História com final feliz

História com final feliz

Fomos assistir “Ainda estou aqui” no Shopping Vitória, onde não entrava há uns 2 anos, sabendo que muita gente não tinha conseguido lugar nas sessões no Shopping Jardins. Vendo metade das cadeiras vazias, imaginei que o tema não desperta interesse aos seus frequentadores habituais.

Gostei muito do filme. Por várias razões, a começar por tratar de tema relevantíssimo de maneira envolvente para quem viveu durante os chamados anos de chumbo, já distantes, que marcaram a vida de muita gente. Trata da história real sobre os impactos e os desdobramentos acontecidos após o desaparecimento de um homem de bem, marido querido, pai de prole animada, de amigos fraternos, profissional competente, um cidadão convicto sobre o que é certo e errado.

É um filme sobre valores humanos, sobre atitudes e determinação de uma companheira de vida, sobre o amor de mãe de muitos. Um filme que me tocou, ao me fazer lembrar do pai que perdi aos 14 anos, da minha querida mãe que criou exemplarmente 5 filhos, de colegas de turma que sofreram durante aquele tempo, de um colega de república que resolveu fugir pro Chile sem deixar vestígios, para nos proteger, e de um amigo então recente que foi preso num final de tarde, na saída da Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.

Em casa, contei pra Rafael, meu filho, o que aconteceu no comecinho de 1971, com Peter Ho Peng, um colega de mestrado na COPPE/UFRJ. Gaúcho falante, que havia sido líder estudantil na UFRGS, estava animadíssimo anunciando que daria uma festinha, com churrasco e cerveja, para os novos amigos, eu incluído, no sábado seguinte.

A caminho do restaurante universitário, ele me mostrou, disfarçando, uma cena no estacionamento quase vazio que o deixou preocupado: dois homens dentro de um fusca, naquele meio dia de escaldante sol a pino, em pleno verão carioca.

Como de costume, às quatro e meia da tarde, embarcamos no ônibus contratado para trazer e levar de volta alunos e professores da Zona Sul do Rio. A bordo, as conversas foram interrompidas pela movimentação de homens fardados que, aos trancos, tiraram Peter do ônibus. Pelas janelas víamos militares armados e viaturas oficiais. O silêncio na volta foi produzido pelo estado de choque e de impotência de cada passageiro.

No dia seguinte soubemos que a direção da UFRJ havia pedido informações sobre o acontecido, mas nada foi esclarecido. Nunca mais tive qualquer notícia do meu amigo gaúcho, cujo nome nunca encontrei em listas de desaparecidos.

Enquanto contava essa história, Carol pegou o celular, digitou seu nome na busca e logo anunciou ter achado um vídeo com depoimento dele para o projeto “O Grito Ecoa”, da Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Depois de passar em revista cenas e emoções que guardo por mais de 50 anos, assisti 60 minutos de histórias de incertezas e de muita determinação daquele homem nascido em Hong Kong que veio pro Brasil com dois anos de idade. Pouco antes de vir fazer o mestrado no Rio, Peter foi orador da turma de engenharia química de 1970, segundo ele sob olhar raivoso do Reitor da UFRGS.

Ele conta que ficou preso por mais de 10 meses, que foi preso uma segunda vez, que sofreu torturas e que anularam seus documentos brasileiros, obrigando-o a buscar apoio da embaixada inglesa, que lhe forneceu passaporte do Reino Unido, possibilitando que fizesse pós-graduação nos USA e lá permanecesse até retornar ao Brasil nos anos da década 2010.

No vídeo, ele chora copiosamente, por mais de um minuto, ao contar que ao receber sua nova carteira de identidade em solenidade especial da Comissão da Anistia, ele voltava a ser um brasileiro, o que nunca deixara de ser. O seu caso, expressão crua e perversa de regimes autoritários, está narrado em detalhes, em livro sobre aqueles tempos.

Fiquei sabendo que Peter voltou a viver nos Estados Unidos faz anos. Pelo que vi, ele não é muito atuante na internet. Estou tentando achar quem possa me ajudar a falar com ele. Como o mundo dá voltas e os ventos são favoráveis, tenho certeza de que dará tudo certo.

Vitória 14 de novembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vamos consertar o que estragou

Vamos consertar o que estragou

Definitivamente, sou um homem do tempo antigo. Desses que ainda não se adaptaram totalmente aos tempos modernos, com novidades sensacionais, produtos maravilhosos, valores nem tanto, e impactos diretos na vida das pessoas.

Percebo que muitas vezes sou pego de surpresa ao saber que acabou o que sempre usei, que está sendo atualizado, que existe um novo e assim por diante. Percebo que está em curso um vigoroso movimento em favor da criação de expectativas, ao sabor das decisões e de forças que utilizam o poder do marketing para atrair atenções, e, sobretudo, gerar desejos em grande escala.

