No segundo turno

No segundo turno

Os resultados da pesquisa do IBOPE sobre as intenções de votos no segundo turno da corrida presidencial estão aí para quem quiser ver e meditar sobre o que representam. Os números são acachapantes. Variações de uns tantos pontos percentuais a favor ou contra um dos candidatos não alteram o cenário. A escolha do próximo presidente está com jeito de fato consumado. Isso, naturalmente, sempre que mantidas as atuais condições de temperatura e pressão e, sobretudo, se livre de fatos relevantes e explosivos, de forte impacto emocional, inclusive facadas e tiroteios. Os números da pesquisa nos colocam, a todos, e com boa antecedência, diante de uma realidade até bem pouco tempo inimaginável, sobretudo para os que idealizaram as estratégias e o plano de voo do PT, incluindo a escolha do opositor.

Uma generalizada insatisfação, até então recolhida, transformou-se em efetiva reprovação popular nesta eleição. Chega ao fim um estado de impotência que foi se instalando paulatinamente na alma de muita gente. As armações, as bandalheiras e os desgovernos foram tantos que produziram decepção e desengano com muitos personagens, lideranças e partidos políticos. No segundo turno, o basta ao que está aí fica patente na rejeição crescente a Haddad, captada na pesquisa e declarada por quase a metade dos eleitores entrevistados. Também ele paga o preço por ser mais um representante de tudo o que a maioria da população brasileira está considerando inaceitável.

Imagino que Haddad já tenha entendido que a vaca foi pro brejo e que por lá ficará por um bom tempo. A expressão de cansaço e a falta de brilho nos seus olhos demonstram quebra nas convicções e perda de potência, indispensáveis para sustentar um derradeiro esforço coletivo, na tentativa de reverter as previsões e certezas. Uma sequência de tropeços e de insucessos nas buscas por apoios relevantes deve estar gerando desconfortos e sensação de abandono. É bem provável que o desânimo se instale nos comitês de campanha, trazendo junto melancolia e algum arrependimento tardio.

Vitória, 17 de outubro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Piorou bastante

Piorou bastante

Que me perdoem os meus amigos e conhecidos que estão gastando emoções e energias contra e a favor de cada um dos dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais neste primeiro turno das eleições para presidente. É que não tenho a menor disposição para entrar nessa peleja e, muito menos, para votar em qualquer um deles. Acredito, sem nenhuma pretensão, que essas minhas emoções e certezas devem ser parecidas com as de uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um outro tanto de amigos e conhecidos meus, que também estão se vendo diante de um mata-burro ou à beira de um precipício.

Sou dos que estão preocupados com a instabilidade potencial de um governo brotado em ambiente tão insensato. Não gostaria de ter um presidente submetido aos caprichos e traumas de um líder popular perito em organizar interesses em proveito de seu próprio projeto de poder. Nem de ver um governante quase desconhecido idolatrado como salvador da pátria, o que me faz lembrar da desastrosa experiência com um tal caçador de marajás.

Minhas preocupações ganham concretude ao fazer as contas dos votos: o próximo presidente terá sido eleito pelos que o escolheram por ser o melhor e pelos que eram radicalmente contra o outro candidato que também aparecia bem nas pesquisas.  Sendo assim, e é isso que me assusta, o que for eleito não deverá contar com o apoio da grande maioria dos milhões de brasileiros que preferiram o outro candidato, que votaram nos demais pretendentes, que anularam o voto por serem contra todos os concorrentes e, também, dos milhões que votaram em branco e que se abstiveram de votar. Em outras palavras: escolhido por uma parcela bem pequena do eleitorado. Como se não bastasse, dá pra prever que o ambiente hostil que se estabeleceu antes das eleições vigorará no decorrer do mandato. Se, por aqui, já se aprendeu a conviver com a barulheira colorida dos que se dizem de esquerda, ainda não se tem experiência com as práticas de uma direita convicta e assanhada, recém assumida, atuando a favor ou dando o troco.

Vitória, 03.10.2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções da quinzena

Emoções da quinzena

Esses meus últimos dias foram cheios de emoções. Adorei rever antigos frequentadores da Praia do Canto no encontro anual na Curva da Jurema e senti a morte de Marcos Murad, personagem relevante dos tempos de Praia Tênis Club. Vibrei com Claudinho Tovar, amigo daquela época, recebendo homenagem na abertura do Festival de Cinema de Vitória, e assisti o depoimento comovente de uma mulher que se despediu do Rio Doce e do mar de Regência, em documentário sobre a tragédia provocada pela SAMARCO.

Tentei fazer, pela primeira vez, duas colheres iguais, para dar de presente a um ex-aluno de 1972 e a um primo que eu não via há 50 anos, durante conversa amistosa sobre nossas vidas e especulações sobre o futuro que nos aguarda. Revi, satisfeito, casal querido e vibrante que, há mais de 30 anos, come raspa de casca de limão orgânico no café da manhã para manter a saúde perfeita. Recebi com alegria mensagem entusiasmada de amigo paulista se dizendo livre das 150 mg de ciclosporina que tomou durante 8 anos e que estavam lhe causando problemas, inclusive tremedeiras.

Conheci a amplitude deslumbrante do hipódromo do Rio, torci por cavalos que escolhi pelo jeitão na pista e observei tipos de aficionados do turfe. Caminhei em volta do Museu do Amanhã, visitei a exposição impecável de 10 pintores modernistas na Casa Roberto Marinho e assisti atônito, pela TV, a agonia do Museu Nacional. Passei boa parte de uma manhã às voltas com quadros, fotografias, desenhos e escritos deixados por mamãe, verdadeiros testemunhos de sua existência.

Ouvi no rádio do carro, com irritação, notícia de aumento da gasolina, justificado pela alta especulativa do dólar. Acompanhei, surpreso, o voto solitário do Ministro Fachin defendendo a eficácia de documento assinado por dois consultores da ONU em favor de candidatura proibida por lei brasileira. Constatei a convicção de onze entre treze motoristas de táxi do Rio de Janeiro de votar em candidato falastrão, o que me fez pensar, com inquietação, nos rumos da eleição para presidente deste nosso país.

Vitória, 05 de setembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Compras na Leitão

Compras na Leitão

Posso apostar que o pessoal mais novo não faz ideia do que vem a ser a loja (ou seria uma venda?) onde sempre vou quando preciso de alguma coisa fora do usual, aí incluindo cabo de enxada, preguinhos de aço ou canivete Corneta. Mesmo que não encontre o que esteja querendo, jamais perco a viagem naquela espécie de paraíso do consumo improvável e preventivo. Sou freguês do estabelecimento desde tempos bem remotos, quando o trecho norte da Leitão da Silva era calçado com paralelepípedos, tinha brejo por todo lado, algumas lojas de tinta, de material hidráulico e elétrico, além de galpões e pequenas casas. A nova loja de seu Emídio Paes deu outra vida ao lugar, atraindo compradores de material de construção. Não encontrando ali o que precisava, a gente ia na venda de seu Manoel Araújo, do outro lado da rua, um pouco mais adiante.

De lá pra cá, a loja daquele simpático português virou um shopping da construção e a outra, hoje a minha preferida, mudou-se para um galpão vizinho, bem maior, dispensou o velho balcão alto e adotou o modelo self service. Agora, o freguês encontra os mais variados e curiosos produtos, novos e usados, em bancadas e prateleiras nos corredores, fixados nas paredes, pendurados na estrutura do telhado e até mesmo no chão. Percebe-se uma boa dose de racionalidade na disposição dos estoques de pregos, parafusos, buchas, selas de cavalo, ganchos, louças de banheiro, holofotes, churrasqueiras, vassouras, marretas, tampas de bueiro e muito, muito mais.

Dia desses voltei lá para buscar um pau de enxada que o herdeiro de seu Manoel, meu colega no Irmã Maria Horta e no Salesiano, tinha me prometido. Ele, que sabe de cor o nome completo dos alunos da nossa turma e dos professores, me deu de presente seis varas bem retinhas de camará que mandou cortar no sítio onde ele cria umas poucas vacas e faz manteiga, queijo e requeijão. Com uma delas e a ajuda do simpático arco de serra já bem velho que acabei comprando por lá, fiz um grande balanço pra minha arara que, desconfiada, ainda não se acostumou com o brinquedo.

Vitória, 22 de agosto de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Seria muito bom

Seria muito bom

Nesses últimos dias, duas mortes me fizeram parar pra pensar: uma veio como contingência natural da vida, mas a outra pegou todo mundo de surpresa. As sensações de perda devem ter se somado na alma de muitos capixabas.

Com Helmut eu só convivi nos meus tempos de rapaz nadador, quando disputamos provas de 400m na piscina do Praia Tênis Club. Bem mais velho e lento, acho que ele se movia pelo prazer de competir. Morava numa casinha simpática no pé da ladeira do Hospital Infantil. Declarações de pessoas que trabalharam ao seu lado e sob sua batuta atestam que sua atuação como empresário contribuiu decisivamente para a felicidade e realização de muita gente.

O que marcará sua passagem por este mundo é a proeza de ter transformado a pequena fábrica de doces do seu pai em uma empresa enorme que produz os bombons das serenatas e que fez de Vila Velha uma referência no mundo dos que adoram chocolate.

Veio de muito longe a notícia da morte prematura de Pignaton, um professor de milhares de alunos, reconhecido como pessoa instigante e afável, um homem empreendedor que criou um colégio para um mercado nascente e promissor e se tornou um empresário de sucesso no mundo dos negócios educacionais. Meu contato com ele nunca passou do “boa tarde” e do “bom dia”, trocados no portão e no pátio do colégio onde uma nora dava aulas e dois netos pequenos estudavam.

O fato é que esses dois homens serão lembrados por seus contemporâneos pelo tanto que fizeram de concreto e objetivo em campos tão díspares. Para mim, eles demonstraram que, com méritos pessoais e muita determinação, é perfeitamente possível catapultar uma pequena fábrica de doces e montar uma grande escola de propósitos bem específicos.

Quem me dera que as próximas eleições fossem disputadas exclusivamente por candidatos de ficha bem limpinha, com trajetória de vida repleta de feitos relevantes e de interesse público, dignos da admiração dos variados grupos de eleitores. Seria mais fácil e seguro para cada um escolher aqueles que iriam representá-lo até a próxima eleição.

Vitória, 25 de julho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Futebol e eleições

Futebol e eleições

A Copa do Mundo não deveria apresentar muitas surpresas. Muito embora grande parte das seleções esteja apresentando desempenho acima da média, até a eliminação da Alemanha, estava fácil prever as que chegariam às semifinais. É que além de bom futebol, o preparo psicológico e a experiência de participar de jogos decisivos são requisitos altamente relevantes na busca por vitórias. A genialidade, a sorte e a ajudazinha de juízes, em que pese a inovação que possibilita a análise posterior dos lances, também são fatores determinantes de resultados a favor dos melhores, dos mais espertos, dos mais fortes. O fato é que as equipes da Itália e dos USA foram eliminadas ainda nas eliminatórias e o pessoal do Panamá foi jogar nos gramados da Rússia.

Muitos desses fatores e acontecimentos próprios das disputas nos gramados também deverão estar presentes nas próximas eleições. Por enquanto, o que se vê é muito barulho, jogo de cena e muita movimentação nos bastidores. É de se esperar que encerrada a participação da seleção canarinho no certame, a eleição para escolha do futuro presidente passe a ser a bola da vez. Embora totalmente improvável, seria muito bom que se instaurasse um ambiente propício ao debate entre candidatos sobre o que deve ser feito para tirar o país do atoleiro em que se encontra. Já foi o tempo em que eu era otimista com o poder das eleições, talvez porque acreditava que candidatos e partidos pudessem estar realmente comprometidos com mudanças e melhorias.

Agora, olhando em volta, não consigo acreditar que algum dos candidatos venha a receber das urnas um expressivo credenciamento para implementar suas propostas de campanha, condição indispensável para que possa enfrentar, com algum sucesso, as bancadas da bala, da bíblia, do boi e, também, do banco, da boleia, da bandidagem, da bola…, todas elas agindo despudoradamente em causa própria, em todas as instâncias do poder público. Dói só de pensar no que vem por aí. Torço para que, tendo sofrido mais um futuro inglório, aprendamos a escolher os nossos mandatários.

Vitória, 27 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Futebol e política

Futebol e eleições

A Copa do Mundo não deveria apresentar muitas surpresas. Muito embora grande parte das seleções esteja apresentando desempenho acima da média, até a eliminação da Alemanha, estava fácil prever as que chegariam às semifinais. É que além de bom futebol, o preparo psicológico e a experiência de participar de jogos decisivos são requisitos altamente relevantes na busca por vitórias. A genialidade, a sorte e a ajudazinha de juízes, em que pese a inovação que possibilita a análise posterior dos lances, também são fatores determinantes de resultados a favor dos melhores, dos mais espertos, dos mais fortes. O fato é que as equipes da Itália e dos USA foram eliminadas ainda nas eliminatórias e o pessoal do Panamá foi jogar nos gramados da Rússia.

Muitos desses fatores e acontecimentos próprios das disputas nos gramados também deverão estar presentes nas próximas eleições. Por enquanto, o que se vê é muito barulho, jogo de cena e muita movimentação nos bastidores. É de se esperar que encerrada a participação da seleção canarinho no certame, a eleição para escolha do futuro presidente passe a ser a bola da vez. Embora totalmente improvável, seria muito bom que se instaurasse um ambiente propício ao debate entre candidatos sobre o que deve ser feito para tirar o país do atoleiro em que se encontra. Já foi o tempo em que eu era otimista com o poder das eleições, talvez porque acreditava que candidatos e partidos pudessem estar realmente comprometidos com mudanças e melhorias.

Agora, olhando em volta, não consigo acreditar que algum dos candidatos venha a receber das urnas um expressivo credenciamento para implementar suas propostas de campanha, condição indispensável para que possa enfrentar, com algum sucesso, as bancadas da bala, da bíblia, do boi e, também, do banco, da boleia, da bandidagem, da bola…, todas elas agindo despudoradamente em causa própria, em todas as instâncias do poder público. Dói só de pensar no que vem por aí. Torço para que, tendo sofrido mais um futuro inglório, aprendamos a escolher os nossos mandatários.

Vitória, 27 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viagens no tempo

Viagens no tempo

Gosto muito de ir ao cinema, mas evito os que funcionam nos shoppings, especializados em filmes campeões de bilheteria, cheios de explosões ensurdecedoras, muita pancadaria, tiroteios de grosso calibre, homens e mulheres potentes e truques sensacionais. Tudo para garantir fortes emoções do começo ao fim da sessão. Nesses dias assisti dois filmes relevantes: o clássico Easy Rider e o recente Ellen e John. O primeiro deles tem tudo a ver com emoções sentidas nos anos 60 e que fizeram de mim um barbudo de cabelos compridos. O outro me trouxe saudades de uma grande aventura em família, que começou com a ideia de percorrer os 2800 km entre Brasília e João Pessoa a bordo de um ônibus usado que transformamos num simpático trailer mambembe. Naquele 1986, nossa caçula nem tinha três anos de idade. Ambos narram longas viagens em busca de lugares idealizados por seus protagonistas: uma festa de carnaval de rua em Nova Orleans, onde a diversão é liberada, e uma casa no sul da Flórida, onde Hemingway viveu, agora transformada em museu.

Numa história impactante sobre a intolerância e o conservadorismo da sociedade americana, estradas vazias e paisagens sem fim, vistas em plano aberto de cima de motocicletas novinhas e reluzentes, expressam a inquietude e os sonhos de dois rapazes californianos dos tempos do movimento da contracultura, expostos aos preconceitos e à violência de prováveis futuros eleitores de Trump.

O outro filme conta a viagem improvável de um casal de idosos no velho trailer da família, totalmente livres das limitações impostas pelo controle dos filhos. Ellen, uma determinada senhora portadora de doença grave, resolve aproveitar seus últimos dias ao lado do homem que escolheu, pondo em prática a melhor alternativa que encontrou. O marido John, um risonho ex-professor de literatura, magistralmente encarnado por Donald Sutherland, vive distraidamente os momentos presentes. Carinhoso e bem disposto, segue as instruções da mulher munido das poucas e boas lembranças que lhe restam. Uma inspiradora história de amor maduro.

Vitória, 13 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Santas montanhas

Santas montanhas

Por pouco a greve dos caminhoneiros e donos de transportadoras detonou o plano de subir as montanhas até Santa Teresa para ouvir muita música boa, beber minha cerveja artesanal preferida, curtir um friozinho amistoso, chupar mexerica de beira de estrada de montão, comer comida italiana (agora cheia de estilo), descansar do rame-rame dos políticos de plantão, desviar as atenções dos milhares de problemas nacionais e, melhor, reencontrar gente que a vida moderna esconde das nossas vistas. Foi preciso encher o tanque com antecedência, conferir se havia bloqueio nas estradas, desprezar a previsão de chuva grossa com vento sul – que encharca alma e faz doer os ossos – e, mais do que tudo, preparar o espírito para o que desse e viesse. Encontramos a cidade arrumada pra festa e o Santa Jazz com público relativamente pequeno, pela fama que tem.

De tudo que assisti, Stanley Jordan foi, de longe, a maior atração e ficou mais do que provado ser um músico excepcional, daqueles que operam em frequências muito além daquelas próprias dos homens normais. Virtuoso, ele passou uma hora inteira tirando sons melodiosos aos borbotões com a ponta dos 10 dedos, fazendo do braço do violão uma espécie de teclado com cordas. Sua destreza me fez lembrar de um garoto oriental que vi na internet resolvendo, simultaneamente, três cubos mágicos, que jogava para o alto e ajustava as peças enquanto cada cubo pousava nas suas mãos durante frações de segundo. Também acompanhei, embasbacado, Amaro Freitas, pianista de Recife, tocar músicas fora dos padrões usuais em perfeita sintonia com um baixista competente e um baterista de muitos sons. Isso, madrugada a dentro, diante de muitas cadeiras vazias e sob frio intenso.

Por sugestão de amiga viajada fomos percorrer o Circuito Caravaggio, onde brotam sítios e pousadas por todo lado, fora do perímetro urbano. Lá, numa rampa de voo livre instalada na cota 910m, de onde se tem uma vista panorâmica deslumbrante, fizemos selfies tendo como fundo uma boa parte da região oeste do Espírito Santo.

Vitória, 30 de maio de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções futebolísticas antigas

Emoções futebolísticas

Vi na TV que o Tite havia anunciado a lista dos jogadores convocados para disputar a Copa do Mundo lá na Rússia. No avião, na falta do que fazer, li todas as matérias e opiniões de especialistas sobre as escolhas do treinador, suas filosofias de arrumação do time e suas estratégias para controlar o jogo, coisa que não faço há muitos e muitos anos. Faz tempo que parei de ler o jornal de trás pra frente e nem sei explicar as razões de ter abandonado as páginas sobre esportes em favor das que trazem notícias sobre política e economia. Nunca fui vidrado em futebol, mas percebo que meu interesse por jogos, clubes, jogadores e CBD agora está bem perto do zero. Imagino que algo parecido esteja acontecendo com muitos brasileiros e não acredito que seja apenas em função do tragicômico 7×1 contra aqueles alemães profissionais.

Na infância, torcia a favor do Cachoeiro e, mais do que isso, contra o Estrela, nosso inimigo dentro de campo. Isso tudo por influência de papai, um torcedor convicto. Mais tarde, a exemplo do que todo capixaba fazia, adotei um time carioca, o Fluminense, pra chamar de meu. Na nossa rua, o tricolor tinha uma torcida expressiva e vibrante, liderada por Dona Ormandina Benezath. Aqui na ilha, o Rio Branco nunca me entusiasmou e acabei adotando o Vitória, sem que tenha ido a campo para vê-lo jogar uma partida sequer.

Me lembro como se fosse hoje de ter acompanhado pelo rádio o jogo em que nosso escrete conquistou a Copa do Mundo, em 1958, mas guardo poucas cenas da conquista em 1962, no Chile. Assisti na televisão colorida da casa dos vizinhos de frente os jogos do Brasil na Copa de 70 e ajudei a popularizar os palavrões nas comemorações lá no centro da cidade. Se das conquistas nos USA e no Japão restam lembranças embaralhadas, guardo viva a decepção com a desclassificação, imposta por Portugal, em 1966. Os ônibus que levavam os atletas capixabas para os Jogos Universitários, em Curitiba, pararam num posto de gasolina para que pudéssemos acompanhar o final da partida. Melhor se tivessem seguido viagem.

Vitória, 16 de maio de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA