Piorou bastante
Que me perdoem os meus amigos e conhecidos que estão gastando emoções e energias contra e a favor de cada um dos dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais neste primeiro turno das eleições para presidente. É que não tenho a menor disposição para entrar nessa peleja e, muito menos, para votar em qualquer um deles. Acredito, sem nenhuma pretensão, que essas minhas emoções e certezas devem ser parecidas com as de uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um outro tanto de amigos e conhecidos meus, que também estão se vendo diante de um mata-burro ou à beira de um precipício.
Sou dos que estão preocupados com a instabilidade potencial de um governo brotado em ambiente tão insensato. Não gostaria de ter um presidente submetido aos caprichos e traumas de um líder popular perito em organizar interesses em proveito de seu próprio projeto de poder. Nem de ver um governante quase desconhecido idolatrado como salvador da pátria, o que me faz lembrar da desastrosa experiência com um tal caçador de marajás.
Minhas preocupações ganham concretude ao fazer as contas dos votos: o próximo presidente terá sido eleito pelos que o escolheram por ser o melhor e pelos que eram radicalmente contra o outro candidato que também aparecia bem nas pesquisas. Sendo assim, e é isso que me assusta, o que for eleito não deverá contar com o apoio da grande maioria dos milhões de brasileiros que preferiram o outro candidato, que votaram nos demais pretendentes, que anularam o voto por serem contra todos os concorrentes e, também, dos milhões que votaram em branco e que se abstiveram de votar. Em outras palavras: escolhido por uma parcela bem pequena do eleitorado. Como se não bastasse, dá pra prever que o ambiente hostil que se estabeleceu antes das eleições vigorará no decorrer do mandato. Se, por aqui, já se aprendeu a conviver com a barulheira colorida dos que se dizem de esquerda, ainda não se tem experiência com as práticas de uma direita convicta e assanhada, recém assumida, atuando a favor ou dando o troco.
Vitória, 03.10.2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
