Emoções futebolísticas
Vi na TV que o Tite havia anunciado a lista dos jogadores convocados para disputar a Copa do Mundo lá na Rússia. No avião, na falta do que fazer, li todas as matérias e opiniões de especialistas sobre as escolhas do treinador, suas filosofias de arrumação do time e suas estratégias para controlar o jogo, coisa que não faço há muitos e muitos anos. Faz tempo que parei de ler o jornal de trás pra frente e nem sei explicar as razões de ter abandonado as páginas sobre esportes em favor das que trazem notícias sobre política e economia. Nunca fui vidrado em futebol, mas percebo que meu interesse por jogos, clubes, jogadores e CBD agora está bem perto do zero. Imagino que algo parecido esteja acontecendo com muitos brasileiros e não acredito que seja apenas em função do tragicômico 7×1 contra aqueles alemães profissionais.
Na infância, torcia a favor do Cachoeiro e, mais do que isso, contra o Estrela, nosso inimigo dentro de campo. Isso tudo por influência de papai, um torcedor convicto. Mais tarde, a exemplo do que todo capixaba fazia, adotei um time carioca, o Fluminense, pra chamar de meu. Na nossa rua, o tricolor tinha uma torcida expressiva e vibrante, liderada por Dona Ormandina Benezath. Aqui na ilha, o Rio Branco nunca me entusiasmou e acabei adotando o Vitória, sem que tenha ido a campo para vê-lo jogar uma partida sequer.
Me lembro como se fosse hoje de ter acompanhado pelo rádio o jogo em que nosso escrete conquistou a Copa do Mundo, em 1958, mas guardo poucas cenas da conquista em 1962, no Chile. Assisti na televisão colorida da casa dos vizinhos de frente os jogos do Brasil na Copa de 70 e ajudei a popularizar os palavrões nas comemorações lá no centro da cidade. Se das conquistas nos USA e no Japão restam lembranças embaralhadas, guardo viva a decepção com a desclassificação, imposta por Portugal, em 1966. Os ônibus que levavam os atletas capixabas para os Jogos Universitários, em Curitiba, pararam num posto de gasolina para que pudéssemos acompanhar o final da partida. Melhor se tivessem seguido viagem.
Vitória, 16 de maio de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
