Viva o Velho Urso

Viva o Velho Urso

Fui convidado a participar da abertura da Semana de Linguagens na Escola Americana de Vitória, em homenagem a Rubem Braga. Marcelo “Bamba”, músico amigo de Afonso, meu irmão mais velho, veio trazendo pessoalmente o convite e sustentou uma longa conversa na fresca da nossa varanda.

A estratégia pedagógica era pegar os alunos pelas emoções e levá-los a refletir sobre o que um homem bom e íntegro é capaz de realizar. Sempre entendi que a função primordial da escola é formar cidadãos e cidadãs de primeira grandeza, aptos a melhorar o mundo, a começar pelo que esteja ao seu alcance. Para tanto, tio Rubem me parece um ótimo exemplo, por se mover fundamentado em convicções e valores muito bem definidos.

Sugeri que convidassem, também, José Augusto Loureiro, meu colega de Salesiano, que criou e atua numa peça de teatro, na verdade um monólogo, com trechos muito bem escolhidos da vastíssima obra do nosso maior cronista. Fui levando Carol e minhas irmãs Beatriz e Ana Maria.

Para começar, acompanhamos a apresentação dos trabalhos que grupos de alunos fizeram sobre o homenageado, a partir da leitura do livro Crônicas do Espírito Santo. Fiquei com a sensação de que a plateia estaria interessada no que eu tinha preparado pra dizer, ressaltando que Rubem, sem contar Roberto Carlos, é o capixaba mais famoso e admirado no Brasil.

E tratei de lembrar que seu sucesso não foi fruto de estratégias de marketing ou coisa parecida. As explicações de sua fama estão nos seus escritos, que expressam sua maneira de ver o mundo e os valores que fundamentaram suas escolhas e atitudes.

Comecei contando que ele era filho de Chico Braga, um paulista que veio passear em Cachoeiro e por lá ficou. Encantado por Rachel Coelho, conhecida por Neném do Frade, constituiu família. Homem letrado, era pessoa querida e respeitada na cidade, tanto que foi seu primeiro prefeito.

Rubem teve 6 irmãos: Jerônimo, o mais velho, fundou e dirigiu um jornal; Newton, poeta e realizador, inventou a festa da cidade; Armando foi banqueiro; sua irmã Carmosina foi a primeira mulher a guiar carro; Yedda casou-se com um jornalista e foi viver no Rio; Gracinha, a caçula, enviuvou muito cedo de Bolívar de Abreu e criou seus cinco filhos com o apoio dele.

Rubem se movia guiado por referências que foi incorporando durante seus tempos vividos na cidade pequena, entre peladas na rua de paralelepípedos, brincadeiras nos córregos e rios, nas noites com trovoadas, junto ao cajueiro e na sombra do pé de fruta pão do quintal, ao lado do cachorro da família, comendo frutas de época, convivendo com amigos e personagens da cena urbana, incluindo Mané Sapo e Orlando Sapateiro. A casa de seus pais, sempre aberta e movimentada, foi modelo para as suas.

Ele reconhecia o valor do trabalho. Totalmente sem jeito, pagava muito bem a quem fizesse algo pra ele. Suas gordas gorjetas eram famosas. Generoso, gostava de dar presentes. Guloso, tipo esganado, adorava requeijão da Safra, doce de jaca e broa de milho, que comia gemendo.

Lembrei de contar que Rubem saiu de Cachoeiro depois de fincar o pé que não estudaria mais no colégio, porque o professor de matemática o tratou por “seu burro”. Com total apoio do pai, foi morar com contraparentes em Niterói, sempre voltando nas férias. Tenho na conta de que essa passagem foi determinante para que ele se tornasse um cidadão independente e corajoso, livre da influência de poderosos de plantão, fosse por dinheiros, cargos ou patentes. Escrevendo o que pensava, chegou a ser preso pela ditadura de Getúlio Vargas.

Pra finalizar, tomo a liberdade de usar este espaço para dizer que ler Rubem Braga faz bem pra alma e orienta a cabeça. Para tanto, seria interessante que mais gente conhecesse as Coisas boas da vida, a história da Borboleta amarela que voou no centro do Rio de Janeiro, a importância de um Pé de milho num mundo em guerra, a essência e o valor da Cidade e a Roça, as emoções provocadas por um simples Cartão de Paris, soubesse de uma praga antiga em Ai de ti, Copacabana, que imaginasse as belezas dos Retratos Parisienses, reforçasse suas Memórias de infância e muito mais, muito mesmo.

Vitória, 16 de maio de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Abrindo a roda

Abrindo a roda

No começo da semana fui lá na Biblioteca da Praia do Suá para desmontar a instalação que havíamos feito como parte da Roda de Conversa “Fazer bem feito compensa. Tratamos de contar, com máxima atenção, a quantidade de colheres que foram colocadas dentro de um grande expositor, uma espécie de vitrine, em lugar de destaque do saguão do piso superior.

Tínhamos feito uma brincadeira, um desafio, para ver quem conseguia dizer a quantidade de colheres que lá estavam. Rafael, meu filho, usou um aplicativo desses modernos, acessível pelo celular, que permite que as pessoas deem seu palpite clicando num QR code.

A conversa tinha sido muito animada e intensa. Ao todo umas 50 pessoas, entre gente conhecida, de perto e de longe, e outras tantas de carinha amistosa que eu nunca tinha visto. Deu gosto de ver o ambiente que se manteve durante quase duas horas, com perguntas cheias de curiosidades, comentários instigantes e até salvas de palmas aos que se pronunciavam.

O que eu tinha a dizer era fruto da experiência de estar às voltas com os prazeres de produzir, com ferramentas manuais, objetos e utensílios de bambu que podem ser chamados de colheres. Convém lembrar que nem só de fazer vive o homem, mais do que isso, que ele é movido por emoções. Boas, de preferência.

É nesse plano que as melhores coisas acontecem e fazem bem pra saúde. Elas começam a se instalar ao se escolher o que se pretende criar, ao se conseguir avançar na direção pretendida e ao se ver o resultado, pronto e acabado, seja ele uma peça, um quadro, um texto. O que aprendi, na prática, é que o melhor chega quando surgem elogios pelo que foi produzido, sobretudo pelo que foi bem feito, que não tenha defeitos perceptíveis.

Fazer algo que encanta e emociona alguém é condição natural para desdobramentos pretendidos e, porque não, até mesmo alguns impensáveis. Deixando de lado os aspectos relacionados com valor de venda, gosto de me concentrar nas demonstrações de apreço na forma de convites para expor, artigos em revistas e tudo o mais que acontece por obra e graça do que pessoas podem sentir ou pensar diante de uma simples colher.

Para compor o registro emocional e marcar de vez a satisfação dos presentes, menciono aqui que uma artesã de carinha sorridente soltou uma mensagem na rede intitulada “Ainda bem que eu fui”. Trata-se de uma comprovação de que foi muito prazeroso estarmos naquela roda, conversando sobre a vida e o fazer.

Outro desdobramento ocorreu ontem, quando voltei lá, levando um exemplar do meu livro, como prêmio para a bibliotecária, cujo palpite mais se aproximou das 1011 colheres expostas na vitrine. Uma festa, com selfie e tudo, se instalou quando entreguei uma colher grande que fiz para ela e uma bem pequena para a secretária que havia nos ajudado o tempo todo.

Muita gente adora facas e até faz coleção delas. Mas acredito que pouca gente já se deu conta de que adora colheres. Faz tempo, aprendi com um professor alemão de design de joias, dono de uma belíssima coleção delas, que essa atração tem motivações e origens ancestrais: a colher era o primeiro objeto que a criança tomava contato na vida, fosse ela feita com uma folha, uma casca ou um pedaço de madeira. Vai saber…

Além do prazer de fazer as colheres, me surpreendo sempre ao constatar como elas são assunto leve, bom pra abastecer conversas sobre a vida e provocar palavras, gestos e iniciativas de reconhecimento e aprendizado. Fazer bem feito compensa. E muito!

Vitória, 04 de abril de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Contando vantagens

Contando vantagens

Isso de ir ficando velho, tem lá suas vantagens. De alguma forma, elas compensam as reduções progressivas da audição e da potência muscular, e mais um tantão de coisas interessantes que vão deixando de acontecer.

Pois nesses últimos dias, tive oportunidade de reviver ótimas emoções que fui incorporando ao longo da vida, depois do infarto que tive aos 46 anos, em pleno voo de gente que trabalha muito. Por imposição da fraqueza das pernas e braços, na certeza de ter gerado emoções graves em muita gente próxima, me vi na obrigação de mudar, radicalmente, o rumo da minha vida.

Uma boa parte desse processo está registrado no livro “Crônica do meu primeiro infarto” que escrevi em 1995, a partir de um esforço de tentar entender o que havia acontecido antes, durante e depois de entrar e sair de clínicas e hospitais. As lembranças e reflexões foram surgindo durante caminhadas diárias, no ritmo possível, na areia da praia, sempre cortando bambu com minha faquinha. De banho tomado, sentava diante de um computador novinho que havia comprado com muitos dinheiros e que me foi trazido de avião lá do Rio de Janeiro.

Como o mundo dá muitas voltas, esse livro foi lido por um cardiologista que atuava na UTI do Hospital Madre de Deus, em Porto Alegre. Entusiasmado, me convidou para apresentar as emoções sentidas para a diretoria do hospital, interessada em melhorar os serviços e procedimentos. Homem prático que sou, fiz uma lista do que senti, indicando os fatores que as provocaram. A conversa durou uma manhã inteira e, acredito, deve ter produzido bons resultados para os futuros pacientes.

