Viagens no tempo

Viagens no tempo

Gosto muito de ir ao cinema, mas evito os que funcionam nos shoppings, especializados em filmes campeões de bilheteria, cheios de explosões ensurdecedoras, muita pancadaria, tiroteios de grosso calibre, homens e mulheres potentes e truques sensacionais. Tudo para garantir fortes emoções do começo ao fim da sessão. Nesses dias assisti dois filmes relevantes: o clássico Easy Rider e o recente Ellen e John. O primeiro deles tem tudo a ver com emoções sentidas nos anos 60 e que fizeram de mim um barbudo de cabelos compridos. O outro me trouxe saudades de uma grande aventura em família, que começou com a ideia de percorrer os 2800 km entre Brasília e João Pessoa a bordo de um ônibus usado que transformamos num simpático trailer mambembe. Naquele 1986, nossa caçula nem tinha três anos de idade. Ambos narram longas viagens em busca de lugares idealizados por seus protagonistas: uma festa de carnaval de rua em Nova Orleans, onde a diversão é liberada, e uma casa no sul da Flórida, onde Hemingway viveu, agora transformada em museu.

Numa história impactante sobre a intolerância e o conservadorismo da sociedade americana, estradas vazias e paisagens sem fim, vistas em plano aberto de cima de motocicletas novinhas e reluzentes, expressam a inquietude e os sonhos de dois rapazes californianos dos tempos do movimento da contracultura, expostos aos preconceitos e à violência de prováveis futuros eleitores de Trump.

O outro filme conta a viagem improvável de um casal de idosos no velho trailer da família, totalmente livres das limitações impostas pelo controle dos filhos. Ellen, uma determinada senhora portadora de doença grave, resolve aproveitar seus últimos dias ao lado do homem que escolheu, pondo em prática a melhor alternativa que encontrou. O marido John, um risonho ex-professor de literatura, magistralmente encarnado por Donald Sutherland, vive distraidamente os momentos presentes. Carinhoso e bem disposto, segue as instruções da mulher munido das poucas e boas lembranças que lhe restam. Uma inspiradora história de amor maduro.

Vitória, 13 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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