Temores e palpites

A crônica de hoje é sobre o que estamos vivenciando por aqui, totalmente impotentes para interferir no rumo dos acontecimentos. No máximo, podemos cravar um palpite e esperar o que vai acontecer.

Temores e palpites

Escrevo na manhã desta quinta-feira sem ao menos passar um olho nas notícias que já estão circulando nos jornais e nos sites que costumo sapear em busca de novidades e de opiniões divergentes.

Acordei sabendo que hoje é dia de enviar crônica pro jornal, sem ter encontrado um tema que pudesse interessar a leitores variados. É que as minhas atenções, como deve estar acontecendo com muita gente, estão sendo bombardeadas por uma dose cavalar de insensatez, prepotência, cretinice, doideira e tudo o mais que vem vindo lá do Norte e encontrando eco por aqui.

Por princípio, não faço deste espaço um canal de crítica aos que estão envolvidos em embates por interesses os mais diversos, aos movidos por razões ideológicas, aos fanáticos de ocasião e aos que não estão nem aí para o que possa rolar de ruim por aqui. Cada qual que cuide de si, ao seu modo.

Como alternativa, prefiro tentar atiçar reflexões serenas dos leitores, meio que em preparação para o que poderá acontecer nos próximos dias, depois do primeiro dia de agosto.

Nessa linha, achei por bem listar as medidas que poderão vir a ser anunciadas – impostas, melhor dizendo – pelo poderoso e imprevisível norte americano, oferecendo ao leitor a chance de cravar um palpite naquela que lhe pareça mais provável de acontecer na semana que vem, sem direito a prêmio:

Postergar a entrada em vigor da taxação de 50%

Postergar a entrada em vigor da taxação de 50% e abrir negociações;

Cobrar 50% e novas medidas carregadas de maldades e prepotências.

Cobrar 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil;

Cobrar 50% sobre todos os produtos exportados e abrir negociações;

Cobrar 40% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil;

Cobrar 40% sobre todos os produtos exportados e abrir negociações;

Cobrar 30% para produtos de interesse dos USA e 50% pros demais;

Nenhuma dessas alternativas

Por mim, independente do que vai acontecer de fato, acho que o país vai experimentar descalabros temporários na economia, enfrentar fortes alvoroços na política e registrar crescentes prejuízos nas relações pessoais.

Que o bom senso se instale por aqui e que Nossa Senhora da Penha nos ajude.

Vitória, 24 de julho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre as águas do mar

Sobre as águas do mar

Apesar de uma friaca danada, abastecida por um vento sul convicto, resolvi ir tirar sururus nas pedras da ponta leste da Praia da Esquerda da Ilha do Boi. Seria tarefa bem fácil, pelo fato delas estarem à mostra, sem ondas para atrapalhar a catação dos graúdos. Tinha acordado muito cedo e, ao conferir na internet, confirmei que maré estava na cota 0,00m, por conta da Lua Nova, em vigor.

Munido de chapéu, sacola reforçada, espátula de bambu resistente e boa disposição, desci a ladeira e passei pela placa que anunciava que o mar estava Próprio para Banho. Como era de se esperar, a praia ainda estava deserta. Quando chego lá para andar, sempre já tem gente na areia e dentro d’água.

Desta vez, com as atenções concentradas nos moluscos, pude confirmar algo estranho que vinha me intrigando: aqueles milhares de sururus minúsculos que sempre formavam uma espécie de tapete escuro na parte das pedras só banhadas pelas ondas, agora deram pra crescer e formar grandes aglomerados, por falta de espaço para crescer pros lados. Eu nunca tinha visto algo parecido.

Ao comentar o fato com um tirador de sururu que conheço faz décadas, ele me disse que aquilo também era uma novidade. E foi mais adiante: não se lembrava de ter visto nem os sururus miudinhos que cresceram daquele jeito, nem a manta de alga verde claro que está cobrindo uma faixa da pedra entre as praias da Castanheira e das Panelas, lá na Ilha do Frade. Nem ele, nem eu.

Aquilo me fez lembrar da estranha fartura de tartarugas nos mares de hoje. Digo isso porque, em toda a minha adolescência, nunca vi uma tartaruga sequer nas muitas dezenas de vezes que mergulhei em busca de lagostas nas encostas das ilhas, nem quando navegava em snipes, disputando regatas, ou em cima de batera, pescando carapau, sempre vendo do alto as águas ao redor.

A explicação razoável que me vem para tamanha fartura, afora as contribuições do Projeto TAMAR, é que já não mais existem os peixes graúdos, sobretudo robalos, xaréus e pampos, que comiam as tartaruguinhas recém-nascidas, as simpáticas e apressadinhas carebas. Acho que foi meu irmão Afonso quem pescou o último xaréu de 12 quilos, corricando com linha de mão, nas águas da Ilha Rasa, numa lanchinha de motor de popa.

Pouca gente sabe que, nos idos de 2010, na monografia que apresentou para se graduar em oceanografia na UFES, Diana, nossa caçula, comprovou por A+B, com ensaios eco-toxicológicos, que os particulados do minério, produzidos e escoados pelas empresas da Ponta de Tubarão, prejudicam, chegando a inibir o desenvolvimento das larvas de ouriço nas pedras submersas. Sua descoberta foi reconhecida pela PMV, merecendo o primeiro lugar no Prêmio Tião Sá, em Pesquisa Ambiental. Torço para que os ouriços não tenham sido exterminados.

Para não deixar ponto sem nó, informo para os devidos fins, que voltei pra casa de alma leve, carregando uma sacola repleta de sururus e tão realizado como ficava ao voltar da Gaeta de Dentro, rebocando uma boia de isopor, com uma sacola de cheia de sururus enormes, recolhidos no pé das pedras, de mergulho. Manaíra e Bebel, minhas filhas mais velhas, contam morrendo de rir, que morriam de vergonha do pai saindo do mar com chapéu de palha, cheio de tralhas, em plena Praia da Direita, então reduto das cocotas e da rapaziada cheia de amor pra dar.

Soube pela imprensa que empresas espanholas virão ganhar dinheiro aqui, depois que conseguirem despoluir as águas da Baía de Vitória. Humanos, animais e vegetais vão adorar o nosso mar limpinho.

Vitória, 26 de junho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Futuro engarrafado

Futuro engarrafado

Soube, na semana passada, que está em curso um movimento capaz de produzir grandes impactos na vida de quem mora e frequenta Vitória. Me fez lembrar do que relatei numa crônica, décadas depois.

“Talvez eu estivesse exatamente onde, hoje, está o já antigo restaurante de cozinha portuguesa. A tarde ia bem avançada, com o sol atrás do Morro do Cruzeiro. A temperatura, embora fosse quase inverno, não pedia o uso de agasalhos.

Sentado na beirada do paredão de pedras, olhava o mar à minha frente. A maré alta trazia as águas pra bem perto, quase acabando com a faixa de areia.

O encontro da avenida que vinha do centro da cidade com a rua que corria paralela ao mar formava um enorme largo triangular. No terreno de esquina, meio escondida por mangueiras e flamboyants, existia uma casa avarandada, da família Michellini. Parecia uma construção de ingleses na África. No beiral da varanda tinha uma espécie de renda bordada em madeira.

Sempre tive vontade de me sentar numa daquelas cadeiras brancas e passar horas olhando o mar, como se estivesse num tombadilho. Embora parecesse muito agradável viver ali, a varanda e o jardim estavam sempre vazios e silenciosos.

No outro lado daquele triângulo, quase defronte da primeira das 62 castanheiras plantadas na calçada à beira mar, lá estava o Bar do Walter, já aberto, mas ainda vazio de fregueses.

Passagem obrigatória para pedestres e ciclistas, aquele era um ponto estratégico para quem buscasse companhia em plena tarde de um dia de semana qualquer. Sabia, por experiência, que se ficasse dando sopa por ali, mais cedo ou mais tarde apareceria alguém.

A espera foi curta. Vi de longe uma conhecida minha e fiz sinal pra ela. Moça simpática, de pele morena e cabelos ondulados, foi chegando com sorriso que demonstrava alegria por me ver de volta.

Mas nem bem acabou de dar os dois beijinhos de praxe, percebi que ela me olhava com uma expressão grave, de reprovação.

Embora a nossa intimidade não fosse muita, ela a considerou suficiente para externar o que lhe vinha na alma de adolescente bem-comportada, “careta”, como se dizia:

– Alvaro, você devia cortar seu cabelo. Pega mal para um engenheiro usar cabelo desse tamanho!

Falou aquilo com plena convicção, mais parecendo uma tia solteirona querendo proteger o sobrinho dos maus caminhos. Argumentou que o meu tempo de rapaz despreocupado tinha terminado e que aquele cabelo grande poderia atrapalhar o meu futuro promissor.

Na verdade, o cabelo nem estava tão grande assim. Em dezembro – e era maio – havia pedido ao meu barbeiro, na Praça Costa Pereira, que cortasse bem baixinho, no mais perfeito estilo “valsa de formatura”, que eu iria dançar no Clube Libanês, metido num smoking alugado.

A barba é que talvez estivesse um pouco fora do usual. Apesar de muito escura e espessa, não indicava desleixo. Afinal, ainda que já tivesse me formado, eu continuava sendo um estudante, agora de pós-graduação.

A minha figura era compatível com o tempo em que vivíamos, quando os movimentos de contracultura e de protestos políticos aconteciam país afora. E tem sido com ela que me apresento ao mundo desde aquele 1971, talvez por saudades da energia de uma época e por algum conservadorismo.

Pois pouco tempo depois, fiquei sabendo que iriam demolir aquela bela casa para construir um prédio enorme, altíssimo, completamente fora dos padrões vigentes na Praia do Canto. Aquilo sim, mereceu um sonoro pega mal, na forma de protestos coletivos de moradores, insuficientes, entretanto, para impedir sua concretização”.

Aquela obra era uma iniciativa isolada. Agora, pelo que me disseram, está em curso uma aglutinação de forças e de interesses expressivos para fazer com que Vitória venha a abrigar mais 100 mil novos habitantes, além dos 360 mil atuais.

Imaginei, imediatamente, um tanto de gente esfregando as mãos de excitação, pensando nos lucros, sem ao menos se preocupar com os perrengues e impactos que isso provocará para os que estiverem por aqui, no futuro.

Para que fique registrado, declaro que não fui consultado a respeito desse assunto e que cravo aqui a minha veemente discordância dessa perigosa pretensão de uns poucos. A título que instigação, sugiro que considerem seriamente os impactos diretos no trânsito e na qualidade de vida das pessoas, incluindo o direito à paisagem.

Vitória. 11 de junho de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Olhando pra telhas

Olhando pras telhas

De uns tempos pra cá, instalou-se no país um ambiente tóxico, expresso por roubos oficiais na previdência de milhares, demonstrações de gulodice de poderoso recém-empossado, esforço organizado para desmonte da legislação ambiental com desrespeito à sua defensora desde sempre, desconforto de ministro sério nadando contra maré, dentre outros descalabros. Uma labirintite presidencial me fez lembrar do que escrevi sobre um tempo vivido em João Pessoa, na segunda metade dos anos 1970.

”A varanda interna era o melhor lugar da casa pra gente ficar. Três pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da direção do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da sala ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda do quintal. De barriga pra cima, podia-se acompanhar o progresso diário da construções de barro que os marimbondos faziam.

Quero dizer, com isso, que aquele lugar era quase perfeito para um usuário convicto de rede, tal como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitassem pudessem se sentar.

Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas, são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som de palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.

Naquela varanda, dependendo da intimidade, o visitante podia se esticar em uma outra rede e, nessas ocasiões, a conversa corria bem mais frouxa, lentamente. Na rede, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física, as conversas quase sempre rangem, como os ganchos roçando nos prendedores. Os olhares – quando possíveis – são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.

Daquele telhado, eu conhecia praticamente tudo: os pilares, as vigas, os caibros, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barro. Da marca impressa em baixo relevo não me lembro: talvez fosse Santa Rita.

Que diferença faria, saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.

As casas dos marimbondos se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas delas davam evidentes sinais de abandono, de já terem cumprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?

As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansaço, quando se sente inseguro, agoniado e tudo o mais que pode sentir em situações que se apresentam no dia a dia, fora de seu controle. Muitas vezes descarreguei nelas o que não conseguia dividir com ninguém. Depois, de alma mais aliviada, acabava dormindo tranquilo.

Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede mas falta o telhado? Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: pelo que sei, o liso do reboco e o branco da tinta não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.

Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retêm quase tudo que chega até elas.

Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando aquelas telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, nas coisas do trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de grande responsabilidade, numa terra muito distante de onde ele nasceu.”

Vitória, 29 de maio de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Se treinar, dá

Na crônica de hoje trato de uma tentativa que ando fazendo

Treina, que dá

Depois de um infarto das coronárias, em dezembro de 1994, nunca mais fui o mesmo homem. Andar na areia da praia, eu bem que consegui e consigo até hoje. Aos poucos, fui praticando passos em quantidade crescente e em ritmo mais acelerado, sempre condicionado ao que sentia no peito. A dor, aprendi com um homem sábio, é, nada mais, nada menos, do que um indicador da nossa incapacidade de fazer esforço físico, a cada momento do dia, ao longo da vida, pra ser mais exato.

Aprendi, na sequência, que a dor desaparece ao reduzirmos o ritmo dos passos e, consequentemente, do esforço. Livre da dor, pode-se acelerar e manter o ritmo das passadas até que ela ressurja, muito provavelmente em um nível mais elevado de esforço. É uma espécie de brincadeira de pique-esconde.

Como já contei aqui, estou há mais de 30 anos sem nadar nem uns 10 metros, que seja. Isso, depois de ter sido, durante uns 10 anos, um competente nadador. Em outras palavras, um nadador que competia e sempre ganhava.

Pois foi vendo aquele pessoal todo nadando na praia da esquerda foi me dando uma inveja desenfreada de dar umas boas braçadas, indo e voltando, lá no fundão.

Sempre achei que a determinação tem papel relevante na vida da gente, a insistência também. Isso, sem falar no mérito da força de vontade, da autoconfiança e da coragem. É bem verdade que, na minha condição de pretendente a nadador matinal, a inveja jogou um papel determinante. Sempre entendi que a inveja é uma potente força motriz das nossas escolhas e decisões.

Senhor das minhas deficiências físicas e de alternativas par contorna-las, resolvi testar como estaria a minha condição dentro d’água, após caminhar bastante na areia. Para minha grata surpresa, a tal dor nos peitos só foi aparecer quando forcei as braçadas, desaparecendo com a redução do esforço. Confesso que fiquei me achando um idoso de bom potencial.

O mar, nessas últimas semanas, esteve calmo, com águas quentes e limpas e os ventos quase sempre na categoria de fracos a moderados, soprando da terra pro mar. Eu sou um inveterado apreciador do vento terral. Os vindos do sul, mais frios, também sopraram, mas o morro da ilha protege os usuários da praia da esquerda de eventuais friacas.

Pois na semana passada, após um período razoável de treino de braçadas variáveis, já constatando o surgimento de “muque” nos dois braços, me programei para tentar nadar tão logo Carol voltasse do Rio. Combinei com ela que levasse o celular para registrar o início da minha carreira de nadador de travessias. Como era de esperar, demonstrou uma certa euforia, dessas de fazer marido ficar se achando o tal.

Na segunda feira acordei cedinho para ir treinar. Ainda na cama, pensando na vida, me veio uma questão relevante, merecedora de atenção. Com o passar dos minutos, ao usar meus parcos conhecimentos sobre anatomia e, sobretudo, meu bom senso, o que era uma dúvida, foi virando uma certeza. A musculatura utilizada para movimentar as pernas no nado livre, não é exatamente a mesma que é acionada para que a pessoa possa andar e correr.

Como sempre, depois de andar em ritmo forte, entrei na água e tratei de remar firme com os braços, pra frente e pra trás, pra cima e pra baixo e nada de dor aparecer. Foi o suficiente para me deitar no rasinho e com as mãos na areia, começasse a movimentar as pernas esticadas pra cima e pra baixo como se estivesse nadando na piscina. Não demorou e lá estava a danada da dor nos peitos, abrangente e cheia de razão.

Desse jeito, só me resta pegar a boia cor de abóbora, que ganhei de um nadador solidário, e começar a bater pernas em ritmo progressivo até retomar meu status de nadador sorridente, que será devidamente registrado e compartilhado nas redes.

Vitória, 30 de abril de 2025

Alvaro Abreu

Escrita par A GAZETA

Festa na Granja

Festa na Granja

No último volume, a velha eletrola se tremia toda. Era dia de festa na granja. O motivo era forte. Não me lembro se aniversário de Iveraldo ou de Iracema.

Manhã de sol quente, não parava de chegar carro lotado de convidados. Como de costume, cada qual trazia alguma coisa de comer ou beber, pra reforçar a fartura.

A família do casal era enorme. Muitos parentes diretos e indiretos, muitos agregados. Tudo gente habituada a frequentar aquele lugar. Iveraldo, o próprio coronel nordestino de fala mansa e sorriso amigo. Iracema, mulher de muitas providências, regulava o movimento falando alto e andando ligeiro.

A granja era muito agradável. Ficava a uns 30 minutos de João Pessoa, na estrada para a praia de Tambaba, onde o nu ainda não era praticado oficialmente. A casa era parecida com as que existem pelo interior da Paraíba. Telhado de quatro águas, arrodeada de varandas. Muita flor em volta.

Pra cortar o gosto forte da pinga, um bom pedaço de caju maduro, catado no quintal. Uma frutinha vermelha, de um pé ainda pequeno, também caia bem depois da talagada. Era acerola.

A água de coco era das mais doces que se conhecia e as mangas, rosa e carlotinha, verdadeiras delícias. Aqui e acolá, uma touceira de cana caiana. Pé de pinha também tinha. De goiaba e araçá, nem se fala.

A criação era variada. Um cavalo velho, três vacas holandesas. Galinha, tinha muita, sobretudo pescoço-pelado e carijó. As galinhas d’Angola eram mais para enfeite. O galo do terreiro era vermelho, com rabo amarelado e preto. Esporas curvas, de tão grandes.

Nas noites quentes, quem estivesse na varanda ganhava a companhia de um velho sapo enorme, que pesava quase um quilo. Surgia não se sabe de onde e, em silêncio, ficava espiando o movimento.

Naquela manhã, a movimentação era grande em volta do tanque, na varanda dos fundos. Era dia de buchada de bode. Quatro mulheres cuidavam da limpeza das tripas e dos miúdos de dois cabritos, comprados por Iveraldo na feira do Conde, logo cedo.

Servicinho duro e enjoado de fazer. Muita gente nem chegava perto. As vísceras são escuras, feias. O cheiro é bem forte. Mas as mulheres, já acostumadas com tudo aquilo, trabalhavam firmes. Riam alto, animadas pelos goles de Rainha, a cachaça oficial da granja. Ela vinha em garrafão, direto do alambique das redondezas de Bananeiras, terra de Iveraldo. Forte, mas muito saborosa.

O trabalho já estava bem perto do fim quando, metida num impecável macacão bege e de bolsa a tiracolo, Dona Dadá chegou na beira. Parecia supervisionar, com muito rigor, tudo o que via. Assustada, distribuía caras e muxoxos de discreta reprovação.

– E pensar que alguém vai comer isso…

Frequentadora assídua dos sítios da Fazenda Inglesa, na serra de Petrópolis, onde a granfinagem carioca passa fins de semana. Ela já demonstrava querer voltar pra casa, quando apareceu uma garrafa do melhor uísque nacional.

– Um duplo, por favor. Com bastante gelo!

De copo na mão, saiu para dar uma volta no quintal, à cata de novidade.

A tarde já ia longe, quando o almoço foi servido no pagode, perto da piscina que estava sendo inaugurada. Grandes travessas e muitas panelas sobre a mesa. Dava gosto de ver: de tudo, um pouco. Galinha de cabidela, carne de sol, ensopado de costela de vaca, feijoada, cabrito assado e rubacão. Pra acompanhar, pirão de leite, feijão de corda, macaxeira, jerimum e salada de tomate.

Lá estava, também, uma enorme travessa de arroz frio e sem qualquer tempero. Naquele lugar ninguém levava o arroz a sério. Ele era cozido em água abundante e depois escorrido numa peneira, como macarrão.

Como era costume, de barriga cheia, os convidados procuraram um lugar para fazer a sesta. Os mais espertos conseguiram vaga numa das muitas redes estendidas na varanda. A fresca corria solta e ninguém falava em colesterol.

A buchada já havia sido colocada no fogo, num caldeirão enorme. Os miúdos de bode, picados em pequenos pedaços, haviam sido ensacados dentro dos buchos, que eram costurados com fio urso para não deixar vazar o recheio. As tripas estavam enroladas nos ossinhos da canela. Muito alho, cebola e tempero verde. Um pouco de pimenta crua pra dar gosto. Na panela, um caldo ainda ralo cobria tudo.

– Pronto, agora é só deixar cozinhar em fogo brando.

O fogão, como convinha, era a lenha. Havia sido construído na varanda, bem perto da porta da cozinha, pra dar conforto a quem cozinhasse.

Na chegada da noite, Dona Dadá já parecia ambientada. Encontrara uma pessoa para escutar suas histórias. Exímia jogadora de baralho, aceitou de imediato o convite pra uma partida de canastra.

Da mesa de jogo dava para sentir o calorzinho do fogão e o cheiro que saía da panela. Era jogo de gente grande, sem menino em volta.

Mais uma vez, muitos adultos e crianças se preparavam para dormir. Uma boa parte deitaria em colchonetes espalhados no chão da copa e das duas salas. Por cima, uma camada de redes garantiria acomodação para mais umas vinte pessoas. Difícil era ir ao banheiro no meio da noite.

O ambiente da jogatina era alegre e descontraído. As troças, as birras e as piadas, apesar de surradas, ainda faziam rir. As manhas e malandragens de cada jogador eram previsíveis, pelo tempo de convívio. As possibilidades contidas nas cartas e o movimento pendular da sorte mantinham vivas as expectativas de cada um.

Como mandava a tradição, lá pelas onze da noite, o jogo foi interrompido para que os jogadores pudessem experimentar o caldo resultante da ferveção de mais de 10 horas em fogo brando. Se quisessem, poderiam também experimentar a buchada.

Dona Dadá distribuía as cartas do morto, quando Iracema veio de lá, trazendo um dos buchinhos num prato fundo. Ao ver aqueles estranhos objetos serem colocado na mesa de apoio, ao lado, a expressão dela era de aversão. Educada, ela sabia que não poderia fazer desfeita para a dona da casa.

– Vou aceitar só um pouquinho, para provar.

Iracema caprichou. Jogou duas gotas de pimenta de cheiro sobre aquela espécie de sarapatel molhadinho e cobriu tudo com uma fina camada de farinha bem branquinha. Salpicou com cebolinha verde. Era pra comer de colher.

Quem prestasse atenção poderia notar a metamorfose: o sabor forte daquela comida havia transformado aquela elegante senhora na menininha franzina que morava no sobrado verde da rua 25 de março, em Cachoeiro de Itapemirim.

Com os olhos brilhando e a respiração meio acelerada, ela comeu o tanto que lhe deram para provar, pediu mais, repetiu mais uma vez e arrematou, por gula, uma última porção caprichada. Depois de tudo, tomou um gole de cachaça.

– Uma verdadeira maravilha!

Os anfitriões, satisfeitos, sorriram do que ouviram. É bem provável que, em seu discreto silêncio, Iveraldo tenha se lembrado da modinha que Wilson Batista compôs, na intenção de destratar Noel Rosa: “por uma cara feia perde-se um bom coração”.

A buchada de bode de Iracema havia conquistado mais uma adepta.

Vitória, 06 de março de 2025

Alvaro Abreu

Reescrita para A GAZETA

Dá gosto de ver

Dá gosto de ver

Acordei com o sol, tomei os remédios pra tireoide e pro coração, arrumei a mesa pra dois, cortei mamão, coloquei bananas da terra descascadas no microondas, dei as pontas delas pra Amora, passei o café já enchendo minha xícara. Limpei minha bancada, lasquei uma tira comprida de bambu fino e entalhei o que seria uma colher pra canhoto. Coloquei meu calção ainda novo, vesti camiseta fresca, apanhei o chapéu de aba larga, calcei minhas havaianas, apanhei a faquinha de lâmina curva que Gustavo Vilar fez pra mim e desci pra praia, com Carol ao meu lado, animadíssima.

É que a manhã daquela quarta-feira estava perfeita para quem prefere luz matinal de sol ainda baixo, vento terral soprando moderadamente, mar liso com água cristalina, passarinho ciscando na areia já varrida pelos garis. Sem qualquer constrangimento, gosto de pensar e dizer que aquele lugar é o meu ateliê de luxo, meu lugar preferido para trabalhar, cuidar da saúde e pensar na vida.

Notei que já tinha muita movimentação no mar de entre ilhas, com gente remando pranchas, canoas havaianas de diferentes tamanhos e vários nadadores solitários rebocando bóias coloridas. Trata-se de um recurso multi-função, recém-inventado para guardar celular e chave de carro, para servir como flutuador em emergência e para facilitar a localização dos seus usuários por quem esteja em terra ou navegando em lancha e jet ski.

No meu tempo de rapaz frequentador da praia do Barracão (em cujas areias foram construídos os edifícios San Thomas e Paulo VI), eu era praticamente o único que arriscava nadar até a Ilha das Andorinhas e, umas poucas vezes, até a Ilha do Boi. Era uma proeza que servia pra impressionar as morenas, mas nadar de volta era sempre no sacrifício e com alguma preocupação.

Na verdade, naquela época – estou falando dos anos 60 – não existiam academias de ginástica. Quando muito aulas de judô, em sala improvisada. Eram pouquíssimas as pessoas que se exercitavam de forma sistemática, a não ser um ou outro halterofilista. Que me lembre, só mesmo remadores dos clubes Saldanha, Álvares e Náutico treinavam diariamente, no comecinho das manhãs, nas águas espelhadas da Baía de Vitória.

Para um ex-nadador, que treinava braçadas e batidas de pé na piscina do saudoso Praia Tênis Clube, impressiona a quantidade de homens e mulheres de meia idade praticando natação no mar, por todo lado.

Ali na praia da Esquerda, umas vinte pessoas, nadavam sob orientações e estímulos de um simpático treinador a bordo de uma prancha. Uns poucos demonstravam dificuldades em acompanhar o ritmo, mas acreditando que conseguirão vencer suas limitações físicas e psicológicas. A sensação que tenho, ao passar por eles nas idas e nas voltas, é a de que todos darão conta do recado.

Terminadas as atividades na água, dá gosto de ver a interação entre aquelas pessoas molhadas e alegres, formando um grupo de colegas de propósito e de disposição. Vistos de longe, dá pra imaginar que comentam o que fizeram e o que não conseguiram fazer dentro d’água, naquele dia e nos anteriores. Dores e cansaços relatados por alguém devem gerar solidariedade honesta por parte de quem tenha passado pelo mesmo perrengue nas primeiras vezes que entrou no mar. Os que se destacam pela velocidade na água e pelo preparo físico certamente servem de referência e estímulo aos principiantes.

Nessa manhã, como volta e meia acontece, aquelas pessoas que nadaram em busca de saúde e de satisfação se juntaram para tirar fotos na areia, todas ainda em roupa de banho, com o melhor dos sorrisos, fazendo gestos de vitória.

Vitória, 06 de fevereiro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

Movimentações familiares

Movimentações familiares

Formamos uma família numerosa, incluindo pai e mãe, cinco filhos, uma nora, dois genros e oito netos.  Algo raro nos dias de hoje.

Este ano, nosso pessoal que mora em São Paulo veio passar as festas aqui, em função da regra de alternância de local dos festejos, para agradar gregos e troianos. No ano passado, os que vivemos em Vitória fomos passar o Natal em Cotia, pertinho da capital, onde mora Bento e sua turma.

Com o preço das passagens aéreas nas alturas, o ônibus leito foi a opção adotada pela família de Manaira. Fui buscá-los cedinho na Praça do Papa e as caras de felicidade de quem está chegando de férias superaram com folga as marcas de uma noite mal dormida.

Bebel veio de avião, com passagem comprada preventivamente, há muitos meses. Veio trazendo duas malas, abarrotadas de presentes.

Bento, com mulher, três filhos, violão e bagagem farta, veio dirigindo o carro de uma grande amiga que resolveu voltar a morar aqui em Vitória, depois de mais de uns 10 anos vivendo em Joinville e São Paulo. Na verdade, sua decisão é fruto de um longo processo de reflexão em família, em busca de alternativas para aglutinar novamente o que deveria ser entendido como uma espécie de clã dos Albuquerque, composto por mãe, pai, 4 filhos e 7 netos.

Antes dela, já tinha chegado de volta sua irmã caçula, que vivia no noroeste dos USA há uns 8 anos, trazendo marido americano e duas crianças ainda pequenas. Seu único irmão já tinha optado, faz tempo, por voltar a morar em Vitória, que considera um lugar muito bom pra criar seus dois filhos e pra trabalhar no que gosta.

Em breve, será a vez do retorno dos meus queridos amigos Fred e Fátima, os pais, pra se instalarem em apartamento de frente para o mar, como bem merecem, depois de anos vivendo no lugar de origem dos antepassados dela, no interior de Minas Gerais.

A outra irmã, por fortes razões profissionais, ficará na paulicéia por mais um tempo, certa de que estará sempre aqui, pra aproveitar a furuba familiar, algo que valoriza de montão.

Da minha parte, confesso que fiquei com uma certa inveja mansa desse movimento de reaglutinação familiar. Digo isso sem o menor constrangimento e mais do que sabendo da quase impossibilidade de que isso possa vir a acontecer com o nosso pessoal.

Tendo vivido 17 anos fora de Vitória, bem me lembro da felicidade de mamãe e de meus irmãos e parentes quando chegamos de volta em julho de 1987, trazendo uma penca de filhos. Logo depois, em outubro, na festa dos meus 40 anos, foi a vez de confirmar muitas das amizades que havia deixado aqui. Como conhecia poucas pessoas na cidade, Carol precisou de um tempo pra criar sua própria turma. Carioca, depois de mais de 53 anos afastada do Rio de Janeiro, ela se considera uma autêntica “carixaba”.

Como já disse aqui, o nosso pessoal adora festa e tem grande disposição para fazer o que precisar para que tudo aconteça da melhor maneira, dentro dos conformes. Pois dessa vez, inventaram de alugar um sítio nas redondezas de Parajú para os tempos natalinos.

Meio que na sorte, acreditando na palavra dos donos e nas fotografias da internet, conseguimos passar 5 dias comendo, bebendo, cozinhando, fazendo churrasco, enfeitando, jogando sinuca, bocha, totó, baralho e futebol, conversando dentro e fora da piscina, assistindo filmes na parede, fazendo colher, tocando, batucando e cantando, brincando com os cachorros que levamos, fotografando e filmando com celular e drone, lavando panelas, louças e talheres de montão, abraçando com mãos cobertas de tinta para imprimir nas camisetas dos “Frota de Abreu” e tudo o mais que se faz necessário e prazeroso.