Fumante inveterado, ganhei de meu filho Bento um isqueiro Zippo, daqueles com que os bonitões de Hollywood acendiam seus cigarros, em cenas que valorizavam os movimentos e a primeira baforada. Até então eu usava isqueiros Bic, que me fizeram entender que o mundo dos produtos descartáveis estava sendo instalado.

Fiquei atordoado ao constatar que, terminado o gás, seu componente mais barato, o invólucro de plástico, a capa metálica, o sistema com mola e válvula para abrir e fechar, o mecanismo de produzir faísca (com rebolo, pedrinha, mola fininha e pino), vão pro lixo.

Como se sabe, sou um cidadão que gosta de fazer colheres de bambu com ferramentas bem simples. É um servicinho leve, que exige alguma habilidade manual e que pode ser feito em qualquer lugar, inclusive andando na praia.

Tenho claro que aprendi a trabalhar com as mãos ainda menino lá em Cachoeiro. Nos anos de 1950/60, a garotada precisava fazer seus próprios botões de futebol de mesa, porque não tinha onde comprar. A matéria prima era a casca de coco e as “ferramentas” eram o cimento caracachento das calçadas e os cacos de vidro cortantes.

Além da satisfação de fazer coisas, tenho boa disposição para consertar o que quebrou, estragou, parou de funcionar e tudo o mais que acontece de problema numa casa movimentada. Curiosidade, paciência, habilidade, disposição e desafio são requisitos do sucesso nesta área.

Sou demandado com boa frequência para dar jeito em torneiras, tomadas, portas. Descobri que pedaços de bambu são de grande utilidade para consertar cabos de panelas e facas. Nas pescarias de praia desfazer “cabeleira” de nylon de molinete era um ótimo passatempo quando não tinha peixe.

Muitas vezes, por falta de competência, ferramental adequado e medo de choque, tenho que chamar alguém capaz de resolver a encrenca. Antes, os salvadores da pátria chegavam de ônibus ou de bicicleta, depois de moto e, agora, em camionetes e vans, no melhor estilo de empreendedores de soluções.

Sem falsa modéstia, acabei criando fama e é comum ser chamado para resolver perrengues em casa de amigos e parentes. Beatriz, minha irmã, é uma demandante inveterada. Há pouco tempo dei jeito numa mesa muito antiga que estava com o sistema de expansão do tampo emperrado. Além da sua carinha de satisfação, ganhei também camisa de linho em “pagamento”.

Dentre os mais criativos consertos que já fiz, está o de conseguir, usando apenas 3 palitos de mesa, fazer o ventilador de teto da casa de um amigo produzir vento refrescante, em noite calorenta, para a felicidade dos convidados.

Em Brasília, consegui desentupir a pia do lavabo, com um pedaço de cordão grosso. Era daquelas antigas, enormes, com coluna fixada perto da parede, impedindo o uso de ferramentas para desrosquear o sifão. Encasquetado, lembrei que, proeiro que fui, caçava as velas dos barcos usando  cabos enrolados em volta de uma peça cilíndrica dotada de catraca. Foi Carol quem me lembrou desse feito.

Há poucos anos, Diana e Nélio acharam uma cadeira de balanço numa caçambas de obras e me desafiaram a recuperá-la. Como o estado dela era deplorável, o serviço de raspação, lixamento e esfregação de breu consumiu uns 10 dias. No YouTube tem vídeo que mostra o que foi feito e, de quebra, o sorriso vitorioso do consertador de cadeira.

Por tudo isso, defendo, com unhas e dentes, que todas as crianças sejam estimuladas a usar as mãos para fazer e consertar. Seria muito bom se cada qual ganhasse uma caixa de ferramentas no Natal.

Vitória, 31 de outubro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem te viu, quem te vê

Quem te viu, quem te vê

Tenho andado menos do que deveria, pelas ruas e na areia da praia da esquerda. Isso me traz uma dose de culpa, por saber que caminhar, pelo prazer de andar em ritmo adequado, faz bem pra saúde. Pelos anos que ando por calçadas e asfaltos das redondezas, posso dizer que conheço razoavelmente muito do que está à vista, seus buracos e imperfeições, até a condição das sombras nos diferentes horários das manhãs.

Digo também que acompanho a evolução da produção de frutas que existem nas calçadas, nos quintais e na areia da praia: abricós, mangas, jamelões, cajás, seriguelas, amoras, pitangas e cocos, sem falar nos coquinhos das palmeiras imperiais da pracinha. Aproveito para apreciar as flores que estejam à vista, incluindo acácias, buganvílias, algodão da praia, nuvens azuis, íris, orquídeas, iucas, bromélias e tudo o mais.

Do mesmo modo, acompanho as obras que estejam sendo feitas em casas antigas da Ilha do Boi, quase todas de dois pavimentos e esquadrias de madeira, alterando o padrão estético que vigorava quando chegamos em Vitória nos idos de 1987.

Tenho acompanhado a construção de casas nos poucos terrenos ainda vazios. Quase todas no estilo caixotes decorados, escondidas por muros altos e coroados com fios de alarme, arames cortantes, farta iluminação e câmeras de vídeo. A preocupação com segurança passou a ser fator determinante na definição dos projetos arquitetônicos.

Já não existe mais o banco comprido que os primeiros moradores instalaram na calçada na parte plana da rua das praias. Dá pra imaginar o tanto de lero-lero amistoso e safadinho que eles praticavam nos fins de tarde. Na nossa rua, quase um terço das casas que existiam passaram por reformas radicais. Umas três delas foram praticamente desmanchadas, para dar lugar a outras, já no novo estilo. Dos moradores antigos restam poucos: as crianças cresceram e foram cuidar da vida e muitos pais se mudaram para apartamentos.

Nas praias, as mudanças também foram relevantes, sobretudo no perfil dos frequentadores e nos esportes que homens e mulheres praticam. Na areia, surgiu a altinha e na água as turmas que praticam natação em busca de saúde e como treinamento para travessias de longo curso. Volta e meia canoas havaianas atracam na areia, para que seus marinheiros de primeira viagem possam descansar e, sobretudo, festejar o fato de estarem fazendo força juntos, em plena manhã ensolarada.

Na semana passada, ao chegar na praia ainda deserta, vi que a areia estava repleta de tanajuras, quase todas já mortas. As vivas, caminhavam sem qualquer objetividade, como que totalmente atônitas. Pelas minhas contas, a revoada daquelas formigas aladas e bunda enorme, foram trazidas pelo vento Terral durante no comecinho da manhã.

Aquela cena me trouxe duas lembranças: a de uma longa revoada de tanajuras saídas de dezenas de buracos no gramado da nossa Superquadra em Brasília. O formigueiro devia ser enorme e todo ramificado. Tão logo elas saiam da terra, exercitavam as asas, até então coladas ao corpo, e logo alçavam voo, todas numa mesma direção.

A outra lembrança é de um menino do interior, que ouvia adultos dizerem que farofa de bunda de tanajura era uma maravilha.

Vitória, 16 de outubro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sinal Vermelho

Sinal Vermelho

Estou ficando velho, tomando tenência da finitude da vida, sabendo que o tempo passa a ser, e cada vez mais, uma variável extremamente relevante.

Percebo que a minha paciência se esgota muito mais rapidamente do que antes, quando achava que tinha tempo sobrando. Tenho tido a prudência de não gastar meu tempo tentando convencer, amigos teimosos de nascença, eleitor fiel de candidato desvairado, torcedor do Flamengo, e assim por diante. Além de economizar o que tenho pouco, diminui o risco de perder amigos e parentes. Dependendo da situação, tento mudar de assunto e faço uma pergunta ingênua, me faço de desentendido e, se não for deselegante e indelicado, saio de perto.

Passo horas cortando e raspando bambu em busca de uma forma que seja funcional e simpática, uma atividade onde o tempo não é levado em consideração, sobretudo se estou fazendo algo para presentear alguém. Sempre aproveito a ocasião para passar em revista histórias que temos em comum. Consertar o que estragou também é algo que faço com satisfação, sobretudo se o serviço incorporar dificuldades que vão exigir habilidades, competências e recursos especializados. Quanto maior o desafio, mais me instiga e diverte, independente da sua duração.

Agora, ficar parado diante de um semáforo no vermelho, numa esquina sem viva-alma, comprovadamente sem veículos de qualquer tipo, tem me irritado muito. Muitíssimo, para ser mais exato. A sensação que me invade é a de que estou fazendo papel de otário, de corno manso, de cidadão totalmente reprimido, medroso de ser penalizado por falta grave.

Há de existir quem se disponha a estimar o tempo total que se perde a cada dia esperando o sinal abrir para seguir em frente com total segurança e educação. Se deixar de lado a precisão, é conta de multiplicação relativamente simples, que considera a quantidade de semáforos existente na cidade, o número de vezes que fica fechado durante um dia, a duração média de cada ciclo completo de abre e fecha, a quantidade de veículos esperando a vez de seguir viagem com motorista e passageiros a bordo, e tudo o mais.

Fazendo contas grossas, encontrado um número espantoso, caberia aplicar um desconto radical e generoso para não parecer exagero. Mesmo assim, o resultado final indicaria uma quantidade absurda de anos de vida que a população perde esperando, sem qualquer razão razoável, o semáforo abrir.

Na semana passada estivemos em Brasília para comemorar o aniversário de 84 anos de Itiro Iida, amigo meu desde 1971 e com quem muito aprendi. Além de rever muita gente querida, me dei conta de que a solução viária do Plano Piloto, definida na década de 1950, prima pela inexistência de semáforos a cada esquina, proporciona fluxo de veículos de altíssima eficiência e, também, segurança aos pedestres, que têm preferência total para atravessar ruas e avenidas.

Que o fluxo de carros está cada dia mais intenso, demandando adequação das vias e gerenciamento inteligente do tráfego em busca de racionalidade e conforto aos usuários de veículos e aos transeuntes, todos nós sabemos.

Se não for pedir muito, que venham mais conversões liberadas à direita nas esquinas da cidade, recomendando a devida atenção dos motoristas em favor dos que não tem tempo de vida a perder.

Vitória, 22 de agosto de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já tenho candidatos

Já tenho candidatos

Devo confessar que fiquei mais animado com os acontecimentos recentes das eleições nos Estados Unidos. O cenário de vitória praticamente certa de um cafajeste topetudo parecia irreversível sob vários aspectos, sobretudo pelo que poderia gerar em termos de desdobramentos políticos em outras regiões do planeta, inclusive aqui. A entrada em cena de uma mulher valente, preparada e dona de sorriso farto e poderoso, alterou radicalmente o cenário da disputa, produzindo uma inesperada reviravolta no quadro das certezas e das verdades.

Tenho a sensação de que muito dificilmente o candidato republicano vai se safar de uma derrota nos votos, ainda que apertada. Acho que acontecerá uma queda razoável nas convicções de correligionários insatisfeitos, e até envergonhados, em apoiar a reeleição de uma pessoa conhecidamente prepotente, que desagrada quem contrarie suas expectativas. Pode parecer exagero, mas a caricatura que me vem é a de republicanos desgostosos esfaqueando pelas costas o candidato que vai perder a eleição e, de quebra, o poder que acumulou.

Por aqui, tenho acompanhado, sem expectativas e entusiasmos, as eleições para prefeitos e vereadores em algumas capitais. A entrada em cena de um candidato fora dos padrões correntes, lá pelas bandas de São Paulo, tem produzido muita fumaça e emoções, com grande repercussão no noticiário de grandes jornais, redes de TV e num sem fim de canais na internet. Embora reconheça a relevância dos fatos, prefiro não gastar meu tempo com cenários de consequências possíveis e improváveis, nas eleições atuais e nas seguintes, país afora.

Aqui, posso dizer que já tenho candidatos a prefeito e a vereador. O primeiro é meu amigo há décadas, com bagagem repleta de bons serviços prestados ao público. O outro é um cidadão de uns 30 anos, disposto a ampliar o que vem fazendo em favor de pessoas envolvidas com projetos e experiências inovadoras, para muito além do conforto nos chamados empregões. Ele acredita piamente, como eu, que o futuro da nossa cidade será determinado pelo sucesso de empreendimentos de base tecnológica que brotarem aqui.

Esta semana participei, ao lado de umas 150 pessoas, de uma animada reunião da campanha do meu candidato à vereança, destinada a motivar eleitores convictos e a transformá-los em dedicados cabos eleitorais em busca de votos de amigos, colegas e familiares. Os pressupostos são bem sensatos: a indicação de um candidato confiável e com boa chance de vitória é quase um favor que se faz a quem ainda não tem um deles pra chamar de seu.

Saí de lá com a sensação de que a mobilização vai dar certo e que a cidade vai ganhar muito com sua atuação. Na volta pra casa me lembrei do esforço que fizemos para tentar eleger meu irmão Afonso para a Câmara de Vereadores de Vitória, em eleição no século passado. Sendo uma pessoa muito conhecida, respeitada e querida na cidade, a família inteira e amigos de fé se mobilizaram numa campanha sem recursos, entendendo que ele poderia ter atuação relevante em favor das atividades e projetos culturais, em continuidade ao que já vinha fazendo ao longo de décadas.

A danação foi o nosso candidato não se animar a ir pra rua para se mostrar e, sobretudo, pra pedir voto, preferindo ficar em casa às voltas com seu contrabaixo. Resultado: Afonso perdeu por pouco e acho que nem recebeu agradecimento do colega que foi eleito com a ajuda dos muitos votos que meu irmão teve, que só serviram pra engordar os da legenda do partido.

Vitória, 19 de setembro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sorrisos poderosos

Sorrisos poderosos

Não consegui finalizar a crônica da quinzena passada. Uma gripe tremenda (que faz o cidadão tremer) complementada por um torcicolo imobilizador (imobilização por dor), não me permitiram encontrar palavras adequadas para falar das boas emoções que senti ao saber que Kamala Harris seria a candidata do Partido Democrata à Presidência dos EUA.

Bem que comecei um texto lembrando que o sorriso dela havia me impressionado quando ela apareceu no palco para tomar posse na vice-presidência, sob o olhar de admiração de Biden e grande entusiasmo do público. Cheguei a mencionar que pouco sabia da sua história de vida e de suas andanças e realizações nesses últimos anos. Mas me dei conta de que guardava na lembrança a imagem de uma mulher que tinha um sorriso cativante.

Falei que fiquei animado com a desistência de Biden e, mais do que tudo, com a rapidez que Kamala demonstrou ao ver que as portas para se lançar na disputa eleitoral estavam abertas. Em poucas horas arranjou dinheiro para a campanha e angariou apoio de correligionários, condições indispensáveis para vencer disputas dentro do partido.

Nesta semana acompanhei a festa, é isso mesmo, de consagração da sua candidatura à Presidência. Quando liguei a TV, ela discursava com cara muito boa, convicta do seu prestígio e segura, agora sob o olhar generoso de um homem careca e muito simpático. Era o seu colega de chapa, que ao falar se mostrou um cidadão com histórico de vida elogiável, seguro de seus valores morais, uma pessoa de bem com a vida. O público foi ao delírio quando ele chamou pra briga a dupla de candidatos republicanos, que tratou de “esquisitos”.

Mais do que todos os presentes naquele ginásio, Kamala olhava para seu companheiro de campanha com grande admiração, certa de que ele será uma peça chave para ganhar a eleição, sobretudo, por ser proprietário de um sorriso, como o dela, capaz de angariar confiança e gerar entusiasmo.

Agora, ao acompanhar muitas disputas olímpicas pela TV, tenho visto sorrisos vencedores, sobretudo de brasileiras cientes de seus méritos e do poder de influência de sua imagem. São muitas as que disputam em várias modalidades, mas poucas as que já venceram. Emociona ver algumas chorarem ao ganhar medalhas e outras por perdê-las por pouco. Por enquanto, Rebeca, Bia Souza, Rayssa e Tati são as minhas preferidas.

Assisto os jogos do vôlei e sei que, para além das habilidades, da potência e da pontaria de cada jogadora, a coesão do grupo é indispensável nesse esporte. Gosto de ver a garra com que as nossas meninas disputam cada ponto, a alegria coletiva quando comemoram as vitórias e a solidariedade quando alguém erra e todas perdem. Elas vão tentar a medalha de bronze.

Passadas as disputas olímpicas, entram em campo os sorrisos poderosos de uma chapa de candidatos democratas, com boas chances de produzir uma reviravolta espetacular nos resultados de uma eleição presidencial relevantíssima. Até poucos dias, tudo indicava a vitória de um homem prepotente, de sorriso profissional, um topetudo no melhor estilo cafajeste.

Torço para que fique comprovado o poder contagiante dos sorrisos francos!

Vitória, 08 de agosto de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

No São João da Paraíba

Bom dia,

A crônica de hoje é cheia de nostalgia e boas emoções.

Na mala da volta, trouxemos queijo de coalho perfeito, mudas viçosas de samambaia, mel honesto da região da Pedra do Ingá e muito mais.

Até.

No São João da Paraíba

Recebemos um convite, maroto que só, de Diana, minha filha, para ir com o marido Nélio e a filha Yara passar o São João na Paraíba. Eles tinham trabalho pra fazer em Recife e em Campina Grande, terra do maior arraiá do mundo. Ela sabia que era um bom motivo para atiçar a vontade de passear em João Pessoa, onde moramos durante quatro anos nos idos do final da década de 1970, trazendo duas filhas paraibanas arretadas.

Fazia uns cinco anos que a gente não ia lá. Nesse tempo, perdemos Iveraldo Lucena, meu colega de pró-reitoria da Universidade Federal da Paraíba, um grande e querido amigo, dono de uma personalidade muito especial e chefe amistoso de um enorme clã de parentes, amigos e agregados em geral. Além da sua capacidade de equacionar situações delicadas, tinha enorme disposição para juntar gente pra comer comida consistente, beber cachaça de origem e comemorar tudo o que merecesse.

Na Granja Pitumirim, de porteira sempre aberta, ele tratou de instituir uma festa animadíssima na véspera do dia de São João pra comemorar com música, quadrilha, comida de milho e fogueira gigante, um reencontro de muitos com muitos. O convite que recebemos de seus filhos foi determinante pra comprar as passagens. Afinal, tratava-se de ir festar novamente no Menor Melhor São João do Mundo.

Melhor do que tudo foi o reencontro emocionante com Iracema, a “Nega” querida de Iveraldo, que já está quase sem memória nos seus noventa e muitos anos de vida bem vivida. Mulher dotada de convicções e atitudes firmes, uma espécie de rainha do pedaço, ao me ver de pé à sua frente, saiu da reclusão dos pensamentos e, com a melhor cara deste mundo, de braços abertos e mãos espalmadas, exclamou um sonoro “Barba!!!”, como gostava de me chamar, para a surpresa dos que estavam por perto. Confesso que as pernas bambearam e algumas lágrimas insistiram em rolar. Passamos os dias nos cumprimentando com acenos e sorrisos.

Fui levando livros sobre as colheres pra distribuir entre pessoas que tiveram passagens relevantes na minha história de vida. Um deles era pra entregar pra seu Nelson, líder de uma espécie de quilombo nos arredores da cidade de Conde, ao sul de João Pessoa, a quem consegui convencer, numa segunda investida, de me vender a foice poderosa de design altamente ergonômico, que ele havia comprado de um forasteiro.

Ele só me reconheceu depois de vasculhar a memória por alguns instantes. Dessa vez eu estava em missão de agradecimento: tratei de abrir o livro no final do capítulo sobre as minhas ferramentas, onde estão uma crônica sobre nosso encontro, uma foto da bendita foice e uma outra onde apareço ao lado dele e de Iveraldo, empunhando o que acabara de comprar.

Ao se ver na página de um livro grosso e colorido, aquele homem simples, senhor de sua importância, se transformou numa criança emocionada, que olhava e voltava a abraçar contra o peito o presente que acabara de ganhar. Deu pra imaginar a cena dele folheando aquelas páginas depois que ficou sozinho na varanda de sua casa.

Em Campina Grande marcamos presença no Maior São João do Mundo, que se estende por todo o mês de junho, admirados com a organização e conforto de uma grande área repleta de bares e restaurantes, dotada de palcos de tamanhos variados, trailers de comida e bebida, lojas de quase tudo, policiamento discreto, lotado de gente até tarde da noite de plena terça-feira.

Dito isso, registro aqui a enorme inveja que senti ao percorrer as estradas de pista dupla, perfeitas e bem sinalizadas, que ligam João Pessoa a Campina Grande. Fiquei pensando como seria bom se a nossa BR101 fosse duplicada até Cachoeiro, com vários trechos de velocidade máxima permitida de 100 km/h. Iria lá toda semana.

Vitória, 11 de julho de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frutas de antigamente

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do beribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça-curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente. Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um caju, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do Sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frutas de antigamente

Com o início da produção de mamão na nesga de terreno, ao lado do pé de goiaba, estou me sentindo uma espécie de produtor rural, desses que são movidos por emoções de origem, que se emocionam ao fazer a colheita. Até então tinha que disputar goiabas, jabuticabas e pitangas do quintal, com sabiás, bentevis, galos de campina, cambaxirras e outros tantos. Se bobear no ponto, comem algumas e estragam outras. Convivo com frutas de estação, mais colhendo e chupando do que plantando.

Dos tempos de menino, guardo lembranças vivas de poucas frutas. Em Cachoeiro, me lembro do gosto do abiu roxo e do biribá lá de casa, dos ingás azedos da beira do Itapemirim, das mangas espada, das carambolas e cajás-manga. E da mexerica casca lisa, caroço de montão e azedinha, que apresentei pra neta caçula, que come fazendo careta. O gosto forte do jenipapo conheci ainda vestido na calça curta da infância. Cana caiana, a gente chupava até doer o pé da orelha.

Naquela época, maçãs farinhentas e peras importadas eram só pra quem estivesse doente.

Carambola, a gente comia às dúzias. Na casa de frente à nossa tinha um pé frondoso, com frutos belíssimos, mas extremamente ácidos. Faz pouco tempo, inventaram que carambola faz mal pros rins. Com isso, passei a enfrentar mais esse perigo.

Dos verões em Marataízes, lembro dos abacaxis docinhos, das mangas (que nunca mais encontrei iguais) e do melão colorido mas sem graça, que ganhava açúcar e vinho para dar gosto. As frutas eram trazidas por maratimbas, em balaios no lombo de éguas. Como era tudo muito barato, as famílias numerosas compravam a carga inteira. Foi nas pescarias

que conheci os coquinhos de palmeirinha miúda de beira mar. Esperando bater um peixe, a distração é roer a ponta colorida que ficava escondida no cacho. As pitangueiras eram poucas, mas a gente fazia a festa. Na Vila, conheci abricó na casa de Seu Ivan, que fez barco pra papai pescar em alto mar. Foi decepcionante, porque é fruta amarelinha, bonita por fora, mas sem graça por dentro.

Viemos morar em Vitória em 1959 e por aqui, as frutas estavam nos quintais espaçosos da Praia do Canto. No nosso tinha cana e pé de manga espada que os morcegos adoravam. O pé de jambo dos Vieira Gomes era famoso e fazia dupla com o pé de manga coração de boi, enorme, doce e sem fiapo. Na casa da esquina, tinha um pé  de carambola anão, viveiro de marimbondos dos bravos. Em frente, tinha uma goiabeira que dava inveja, até que Afonso foi morar lá com Luiza.

Na praia de Santa Helena tinha um pé de sapoti, fruta de poucos interessados. Com sorte, na safra, era possível comprar alguns de Zé do Coco, que empurrava um carrinho de mão cheio de coco verde. A árvore existe até hoje, bem na reta de chegada na ponte.

Chupando um cajú, sinto saudades de João Pessoa, de onde trouxe sementes de acerola pra Carlinhos e Flávia Larica. Raspar caroço de siriguela com dente, quase um esporte, me faz lembrar de pitomba, uma frutinha de casca dura e caroço aveludado, que a gente vai esfregando e aproveitando um azedinho específico. Lichia, que veio da China faz pouco tempo, é parente distante de todas essas. Graviola, que conheci por lá, tem a consistência do biribá e é boa pra suco.

Eu nunca comi um marmelo na vida, mas marmelada é dos meus doces preferidos. Em Luziânia, perto de Brasília, famílias fazem essa maravilha há 200 anos. Ameixas, só secas e escuras, boas pra fazer sorvete. Bato palmas quando acho as menores, vermelhas e azedinhas. Nunca vi um pé de ameixa.

Já comprei uva pretinha em caixas de madeira, trazidas do sul, direto nos caminhões. Agora as uvas vêm do Vale do São Francisco e são vendidas em pequenas quantidades. Morango era coisa rara e cara, usada pra enfeitar bolo e comido com creme chantilly. Romã sempre foi fruta escassa, meio que chic. Os americanos são bonitos por fora e por dentro. Os do nosso pé, desbotados, só servem pra enfeitar o quintal.

Vitória, 29 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Turismo no interior

Turismo no interior

Sábado passado foi dia de programa turístico no interior. Saímos de casa cedo, levando um casal de amigos, em direção a João Neiva, para participar da abertura da exposição “…talvez um dia ainda seja possível”, de Rick Rodrigues. A mostra está montada nas instalações da antiga oficina de locomotivas da então Companhia Vale do Rio Doce, desativada faz décadas, para a tristeza de muita gente do lugar.

Em meio a registros do que se perdeu, Rick montou painéis com bordados que fez no verso de caixas de remédio, com desenhos de pássaros e lugares ao lado de mensagens curtas e precisas, todas instigantes e patéticas. Ele nasceu e viveu lá até vir estudar em Vitória e, pelo que se vê, mantém forte vínculo com o lugar e sua gente.

A BR101 estava surpreendentemente desimpedida e, para a felicidade geral dos turistas, compramos mexerica, da verdadeira, nos arredores de Fundão. Adiante, uma fila enorme atrapalhava a vida de quem queria pegar a estrada pra Santa Tereza.

Como chegamos antes da hora, aproveitei pra ir comprar cachaça no alambique antigo situado às margens da estradinha que segue pra o oeste. É de lá que o pessoal da nossa família se abastece de purinha de primeira. Fomos atendidos pelo filho do dono, que se lembrou de ter cortado bambu pra mim em tempos remotos. Dei um livro das colheres pra ele que, alisando o presente, prometeu repassar pra filha que estuda na capital e que adora ler.

De volta, encontramos o lugar cheio de gente curiosa e risonha, muitos adolescentes e umas poucas autoridades. Vi e li tudo sem pressa e fiquei pensando no impacto que aquelas imagens e palavras poderão causar nas pessoas, sobretudo nas crianças maiorzinhas que visitem aquele lugar quase que abandonado de todo.

Por precaução, tratei de comprar cerveja sem álcool no supermercado no outro lado da avenida e, ao chegar de volta, fui convidado a ir, em comitiva, conhecer a raiz de uma gameleira frondosa que existe no barranco da margem oposta do Rio Piraquê Açu, que corre nos fundos do terreno do alambique, perfeitamente exposta num barranco que existe logo depois de um grande remanso.

O que se viu era uma espécie de dinossauro de pele amarelada, dotado de corpo, pernas, rabo e de um baita focinho. Devia ter uns 10m de comprimento, com espessuras de até uns 80cm. Um verdadeiro espetáculo da natureza, que as águas de uma grande enxurrada fizeram surgir ali. Soube que foi feito um documentário sobre aquele achado fantástico e que ele anda fazendo o maior sucesso por aí.

De lá, partimos pra um almoço festivo na casa recém construída por um casal de amigos recentes e totalmente promissores. Fomos levando, de presente, três mudas feitas com sementes de mamão trazidas da Serra da Capivara, lá do Piauí, e outra, já bem taluda, feita do caroço de um abacate que Carol tinha apreciado bastante.

Gente animada, falando alto, bebendo cerveja, descascando alho, picando temperos, catando feijão, cortando carne seca, linguiça e paio, fazendo arroz, farofa e salada, mexendo panela. Isso tomando cachaça das boas e sob sons trepidantes de caixa bem pequena.

Mesa completa, farta e colorida, fome já no ponto, muitos pratos já sendo montados. Antes mesmo das primeiras garfadas, pedi uma calorosa salva de palmas pros cozinheiros focados e seus simpáticos aprendizes. Deu gosto de ver a sinceridade e a convicção dos gulosos e esfomeados.

A viagem de volta, sem qualquer susto, perigo ou contratempo, serviu pra passarmos em revista as emoções dos encontros, os prazeres das descobertas e, também, pra confirmar que vale a pena sair de casa pra passear por aí.

Vitória, 2 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Dos Açores até Vitória

Dos Açores até Vitória

Gosto de dizer, com a melhor cara deste mundo e sem qualquer constrangimento, que faço colheres para ganhar elogios. Descobri, depois de um infarto no final de 1994, que elogios verdadeiros reforçam a autoestima e fazem bem pra saúde. Mais adiante, fui percebendo que os tais elogios vão se desdobrando na forma de reconhecimento de mérito e, porque não, de fama criada.

Virou rotina na vida de muita gente postar nas redes o que fez de bom, onde e com quem esteve, o que pensou, o que sentiu e muito mais. Isso, para reforçar amizades, abastecer grupos de pessoas e, também, para atrair a atenção de muitos. Comentários, likes, curtidas e elogios são moedas de um mesmo saco, que têm a capacidade de nos fazer satisfeitos, orgulhosos, “se achando”, como se diz.

Bem sei que melhor do que nos chega pelas redes são os beijos, os abraços e as declarações emocionadas que ganhamos ao entrar num bar, ao andar nas calçadas, ao participar de uma festa de gente conhecida.

Eu mesmo fui achado na internet por uma moça que tinha acabado de se formar em Zootecnia, lá nos Açores, por ter se encantado com as fotografias das colheres que faço. Isso, lá nos idos do início deste século.

Desconfiada, mas curiosa que só, foi ganhando confiança com a troca de mensagens. Hoje a tenho como uma amiga de longa data e que espero conhecer pessoalmente um dia. Ela se chama Cidália e a trato por Sissi; ela me trata por “amigo além mar”.

Por incrível que pareça, ela teve a pachorra de me mandar um baita presente de aniversário de 65 anos: dois queijos enormes feitos na Ilha de São Jorge e um potinho com geleia feita com frutinhas que colheu nos altos do Pico, elevação cônica e imponente que existe por lá. Para completar, ela tratou de colocá-lo numa cestinha que teceu com folha de uma planta chamada de correola. Luxo só.

Pois no começo da semana recebi um exemplar do livro que ela acaba de escrever, movida, segundo ela, “pela faúlha que respingou do livro do meu amigo além mar em mim e pelo que ele havia me dito faz algum tempo: escrever um livro deveria ser obrigatório a toda gente”.

Motivos e assuntos ela tinha aos montes. Mas no centro de tudo estavam os quadros que vem pintando nos últimos 3 anos, quase sempre para presentear amigos e parentes. Não conheço nada parecido com suas pinturas, cada qual surgida de algo muito forte das profundezas da sua alma irrequieta, sofrida e despojada de medos. Ela diz que cada qual tem motivações específicas e se realiza com os comentários, feitos a seu pedido, por pessoas da sua confiança.

Mulher disposta, habilidosa e decidida, Sissi escreveu, imprimiu, encadernou, numerou e dedicou os primeiros exemplares. O meu é o de número 7 e a sua dedicatória inclui um trevo de 4 folhas e fios de cabelos sob um selo daqueles antigos, usados para lacrar documentos.

Pelo que está devidamente registrado no seu livro, faremos uma exposição de quadros e colheres em algum lugar dos Açores, bem no início de dezembro de 2025, para comemorar os seus 50 anos em festa animada e concorrida.

Vitória, 18 de abril de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA