O pó nosso de cada dia

O pó nosso de cada dia

No começo da semana, li, neste jornal, uma matéria bem completa sobre a situação dos sistemas de controle da poluição atmosférica da Grande Vitória. Gráficos apresentados demonstram que a “Eficiência de todas as estações caiu a zero em cinco anos”. Parece exagero, mas é o que a repórter constatou. Se vivo, o Padre Conselheiro dos meus tempos de aluno do Salesiano diria em alto e bom som: “Vergonheira, sô!”

O bem-aventurado vento nordeste, sobretudo em tempos de ondas de calor insuportáveis, tem soprado na mesma intensidade das rajadas que a gente enfrentava, fazendo força e achando bom, nas regatas de snipes na Taça da Cidade de Vitória, nos setembros da vida de rapaz. Só que, desde os anos 1980, continua trazendo a sujeira da Ponta do Tubarão pra cá.

Pois na noite de segunda feira, recebemos a visita de amigos queridos. Achamos por bem aproveitar a fresca da varanda, lugar próprio para colocar em dia as conversas e as emoções de provar o queijo e a cachaça que trouxeram de Teófilo Otoni.

Depois de passar vergonha, pedi licença pra limpar cadeiras e o tampo da mesa esfregando tudo em três rodadas de pano úmido. Na primeira, o preto do pó se apresentou pleno, convicto, senhor poderoso da situação. A sujeira descarada era tanta e tão consistente, que dava a impressão de ser algo normal e aceito. No passado, dava orgulho a alguns desavisados.

Como viajamos na semana passada, o carro passou bem uns 5 dias ao relento, em frente de casa. Sua lataria escura estava coberta por uma camada espessa e meio peguenta de sujeira formada pelo pó que, depois de sair das pilhas de minério e das chaminés, ganha a maresia das águas e vem se instalar nas superfícies, nas gretas e nos pulmões.

Vida que segue, na segunda-feira fui com Carol buscar Yara, neta caçula, na creche. Pois a danadinha, muito atenta, nem bem entrou no banco de trás e foi logo dizendo que queria ir lavar o carro no posto, um programa infantil sensacional, que experimentou há pouco tempo.

Ela tinha adorado ficar dentro do carro vendo o homem jogar um jato de água fortíssimo na lataria e nos vidros, fazendo barulho. Espantada no começo, logo, logo se entusiasmou ao ver o jato de espuma de sabão ir cobrindo rapidamente o que estivesse fora do carro, inclusive o rapaz que apontava o bico da mangueira pra ela.

Antes mesmo da espuma escorrer totalmente pelos vidros, foi a vez de ver um pedaço grande de esponja sendo esfregado em círculos e riscos, deixando limpo por onde passava. Ela acompanhou com atenção o rapaz esfregar, com movimentos rápidos e certeiros, todas as janelas, o capô e partes da lataria. Terminado esse serviço, ela levou um baita susto quando surgiu novamente aquele jato d’água fortíssimo, que deixava tudo livre de sujeira e da espuma de sabão.

Quando o cenário externo voltou ao normal, a danada da menina fez biquinho de não gostou e carinha de quero mais. Avô esperto, tratei de dizer pra ela que lá em casa tinha mexerica azedinha esperando por nós.

Vitória, 16 de novembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nem tudo são flores

Nem tudo são flores

A história do nascimento de dois sabiás no quintal é coisa para se guardar e para contar. Bastava me aproximar do ninho que os pais apareciam. O macho se mantinha mais afastado e a fêmea, sempre em guarda, controlava bem de perto meus movimentos, meio que querendo avaliar minhas intenções ao colocar comida num vaso ao lado.

Volta e meia ela dava um rasante sobre minha cabeça, como que dizendo pra manter distância dos filhotes. Foram tantos os rasantes que fiquei com a impressão de que ela estava me fazendo festa e resolvi incluir no cardápio, mamão e ração de arara, além das pitangas.

Foram uns cinco dias nessa mesma toada, com os sabiazinhos crescendo, ganhando penas e sempre abrindo a boca amarela quando a mãe chegava com comida na ponta do bico.

Na semana passada, ao chegar na varanda para a inspeção matinal de rotina, percebi que algo anormal havia acontecido, tamanha era a gritaria dos sabiás. Eram gritos de desespero, como que me pedindo providências para algo terrível que tinha acontecido.