Foi essa lista, com mais de 60 emoções, algumas positivas e outras nem tanto, que apresentei para uma turma de alunos de medicina da UFES, no começo da semana retrasada. Posso garantir que foi uma conversa muito animada e animadora. Pra reforçar a argumentação, lembrei que as emoções do paciente são fatores relevantes para sua saúde e, radicalizei, dizendo que morre-se de raiva, de medo, de tristeza, de susto e muito mais.

Na segunda-feira passada foi a vez de falar, lá na Biblioteca Estadual na Praia do Suá, sobre o meu trabalho com bambu, em sala cheia de gente querida e pessoas que ainda não conhecia. O título da conversa, “Fazer bem feito compensa”, me veio à cabeça ao ver impresso o livro “Viva a Produção Prazerosa”, que escrevi durante a pandemia e gerou muitas alegrias em cinco festas de lançamento.

Os primeiros capítulos tratam do que gira em torno do fazer, incluindo lugar de trabalho, ferramentas, bambus, colheres e processos de produção. Os seguintes, falam sobre a divulgação das colheres e seus desdobramentos, com fotografias, histórias emocionantes sobre encontros, viagens, exposições e oficinas, dentre o que se destaca um belíssimo livro sobre meu ofício de colhereiro, produzido por um renomado fotógrafo alemão para comemorar seus 50 anos de carreira.

Tentei demonstrar por A+B aos participantes que, além de todas as satisfações associadas ao trabalho com as mãos, estão aquelas provocadas pela expressão do encantamento diante do que produzi. Se a produção prazerosa vai desde a excitação que a gene sente ao definir o que pretende fazer até o sentimento de realização que surge ao completar cada etapa do trabalho e do orgulho por ter conseguido fazer algo bonito, simpático ou funcional, ela se completa – e aqui mora a mais espetacular de todas as minhas satisfações – no elogio sincero de pessoas insuspeitas, ao ver o resultado do trabalho.

Esse encantamento tem sido se materializado em matérias de revistas, publicações nas redes, convites para exposições, oficinas e palestras, muitos presentes, incluindo ferramentas, aquarelas, geleias e pedaços de bambu. Diferentes formas de elogios expressam reconhecimento e, mais do que isso, atestam generosidade e, também, uma espécie de agradecimento. Digo isso, porque dá gosto de ver a alegria de uma pessoa, expressa por um gemido agudo e prolongado, ao pegar uma colher nas mãos e alisá-la.

Definitivamente, fazer bem feito compensa!

Vitória, 21.03.2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA”

Fortes emoções 2

Fortes emoções e tentativas

Não é pra me gabar, nem fazer inveja a ninguém, mas devo dizer que esses últimos dias foram tempo de acontecimentos relevantes, que produziram ótimas emoções.

Depois de idas e vindas, foi ao ar uma entrevista que dei para Francisco Grijó, nos estúdios da TV Vitória, sobre os meus livros Crônica do meu primeiro infarto e Viva a produção prazerosa. A nossa conversa, franca e animada, tem produzido comentários bons de ouvir. Entendo que reconhecimento é uma poderosa métrica para aferir e computar os resultados do que foi feito e, para que ele possa acontecer, é indispensável levar o que foi produzido ao conhecimento das pessoas.

Também, recebi muitos comentários safadinhos e declarações de solidariedade ao que escrevi sobre a prova de natação que ganhei, com muito esforço e alguma sagacidade, mas da qual não levei a medalha de ouro por um erro inacreditável. A evolução da competição, nas águas salgadas e oleosas do canal, foi acompanhada da calçada por muita gente, que se esgoelou nos últimos acontecimentos na chegada. Impressiona como o fato ficou na memória de tanta gente.

Falando em natação, experimento, há alguns dias, a sensação de estar rompendo com uma verdade em que acreditei por mais de 30 anos: mesmo que conseguindo andar boas distâncias em ritmo acelerado, tinha em conta, depois de algumas tentativas, de que não mais conseguiria nadar nem uns poucos metros, sem que aparecesse uma forte dor nos peitos. Pois bem, por estímulo de conhecidos que nadam na Praia da Esquerda, resolvi começar a “nadar” parado, de pé e com água no suvaco. Em outras palavras, estou dando braçadas pra frente e pra trás, em ritmo lento, como se nadando a favor de uma correnteza.

Pode parecer bobagem, mas digo, com algum orgulho, que estou conseguindo bons resultados e que em breve vou tentar nadar deitado e batendo os pés, uma atividade que me proporcionou ótimas emoções durante muitos anos. A bem da verdade, sinto uma dose de inveja quando vejo aquele pessoal nadando, como se estivessem se divertindo, em busca de saúde.

No começo da semana recebi convite da direção da Action e da Assespro, entidades que agregam as empresas de software do Estado, para participar de um encontro no início de abril, na FINDES, e beber vinho em comemoração aos resultados alcançados pelo setor em 2024. Fui informado, com toda simpatia, que as lideranças pretendem fazer a homenagem que me fariam no ano passado durante um grande evento, inviabilizado por uma falta de energia na região do Aeroporto. Ao fazer um roteiro de lero-lero de agradecimento, revi muito do que realizamos juntos a partir dos anos de 1990. Digo que me senti um cidadão moderno, apesar da minha vasta incompetência digital.

