Frutas de antigamente

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do beribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça-curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente. Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um caju, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do Sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do biribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente.

Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias

que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé  de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um cajú, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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