Minha preta pretinha
Tem morrido muita gente. Gente desconhecida e uns poucos que conheço. Acabo de saber que Rubem Fonseca foi um desses, de quem ouvi falar muito bem e de quem li, e gostei, uns dois ou três dos muitos livros que escreveu.
Dias passados foi Moraes Moreira que se foi, vítima de um infarto daqueles fulminantes. Sobre ele, acabo de ler a crônica emocionada de Gregório Duvivier, contando seus encontros quase diários a caminho da padaria e fazendo graça com o verso “assim vou lhe chamar, assim você vai ser”, da inesquecível música Preta, Pretinha.
Fui ao Google em busca de confirmações e detalhes sobre a letra que sei de cor e dos sons que guardo por justas razões. É que sou daqueles brasileiros que estavam no Rio de Janeiro no comecinho dos anos 1970, quando os Novos Baianos surgiram para alegrar a festa, junto com Jorge Ben e Tim Maia. Tenho a imagem quase perfeita do show animadíssimo que eles fizeram entre os pilotis do térreo do prédio central da PUC, na Gávea. Estava lotado de gente bonita, coloridíssima, cabeluda e sonhadora. Homens de barba e moças sem sutiã cantavam e dançavam ao ritmo envolvente de Preta Pretinha e repetiam, com convicção, um chamamento daqueles tempos: “abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”.
Curioso foi constatar algo de que não me havia dado conta até agora. Na letra de Preta Pretinha, se destaca o verso que diz “Eu ia lhe chamar, enquanto corria a barca”. O mundo dá voltas para nos fazer perceber direito situações vividas em voltas anteriores. Pois bem, só agora me dou conta que foi num final de tarde, bem na proa de uma barca que corria de Niterói para a Praça XV, que eu aproveitei o momento para chamar Carol pra casar. Pois foi com a melhor cara deste mundo que ela me disse que iria pensar.
Não me lembro dela me dizendo que aceitava se casar comigo. Mas o fato é que, dois meses depois, num dia ensolarado de dezembro, nos casamos. Foi uma festa animada, na casa de campo dos pais dela, em Itaipava, no alto da serra. Muitos familiares, amigos nossos e alguns alunos meus acompanharam atentos as palavras do juiz de paz e, logo em seguida, começaram a bater palmas, já ao som de Preta Pretinha.
Vitória 16 de abril de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