Na semana passada recebemos filho do meio e nora que aniversariava, que vieram de São Paulo para ajudar a animar as comemorações de uma década de casados que Rodrigo e Ivana Larica lá na Curva da Jurema, com muitos comes e bebes e ao som de um tremendo DJ que me fez lembrar de Jairo Maia e suas “eletrolas mágicas” comandando as festas nos clubes da cidade de antigamente.

No início da semana, recebemos a visita de Alex “Pirata”, uma pessoa muito especial, que vive na Europa faz um bom tempo, que já namorou filha nossa e que nos tem em alta conta. Foram dois dias de muita conversa sobre o que aconteceu e que deixou de acontecer e sobre os planos para aproveitar o que sabe fazer de bom e bonito. O fato de ter consolidado a incorporação de mais um agregado, por livre e espontânea vontade das partes, é animador pra nós, que temos alguns sob as asas e muitos ao lado.

Como se sabe, vivo cortando bambu em busca de uma colher qualquer. Pois bem, no ano passado fui ao Teatro da UFES assistir a uma apresentação de “Sagração”, um maravilhoso e instigante espetáculo de dança, da coreógrafa Débora Colker, de quem sou fã de carteirinha. Em cena, uns 20 bailarinos se movimentando sem parar, sempre empunhando varas de bambu de uns 4 metros e diâmetro de poucos centímetros. Na saída, procurei uma pessoa da produção e pedi que me arranjasse um pedaço daqueles bambus. Ela achou curioso e prometeu tentar conseguir.

Pois bem, no meio desta semana fomos ver a exposição de meu amigo Vilar lá no Palácio Anchieta, como ele bem merece. Estava apinhado de gente conhecida que não via faz muito. De repente, uma moça agitada olha pra mim e exclama algo como “Você é o homem do bambuuuu???” Como era de se esperar, respondi, sem pestanejar, que eu realmente gostava muito de bambu. Ela fez a melhor cara deste mundo e disse que tinha conseguido bambus com o pessoal do balé e que não sabia como me entregar. Combinamos de buscar meus bambus na próxima semana. Pretendo fazer uma colher pra Taty, esse é o nome dela, com aquele bambu cênico.

Pra finalizar, a título de comprovação de nem tudo é só alegria na minha vida, informo para os devidos fins que a manhã de ontem foi inteiramente consumida pela busca de Amora pelas ruas do bairro. A danada evadiu-se sem ao menos avisar e foi pousar no alto de um pé de cajá, lugar praticamente inacessível para quase todos. Após pedidos de socorro ao Corpo de Bombeiros e à Polícia Ambiental, coube a Nélio, meu genro mais forte e corajoso, escalar o tronco, chegar nas grimpas, sempre sob expressões de “cuidado, segura firme, …”, corromper a fujona com queijo branco e, malandramente, envolvê-la com uma toalha de mesa e colocá-la num enorme saco, agora sob palmas dos presentes. Ela vai ficar calma e reclusa no viveiro, sob meus olhares pela janela da cozinha.

Vitória, 20 de março de 2024.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na praia da esquerda

Na praia da esquerda

Vejo muita gente caminhando nas calçadas da orla da cidade, sobretudo pela manhã, sempre de tênis e roupa de academia. Eu prefiro caminhar nas areias na Praia da Esquerda, da Ilha do Boi, em busca de saúde e de alguma distração. Isso, quando estou livre de chuvas matinais, dores musculares eventuais e preguiças sistemáticas. Sempre tem novidades.

Com os anos, aprendi que andar é muito bom pra ficar matutando sobre o que está acontecendo com a gente e, sobretudo, o que estamos pretendendo fazer.

Nesta quarta-feira, cheguei lá cedinho, praticamente junto com o sol, que já nasceu disposto a torrar tudo que estivesse por aqui. A praia estava deserta, com a maré bem baixa e ondas gordas e pesadas, do tipo caixote. A faixa seca de areia grossa era bem larga e plana. A molhada era rampada.

Sem qualquer sinal de vento, o mar estava completamente liso, como bunda de anjo, como se dizia. Espelhado, ele favorece a brincadeira de localizar cardumes, o que prezo muito. A movimentação dos peixes perto da superfície faz o mar tremer, encapelar-se. Foi fácil localizar um de bom tamanho, a menos de 20 metros da beira.

Em praias abertas, é comum ver pescadores observando o mar a partir de um ponto mais alto, para orientar o pessoal que lança as redes de arrasto, visando melhorar os resultados dos lançamentos.

Desde que me entendo, durante os meses de março, grande quantidade de carapaus, peixe pequeno da família dos chicharros, frequenta as águas em torno da Ilha do Frade e das Galheta. Para a felicidade dos pescadores de berés.

Sem usar redes, munidos de varas fininhas e de camarão como isca, marmanjos de todos os tipos praticam, de cima de pedras ou embarcados, uma espécie de pescaria de competição.

Pelo que vejo, pouca gente sabe que a pesca desses peixinhos, valentes que só, pode reforçar amizades antigas e proporcionar lembranças duradouras.

Andando sem pressa e cortando bambu com uma faquinha, localizei uns vinte guruças, caranguejos brancos que habitam a areia da praia. Ariscos, eles ficam ao lado do buraco, atentos à movimentação em volta e tratam de emburacar diante de qualquer ameaça. Eram todos ainda bem pequenos.

Mesmo procurando bastante, não encontrei sinais de corruptos, bichinhos bem estranhos que vivem em buracos feitos na parte da areia só vista na maré vazia. São iscas de primeira, para peixes graúdos.

Já pensando em voltar pra casa, vi de longe um casal chegando. O homem chutava uma bola e a mulher falava ao celular. Ela se sentou em posição de lótus e ele, caminhando na minha direção, puxou assunto. Simpático, aceitou meu convite de ir até a ponta leste da praia, para ver o espetáculo que eu acabara de presenciar: arraias nadando em volta de uma pedra enorme, quase submersa, a menos de 5 metros da gente.

Contei pra ele que na semana passada, andando com Gael, meu neto, tinha avistado duas delas saltando e batendo de barriga na água. Com cara de entendido, disse que elas deviam estar comendo os sururus pequenos, que este ano se apresentam abertos sobre a laje de pedra, coisa que eu nunca tinha visto na vida.

Na verdade, sou um homem experiente em sururu, desses que acompanha o crescimento das conchas e, no verão, arranca os mais graúdos, em lugares estratégicos, pra comer em casa.

Tem quem saiba que foi caminhando na Praia da Esquerda que consegui juntar e organizar ideias e lembranças para escrever dois livros. Pois agora, pretendo me preparar para uma roda de conversa sobre o mais recente deles, com histórias relacionadas às minhas colheres de bambu. Vai ser lá na Biblioteca Estadual, na Praia do Suá.

Vitória, 07 de março de 2024.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Saudade do Caderno Dois

Saudade do Caderno Dois

Dei pra ficar saudosista. Não sei bem as razões, mas tenho me pegado lembrando de fatos corriqueiros da minha vida de morador de cidade pequena. É bem possível que alguém possa dizer que isso é coisa de gente velha.

Tenho lá meus motivos. A título de exemplo, conto que fui assistir um concerto da Camerata Brasil, que tem à frente o grande pianista, arranjador e maestro Marcelo Bratke, na Casa da Música Sônia Cabral. Merecia estar lotado, mas havia muito lugar vazio. Só soube do evento poucas horas antes, por amiga querida.

Posso garantir e até depor em juízo, se necessário for, que o mundo está ficando cada dia mais impróprio aos que foram criados afastados – por impossibilidade ou por gosto – das novidades que chegam e somem das telas num piscar de olho, para dar lugar a outras similares.

Confesso-me sem paciência com esse bombardeio de notícias e ofertas que me chegam pela internet, de “se-amostragem” individual ou de pequenos grupos, de chamamentos trepidantes ou sedutores para participar de eventos, comprar produtos e serviços. Isso, sem falar naquele monte de lixo eletrônico que pessoas que pouco produzem de bom e bonito, enviam para deus e o mundo. Sem querer tripudiar, acho que isso já virou modo de vida pra gente desocupada.

Até acredito que esse afastamento progressivo das telas pode ter consequências ruins, mas estou, a cada dia, mais saudoso dos Cadernos Dois, B e afins dos jornais impressos. Eles nos informavam, de modo organizado, em notas e matérias, o que estava acontecendo nos cinemas, teatros, galerias, bares, livrarias, e mais onde fossem mostrados resultados de processos de criação individuais e coletivos.

Com eles, os jornais ofereciam aos leitores, em poucas páginas e colunas, um panorama sobre o que estava rolando na cidade e, mais importante, o que iria rolar, fundamental para que pudéssemos nos programar para sentir emoções diante das belezas criadas, das ousadias próprias dos inquietos, das tiradas inteligentes, dos exercícios da liberdade. Passar um olho em cada página e ir aos detalhes do que interessasse era condição para se exercer o poder da escolha, inerente aos homens livres e de boa vontade.

É bem verdade que existem sites, inclusive de jornais digitais, que oferecem informações relevantes, embora com dificuldade de serem encontradas. Até bem pouco tempo isso era feito com o jornal aberto, na mesa do café da manhã. Um hábito prazeroso que celulares e computadores jamais serão capazes de oferecer.

Dito tudo isso, com as melhores intenções, acho que esteja chegando a hora para que alguém se disponha a preencher essa lacuna, criando e fazendo funcionar um site que reúna informações e dicas das mais diversas fontes sobre iniciativas e eventos que estejam acontecendo e, mais relevante, que estejam por acontecer na cena cultural na cidade.

Vitória, 22 de fevereiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá se vai nosso trunfo

Lá se vai nosso trunfo

No começo da semana recebi uma notícia desanimadora, frustrante, incompatível com o que entendo como decisão portadora de futuros promissores. Pra falar a verdade, ela me pegou de calça curta.

Gosto de pensar que as conquistas são determinadas por iniciativas e providências capazes de alterar o andamento, a direção e a intensidade dos processos em vigor, impondo mudanças de entendimentos e valores, criando fatos que possam produzir felicidades, convergências de interesses, coesões improváveis, possibilidades de ganhos para muitos.

Pois a tal notícia, fruto de decisões de uns poucos e, por certo, do respaldo de pessoas físicas e jurídicas, vem na contramão do interesse geral, destituída de compromisso com processos vitais para o setor de extração, beneficiamento e comercialização de rochas ornamentais, estratégico para a economia do Espírito Santo.

Digo isso com a maior convicção. Explico: nos idos de 1988, atuando no BANDES, sob a direção de Odilon Borges, participei de um movimento de modernização de setores tradicionais da economia capixaba.

Tenho satisfação de constatar que aquela iniciativa produziu resultados fantásticos para os setores de mármore e granito, de metal mecânica, de confecções, de produção de mamão e de café de qualidade.

Naquela época, os olhos e as expectativas estavam inteiramente direcionadas para os chamados grandes projetos, geradores de oportunidades para muita gente, embora responsáveis por lançar, em grandes quantidades, particulados poluentes para a população da Grande Vitória.

Cachoeirense descarado, fundamentado na metodologia de promoção de desenvolvimento setorial que vim trazendo do CNPq, em Brasília, e, sobretudo, apoiado por muitos empresários entusiasmados, criamos o CETEMAG para se dedicar à modernização das condições de produção, gerenciamento e comercialização de mármores e granitos.

A Feira de Cachoeiro, criada em novembro de 1989, sob nossa iniciativa, é marco decisivo de um movimento vigoroso, autêntico e coeso que foi colocado em marcha. A decisão de criar um evento desses num lugar aparentemente improvável, foi motivada pela notícia da realização de uma feira similar em São Paulo, no início de 1990.

A correria foi grande e os improvisos muitos, mas a satisfação geral foi muito mais expressiva do que os contratempos, incluindo a instalação dos estandes em baias de grandes animais e a queda de energia durante a solenidade de abertura.

A proposta de criar uma Feira em Vitória não contou, de imediato, com a minha aprovação. “Acabar com a de Cachoeiro, só por cima de meu cadáver”, teria dito em voz alta, para quem quisesse ouvir. Gosto de pensar que prevaleceu o bom senso de orientar uma para dentro do setor e a nova, na capital, para o mercado externo. Deu super certo.

A decisão de acabar com a Feira de Vitória e abrir uma similar em São Paulo, me fez pensar, com total ironia, que deveriam experimentar levar a tradicional Feira de Verona, cidade menor do que Cachoeiro, para Milão ou Roma, onde as oportunidades de negócio podem ser mais expressivas.

Deixo registrado aqui a minha inquietude com tal decisão e faço um chamamento às autoridades constituídas e às lideranças da indústria capixaba dos mármores e granitos em favor do bom senso e dos interesses locais.

Como a feira é um trunfo estratégico pros negócios de muitos, vai ser difícil explicar pros netos que ela acabou por mero desaviso e omissão de muitos.

Vitória, 08 de fevereiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Anna Graça, nossa Gracinha

Anna Graça, nossa Gracinha

Hoje, 25 de janeiro de 2024, minha mãe estaria completando 102 anos de idade. O nome dela era Anna Graça, mas era conhecida como Gracinha. Para muito além de esposa de Bolivar de Abreu, homem animadíssimo, competente e de muitas realizações, foi mãe entusiasmada e carinhosa de cinco filhos, sogra adorada, avó amorosa de 16 netos. Seria, hoje, bisavó de 17.

Filha de Chico Braga, um paulista que veio passear em Cachoeiro e se encantou com Rachel Coelho, conhecida por Neném do Frade. Vovô, homem letrado e muito respeitado, foi designado tabelião e pouco depois, nomeado primeiro prefeito de Cachoeiro.

Mamãe era a filha caçula de uma penca de seis, 23 anos mais nova do que o irmão mais velho. Tinha lembranças dos seus tempos de infância, inclusive a da viagem de trem até Marataízes, para ver o Zepelim passar. Uma fotografia comprova que sua irmã mais velha, Carmosina, dirigia um fordeco 29, conversível, levando as irmãs no banco de trás, com mamãe segurando uma bolsinha.

Era irmã de um banqueiro, que nos presenteava com notas novinhas, de um jornalista que fundou um jornal na cidade, da primeira mulher a dirigir carro, de um poeta de mão cheia que organizava carnaval e que inventou o dia de Cachoeiro, de uma irmã que foi se aventurar no Rio de Janeiro e de um cronista que nunca deixou de lado a alma de menino do interior.

Pessoa de muito bom humor, adorava contar histórias do tempo de mocinha, quando começou a namorar firme. Deixou uma grande quantidade de cartas que escrevia para papai, estudando medicina no Rio de Janeiro, como era usual.

Disposta e corajosa, grávida, em 1955 passou a mão nos quatro filhos pequenos e foi-se para La Paz, na Bolívia, para encontrar o marido que lá estava a serviço da Organização Mundial de Saúde. Tempos depois, foram viver em Bogotá, onde a altitude era menos prejudicial pra ele.

Com a viuvez prematura e o valor da pensão bem pequeno, Dona Gracinha respirou fundo e começou a trabalhar fora. Tio Rubem passou a enviar dinheiro mensalmente e mandou um carro pra que eu e Afonso, com 15 e 16 anos, a levássemos e buscássemos no Centro da cidade. Ciumento, ele dizia aos potenciais interessados na irmã: “É bom saber que os filhos dela estão em fase de crescimento e comem muito”.

Pessoa tranquila, confiante e afável, foi vizinha querida e prestativa. Mãe de músico, nossa casa abrigou por anos Os Mamíferos, grupo de rock da pesada. Mãe de nadador, torcia na borda da piscina e na mureta da Avenida Beira-mar. Mãe coruja de formandos, dançou muitas valsas. Mãe de duas mocinhas, jamais impôs limites e estabeleceu condicionantes. Nunca reclamou de falta de dinheiro e adorava entrar num ônibus para viajar.

Com os filhos criados, inventou de estudar pintura. Tanto aprendeu que as nossas casas têm vários quadros dela nas paredes. Tenho uma vista da Lagoa do Siri e um quadrinho muito bonito de vaso com rosas de cores suaves, que vejo todas as manhãs, ao me sentar pra tomar café.

Nesta sexta, a casa estará cheia para comemorar os 40 anos de Diana, nossa caçula, que ameaçou nascer exatamente no dia de aniversário da avó. Ao saber da possível coincidência, voou às pressas pra Brasília para acompanhar a chegada da neta, que só veio à luz no dia 26.

Quando fez 89 anos, fizemos um livrinho sobre ela, com as histórias que gostava de contar, com informações sobre a evolução da família dela, anotadas em um caderninho de estimação, declarações de amor de todos nós, fotografias das suas pinturas e desenhos dos móveis que trouxe da nossa casa de Cachoeiro e que pra lá retornaram para recompor o ambiente em que viveu.

Pois é exatamente esse livrinho que Carol sugeriu que Alice e Gael, seus bisnetos, conhecessem hoje, deixando de lado as telas da TV, dos celulares e do netbook.

Vitória, 25 de janeiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tombo de menino

Tombo de menino

Antigamente, queda de menino era assunto corrente das conversas de vizinhas, no portão. Pois, recentemente, foi pauta relevante de amigas de Carol, via internet.

O tombo aconteceu num dia de casa cheia de filhos de parentes e amigos que, barulhentos e agitados, brincavam de pique-esconde, aproveitando todos os espaços das varandas e do quintal.

– Minhas queridas, hoje passamos por um grande susto: o afilhado de Diana e Nélio, de 8 anos, subiu na goiabeira pra se esconder e caiu do galho. Abriu o queixo no concreto do canteiro. Salvou todos os dentes, mas abriu um talho feio.

– Nossa, Carol, que susto! Essa região sangra muito. Ainda bem que não perdeu dentes!

– Pois é, os padrinhos, mesmo desolados com o acidente, foram rápidos no socorro. Foi atendido numa boa emergência pediátrica. Pontos internos e externos. Não conseguimos saber quantos.

– A mensagem da mãe dele ajudou muito a nos consolar: ‘Não têm que se desculpar. Isso acontece e vocês são maravilhosos. Acalme o coração de todos, porque sei que fica o susto. Ele está bem, ganhou história pra contar e perdeu o título de menino de apartamento. E simmmm, podem repetir o convite. Ele está só esperando a próxima oportunidade. ”

– Que graça!

– Super gentis!

– Uma queda bem perigosa, né?

– Meu irmão caiu de um flamboyant quando era pequeno e, felizmente, não aconteceu nada grave, mas bateu a cabeça no chão e fez um som que me lembro até hoje. A criançada ficou em choque.

– Nossa, Carol, que susto!

– Que graça e que tranquilidade da mãe em encarar o fato.

– Muita confiança nos padrinhos.

– Que bom que preservou os dentes. Férias inesquecíveis!

– Nosso Tom Tom, de 6 anos, que viu a queda, chorou convulsivamente. Yarinha, de 2, também.

– O moleque foi avisado pra não subir porque nunca tinha feito isso, mas quem segura? Uma piscada, uma queda!

– Os pais certamente têm uma grande amizade pelos compadres e uma vivência de infância que os torna mais compreensivos. Enfim, o anjo da guarda trabalhou direitinho.

– Confiança me parece ser o sentimento mais forte, no caso.

– Acho que vai virar crônica!

– Também acho, querida.

– Imagino o susto. Fico feliz em saber que está tudo bem.

– Carol, lembrei de um primo do Rio, que era hiper agitado, e chegava na minha casa já se machucando. Abriu a porta do carro, correu pra pegar a bicicleta, caiu e abriu um corte grande na panturrilha. Pronto socorro na hora.

– Infância livre produz muitas histórias desse tipo. Álvaro lembrou de Rafael chegando em casa coberto de barro e sangue depois de derrapar na pista de bicicross lá em Brasília.

– Enfim, são todos sobreviventes!

– Meu filho se ralou todo nas pedras das Andorinhas, ao lado da Ilha do Frade, depois de me desobedecer e ir pular daquele pedrão. Quase me mata de susto. Tem cicatrizes no peito, no abdômen e no joelho, onde abriu um talho e levou uma cerzida. Haja coração!

– Meu irmão caiu de bicicleta numa ladeira e ficou uma semana na cama todo ralado. – – Ninguém usava capacete.

– O meu, era terrível. Se arrebentava todo. Até cair em fogueira de São João, ele conseguiu!

– Tenho pouca história de machucados, mas quando acontecia, passava um merthiolate e voltava pra brincadeira.

– Li as nossas mensagens pra Álvaro e ele disse que a crônica tá pronta, rsrsrs. Pediu nossos textos…

– Autorizado!

– Nosso papo, até agora, vai dar umas 3 crônicas. Kkkk!

– Que dia movimentado, Carol !!!!

– Adorei os pais do moleque e estou doida pra ler a crônica.

Vitória, 12 de janeiro de 2024

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viajar é viver

Viajar é viver

Nesses últimos 30 dias estive com Carol em São Paulo, Fortaleza e Brasília.

Fomos a São Paulo para rever filhos e netos, com direito a dengos, comida gostosa, muitas risadas e, porque não, algumas ações de regulagem amistosa em adolescentes distraídos.

A Fortaleza, para palestrar sobre o que andei fazendo, há 30 anos, em favor da indústria capixaba de rochas ornamentais. O convite era para ajudar a pensar o desenvolvimento das atividades de extração, beneficiamento e comercialização daqui por diante. Foi ótimo pra ativar emoções novas e reativar outras tantas, já embranquecidas pelas décadas.

Adorei rever Fortaleza, que me surpreendeu positivamente, a começar pelo Centro de Eventos, uma obra gigantesca, com capacidade de sediar, com conforto, várias feiras simultâneas, com estacionamento coberto pra uns 4000 carros.

Fomos visitar a UNIFOR, que comemora seus 50 anos com uma magnífica exposição de pinturas de primeira grandeza e uma outra, enorme, de obras de artistas locais. Seu campus oferece instalações propícias ao bem-estar e à circulação, pela sombra, em jardins bem cuidados.

Por recomendação, feita com orgulho, por ser o melhor da América do Sul, conhecemos o Museu de Fotografia, ao lado de alunos atentos às explicações de monitores sobre a história das técnicas e das imagens expressivas que lá estão.

Visitamos também uma retrospectiva que esmiúça a vasta e diversificada produção de Antônio Bandeira, artista cearense que morreu muito novo. Fiquei pensando no mérito de um esforço como aquele, capaz de mostrar pra muitos o tanto que um homem foi capaz de fazer em tão curto tempo e pouquíssimos recursos.

Logo em seguida, viajamos pra Brasília, para reabastecer amizades e assistir Paul McCartney no Mané Garrincha, tipo de programa que nunca pensei em fazer, por não ser chegado a aglomerações. A previsão era de que ele, nos seus 81 anos, tocaria e cantaria por 3 horas seguidas. Malandro experiente, ciente de que minhas pernas já não são de atleta, achei por bem comprar um banquinho retrátil. Ao me verem sentado, teve quem achasse graça e, sobretudo, quem ficasse de olho grande, despistando.

No dia seguinte, passei horas na banca da Bebel Books, na Feira Motim, no Museu da República, autografando livros, com cara de colhereiro-escritor, incluindo ex-colegas do CNPq e do MEC, passados 30 e 40 anos, respectivamente.

Por sugestão do meu querido professor Itiro Iida, fomos visitar o Galpão do Bambu, nos arredores da cidade, criado e mantido por Poema, dançarina acrobática que se dedica aos bambus desde o plantio, tratamento e corte até seu uso em espetáculos e em oficinas que ministra.

Como se não bastasse, acabo de receber convite para dar palestra e oficina sobre fazer colher lá em João Pessoa, onde moramos durante 4 anos e de onde trouxemos duas filhas paraibanas convictas.

Vitória, 07 de dezembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA