No São João da Paraíba

Bom dia,

A crônica de hoje é cheia de nostalgia e boas emoções.

Na mala da volta, trouxemos queijo de coalho perfeito, mudas viçosas de samambaia, mel honesto da região da Pedra do Ingá e muito mais.

Até.

No São João da Paraíba

Recebemos um convite, maroto que só, de Diana, minha filha, para ir com o marido Nélio e a filha Yara passar o São João na Paraíba. Eles tinham trabalho pra fazer em Recife e em Campina Grande, terra do maior arraiá do mundo. Ela sabia que era um bom motivo para atiçar a vontade de passear em João Pessoa, onde moramos durante quatro anos nos idos do final da década de 1970, trazendo duas filhas paraibanas arretadas.

Fazia uns cinco anos que a gente não ia lá. Nesse tempo, perdemos Iveraldo Lucena, meu colega de pró-reitoria da Universidade Federal da Paraíba, um grande e querido amigo, dono de uma personalidade muito especial e chefe amistoso de um enorme clã de parentes, amigos e agregados em geral. Além da sua capacidade de equacionar situações delicadas, tinha enorme disposição para juntar gente pra comer comida consistente, beber cachaça de origem e comemorar tudo o que merecesse.

Na Granja Pitumirim, de porteira sempre aberta, ele tratou de instituir uma festa animadíssima na véspera do dia de São João pra comemorar com música, quadrilha, comida de milho e fogueira gigante, um reencontro de muitos com muitos. O convite que recebemos de seus filhos foi determinante pra comprar as passagens. Afinal, tratava-se de ir festar novamente no Menor Melhor São João do Mundo.

Melhor do que tudo foi o reencontro emocionante com Iracema, a “Nega” querida de Iveraldo, que já está quase sem memória nos seus noventa e muitos anos de vida bem vivida. Mulher dotada de convicções e atitudes firmes, uma espécie de rainha do pedaço, ao me ver de pé à sua frente, saiu da reclusão dos pensamentos e, com a melhor cara deste mundo, de braços abertos e mãos espalmadas, exclamou um sonoro “Barba!!!”, como gostava de me chamar, para a surpresa dos que estavam por perto. Confesso que as pernas bambearam e algumas lágrimas insistiram em rolar. Passamos os dias nos cumprimentando com acenos e sorrisos.

Fui levando livros sobre as colheres pra distribuir entre pessoas que tiveram passagens relevantes na minha história de vida. Um deles era pra entregar pra seu Nelson, líder de uma espécie de quilombo nos arredores da cidade de Conde, ao sul de João Pessoa, a quem consegui convencer, numa segunda investida, de me vender a foice poderosa de design altamente ergonômico, que ele havia comprado de um forasteiro.

Ele só me reconheceu depois de vasculhar a memória por alguns instantes. Dessa vez eu estava em missão de agradecimento: tratei de abrir o livro no final do capítulo sobre as minhas ferramentas, onde estão uma crônica sobre nosso encontro, uma foto da bendita foice e uma outra onde apareço ao lado dele e de Iveraldo, empunhando o que acabara de comprar.

Ao se ver na página de um livro grosso e colorido, aquele homem simples, senhor de sua importância, se transformou numa criança emocionada, que olhava e voltava a abraçar contra o peito o presente que acabara de ganhar. Deu pra imaginar a cena dele folheando aquelas páginas depois que ficou sozinho na varanda de sua casa.

Em Campina Grande marcamos presença no Maior São João do Mundo, que se estende por todo o mês de junho, admirados com a organização e conforto de uma grande área repleta de bares e restaurantes, dotada de palcos de tamanhos variados, trailers de comida e bebida, lojas de quase tudo, policiamento discreto, lotado de gente até tarde da noite de plena terça-feira.

Dito isso, registro aqui a enorme inveja que senti ao percorrer as estradas de pista dupla, perfeitas e bem sinalizadas, que ligam João Pessoa a Campina Grande. Fiquei pensando como seria bom se a nossa BR101 fosse duplicada até Cachoeiro, com vários trechos de velocidade máxima permitida de 100 km/h. Iria lá toda semana.

Vitória, 11 de julho de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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