei fazendo, a pedido de Carol, duas colheres para nossa vizinha de muro, que ela retribuiu com pães fresquinhos da Monte Líbano. Depois, ofereci pro meu vizinho de duas casas adiante, e ele aceitou com satisfação, um dos abacaxis miúdos de Marataízes que acabara de comprar. No domingo, um casal de amigos, que dariam ótimos vizinhos, trouxe um saco de cajás deliciosos. Dei a metade pra meu irmão mais velho, que adora essa fruta de antigamente.

Ontem nos encontramos com um antigo colega de trabalho, que sempre caminhava em ritmo acelerado pelas ruas do bairro. De pé, no jardim da sua casa, ele empunhava um copinho de bebida. Puxando conversa, perguntei se era whisky e ele, com cara de entendido, respondeu que era a melhor cachaça do Brasil, feita lá em João Neiva, onde ele nasceu.

Fazendo cara de invejoso, falei que aquela era a cachaça oficial da nossa casa e que, naquele momento, meu garrafão estava totalmente vazio. Pois ele foi firme em dizer, agora com cara de orgulho, que iria lá dentro apanhar uma garrafa de dois litros pra mim. Enquanto esperava, tratei de finalizar a faquinha que estava fazendo para dar pra ele, tão logo recebesse aquele inesperado presente.

Deu tudo certo. Alisando aquela pequena peça de bambu com a ponta dos dedos, ele fazia cara de satisfação, igual a que devia estar fazendo ao segurar, com as duas mãos, a minha garrafa de cachaça.

Vitória, 30 de abril de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Minha preta pretinha

Minha preta pretinha

Tem morrido muita gente. Gente desconhecida e uns poucos que conheço. Acabo de saber que Rubem Fonseca foi um desses, de quem ouvi falar muito bem e de quem li, e gostei, uns dois ou três dos muitos livros que escreveu.

Dias passados foi Moraes Moreira que se foi, vítima de um infarto daqueles fulminantes. Sobre ele, acabo de ler a crônica emocionada de Gregório Duvivier, contando seus encontros quase diários a caminho da padaria e fazendo graça com o verso “assim vou lhe chamar, assim você vai ser”, da inesquecível música Preta, Pretinha.

Fui ao Google em busca de confirmações e detalhes sobre a letra que sei de cor e dos sons que guardo por justas razões. É que sou daqueles brasileiros que estavam no Rio de Janeiro no comecinho dos anos 1970, quando os Novos Baianos surgiram para alegrar a festa, junto com Jorge Ben e Tim Maia. Tenho a imagem quase perfeita do show animadíssimo que eles fizeram entre os pilotis do térreo do prédio central da PUC, na Gávea. Estava lotado de gente bonita, coloridíssima, cabeluda e sonhadora. Homens de barba e moças sem sutiã cantavam e dançavam ao ritmo envolvente de Preta Pretinha e repetiam, com convicção, um chamamento daqueles tempos: “abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”.

Curioso foi constatar algo de que não me havia dado conta até agora. Na letra de Preta Pretinha, se destaca o verso que diz “Eu ia lhe chamar, enquanto corria a barca”. O mundo dá voltas para nos fazer perceber direito situações vividas em voltas anteriores. Pois bem, só agora me dou conta que foi num final de tarde, bem na proa de uma barca que corria de Niterói para a Praça XV, que eu aproveitei o momento para chamar Carol pra casar. Pois foi com a melhor cara deste mundo que ela me disse que iria pensar.

Não me lembro dela me dizendo que aceitava se casar comigo. Mas o fato é que, dois meses depois, num dia ensolarado de dezembro, nos casamos. Foi uma festa animada, na casa de campo dos pais dela, em Itaipava, no alto da serra. Muitos familiares, amigos nossos e alguns alunos meus acompanharam atentos as palavras do juiz de paz e, logo em seguida, começaram a bater palmas, já ao som de Preta Pretinha.

Vitória 16 de abril de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de goiabas

Tempo de goiabas

Dia desses me mandaram uma foto histórica, na qual apareço abraçado ao tronco da goiabeira que existia no quintal da nossa casa, lá em Cachoeiro, com cara de moleque corajoso. Não devia ter mais do que uns 5 anos. Junto com ela veio a imagem que tenho na memória de papai me fotografando com uma máquina daquelas de sanfona. Mostrei-a pros netos, na expectativa de animá-los a aprender a trepar na goiabeira daqui de casa, que este ano está produzindo como nunca, sem parar.

As frutas estão perfeitas: graúdas, de casca grossa e, pela primeira vez, sem bicho, o que é fundamental. Imagino que essa fartura seja por conta de uma poda radical que fizemos em agosto passado, e das chuvas fartas que têm caído. Sem exagero, estamos tirando umas 40 goiabas por dia, tendo sido registrado o recorde de 58 unidades, o que pode ser facilmente comprovado por fotos e testemunhos pessoais.

O fato é que tirar goiaba virou um opção de diversão para os netos mais velhos. Malandramente criada por avô do tipo antigo, a atividade ganhou a disputa contra joguinhos de celular e desenhos na TV.

Instaurou-se uma acirrada competição entre eles, para ver quem tirava mais goiabas e também as maiores.

Galhos horizontais em paralelo, que permitem pisar e agarrar com as mãos, oferecem segurança e condições para se chegar nas grimpas, onde sempre ficam as frutas mais bonitas.

Sem dúvida, Gael foi o vencedor por boa margem, muito embora a norinha também tenha apresentado desempenho elogiável, bem acima dos resultados obtidos pelos filhos e pela sobrinha.

No que me cabe, a fartura e a qualidade das frutas desta safra têm possibilitado avanços importantes na produção caseira de doce de goiaba. Além dos tradicionais doces de orelha, feitos com pedaços grandes da fruta, também estão sendo realizadas, com sucesso, tentativas no segmento das goiabadas. Ainda não se conseguiu chegar na cascão verdadeira, talvez por usar pouco açúcar. Mas já foram produzidas panelas enormes de goiabadas cremosas, dessas de comer de colher, gemendo.

Vitória, 23 de janeiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Natal no mato

Natal no mato

Meu pessoal sempre foi muito animado. Abrir a casa pra comemorar aniversário, formatura e casamento, juntar amigos para comer caranguejo, fazer cozido pra muitos – tudo isso faz parte da vida dessa nossa família numerosa. Desta vez alguém deu a ideia, prontamente aceita por todos, de alugar uma casa grande para passar o Natal. Quando vi, já estava tudo arrumado e resolvido. O lugar escolhido foi um sítio localizado naquele vale enorme que fica à direita de quem vai para Domingos Martins. As informações que me chegaram eram bem poucas e achei que deveria deixar o barco correr.

Chegar aqui foi fácil, difícil foi conseguir sair de casa. Foi preciso usar quatro carros para levar os pais, cinco filhos, dois genros, uma nora e sete netos. Deu trabalho conseguir arrumar as malas, mochilas, caixas com as compras, isopor com bebidas e comidas congeladas, sacos de carvão, sacolas de presentes e, ainda por cima, um violão. Pena que não me deixaram trazer Amora.

Faz tempo que não via um lugar tão bom pra soltar crianças e deixar que exercitem, longe dos olhos adultos, o ir e vir, o subir e descer. Uma piscina de água cristalina saída de fonte na mata, sauna pra quem gosta, campo de futebol com grama impecável, campo de bocha com piso de carpete, ponte pênsil de matar adulto de medo, água percorrendo uns cinquenta metros pedra abaixo antes de virar bica poderosa. Tudo isso sem contar três touceiras de bambu e um pé de lichia carregadinho, como eu nunca tinha visto. Faz tempo que não ouvia tanto sapos, pererecas e grilos cantando uma espécie de sinfonia da natureza.

Neste ambiente, não há mau humor de adulto nem birra de menino que vigore. Disputas só mesmo no carteado e no modo de fatiar a carne do churrasco. Melhor de tudo tem sido o convívio familiar sem a interferência da internet. É bom que se saiba que estamos todos vivendo perfeitamente sem acessar mensagens, notícias boas e ruins e, sobretudo, aquela enorme quantidade de bobagens inúteis. Neste meio de mundo, os celulares viraram simples máquinas fotográficas. Cenas inspiradoras tem de montão por aqui. Agora só falta ir lá na sede do distrito tentar enviar esta crônica para o editor.

Biriricas, 26 de dezembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tá doendo

Tá doendo

Tem bem uns 15 dias que estou às voltas com uma baita herpes zoster, dessas pra ninguém botar defeito nem dizer que teve uma mais grave do que a minha. Não sei se existe algum tipo de concurso ou competição relacionada a essa ziquizira, mas posso garantir que a minha experiência tem sido extremamente desagradável, mobilizando praticamente todas as minhas atenções e paciências. Tem sido praticamente impossível pensar em outra coisa que não seja nos incômodos, ardências e dores instaladas no entorno das costelas do lado direito do corpo. Não quero fazer drama e muito menos me vangloriar por estar conseguindo conviver silenciosamente com essa doença que, pelo que fui sabendo aos poucos, abate os mais parrudos e simpáticos cidadãos e as mais aguerridas e charmosas cidadãs. Soube, por fontes credenciadas, que ela é provocada pela reativação do vírus da catapora e que ocorre quando uma doença ou medicamento enfraquece o sistema imunológico. Também ouvi dizer que a falta de tranquilidade e de sorriso farto pode ajudar a deslanchar o processo e que já existe vacina.

O fato é que, se o ambiente geral piorou bastante com a lamentável decisão do STF de acabar com a prisão da bandidagem graúda, sob aplausos dos escritórios de advocacia de primeira linha, as dores diminuíram ainda mais a vontade de acompanhar o noticiário. Mesmo assim, assisti, apenas de relance, cenas da soltura mais defendida de todas, acontecida em clima de um revival xoxo. Na sequência, tenho tomado conhecimento das libertações de condenados prepotentes, operadores profissionais e mutreteiros comprovados. Imagino que essas notícias devem estar abastecendo a insatisfação de muita gente, fazendo prever desdobramentos políticos não devidamente avaliados pelos ministros que votaram a favor dos processos penais intermináveis. As confusões no Chile e na Bolívia surpreenderam muita gente e podem estimular movimentações populares por aqui também. Melhor se o Congresso atuasse com presteza para sanar tais distorções, garantidas pela legislação vigente. Enquanto isso, torço para minha doença sarar logo.

Vitória, 14 de novembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pode não dar certo

Pode não dar certo

O noticiário político está de dar enjoo e preguiça em quem não pratica vale tudo nas redes sociais. A brigalhada vem vindo num crescendo, em várias direções, sem limite nem controle. Me peguei lembrando do aviso escrito na tabuleta pregada na entrada da gafieira. Era curto e grosso: “O ambiente exige respeito”. Não dava detalhes nem explicações, mas parecia se mostrar suficiente para garantir ordem e decência naquela casa de diversão, frequentada por gente de todo tipo e calibre. É certo que uns tantos folgadões tenham sido convidados a se retirar do recinto, com palavras ou aos empurrões, para que o samba pudesse continuar fluindo. Isso para que os frequentadores voltassem a desfrutar a noite, dançando de rosto colado ou, simplesmente, tomando uma cerveja e conversando frouxo, sempre de olho nos movimentos de certos quadris ou em algum sorriso amistoso e promissor.

Melhor seria se esse pessoal nervoso voltasse a usar os dedos das mãos só pra coçar a cabeça, ajeitar a gravata, segurar os óculos ou qualquer outra coisa que não fosse digitar agressões e bobagens toscas no teclado. Dizem que muitas delas são fruto de brincadeira, arroubo juvenil ou problemas emocionais graves. Mas há também quem diga que se trata de ação orquestrada, parte de um projeto maquiavélico de poder familiar. A estratégia seria a de viralizar uma pauta sempre excitante e polêmica, pensada para chamar a atenção e abastecer as conversas de pessoas mais desavisadas. Seu objetivo político seria o de manter a coesão e de ampliar a adesão aos grupos simpatizantes de uma direita emergente que vem tentando se organizar por aqui também.

Sou dos que não entram nesse tipo de peleja nem gostam de participar de brincadeiras de mau gosto. Os últimos acontecimentos, incluindo denúncias e reações, fazem pensar que a movimentação dessa turma vai deixando de lado a razão, a confiança e o respeito, elementos indispensáveis ao convívio. É mais do que sabido que toda vez que o leão erra a patada ou perde o equilíbrio, as hienas mordem com vontade.

Alvaro Abreu

31 de outubro de 2019

Escrita para A GAZETA

Carros e vitrines

Carros e vitrines

Faz tempo que meu pessoal me fala pra trocar o carro. Não que ele esteja velho e com defeitos, tem só uns pequenos arranhões. Foi comprado novinho em folha para as férias de 2011 e, como ando pouco, ele é um legítimo seminovo, no linguajar do mercado. Até então eu sempre comprei carro de segunda mão, pouco rodado, por achar a relação custo benefício favorável. O valor do zero km costuma cair bons pontos percentuais tão logo se ultrapasse, orgulhoso, o portão da concessionária.

Hoje já não tenho disposição para sair por aí lendo anúncios no jornal, telefonando para ofertantes, ouvindo elogios enganosos, indo conferir in loco o estado geral do carro e o levando à oficina de confiança para avaliação mais completa. Antigamente, a procura era facilitada pelo reduzido número de modelos e de marcas existentes e, sobretudo, de carros à venda. Não havia essa fartura de hoje em dia. Agora, para complicar, como se não bastasse a diversificada oferta de bons carros nacionais, há também enorme variedade de importados interessantes.

Qualquer cidadão que, como eu, pouco consegue acompanhar as inovações automotivas, se vê cheio de incertezas diante do crescente cipoal de opções e novidades. Abre-se aqui espaço para o marketing digital especializado, que pretende capturar cada comprador potencial com a oferta de produtos que atendam às suas expectativas de consumo, quase sempre criadas por campanhas anteriores.

Nessa rota, quando qualquer um de nós, por distração ou ingenuidade, clica sobre uma fotografia de um carro simpático na tela, faz brotar anúncios que primam pela sofisticação das imagens e que logo chateiam pela insistência. Foi depois de muito sofrer esse tipo de assédio digital que me ensinaram a navegar por sites de marcas e lojas especializadas, usando uma tal janela anônima. Ela até garante a defesa pessoal, mas nem sempre ajuda a tomar uma decisão.

Tudo isso me fez lembrar do poeta Mário Quintana, que dizia adorar andar pelo comércio de Porto Alegre para ficar olhando as vitrines repletas de coisas que ele não precisava comprar.

Vitória, 16 de outubro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na varanda da casa em João Pessoa

Na nossa casa em João Pessoa

Deitado na rede, na varanda interna da casa, podia-se ver o progresso diário daquela construção de barro que o maribondo fazia.

Aquele parecia ser o melhor lugar da casa para a gente ficar. Os 3 pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da posição do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da casa ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda.

Quero dizer com isso que aquilo ali era quase perfeito para um profissional de rede, como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitasse pudessem se sentar por perto, em volta.

Dependendo da intimidade, o visitante poderia esticar-se em uma outra rede e, nessas ocasiões a conversa correria bem mais lentamente. Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som das palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.

Na rede, em compensação, as conversas sempre rangem como os ganchos nos prendedores, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física. Os olhares – quando possíveis – são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.

Daquele telhado, praticamente, conhecia tudo: as terças entre pilares, os caibros da parede às terças, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barros. Da marca impressa em baixo relevo não sei se lembro: talvez Santa Rita, talvez Itamaraju.

Que diferença faria, saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.

As casas de marimbondo se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas das casinhas davam evidentes sinais de abandono, de já terem comprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?

As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansado, perturbado, agoniado e tudo o mais que se pode sentir em situações de dilema, dúvida, ânsia e incerteza. Muitas vezes descarreguei nelas o que sentia e não conseguia dividir com ninguém. Depois acabava dormindo tranquilo.

Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede mas falta o telhado. Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: o liso do reboco e o branco da tinta, não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.

Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retém quase tudo que chega até elas.

Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando as telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, no trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de alta responsabilidade.

Alvaro Abreu

Escrita idos de 1997