Enxergando e ouvindo melhor
Meu oftalmologista, companheiro de muitas pescarias, me contou que há poucas décadas a operação de catarata demandava anestesia geral e internação hospitalar. Hoje, ela é feita em poucos minutos com anestesia que se usa para medir a pressão ocular. A preparação do paciente, que dura umas duas horas, inclui pingação de umas gotas no olho a ser operado, ingestão de uma espécie de calmante, para minimizar eventuais temores e ansiedades, e termina com a troca da roupa por um daqueles aventais ridículos, que constrangem os pacientes hospitalares.
Dito e feito. Depois de vestir minhas roupas de cidadão saudável, recebi instrução de usar dois colírios específicos e proibição de lavar a cabeça até segunda ordem. Me deram um óculos de proteção, daqueles que operários usam em ambientes hostis, agendaram a consulta de revisão e, para finalizar, ganhei abraços dos meus velhos amigos, donos da clínica. Voltei pra casa dirigindo e pensando no tanto que minha vida vai melhorar depois de operar o outro olho. É que ficarei livre de uma espécie de nuvem amarelada que esconde os detalhes das imagens e ofusca a visão de quase tudo, quando se olha contra um ponto de luz. Agora, mesmo com o serviço pela metade, ler um livro já voltou a ser uma atividade confortável.
Pois foi no começo deste mês de maio que também consegui uma melhora substancial nas minhas combalidas capacidades auditivas. Conto isso por imaginar relevante para muita gente que existe por aí, surdinha como eu, e que, quase sempre, também como eu, reclama do retorno nada compensador dos investimentos em aparelhos auditivos caríssimos, sobretudo se comprados aqui. Usuário desses recursos tecnológicos há uns 10 anos, enfim consegui encontrar, lá em São Paulo, fonoaudióloga capaz de calibrar adequadamente os meus aparelhos. Fazia tempo que nutria as expectativas de conseguir sustentar uma conversação em ambientes barulhentos, assistir TV em volume baixo e voltar a ouvir quase todas as notas das músicas gravadas nos velhos LPs que tanto botei para tocar. Em breve volto lá para os ajustes finos.
Vitória, 28 de maio de 2019
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