A passagem do ano, como convidados de amigos queridos, foi em clube à beira-mar, com música de Dj com som tipo “bate-estaca” e conjunto de “covers” de rock. Tudo com os olhos bem abertos e aparelhos auditivos desligados.

Vitória, 09 de janeiro de 2025

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem inventou o Ovo de Colombo

Quem inventou o Ovo de Colombo?

Na crônica anterior escrevi sobre um show sensacional da banda Aurora Gordon, liderada por um filho de Afonso, meu irmão mais velho, com belas músicas e letras expressivas que ele criou, com parceiros, no início dos 70, do século passado.

Aproveito o embalo familiar para contar a história de como surgiram as ideias do meu irmão mais novo, Cláudio, que apropriadas pela equipe econômica do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, viabilizaram a implantação do lendário Plano Real, que completou 30 anos. O assunto foi pauta da imprensa e de manifestações de júbilo e afago de egos de economistas que atuavam na PUC/Rio e no governo federal.

O Plano Real produziu resultados relevantes para o país, a começar pelo extermínio de uma inflação inercial que se mantinha na casa dos 40% ao mês e, também, ótimos resultados para o PSDB nas eleições de 1994, incluindo a presidência da República.

Não corro qualquer risco em afirmar aqui que foi Cláudio quem inventou e sugeriu que fosse adotada uma solução técnica inovadora e ainda totalmente desconhecida dos ambientes universitários e de órgãos governamentais.

Posso garantir que a ideia de criar um indexador atrelado ao dólar para ser utilizado amplamente nas relações de troca no país surgiu durante uma conversa comigo na varanda de casa, em pleno verão de 1992/3.

A coisa ganhou corpo no encontro que Cláudio teve com Betinho meses depois, quando ele esteve no BNDES em busca de apoio para o programa de combate à fome e à miséria.

O fato é que suas propostas nasceram no seu travesseiro e ganharam forma na sua mesa de trabalho no BNDES. Eufórico com suas ideias, tratou de apresentá-las aos seus dirigentes do Banco e, em seguida, de enviar seu trabalho para quase 200 profissionais, políticos e dirigentes de partidos políticos, entidades empresariais e órgãos públicos. Ele guarda até hoje todas as mensagens de agradecimento formais e educados que recebeu, incluindo as do próprio FHC e da sua equipe.

É fácil fazer uma linha do tempo precisa e completa dos acontecimentos, com tantas informações. Para dar apenas um exemplo, a versão original do trabalho de Cláudio “A Indexação Diária Negociada – Contra o veneno da cobra, só o próprio veneno da cobra” é datada de 31.08.1993.

Durante o segundo semestre de 1993, Cláudio foi criando expectativas e chegou a se animar quando soube que suas ideias estavam sendo analisadas e apresentadas em reuniões em Brasília com ministros e equipes econômicas, presidentes de partido e gente importante da política. Nunca foi convidado a participar de nenhuma delas nem viu seu nome citado em qualquer documento oficial nem em entrevistas ou matérias jornalísticas.

Meticuloso que só, movido por expectativas, desconfianças e muitas decepções, ele foi guardando reportagens, comentários animadores, respostas formais, educadas e tudo o mais, além de todas as versões de suas propostas.

Meses depois, em dezembro, a revista Exame publicou uma matéria em que um dos principais assessores do ministro FHC explica que a “URV se destina a funcionar como remédio contra mordida de cobra”.

Difícil mesmo é conseguir registrar e calcular a carga de emoções e quebras de expectativas que foram se acumulando com o passar dos dias, geradas pelo que considero um estelionato intelectual das suas ideias e criações.

Com o tempo passando e vendo as suas proposições, já rebatizadas, sendo noticiadas na imprensa, ele foi entrando em parafuso e ganhando uma tristeza grave e surda, fruto da sua impotência. Imagine saber pela imprensa que o seu Cruzeiro Cambial fora adotado silenciosamente pelos economistas oficiais e rebatizado como Unidade Real de Valor, a famosa URV.

No começo deste ano, com estímulos de parentes e amigos, Cláudio decidiu publicar um livro para contar a sua versão dos fatos e, sobretudo, pra lavar a própria alma e receber, ainda que tarde, um tanto de reconhecimento pelo que fez de bom pelos brasileiros. Nele, o leitor poderá conhecer, em detalhe, o que foi produzido, apresentado, enviado, recebido e utilizado por terceiros.

Recentemente foi o próprio André Lara Rezende que mencionou que a URV foi o Ovo de Colombo no Plano Real. Cláudio então resolveu batizar o livro de “O Ovo de Colombo do Plano Real”, depois de saber, pelo Google, que o truque do tal ovo foi na verdade inventado por Felippo Brunelleschi, um arquiteto italiano, mas foi Colombo quem ficou com a fama depois de apresentá-lo a espanhóis em um banquete.

O fato é que, talvez por puro preconceito, os economistas da PUC e adjacências não tiveram coragem de admitir que foi um engenheiro quem, na época, deu a solução ao problema da inflação. Nem coragem, nem decência, pra ser mais exato.

Cláudio lançou seu livro, com muito sucesso, nessa segunda-feira, na livraria Argumento, no Rio de Janeiro. A versão digital está disponível gratuitamente na internet.

Vitória, 12 de dezembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Aurora Gordon na Ponte da Passagem

Aurora Gordon na Ponte da Passagem

Ontem fomos ao SESC Glória assistir o show do Aurora Gordon “Afonso Abreu – Na Ponte da Passagem”, uma homenagem que o produtor musical Murilo Abreu idealizou para comemorar os 50 anos que já se passaram desde a primeira versão do espetáculo no Teatro Carlos Gomes.

Os arranjos são os originais, os músicos são outros, mas o cantor é uma cópia fiel do pai que, sentado ao meu lado, ia assistindo um trecho da sua vida passar no compasso das suas criações, poéticas e inovadoras, em parceria com Marco Antônio Grijó, Rogério Coimbra e Paulo Branco.

Sou testemunha do movimento vigoroso, criativo e rebelde que se instalou no pacato cenário capixaba, no final dos anos 1960. Era muito bom acompanhar a produção desenfreada de letras e melodias por todo lado, algumas românticas e muitas de protesto.

O show me fez lembrar de letras marcantes: “A cidade cresceu e você continua penteando os cabelos de seda, falando em solidão”, “Seus olhos espreitam um zoo, mas as feras não estão lá, Manuela”, “Via aérea.., sou meu próprio voo”, “Corina, você vem comigo, ver pontes e delírios”, “Perdi minha alma na Ponte da Passagem, esperando por você.”

Afonso tomou gosto por música logo cedo, talvez por influência de papai, que ligava a eletrola logo que entrava em casa. Seu gosto musical era bem diversificado, indo de Noel Rosa e Caymmi aos clássicos americanos.

Não me lembro de detalhes, mas sei que Afonso arranjou um contrabaixo, daqueles enormes de madeira, e começou a tentar localizar o lugar das notas nas cordas e a arrancar sons com cada uma delas. No início dos 1960, ele se juntou a um amigo, que aprendia a tocar piano, e a Mário Rui, que tocava bateria. Com o andar dos ensaios e das primeiras apresentações no Praia Tênis Clube, Afonso passou a valorizar gestos das mãos e a usar expressões faciais para realçar sons e compassos. Foi o bastante pra merecer mais palmas por suas performances com aquele instrumento enorme. A amiga Beatriz Abaurre escreveu que ele “cavalgava no contrabaixo”.

Pois até hoje dói imaginar a cena do contrabaixo “navegando” em frente ao Iate Clube, por obra de um bêbado imbecil, depois que a festa terminou. Aquele instrumento estava sendo pago, a duras penas, com a renda de apresentações.

A chegada Grijó a Vitória produziu impactos no meio musical da cidade. Baterista profissional, ele assumiu o controle das baquetas de Mário Rui, que adotou a guitarra e os pedais de distorções sonoras, e Afonso que se encantou com o baixo elétrico. Depois de muitos ensaios e brigalhadas, eles criaram Os Mamíferos em 1966, uma fonte poderosa de contracultura esbravejante.

Muitas feras – músicos e letristas – frequentavam nossa casa na Madeira de Freitas. Mamãe gostava de ver o entra e sai de gente cabeluda com roupas coloridas, carregando seus instrumentos para tocar altíssimo no cômodo que existia nos fundos do terreno. É bem provável que ela até oferecesse broa de milho e café pra alegrar a turma. Animada, ela foi ver os “meninos” na Boate Macumba. A precariedade dos recursos técnicos atrasou o início do show. Em casa, ela comentou: “Meu filho, o homem já foi na Lua e voltou e vocês continuam a pelejar com esses plugs…”

Para espanto de muitos, bacharel em direito, Afonso arranjou um emprego em Colatina, onde ia e voltava diariamente dirigindo um fusca vermelho, ano 1959. Nem imagino o que ia matutando estrada afora, mas sei que logo depois ele resolveu atuar na área da cultura, começando pela programação musical da Rádio Espírito Santo. Daí em diante percorreu uma longa carreira de servidor público, passando pelo setor de música da Fundação Cultural, armando o Circo da Cultura, dirigindo o Teatro Carlos Gomes e secretariando a Lei Rubem Braga, na Prefeitura de Vitória. Isso, sempre atuando em favor da criação de oportunidades para seus colegas de ofício e de sonhos.

Em paralelo, ele foi criando grupos musicais dedicados aos sons e compassos da Bossa Nova e do Jazz. Que me lembre: Bandônica, Mistura Fina, Quarteto JB e Afonso Abreu Trio, que sempre recebiam artistas de primeira linha, para ajudar a alegrar as noites capixabas. Jantar para os músicos depois do trabalho era condição contratual obrigatória.

Na noite desta sexta haverá uma terceira edição daquele show maravilhoso, mas os ingressos já estão esgotados. Torço para que o pessoal do Sesc encontre condições para uma nova rodada de apresentações da banda Aurora Gordon, para a alegria dos muitos que não conseguiram ingresso.

E viva meu querido irmão Afonso Abreu, um dos grandes expoentes das noites capixabas, pai muito orgulhoso de Murilo!

Vitória, 28 de novembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA