Contra a maré

Contra a maré

Comecei a semana tentando acabar com um hábito matinal antigo. Deveria ter sido na segunda feira, mas foi possível adiar em função de uma cortesia sagaz da concorrência, que fez chegar ao meu jardim um exemplar do seu jornal, recém-saído da impressora. Uma iniciativa repleta de ousadia e senso de oportunidade. Imagino que ela possa ter estimulado leitores mais turrões a se decidir por assinatura com entrega diária das notícias por cima do muro. À moda de antigamente, como se dirá em breve.

O fato é que, tendo passado os olhos na versão moderna, pude manter, por mais um dia, o hábito de tomar café lendo as notícias e me despedir, uma vez mais, das palavras e imagens grafadas no papel. No domingo, a despedida tinha sido silenciosa e meio melancólica, com atenção maior para as matérias relacionadas às decisões e expectativas empresariais, às mudanças nos processos de trabalho e aos impactos na vida de quem fazia a gráfica funcionar e dos que cuidavam de preparar os jornais para a distribuição.

Assim, só li exclusivamente a versão digital deste jornal na manhã de terça feira. Fiz isso, confesso, não sem antes ter ido ao jardim para conferir se havia mais algum exemplar de cortesia. Na falta dele, lá fui eu começar a aprender a ler A GAZETA na tela, como tinha feito com jornais paulistas, hoje minhas referências digitais. Lá estavam as notícias de destaque na página de entrada e muitas outras acessáveis com movimentos de rolar a tela ou de clicar no mapa do site. Tive a impressão que a quantidade de matérias e de opiniões aumentou bastante, pela facilidade de deixar disponíveis informações que, mesmo já publicadas, ainda não tenham perdido a atualidade, o que é muito interessante.

De curioso, em meio à grande quantidade e variedade de manchetes, encontrei uma que fala dos catraieiros que atravessavam passageiros na Baía de Vitória. Eles querem indenização pelo fim de suas atividades centenárias, suspensas pelo poder público em 2015, por questões de segurança. Eu mesmo, até hoje, nunca soube de acidentes com catraias.

Vitória, 02 de outubro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai faltar papel

Vai faltar papel

Não sou dos que acompanham de perto, e em estado de aceitação plena, a evolução acelerada das coisas e dos processos. Digo isso mesmo tendo atuado por muitos anos no desenvolvimento das ciências e das tecnologias. Acho que acabei por me tornar um conservador de tipo específico, desses que acha que mais perde do que ganha com a modernidade. Não que desaprove ou despreze o novo, o que seria uma bobagem. Mas por sentir uma resistência pacífica e silenciosa a muito do que vai surgindo incessantemente com a pretensão de facilitar a vida, fazer mais rápido e seguro, equacionar problemas do cotidiano e assim por diante. Com a chegada das soluções inovadoras, vê-se que muitos novos negócios aparecem e outros tantos desaparecem. Fazer a conta inteira dos ganhos e das perdas fica a critério de cada um.

Pois bem: como leitor diário deste jornal, eu soube que, a partir de data marcada, a edição impressa somente acontecerá aos sábados. Durante os demais dias da semana, terei à minha disposição uma edição digital com informações sempre atualizadas, novidades variadas e tudo o mais. Como já sou leitor das manchetes e de textos escolhidos nas edições on line dos principais jornais do país, aproveitarei para ler no computador o noticiário local. Ao longo do dia vou continuar passando um olho nas últimas notícias para ficar informado tanto quanto queira.

O fato é que, em breve, não mais lerei jornal no café da manhã, quebrando um hábito de vida inteira. Para complicar, a nossa casa ficará sem a pilha de jornal velho, um insumo de grande utilidade e de uso corrente, incluindo os de enrolar fruta para amadurecer, secar xixi de cachorro e proteger o piso durante a pintura das paredes. Em tempos remotos, quando ainda não existia isopor, a gente usava folhas de jornal para embrulhar e manter as iscas congeladas durante as pescarias inteiras. Agora, em função da mudança anunciada, também vou ter que substituir o método prático, asseado e eficaz que criei para descartar a sujeira do poleiro de Amora, que consome duas folhas de jornal por dia.

Vitória, 18 de setembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Do bairro e das pedras

Do bairro e das pedras

No final de agosto vivi emoções próprias dos idosos. Boas, diga-se de passagem. Primeiro foi a vez de encontrar, lá na Curva da Jurema, gente que frequentava a Praia do Canto em meados dos anos 70. Uma baita festa de reencontro que cresce a cada ano, atraindo os que aproveitaram o que havia de bom no bairro. Foi tempo de saber de parentes e amigos distantes, relembrar passagens curiosas, matar saudades que nem se sabia existirem. A farta distribuição de simpatia facilitava a aproximação até de quem mal se via naquela época. A leitura do livro de memórias, lançado no dia, foi feita de arranco e terminou na madrugada de domingo, deixando a alma ainda mais leve.

Na semana passada estive na abertura da trigésima edição da Feira do Mármore e Granito, em Cachoeiro. Fui receber, ao lado de outras pessoas, homenagem por ter participado da sua criação e de ter ajudado a torná-la um fator estratégico para o desenvolvimento do setor de rochas ornamentais aqui no estado e por aí a fora. Para os dinossauros como eu, foi uma emocionante noite de saudade, de pura confraternização. Para os que chegaram depois, a solenidade foi de reconhecimento do mérito de um pequeno grupo de sonhadores, formado por empresários e gente do governo. Os discursos dos dirigentes das entidades, do prefeito e do governador soaram como verdadeiras convocatórias para acelerar o fortalecimento do setor como um todo, que hoje conta com cerca de mil e quinhentas empresas e impacta a vida de uns oitenta mil capixabas.

Teve quem dissesse que ali se comemorava a ousadia de uns poucos que realizaram, sob a descrença de muitos e a surpresa de alguns, evento tão relevante em lugar tão improvável. É que na primeira edição da feira, os estandes dos expositores foram instalados nos galpões das baias de bois do Parque de Exposições e o transformador, não suportando a demanda de energia, explodiu minutos antes de começar a solenidade de abertura. Sinceramente, eu não me lembro de gente reclamando do improviso, da escuridão nem do calorão cachoeirense de novembro.

Vitória, 04 de setembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Saudosismo na veia

Saudosismo na veia

Newton Braga inventou a Festa de Cachoeiro há uns 80 anos para celebrar reencontros. Naquele tempo, quem tinha condições ia estudar no Rio e vinha passar as férias em casa. Como o dia de São Pedro, padroeiro da cidade, é 29 de junho, bem na boca das férias escolares, ele resolveu aproveitar a data e marcar a festa. Deu certo. Dá gosto de ver meus conterrâneos se abraçando, rindo e falando alto quando se encontram lá na terrinha.

Pois então. Amanhã acontecerá a sexta edição do Encontro dos Amigos da Praia do Canto, lá na curva da Jurema. É um movimento idealizado por Marisa Guimarães, minha colega de piscina, para reunir em lugar aberto, perto do mar, pessoas das mais diferentes turmas e patotas de antigamente. Não sei como a ideia vingou, mas deve ter sido por conta do saudosismo fundamentado que acomete muita gente madura como eu, que passou a sua juventude na Praia do Canto e, também, na Praia de Santa Helena e na Praia Comprida, que saiu do mapa.

Sem exageros, esse pedaço da ilha de Vitória era lugar próprio para criar amizades e encontrar amores, andar de bonde e de bicicleta sem freio, subir morro para ver o mundo do alto, pegar lagosta miúda, pescar carapau valente, remar mar adentro, velejar por curtição e em regatas oficiais, jogar pelada e vôlei na rua e frescobol nas areias da praia do Barracão, nadar contra o relógio no Praia Tênis Club, pegar onda em Camburí, não perde festa de debutante, esperar a vez na fila do galeto no Iate Club, ouvir músicas inspiradoras, namorar muito, dançar apertadinho e voltar pra casa a pé, sem medo.

É bom saber que será lançado um livro com histórias e relatos escritos por pessoas que tiveram o privilégio de morar naqueles bairros tão especiais, então livres de prédios enormes e trânsito pesado. Quero crer que a vida mansa, alegre e cordial que vivemos ali tenha sido idealizada pelo sanitarista Saturnino de Brito ao projetar, lá pelos idos de 1890, o chamado Novo Arrabalde, com ruas largas e traçado que valorizava as enormes formações rochosas existentes. Quem viveu, viveu.

Vitória, 21 de agosto de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No hospital

No hospital

Estive fora do ar por mais de trinta dias, a ponto de não conseguir mandar três crônicas para os editores deste jornal. Preocupei muita gente, mas ganhei uma torcida atenta e carinhosa. A maior parte desse tempo passei às voltas com exames, clínicas e médicos por conta de incômodos provenientes do funcionamento imperfeito dos intestinos. Os demais dias foram vividos no hospital, sendo a metade deles dedicados à investigação da natureza e da extensão de algo diagnosticado inicialmente como sendo uma diverticulite. Sob demandas de um anjo da guarda de jaleco, novos exames deram o caminho das pedras para que o cirurgião fizesse seu trabalho.

Já deitado na maca, ao informar à enfermeira quem iria me operar, recebi dela um comentário efusivo e altamente tranquilizador para quem está a caminho do centro cirúrgico: “Ai, que bom! Esse doutor faz operações maravilhosas!”. Dito e feito. Saí de lá sem um pedaço das tripas e livre de uma tal bolsa externa. O sorriso e a segurança do cirurgião fizeram com que os cinco dias de risco de uma eventual complicação, e todos os demais, corressem sem qualquer preocupação.

Ao entrar no hospital decidi que seria um paciente exemplar, desses que têm paciência e boa disposição para enfrentar a tiração sistemática de sangue, a medição da temperatura, da pressão e da glicose, a aplicação de injeções para evitar coágulos, a tomação, com hora marcada, de remédios líquidos e em pílulas, sem contar a fazeção de exercícios para fortalecer os pulmões e o incômodo de ficar preso a um porta-frasco de soro e de antibiótico difícil de empurrar de um lado para outro.

Na falta do que fazer, passei a prestar atenção nas sobrancelhas das enfermeiras. Muitas delas optaram por desenhos discretos enquanto outras, talvez as mais entusiasmadas, adotaram uma solução chamativa e radical: uma sobrancelha que começa com uma reta vertical próxima ao nariz, com espessura bem larga que vai afinando, em curva, em direção à orelha. Fiquei com a impressão de que todas elas estão usando esse truque para se fazerem mais charmosas.

Vitória, 31 de julho de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Respeito e arrependimento

Respeito e arrependimento

Na semana passada recebemos a visita de Mário Duayer, querido amigo que conheci em 1971 quando fazia o mestrado na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Colegas de turma em praticamente todas as disciplinas, nosso convívio era diário e se estendia para além da sala de aula. Em caravana, viajamos de carro para passar o carnaval em Salvador e montamos acampamento sob os coqueiros, da praia de Piatã.

Eu participava de um programa de capacitação de professores idealizado por Máximo

Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da UFES, como alternativa para poder contar com pessoal qualificado para ministrar disciplinas mais especializadas. Fiz parte da terceira turma de recém-formados que fizeram a pós-graduação e voltaram para serem contratados pela Universidade. Naquele tempo, a cidade era bem carente de profissionais habilitados em muitas das áreas da engenharia. Viver uns tempos na antiga cidade maravilhosa era também uma oportunidade para tomar um bom banho de civilização. O Rio era a capital cultural do país. A zona sul fervia ao ritmo das novidades e experimentações.

A convivência com Mário colocou na berlinda atitudes típicas de rapazes capixabas, incluindo a gozação e o uso de apelidos pejorativos. Ele defendia fervorosamente o respeito à individualidade alheia, algo inteiramente novo para mim. Pois foi de tanto ouvir suas reclamações, que deixei de manter contato com uma morena interessante que estava de pé no corredor do ônibus quando embarquei no centro da cidade. O interesse foi recíproco e verdadeiro logo ao primeiro olhar e foi crescendo ao longo do Aterro do Flamengo. Enquanto balançava, fui juntando forças para vencer a minha natureza e fazer prevalecer o tal do respeito. O ônibus passou pelo Túnel de Copacabana e logo que dobrou na Barata Ribeiro, a morena deu sinal para descer. De pé, na calçada, fora de alcance, ela me lançou um olhar de total desaprovação da minha atitude passiva. O fato é que por respeito, porém inteiramente arrependido, perdi aquela morena. Mário morreu de rir da história.

Vitória, 12 de junho de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Enxergando e ouvindo melhor

Enxergando e ouvindo melhor

Meu oftalmologista, companheiro de muitas pescarias, me contou que há poucas décadas a operação de catarata demandava anestesia geral e internação hospitalar. Hoje, ela é feita em poucos minutos com anestesia que se usa para medir a pressão ocular. A preparação do paciente, que dura umas duas horas, inclui pingação de umas gotas no olho a ser operado, ingestão de uma espécie de calmante, para minimizar eventuais temores e ansiedades, e termina com a troca da roupa por um daqueles aventais ridículos, que constrangem os pacientes hospitalares.

Dito e feito. Depois de vestir minhas roupas de cidadão saudável, recebi instrução de usar dois colírios específicos e proibição de lavar a cabeça até segunda ordem. Me deram um óculos de proteção, daqueles que operários usam em ambientes hostis, agendaram a consulta de revisão e, para finalizar, ganhei abraços dos meus velhos amigos, donos da clínica. Voltei pra casa dirigindo e pensando no tanto que minha vida vai melhorar depois de operar o outro olho. É que ficarei livre de uma espécie de nuvem amarelada que esconde os detalhes das imagens e ofusca a visão de quase tudo, quando se olha contra um ponto de luz. Agora, mesmo com o serviço pela metade, ler um livro já voltou a ser uma atividade confortável.

Pois foi no começo deste mês de maio que também consegui uma melhora substancial nas minhas combalidas capacidades auditivas. Conto isso por imaginar relevante para muita gente que existe por aí, surdinha como eu, e que, quase sempre, também como eu, reclama do retorno nada compensador dos investimentos em aparelhos auditivos caríssimos, sobretudo se comprados aqui. Usuário desses recursos tecnológicos há uns 10 anos, enfim consegui encontrar, lá em São Paulo, fonoaudióloga capaz de calibrar adequadamente os meus aparelhos. Fazia tempo que nutria as expectativas de conseguir sustentar uma conversação em ambientes barulhentos, assistir TV em volume baixo e voltar a ouvir quase todas as notas das músicas gravadas nos velhos LPs que tanto botei para tocar. Em breve volto lá para os ajustes finos.

Vitória, 28 de maio de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Desapegando

Desapegando

Depois de conviver com obras dentro de casa, transferir o escritório para outro cômodo tem me exigido decisões e providências. É serviço que gosto de fazer e que começa com a definição da disposição dos móveis, com destaque para o lugar da mesa de trabalho. Aprendi que a luz natural deve chegar, preferencialmente, pelo lado esquerdo, para garantir conforto visual ao trabalhador. Um novo ponto de internet, sem o que não se vive hoje em dia, deverá ser providenciado.

Como certamente acontece com muita gente madura, difícil mesmo tem sido resolver o que fazer com tudo aquilo que ocupava as paredes do antigo escritório. Aos poucos, durante muitos anos e sob boas emoções, fomos trazendo pra casa livros, fotografias, quadros, objetos curiosos e simpáticos que fomos coletando nas andanças mundo afora, nos convívios e nas realizações. Assim, o cômodo foi se transformando em lugar das coisas do passado, das boas lembranças e das referências pessoais. Eram muitos ítens. Basta dizer que ocupavam uns 10 metros de prateleiras largas, 6 nichos grandes e preenchiam completamente uma das paredes.

Depois de descartar muita coisa, foi preciso resolver o que fazer com os livros. Tinha de tudo um pouco e muitos sobre alguns assuntos. Numa primeira triagem, separamos e demos boa destinação para uma grande quantidade deles sobre patrimônio histórico, antropologia, sociologia e assuntos afins. Algumas caixas com romances, livros de contos, poesias, história, biografias estão prontas para serem levadas para a biblioteca municipal de Anchieta, mas ainda resta inventar para onde levar as dezenas de bons livros técnicos, já sem qualquer serventia para os moradores. Falta também resolver o destino dos livros de história, de capa dura e letras grandes, espécie de tesouro da infância de Carol. Decidimos manter e deixar acessível tudo aquilo que foi produzido e publicado pelo pessoal da casa, por nossos parentes e amigos, por gente com quem convivemos e por autores que tomamos como referência. Posso garantir que já ando me sentindo bem mais leve.

Vitória, 15 de maio de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa cheia

Casa cheia

A danada da gripe que se apoderou de mim durou muito mais do que o usual. Ela abrandou mas voltou a reinar por mais uma semana. Sem aviso prévio, me obrigou a passar mais três dias na cama, a zanzar silencioso de um lado pro outro e a tomar vários banhos por dia, depois de suar frio, em busca de bem-estar. O fato é que, mesmo sem tosse, nariz escorrendo ou febre, ainda hoje não estou seguro de que ela já tenha acabado realmente.

Para complicar um pouco mais a vida do gripado, uma pequena obra estava sendo feita dentro de casa, a toque de caixa. Transformar uma espécie de escritório em uma suíte exigiu abrir vão de porta, colocar marco e soleira, regularizar o piso, rasgar paredes para trazer água quente e fria pro chuveiro, instalar o blindex do box e pintar tudo direitinho. Para completar o serviço, foi preciso desmontar estantes, prateleiras, a grande mesa de trabalho, e retirar todos os quadros e fotografias das paredes para repintar o quarto. Por mais ingênua que possa parecer, uma obra é sempre incômoda. Além do barulho e da poeira, todo pedreiro pede, diariamente e com urgência, que se compre alguma coisa fundamental.

Como se não bastasse, a obra tinha data pra terminar: na noite da véspera do dia em que chegariam os primeiros ocupantes da benfeitoria, um casal de ingleses com duas filhinhas. Viriam junto com nossa Manaíra, o maridão e os dois filhos. E eu, depauperado, sem graça e sensível a choro de criança. De surpresa, um grande amigo, que há dez anos não via, resolveu aceitar nossos insistentes convites e vir passear em Vitória, exatamente naquele fim de semana de casa cheia. A gripe deu trégua suficiente pra um almoço festivo e um passeio turístico, incluindo visita a museu, compras no mercado da Vila Rubim e subida no morro da televisão. Agora, nestes feriados gordos, uma cunhada e um casal de amigos fraternos de Brasília enchem a casa de conversas amenas e risadas gostosas. Lá fora ecoam notícias sobre a morte da cantora querida e impróprias palavras ministeriais. Na próxima semana chegarão amigos de Petrópolis.

Vitória, 20 de abril de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Gripe danada

Gripe danada

Acabo de sair de uma experiência relatável, mas não transmissível via jornal: uma gripe fortíssima que durou cinco dias completos. O que começou com um pequeno ardido na garganta, evoluiu para uma coriza progressiva e renitente, seguida de sessões de tosse seca. A certeza da doença, se é que gripe é doença, se instalou de vez quando percebi uma redução acentuada da capacidade auditiva e uma rara perda de apetite. Daí em diante, a coisa tomou rumo previsível e em ritmo crescente até me jogar na cama por dois dias completos. Percebi que, aos poucos, o mundo foi perdendo o interesse e a graça. O estado gripal faz aumentar a irritabilidade do acometido e tem o poder de provocar letargia e alienação. No auge do processo, o umbigo assume o controle geral da situação e faz valer o seu poder.

Desta vez, a tal gripe reduziu a quase zero minha sensibilidade aos noticiários sobre a vertente imobiliária do poder das milícias, as malandragens da concessionária que cobra pedágio e não duplica, a gulodice de ICMS, praticada por anos seguidos pela siderúrgica, as operações da Federal nas casas e escritórios de gente esperta e poderosa, a soltura instantânea de mais um preso precioso, sem falar na tentativa descarada, conduzida por dois indignos ministros do Supremo, de instalar a censura à imprensa no país.

Por mais relevantes, as notícias do mundo não comovem nem geram indignação em quem for apanhado por uma simples gripe viral, dessas que ficam à espreita de gente que sofre um choque de temperatura ao sair do carro ou ao entrar em lugar com ar condicionado no máximo. Por essas e outras, tomo a liberdade de sugerir um gripezinha maneira, com direito a dias de cama, chá de limão, alho gengibre, mel e uma pitada de cachaça, aos meus amigos do peito e a quantos também estejam indignados e se sentindo impotentes e desanimados com a escalada das barbáries nacionais. O corpo ficará doído de tanto ficar deitado porém, passados os dias de sofrências, a alma estará bem mais leve e descansada, prontinha pra aguentar o tranco e dar o troco.

Vitória, 17 de abril de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA