É de chorar

É de chorar

Segunda feira assisti a entrevista do professor Mozart Ramos, no programa Roda Viva da TV Cultura. Ele é um dos dirigentes da Fundação Ayrton Senna, criada para atuar de forma inovadora em favor da educação plena e integral de crianças e adolescentes pelo país a fora. Mozart foi Secretário de Educação de Pernambuco e Reitor da UFPe.

Eu o conheço de vista e acompanho sua atuação pela imprensa. Fiquei animado com a sua possível nomeação para dirigir o Ministério da Educação, onde trabalhei por três anos, no início dos anos de 1970, ao lado de professores das universidades federais de Minas, Paraná, Paraíba, Santa Catarina e Bahia.

O corpo técnico do antigo Departamento de Assuntos Universitários era bem precário, mas seu diretor era um engenheiro paraibano arretado. Lynaldo Cavalcanti era conhecido por sua capacidade de trabalho, sua visão de futuro e seu compromisso permanente com a geração de resultados expressivos. Para ele, estar à frente de um órgão público era uma oportunidade para produzir fatos relevantes e transformadores.

Arrojado e intuitivo, ele se valia de três poderes mágicos: o de pautar questões estratégicas e bem delimitadas; o de convocar pessoas físicas e jurídicas capazes de contribuir para o equacionamento de tópicos específicos, delegando-lhes atribuições e correspondente autoridade; e o de conectar expectativas e interesses aderentes ao que precisasse ser feito.

Dava gosto de ver o pessoal trabalhando com afinco e determinação, fazendo as coisas acontecerem praticamente do nada. A mim, ainda um mestrando em engenharia de produção, me coube criar uma metodologia para distribuir recursos entre as universidades federais e coordenar a elaboração do primeiro Plano Nacional de Pós-graduação.

Hoje, em vez de um gestor competente e comprometido com a causa da educação à frente do ministério, foi nomeado um professor visivelmente despreparado para o exercício do cargo. O MEC virou um campo de batalha, onde grupos ideológicos, religiosos e até militares se digladiam feito loucos, diante de todos nós.

Vitória, 03 de abril de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Coisas de Março

Coisas de Março

Nestes tempos em que as pessoas estão cada vez mais envolvidas por tramas e arapucas da vida agitada em cidades que crescem sem parar, muitas coisas vão perdendo o sentido e a relevância que tinham quando o ritmo dos acontecimentos e o modo de se relacionar com as pessoas e os lugares eram outros. Percebo que muita gente já não se dá conta de que março é um mês especial.

Além do calor intenso, que este ano tem sido sufocante, março, ao lado de setembro, é tempo das maiores flutuações das marés no ano. O jornal de hoje, dia 20, informa, no pé de página, que os eventos de preamar, a popular maré cheia, acontecerão, com a certeza, às 02:54h e às 14:56h, atingindo as marcas de 1,6m e 1,7m, respectivamente. Isso no Porto de Vitória, porque no Porto de Tubarão o mar atingirá a sua altura máxima exatos 3 minutos antes, por estar situado algumas milhas a leste, de onde vêm e pra onde voltam as águas oceânicas. As marés baixas de março também são radicais: a menor de hoje atingirá a marca negativa de – 0,1m às 21:37h, lá no Centro da cidade.

É bom lembrar que março tem também a capacidade de alegrar pescadores de beré, em especial os que se divertem pescando carapaus, peixinhos valentes que só, que nadam em cardumes por aqui, religiosamente. A pescaria é feita nas águas entre o Iate Club e a Ilha do Frade e do entorno das Andorinhas, a bordo de botes de madeira e barcos de alumínio. Varinha flexível e camarão descascado são requisitos básicos. Trata-se de atividade que exige perícia, concentração e, mais do que tudo, capacidade de aceitar gozação. É que, em um mesmo barco, é comum acontecer que um dos pescadores passe a tarde inteira sem fisgar um único carapau, para o deleite dos colegas bem-sucedidos.

Tudo isso acontece por influência direta da lua cheia, que nestes dias estará brilhando no céu para quem tiver curiosidade e tempo de contemplar. A depender do estado de alma, a pessoa poderá ter, nem que seja por alguns instantes, uma agradável sensação de estar vivo e em perfeitas condições para a prática de boas emoções.

Vitória, 20 de março de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pierre das colheres

Pierre das colheres

Há uns 3 anos recebi e-mail de um francês que vive em Lyon, na França. Apresentou-se como colhereiro, dizendo que tinha visitado o meu site sobre as colheres de bambu que venho fazendo desde que me recuperei de um infarto do coração. Ele tinha uma curiosidade objetiva: queria saber se, de fato, eu não vendia as peças que faço.

Tratei de responder prontamente, confirmando que as fazia por pura diversão, sem qualquer motivação comercial. Aproveitei para dizer que muitas delas eram para presentear pessoas queridas e que atendia a encomendas sem ao menos fazer charme ou corpo mole. Pierre François, esse é o nome dele, se mostrou entusiasmado com as minhas informações: “Então somos bem parecidos. Eu também não vendo minhas colheres.”

Semanas depois recebi um pacote com um bilhete amistoso e 2 colheres, super simpáticas e bem acabadas, próprias para a gente ficar admirando e alisando, enquanto pensa na vida. Achei por bem fazer 3 para retribuir e as mandei pra França, acompanhadas de mensagem própria de um colega de hobby e atitudes. Enquanto trabalhava nelas, fui revivendo o acontecido e refletindo sobre o quanto é instigante fazer algo para uma pessoa que nunca vi e com quem tenho coisas relevantes em comum.

Pois então, há poucos dias, minha filha Bebel usou toda a potência do facetime para colocar, frente a frente, os dois colhereiros que não misturam colheres com negócios.

Confesso que fiquei emocionado ao conhecer o sorriso largo de Pierre e constatar o seu ar de cumplicidade ao me mostrar caixas repletas de colheres de todos os formatos. Em retribuição, apresentei pra ele as da nossa cozinha, a minha bancada de trabalho, as ferramentas que uso e as plantas do nosso jardim, com destaque para a jabuticabeira carregada.

Fiz questão também de que ele visse Amora abrindo as asas enquanto o convidava para vir nos visitar e fazer uma exposição aqui em Vitória. Soube depois que ele adorou a ideia de vir ao Brasil e ajudar a compor mais um capítulo da emocionante história sobre a magia que envolve as colheres.

Alvaro Abreu

Vitória, o6 de março de 2019

Escrita para A GAZETA

Carrinho de rolimã

Carrinho de rolimã

Recebi, com satisfação, o pedido de Dani, minha nora, para que fizesse um carrinho de rolimã para Biel, o caçula dela. Disse que o moleque tinha visto um deles num parque em São Paulo e ficou completamente vidrado. Carrinho de rolimã é algo que povoa a cabeça de muito marmanjo velho que conheço. Eu mesmo tenho boas lembranças de descer ladeiras em Cachoeiro a bordo de carrinhos feitos com tábuas de caixote e rolimãs conseguidos em oficinas de automóvel. Sou da turma dos que não puderam, por ter nascido antes do tempo, aproveitar as fortes emoções proporcionadas pelo skate, sobretudo quando se desce, em alta velocidade, estradas de regiões montanhosas, como se vê na TV.

Para quem não sabe, usa-se dois rolamentos maiores na traseira e dois menores no eixo dianteiro, que é pivotado no centro da parte da frente do carrinho, condição para que possa ser movido com os pés na hora de curvar. Como era pra criança, resolvi comprar quatro rolamentos iguais, novinhos e blindados. Gastei 40 reais e sai da loja achando que tinha feito um ótimo negócio. As madeiras, comprei lá no Colodetti, onde sempre acho o que preciso nessas empreitadas. Paguei meio caro por um caibro de angelim e uma sobra de compensado naval de 10 milímetros, mais leve e fácil de carregar. Na volta pra casa, fui maquinando o projeto básico do bólido. O ideal seria minimizar o trabalho com serrote, usar só quatro parafusos e fixar os rolimãs na madeira valendo-me somente do poder de fixação dos encaixes de alta precisão, dispensando travas e cunhas. Usaria freios dianteiros acionados com calcanhares, pressionando pedaços de sandália havaiana contra o chão, e instalaria um cabresto de cordão com empunhadura de bambu, para proporcionar sensação de segurança ao piloto.

Ontem, ao levarmos os netos para ver a lua cheia nascendo atrás do porto, vi que no final de rua tem uma excelente pista de teste, dotada de boa inclinação, piso regular e uma curva larga na parte baixa. É toda ladeada por muro de concreto, que impõe respeito e exige perícia do estreante.

Vitória, 23 de janeiro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Rotina matinal

Rotina matinal

Fiz questão de começar o ano sem compromissos sérios, liberado de obrigações sociais e despojado de expectativas relevantes. Preferi, por vontade própria e genuína, me sentir abanado pela brisa fresca da lestada, flutuando em rio manso, balançando em rede larga à sombra da acácia rosa em flor, vendo os cachorros da casa dormindo despreocupadamente de barriga pra cima. Engenheiro de produção que sou, resolvi adotar uma rotina matinal leve, tentando racionalizar os movimentos indispensáveis para conseguir maior eficiência e rapidez. Isso, por pura diversão, sabendo que tempo é o que não falta por aqui.

A lista das atividades correntes inclui: tomar o remédio para tireoide logo ao chegar na cozinha, conferir as horas no relógio do micro-ondas (para dar início ao jejum obrigatório), encher a chaleira, acender a boca grande do fogão, posicionar o filtro de papel no coador e colocar três colheres de café no filtro. Enquanto a água não ferve, passarinheiro que já fui, corro para tratar de Amora: limpar a plataforma do poleiro, lavar e abastecer os potinhos com água fresca, pedaço de mamão e ração extrusada. Tudo isso intercalando coçadas debaixo das asas e assobiando melodia que ela conhece muito bem.

De volta à cozinha, escaldo a garrafa térmica e começo a coar o café. Tento acertar a quantidade de água para encher a garrafa até a borda, sem sobrar nem faltar, o que nem sempre consigo. Bebendo a primeira xícara, vou conferir as mensagens recebidas, visitar o blog do meu amigo Eduardo Lunardelli, rastrear as manchetes de quatro jornais e ler as matérias e artigos que mais me chamaram a atenção. Na mesa posta, vou comentando com Carol os crimes e falcatruas da véspera, rindo (para não chorar) das bobagens recentes produzidas pelo pessoal do novo governo, xingando os donos das toneladas de pó preto que caem por aqui. Para completar a rotina, é a vez de continuar tentando convencer Amora de que não é perigoso subir no meu braço. Insegura, talvez traumatizada, ela ainda reluta em fazer o que é natural para qualquer arara caseira.

Vitória, 09 de janeiro de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Wei Wei na Oca

Wei Wei na Oca

A ceia de Natal deste ano foi em São Paulo, onde moram três dos nossos filhos e cinco netos, formando uma expressiva maioria. O pedido dengoso da filha para ajudar na arrumação da casa nova engrossou as motivações para mudar o lugar da festa. Viajamos com expressa recomendação de ver a exposição de Ai Wei Wei, que ocupa os quatro andares da Oca, no Ibirapuera. Trata-se de artista chinês de alta potência, ativista convicto e corajoso, que enfrenta as forças que governam seu país com mãos de ferro. Faz tempo que ouvi falar dele pela primeira vez, mas só mesmo vendo de perto para perceber a contundência do seu trabalho, fruto de vivência intensa de cada questão e fundamentado num conceito direto: “saber e não esquecer”. Tudo é muito bem registrado para ampla difusão.

Para denunciar a morte de mais de cinco mil alunos, provocada pela má qualidade das construções de mais de 700 escolas públicas que não resistiram à força de um terremoto, Wei Wei ocupou 60 metros corridos do subsolo, com centenas de toneladas de vergalhões de aço que recolheu nos escombros, para representar trincas e descontinuidades nos terrenos afetados pelo fenômeno. Todos eles foram retificados manualmente, com marretas, por muitos colaboradores, durante vários meses de trabalho. Em paralelo, mobilizou moradores de todos os lugares atingidos para conseguir informações sobre cada criança que morreu.

Para expressar sua solidariedade com as populações de refugiados, lá está um um enorme barco inflável repleto de crianças e adultos, todos iguais, usando coletes salva-vidas. Tudo em plástico preto.

Para criticar aqueles que ficam acompanhando a movimentação dos poderosos da vez, como fazem os girassóis com a luz do sol, ele mobilizou trabalhadores e artesãos de uma pequena cidade do interior da China, durante mais de um ano, para produzir mais de cem milhões de sementes de girassol, em porcelana pintada à mão. Um terço delas compõe o desconcertante tapete de sementes, de uns 400 metros quadrados e um palmo de espessura, que impacta e faz pensar quem vai ao andar de cima da Oca.

Vitória, 26 de dezembro de 2018.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Segunda foicinha

Segunda foicinha

Tenho uma espécie de fascínio pelas ferramentas. Algo parecido ao que acontece com quem gosta de motocicletas, de armas ou de joias. Sou usuário de chaves de fenda, martelos, serrotes e alicates ao fazer pequenos consertos caseiros, e de goivas, faquinhas, raspadeiras, e até cacos de vidro, quando faço colheres. No serviço de desbastar os pedaços de bambu, uso uma foicinha paraibana, bem leve, cabo de goiabeira, de minha grande estima. Com ela consigo chegar na forma básica da peça, no shape, como se diz.

Em junho, quando estive na Paraíba, me deparei com uma foice que eu nunca tinha visto. Ela estava sendo usada por seu Nelson, patriarca do assentamento de Tambaba, no caminho da praia dos pelados. Ele disse que tinha pago 20 reais por ela, na véspera. Demonstrei interesse e pedi que botasse preço, mas ele se fez de rogado, dizendo que eu poderia encontrar uma igual lá pelas bandas de Goiana, na estrada de Recife. Bem que procurei, mas continuei de mãos vazias e com ela na cabeça. Na semana passada voltei à Paraíba, para a inauguração do busto do professor Lynaldo Cavalcanti, com quem trabalhei por 13 anos e com quem muito aprendi. Dentre as centenas de feitos relevantes de Lynaldo, está a criação, em 1978, do curso de desenho industrial em Campina Grande, para enriquecer o ambiente universitário concentrado nas engenharias. Pois o que aquela tal foicinha tinha de especial era exatamente o seu design, projetado, com certeza, por alguém que entendia do ofício de cortar madeira. Sua lâmina, quase quadrada, é presa ao suporte do cabo em ângulo de uns 30 graus, o que reduz a obrigação de levantar o cotovelo para dar golpes certeiros. Lynaldo, que usava muito mais a intuição do que as mãos, apreciaria aquela ferramenta feita com aço de mola de caminhão.

Desta vez, depois de muita conversa mole, uma nota de 100 reais e do prestígio de meu amigo Iveraldo, consegui trazer pra casa a foice de seu Nelson, que ganhou, de quebra, uma história pra ser contada na fresca da varanda sobre um homem barbudo fascinado por foices.

Vitória, 12 de dezembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Antes que seja tarde

Antes que seja tarde

Em novembro de 2018, quase 5 anos passados, escrevi uma crônica intitulada Antes que seja tarde, que tratava de duas obras inacabadas que estavam à mostra no alto do edifício da FINDES, na Avenida Nossa Senhora da Penha, e um outra, enorme, na beira do mar do Canal de Vitória, bem diante do Convento da Penha. “Dá para supor que à imaginação de uns poucos dirigentes se juntaram a força dos egos e a vontade de deixar marcas na paisagem da cidade”.

Pelo que sei, a direção da FINDES deu por encerrado um longo período de aborrecimentos e constrangimentos gerados por uma estranha aranha de aço, visível de longe, e decidiu remodelar o espaço para abrigar usos mais compatíveis com as finalidades da instituição. Em breve ele estará sendo usado por quem trabalha com tecnologia e inovação, o que é muito bom.

Nada sei sobre as movimentações que culminaram na decisão de construir o chamado Cais das Artes. Hoje, ao término de mais um mandato do governador que achou por bem edificar aquela obra monumental com o propósito de incluir Vitória no circuito mundial das artes, fico pensando no destino daqueles esqueletos, agora sem pai nem mãe, expostos ao tempo e à maresia em época de vacas magras. Já apareceu quem defenda enfaticamente a sua demolição, e quem, em reação, tenha abraçado o tapume da obra.

Pois eu diria que é mais do que urgente conseguir que o Cais das Artes seja visto pelos capixabas como um poderoso instrumento de desenvolvimento das pessoas que vivem aqui. Só assim, apropriado pela população como um trunfo, seriam plenamente justificáveis os investimentos realizados e as verbas colossais para fazê-lo funcionar regularmente, quando pronto.

Nessa rota, é oportuno começar juntando as melhores competências disponíveis, aqui e alhures, para, livre de interesses rasteiros, megalomanias e atitudes ideológicas, formular uma agenda de ocupação e uso plural, inovadora e consistente, voltada prioritariamente para as nossas crianças, adolescentes e recém-adultos, a ser implementada de forma progressiva.

Vitória, 28 de novembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ensaio Geral

Ensaio Geral

Venho acompanhando, à distância e com alguma curiosidade, a escolha dos nomes do primeiro escalão e as marchas e contramarchas nas definições de como deverá ser o próximo governo. Quem esperava uma linha de conduta errática e muita bateção de cabeças, deve estar surpreso ao ver o presidente eleito se saindo razoavelmente bem até aqui. O enxugamento radical do conjunto de ministérios e órgão públicos vai concentrar poderes em mãos de uns poucos homens e pouquíssimas mulheres de sua inteira confiança, o que poderá facilitar a adoção de um estilo de governar baseado na delegação de poderes e no total respeito à hierarquia, que ele tanto preza.

De fora, sem saber dos bastidores e das movimentações de elefantes e camelos de diferentes origens em busca de espaços e poderes, pode-se dizer que as escolhas têm sido feitas de forma relativamente independente de interesses corporativos e da influência de partidos políticos. Seria promissor se assim também fosse a escolha dos dirigentes dos escalões inferiores, de quem coloca as mãos na massa e que, eventualmente, mete o pé na jaca. O tal aparelhamento do estado é um enorme nó górdio a ser desatado.

Posso estar enganado, mas acho que tem muita gente com as barbas de molho, fazendo cara de paisagem e, sobretudo, esperando a poeira baixar. Jogadores profissionais não se precipitam nem se comovem com as aparências nas primeiras cartadas. Usam a paciência e a avaliação cuidadosa da situação como armas estratégicas para a preparação do bote. É hora de tentar decifrar atitudes, conferir a direção e a intensidade dos ventos para tentar saber pra onde o rebocador está indo. Macacos velhos não enfiam a mão em cumbuca.

Com os adversários ainda lambendo as próprias feridas e procurando razões e responsáveis pelo tranco que levaram nas urnas, a marcação oposicionista ainda não começou. Também dá pra ver que as turmas do facebook estão bem mais calmas e que tem muita gente de ressaca cívica, já meio arrependida das bobagens que fez durante a campanha. Não deixa de ser animador.

Vitória, 14 de novembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Depois das eleições

Depois das eleições

Estive em São Paulo na semana passada. No domingo fui dormir tarde, depois de muito conversar sobre as eleições, incluindo uma tentativa de virada que não aconteceu e, especialmente, sobre a vitória de um candidato messiânico. Uma falha do Uber resultou numa longa espera em frente ao portão do edifício, sob vento frio, uma correria por avenidas quase desertas com imperdoável erro de trajeto, um desembarque apressado em pleno engarrafamento para acessar passarela e uma correria inútil, com o coração afobado, até o balcão da companhia. Por dois minutos não conseguimos despachar a mala no voo das 6:30h da manhã, pagamos 600 reais para remarcar a viagem para perto do meio-dia e enfrentamos uma longa espera em cadeira de aeroporto. Aborrecido e morrendo de sono, li dois jornais com matérias e artigos típicos de edições do dia seguinte ao das eleições.

Pelo que li, agora o país tem um presidente limpando a própria mesa com gestos de garçom experiente e um outro recém-eleito, ainda espantado, experimentando os primeiros impactos do inevitável choque de realidade. Para completar, vi que já são quatro os candidatos a presidente da república nas eleições de 2022, inclusive aquele que, depois de constatar que a vaca tinha ido para o brejo, fez um grande esforço para se mostrar capaz de tirá-la de lá.

À noite, em casa, rodei pelos canais da TV em busca de opiniões e palpites sobre o que vem vindo por aí. As campanhas, à base de slogans e acusações de toda ordem, praticamente inviabilizaram espaço para o bom senso, não dando margem para avaliações serenas sobre possibilidades e opções de futuro. Opiniões de companheiros e de partidários escondem motivações e interesses particulares e inconfessos que pouco tratam do que seria possível e desejável para corrigir rumos, fazer fluir a vida e proporcionar a felicidade geral.

É bom que se saiba que, até o presente momento, não me envolvi em bate bocas inconsequentes, não me aborreci com qualquer parente nem briguei com um amigo sequer por conta de opiniões e escolhas. Sou um homem feliz por isso.

Vitória, 31 de outubro de 2018.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA