Sempre alerta

Sempre alerta

Desta vez, a programação familiar em São Paulo incluiu um animado piquenique em pleno sábado de sol, num agradável parque municipal meio vazio e como bem manda o figurino: panos estendidos no gramado, muita fruta, comida leve, bebida farta, menino fazendo manha, garoto chutando bola, conversas frouxas de montão. Logo ao chegar acompanhei, surpreso e com algum saudosismo, o comecinho de uma espécie de conclave de escoteiros. Eram uns 60 adolescentes vestidos a caráter: bermuda longa, cinto com fivela, camisa com emblemas e broches. Todos de lenço no pescoço, com duas pontas enfiadas num anel abaixo do gogó. Os bonés e os quepes coloridos serviam para identificar a origem e o status do usuário. O terreno em declive valorizava a importância dos chefes e seus imediatos.

Apresentações formais de participantes, gritos de saudação, muitos apitos, palavras de ordem, instruções e distribuições de tarefas foram a tônica enquanto fiquei por ali. Assisti, com a mesma aflição de todos, a agoniante preparação do hasteamento solene da bandeira nacional, amarrada numa cordinha comprida e passada por cima de um galho bem alto duma mangueira frondosa. Constatei que ainda vigora o brado de Sempre Alerta, conjugado ao tradicional gesto firme da mão direita: os três dedos centrais colados e estendidos para cima e o polegar pressionando o mindinho contra a palma. A flor de liz continua presente.

Fui escoteiro junto com praticamente todos os moleques da Rua Madeira de Freitas e arredores. Descobriu-se que quem fosse escoteiro do mar por mais de 3 anos, recebia o certificado de reservista de terceira categoria da Marinha, dando por prestado o serviço militar obrigatório. As reuniões do nosso grupo eram esparsas e apenas uns poucos levavam as atividades e obrigações a sério, como o saudoso Chefe Xisto tanto gostaria. Da minha parte, aprendi muita coisa de boa utilidade, incluindo os segredos de acender fogueira, montar e desmontar barraca, fazer cama suspensa, cozinhar macarrão, remar em sincronismo e fazer os nós que tanto uso durante a vida inteira.

Vitória, 18 de abril de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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