Siviréu
Outro dia contei um pouco do passeio que fizemos num parque em São Paulo, quando fiquei observando um encontro de escoteiros, algo que não via há uns cinquenta anos. O escotismo me ensinou muita coisa, inclusive a tomar gosto pela arte fascinante de improvisar soluções.
Isso se soma ao que trago do Colégio Salesiano, de onde guardo boas lembranças, muitas revigoradas pelas histórias que Afonso, meu irmão mais velho e um dos alunos mais bagunceiros da época, não se cansa de contar nos mínimos detalhes. Destaco o que aprendi nas aulas de português do padre Bonifácio, que exigia que os alunos desenvolvessem a capacidade de oratória, e nas de trabalhos manuais, do professor Genésio, quando cheguei a fazer uma cabeça de índio com um coco seco, que me encheu de orgulho. Na Escola Politécnica, além dos conhecimentos necessários aos engenheiros mecânicos, aprendi, praticando no escuro e sem a ajuda de manuais, os mistérios da revelação de fotografias em preto e branco, depois de ter ajudado a montar o laboratório fotográfico.
Lembrei-me disso tudo enquanto dividia ao meio um rolo dessas fitas crepe mais largas de modo a duplicar a metragem disponível aqui em casa, para atender a demanda que recebi de Diana, minha caçula, em pleno feriado nacional, que precisava proteger o rodapé da tinta da parede a ser pintada. Uma macgaivice, diria minha filha Bebel, ou mais um ato do mais puro siviréu, digo eu. É atitude que incorporei na vida e que professo toda vez que um filho se declara diante do que considero dificuldades contornáveis, carências passageiras, necessidades relativas e assim por diante. Com expressão de desafio no rosto, solto um sonoro: “Se vira, moleque; cai no siviréu”, na mesma pegada do também já famoso “Toma um banhozinho, que passa”.
Hoje comprovei, mais uma vez, que esse método de criar menino produz resultados: acabo de ser informado que Diana, sem saber que iria ganhar a fita que eu tinha dividido ao meio, tratou de fazer a mesma coisa com o rolo de fita larga que encontrou lá no apartamento dela.
Vitória, 02 de maio de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