Custei a acreditar, mas o ninho estava vazio. Homem experiente, passei os olhos na vegetação em torno do pé de romã, em busca dos filhotes. Nada de nada. Como eles ainda não conseguiriam sair dali voando, imediatamente me lembrei do gavião que sobrevoa o bairro em busca de comida fresca. Por instinto, Amora sempre grita ao vê-lo passar lá no alto.

Foram 4 dias de desassossego dos sabiás e dos humanos que frequentam a casa. Isso, até eu avistar, pela janela do quarto, um filhote pousado no talo de uma folha de um dos mamoeiros, talvez atraído pela cor vibrante de um mamão madurinho. Logo avistei a mãe, agora tranquila, observando a cena do alto de um galho da goiabeira.

Digo aqui que as minhas perdas recentes foram para muito além de um filhote de passarinho que mal conheci. É que perdi, em poucos dias, muita gente com quem muito convivi em diferentes fases da minha vida, incluindo: um amigo de infância, o moleque mais levado de Cachoeiro; um ex-contemporâneo de Escola Politécnica que produziu estudos que fundamentaram investimentos relevantes no estado; um simpático empresário do ramo de padaria, que apoiou o que pretendi fazer quando voltei pra Vitória e levei um susto ao saber da morte da esposa de um amigo visionário que modernizou setores tradicionais da nossa economia. Perdi também um amigo de longa data que se dedicava a publicar livros sobre personagens e lugares relevantes do Espírito Santo. Como se tantas perdas não bastassem, dia desses perdi o sorriso de uma querida senhora que viveu mais de cem anos em paz com o mundo.

A notícia boa é que fizemos a primeira colheita de mamão papaia no nosso quintal. Dois já bem madurinhos e outro, maior, ainda de vez. Com a produção caseira, além de satisfação garantida, pretendo economizar alguns reais no café da manhã. Isso porque mamão praticamente dobrou de preço nos últimos meses, talvez porque os de Linhares devem estar sendo exportados a preços elevados. Os do tipo formosa que tenho comprado vêm com selo informando que foram produzidos no Vale do Rio São Francisco, lá pelas bandas de Pernambuco.

Vitória, 18 de outubro de 2023

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu

Novos moradores

Novos moradores

Na semana passada não consegui fazer a crônica que deveria entregar na quinta-feira. Falaria sobre a trigésima edição do Vitória Cine Vídeo, uma expressão da convicção de um pequeno grupo de pessoas, sobretudo de Lúcia Caus, de realizar algo relevante pra vida da cidade.

Falaria também das vacas coloridas que estão por todo lado, criando impactos variados, inclusive nos mais distraídos e em alguns de alma mais dura. Inusitadas e instigantes, bonitas e esquisitas, expressam que é possível concretizar uma ideia fora do quadrado.

O Festival deve ter deixado saudades em muita gente e as vaquinhas estão incorporadas às paisagens urbanas, em praças e calçadas.

A danação ficou por conta das reações provocadas por duas vacinas, que fizeram de mim uma espécie de vara verde, daquelas que tremem, um senhor destituído da capacidade de produzir frases dotadas de nexo e de alguma graça, indispensáveis aos textos leves e despretensiosos.

Ainda bem zonzo, tive a grata surpresa de constatar que, finalmente, nasceram os dois tão aguardados filhotes de sabiá da praia. Vistos de longe, entre as folhas, eles ainda estão bem feios. Praticamente pelados, literalmente esgoelados, abrem um bico amarelo enorme, à espera de comida.

O ninho foi feito com galhos bem fininhos, num dos vasos de orquídea dependurados no pé de romã, bem na altura dos olhos de quem se aventure a subir na ponta dos pés para inspecionar a cena.

Não é pra me gabar, mas é bom que se saiba que a escolha daquele lugar foi feita, livremente, pelo casal de sabiás que frequenta nossa casa faz tempo. Entendo ser uma demonstração de amizade e confiança nos moradores, expressando a certeza de que suas crias serão bem tratadas e terão comida farta e saudável.

Sob a supervisão severa da mãe, venho colocando, no vaso ao lado, punhados de pitangas colhidas na hora para, depois de mastigadas, serem levadas aos filhotes. Não sobra uma.

É bom que se saiba que guardo uma foto antiga em que estou lendo o jornal aberto, sentado ao lado de uma mesa, onde um parente desse casal se refestela com um pedaço de mamão que, malandramente, eu havia colocado ali. Mais relevante do que isso, tem um vídeo, feito por Diana, nossa caçula, de uma sabiá que voa da mesa da varanda para o chapéu que estou usando enquanto caminho com cara de cidadão plenamente realizado. Com a maior tranquilidade, ela vai dando bicadas no mamão vermelho que eu tinha posto ali, sob sua observação atenta.

Por essas e outras, tenho a impressão de que, em breve, as duas sabiás almoçarão diariamente conosco, na ponta mesa da sala, no lado da varanda. Só espero que nossa querida Amora não sinta ciúmes exagerados dos novos frequentadores do lar.

Vitória, 28 de setembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sobre uma cidade que já foi presépio

Sobre uma cidade que já foi presépio

8 de Setembro, dia de Vitória, é data de festejar as coisas boas que a cidade oferece para quem transita por suas avenidas, ruas, calçadas e escadarias, frequenta suas casas e seus edifícios, a cada dia mais altos, se vale de seus hospitais, clínicas e postos de saúde para garantir forças, belezas e sorrisos; para quem faz compras em lojas, supermercados, mercados, peixarias e biroscas, utiliza seus restaurantes por praticidade e diversão, frequenta seus bares, pra beber umas geladas e conversar com amigos; para quem se vale de creches, escolas, faculdades e pós-graduações de qualidades reconhecidas; os que, por exercício ou prazer, saem pedalando bicicletas próprias ou alugadas por ciclovias de quilômetros, frequentam as academias de cada quarteirão, preferem caminhar nas suas alçadas com passadas cuidadosas, correr em marcha leve, ou em velocidade atlética, quase sempre atento e convicto; para quem se distrai em praças, parques e praias bem cuidadas; para os que gostam de estar em contato direto com o mar, nadando, pescando, mergulhando, velejando, remando e os que também gostam de ficar vendo a lua nascer no leste e de contemplar navios passando, imponentes.

Tenho visto na imprensa que Vitória vem se destacando como uma das melhores cidades do país para investir, empreender, trabalhar e viver. Na semana passada, li que ela é a terceira na lista das cidades mais bem varridas do país, o que me leva a pedir uma salva de palmas aos nossos garis de todos os dias, estendida ao pessoal que cuida dos jardins, da limpeza das praias e demais prestadores de serviços urbanos.

Se isso não bastasse, além da inauguração do aquaviário que facilitará a vida de muita gente e reforçará o turismo, vale incluir nas comemorações dois de fatos relevantes para os que detestam ver o dinheiro público sendo consumido pelo descaso de autoridades: a recuperação dos armazéns do Porto de Vitória e a retomada das obras do Cais das Artes.

Nutro a expectativa de ver o Centro da cidade revigorado e palpitante, livre das expressões de decadência e abandono, de lugar inservível e perigoso. Pelo que soube, alguns dos galpões, cujas fachadas compõem uma cena urbana deprimente, serão ocupados com instalações de lazer e cultura, dotados de fácil acesso e estacionamento.

Como as inaugurações do museu e do teatro devem demorar uns dois anos, seria interessante utilizar as áreas externas já cobertas e os terrenos livres de seus entornos para realizar eventos variados. Seria uma maneira de tentar incorporar, progressivamente, aquele endereço como um trunfo a mais da cidade. Ajudaria a reverter a sensação de inutilidade agressiva daqueles caixotes de concreto, que martela na cabeça de muita gente.

Vitória, 07 de setembro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Fluminense e alunos do Fund╞o

Fluminense e alunos do Fundão

Tomei um voo pro Rio de Janeiro para celebrar os 50 anos de formatura da primeira turma de Engenharia de Produção da UFRJ, para qual dei aulas em 1972. Ao lado de outros dois colegas do mestrado e de Itiro Iida, um professor trazido de São Paulo, ficamos responsáveis por 4 disciplinas, tendo que preparar apostilas e materiais didáticos.

Uma trabalheira danada, um aprendizado forçado e gratificante, que tenho na conta de ter sido uma das coisas mais interessantes que fiz na vida. Celebrar junto com aqueles alunos, agora senhores de cabeça branca, era mais do que um direito.

Antes de embarcar, tomando um café com pão de queijo, notei que quatro homens vestindo camisa do Fluminense conversavam animadamente na mesa ao lado. Bateu uma inveja boa, de ver amigos fazendo programa juntos, como acontecia nos tempos de pescarias. Dali, vi torcedores na fila de embarque que ocupariam, talvez, uma metade das poltronas do avião.

Já embarcados, tricolor que sou, puxei assunto com o que estava ao meu lado e fiquei sabendo que haveria jogo importante no Maracanã. Mais: que existe uma loja do nosso time, num shopping, que vendeu mais de 740 ingressos e reservou hotéis. Tudo com desconto para associados.

A conversa seguiu animada a viagem inteira. Contei que nos idos dos anos 60/70, existia em Vitória uma movimentação similar de torcedores, conhecidos por “Malandros de Decisão”, que tomavam seus assentos num ônibus da Itapemirim por volta das 23 horas, com destino à Rodoviária Novo Rio.

Com cara de passageiros mal dormidos, pegavam um taxi até a Avenida Copacabana, onde compravam as entradas pro jogo numa lojinha no Mercadinho Azul, perto da Rua Santa Clara.

De lá, saiam caminhando até algum bar nas calçadas de Ipanema, pra ver os brotos passando a caminho das areias da praia. Tendo tomado umas tantas cervejas, almoçavam por ali e iam pro estádio com antecedência, para garantir bons lugares na torcida.

Terminado o jogo, voltavam de taxi para Zona Sul, agora para as rodadas de cerveja de comemoração ou de desgosto. Comiam alguma coisa consistente e tomavam mais um taxi, agora para a Rodoviária, pra começar a viagem de umas 9 horas de volta pra Vitória. Isso se o trecho de Morro do Coco, perto da divisa, o único ainda sem asfalto, estivesse dando passagem. Dizia-se que o atoleiro que existia ali era argumento estratégico para a empresa de Cachoeiro manter a exclusividade na exploração do trecho Rio-Vitória.

Como o mundo é mesmo pequeno, conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que o companheiro de viagem era sobrinho do meu querido Professor Ferrari, na Escola Politécnica, um dos que me estimularam a fazer o mestrado na COPPE/UFRJ, exatamente o meu destino naquela manhã.

Em terra, entusiasmado, tirou uma foto nossa e despachou pro tio, acompanhada de um áudio vibrante ao celular. Na volta, vim trazendo emoções do reencontro com meu ex-alunos sorridentes e satisfação de saber da vitória do meu time.

Vitória, 10 de agosto de 2023.

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu

No Mercado da Vila Rubim

No Mercado da Vila Rubim

Não sei de pessoas conhecidas, além do meu cunhado Astrogildo, que tenham o hábito de frequentar o Mercado da Vila Rubim e seus arredores. Mas posso garantir que sei o que estão perdendo, seja pela animação das calçadas, seja pela variedade de produtos oferecidos em lojas, vendas e bancas ou pela cara de satisfação de seus donos e vendedores.

Faz tempo que compro lá comida para as minhas araras canindé: primeiro pra Aurora, a que trouxe de Brasília nos idos de 1980/90 e que passeava em cima dos muros da nossa casa, até o dia em que sumiu; agora, pra Amora, que ganhei de presente dos filhos e amigos quando fiz 70 anos.

É bem verdade que boa parte das emoções ocorrem, em parte, pelo contraste com a decadência surda e progressiva, percebida por quem passa pelas avenidas do Centro da Cidade, repletas de portas de aço arriadas, sem indicação de recuperação da vitalidade de outros tempos.

Pois ontem foi dia de ir lá fazer compras, ainda que com pressa, pra não atrasar o almoço. Antes de mais nada, adorei ver que acabaram com a calçada inútil que separava as pistas na reta de chegada ao mercado. Ficou fácil estacionar pra comprar jujuba e, sobretudo, balinha de coco Itabira, que me oferece sabor de infância em Cachoeiro.

Pra começar, compramos um bom tanto de carne num açougue movimentadíssimo, onde a falação é animada e os preços são compensadores. Trouxe também um pouco de chouriço de porco, produzido por uma empresa de renome, que já provei e aprovei com louvor.

Aproveitei pra arranjar outro pote de gel de arnica com sebo de carneiro, um poderoso remédio pra dores lombares, torcicolos, pancadas na panturrilha e muito mais. O que havia comprado antes foi levado pra São Paulo. Na mesma lojinha, comprei uma daquelas vassouras feitas com palha durinha bem amarrada, ideal para varrer jardim, e confirmei que as peneiras perderam qualidade, talvez pela pressa dos descendentes dos que as faziam com todo capricho.

Desta vez não deu tempo pra ir na peixaria, onde gosto de comprar sarda na banca do vendedor que nem sempre concorda em me vender as que estão na pedra. Em retribuição a tal atitude, e por limpar peixe com todo cuidado, lhe dei um exemplar do meu livro das colheres. Na vez seguinte ele me perguntou, já sabendo a resposta, se o nome de mamãe era Gracinha, e foi logo dizendo que sua esposa era quem cortava os cabelos dela. Foi uma maneira emocionante de confirmar que o mundo é bem pequeno.

Também não entramos na nossa loja preferida de produtos a granel, onde freguês indica o tipo e a quantidade do que quer levar, e o vendedor, do outro lado do balcão, sempre pergunta se quer provar o que está comprando. Algo quase impossível de acontecer nos supermercados. Em compensação, não deixamos de trazer um queijo pasteurizado e um outro daqueles que dizem ter cheiro de curral, o que prefiro.

Na volta, me lembrei dos meus tempos de estagiário, exercendo funções de desenhista, no antigo Departamento de Obras do Estado, quando me coube desenhar as plantas dos prédios que seriam construídos naquele lugar e que, décadas depois, foram destruídos por um incêndio devastador.

Vitória, 27 de julho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viagem a Cachoeiro

Viagens a Cachoeiro

Tenho ido muito pouco à minha terra natal. Este ano estive lá em janeiro, para uma consulta médica, e em outubro passado para o lançamento do meu livro sobre as colheres, no Cervejiiinha, onde se pode apreciar de pertinho as águas mansas do rio Itapemirim.

Teve um tempo, na virada da década de noventa, que ia lá quase toda semana, sempre com Luiz Henrique Toniato. Aprendi que boleia de camionete rodando em estrada vazia é lugar próprio para conversar com calma e gargalhar de bobagens. Nas idas, debatíamos possibilidades e urgências; nas voltas, quase sempre à noite, avaliações eram assunto predileto. Sanduíches de pernil ou pastéis com caldo de cana, em Iconha, acalmavam eventuais fomes no percurso.

Estávamos às voltas com um belíssimo trabalho coletivo em favor da modernização das condições de operação das empresas de mármore e granito, para que produzissem mais rápido e melhor. A primeira Feira de Mármore e Granito de Cachoeiro foi uma espécie de atestado de ousadia e de determinação de muitos, um verdadeiro marco na transformação de valores e de atitudes correntes em favor de um futuro preferível.

Pois foi exatamente nela que fiquei pensando enquanto ia pregando fita adesiva em uma centena de colheres, para Carol usar na montagem da composição que ela criou para mostrar na segunda edição da Feira de Engenharia, Arquitetura e Design.

Nosso stand estava localizado, por generosidade dos organizadores, bem na entrada do pavilhão principal. Por ali passaram visitantes ávidos por novidades, gente conhecida de épocas passadas, algumas pessoas que se emocionam diante de colheres, além de muitos estudantes.

Tínhamos ido dormir em casa de amigos em Iriri, para chegar cedinho na feira, a tempo de preparar o stand para a abertura dos portões às 11h. Um “pare-siga” de mais de 40min, na estrada, foi danação completa, impondo urgência a um serviço delicado e prazeroso.

Aliás, é bom que se diga que viajar de carro se transformou numa espécie de corrida de obstáculos, na qual o motorista, além de dirigir com os devidos cuidados, é obrigado a incorporar doses extras de atenção e se valer de memória permanentemente atualizada a cada trecho para escapar das multas pesadas, por desatenção.

Hoje, as placas de velocidade máxima assumiram a condição de elementos vitais da paisagem e aqueles postes dotados de câmeras denunciantes cumprem a função de um atento pegador, das brincadeiras de pique-pega, que tenta flagrar competidores escondidos e prontos para bater na marca do pique antes dele.

Não sei se pelo meu bom senso, já bem maduro, ou por considerar que os carros atuais têm freios super eficientes, acho um total despropósito impor limite de 80km por hora em estrada com pista dupla. E, vou além, entendo que as placas de velocidades de 50 e de 30, determinadas por algum burocrata transitório (para fazer um joguinho de palavras), podem ser substituídas, com total segurança, pelas de 60 e 40, respectivamente.

Acredito que milhares de motoristas adorariam não serem mais taxados como contraventores e irresponsáveis e serem multados por dirigirem acima dos limites de velocidade que alguém estabeleceu para cada trecho da estrada.

Vitória, 13 de julho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita pra A GAZETA

Fortes emoções

Fortes emoções

Os últimos dias foram de ótimas emoções, pra mim e pra muita gente. Para começar, fui ao 244 Club ver meu querido irmão Afonso tocar, no melhor estilo de showman, daqueles que fazem caras e bocas em perfeita sincronia com os sons que vão saindo da caixa acústica de madeira do seu contrabaixo. Houve quem dissesse que ele “cavalga” naquele instrumento. Lá estava ele, inteiramente tomado por emoções, interagindo, com olhares e marcações com a cabeça, com Marco Antônio Grijó, baterista que faz mágicas sonoras com suas baquetas e vassourinhas, seu parceiro desde os anos 60, também afastado dos palcos faz tempo. Posso imaginar a felicidade dos dois em estarem tocando novamente pros amigos e parentes, todos de olhos atentos e expressões de cumplicidade.

Pois lá estava, também, o pianista mais alegre e safadinho que conheço, agora com cabelos grisalhos, Pedro Alcântara, espécie de irmão caçula temporão dos outros dois. Mesmo que por trás do piano de cauda, dava gosto de vê-lo fazendo movimentos com a cabeça e o corpo, meio que regendo o conjunto, em busca de sincronia total.

Dias depois, foi a vez de ir ao teatro da UFES. Confesso que fui, quase que por obrigação, na condição de marido que sempre acompanha a mulher. É que minhas dificuldades auditivas prejudicam o entendimento das falas dos atores. Foi com uma certa má vontade que comecei a ver, no telão, as imagens de uma enorme favela, filmadas de helicóptero.

Mas, como num passe de mágica, a entrada em cena de um homem carregando penosamente grandes tubos brancos, alterou a minha respiração, que acelerou de vez ao acompanhar a entrada sincronizada de pessoas tentando fazer coisas imaginárias com aquele recurso único. Sons pesados marcavam o ritmo e reforçavam a intensidade dos esforços.

Daí pra frente, até o final, foram surgindo no palco, coreografias instigantes, engraçadas, denunciantes, desafiadoras, delicadas, exuberantes e belíssimas. A precisão dos movimentos de cada ator e de grupos deles, perfeitamente sincronizados e apoiados por sonoplastia poderosa, me fez sentir um certo orgulho de morar numa cidade onde se produz coisa tão relevante. Palmas para Marcelo Ferreira e sua trupe de bem-aventurados por nos mostrar sua Metrópoles.

Pra finalizar, tive a satisfação de estar na TecVitória, incubadora de empresas de base tecnológica que ajudei a criar, para dar palestra sobre o que ando fazendo com bambu. Foi animador ver que ela recuperou sua capacidade de apoiar pessoas dispostas a criar empresas inovadoras e a sua condição de liderança no ambiente de inovação aqui no Estado.

Antes mesmo de começar a falar, e com algum constrangimento, fui pego de surpresa com uma homenagem muito afetuosa de seus atuais dirigentes, com placa e tudo, e sob aplausos de gente amiga e de muitas pessoas que foram ouvir o que tinha pra contar. Foi dificílimo começar a palestra sob emoções tão fortes.

Vitória, 29 de junho de 2023
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Fruteiras no quintal

Fruteiras no quintal

A nossa goiabeira pode ser considerada um equipamento de capacitação e diversão de crianças já mais taludinhas. Em dezembro de 2021, com a casa cheia de netos, instituí um campeonato pra ver quem tirava mais goiabas. Foi um grande sucesso. Como fomos anotando, foi possível montar uma planilha, indicando data e quantidade tirada por cada um, naquela safra de 840 frutas. Ganhei com folga, sem qualquer mérito.

É bem provável que tal iniciativa tenha sido inspirada na fotografia, das poucas que tenho da infância, que papai fez do filho do meio agarrado no tronco da goiabeira que existia na nossa casa em Cachoeiro. O curioso é que a cena permanece intacta me fazendo lembrar da emoção que senti em estar ali, sem a ajuda de ninguém.

Não é pra me gabar, nem fazer inveja mansa, mas digo que, apesar do pouco espaço, temos um pomar bem produtivo: um pé de cajá anão, um de romã sem graça, duas jabuticabeiras doidinhas, uma pitangueira das boas, um mamoeiro em fase de crescimento, dois pés de maracujá graúdos, uma goiabeira poderosa e, de quebra, acesso às pontas de galhos do abacateiro fincado no terreno da vizinha querida.

Gosto de acompanhar as florações e o desenvolvimento das frutas e costumo colher o que estiver “de vez”, antes dos passarinhos atacarem. Sempre que há fartura, aproveito pra fazer sucos, compotas e geleias, para comer em casa e dar de presente.

O interesse de Yara, neta com 2 anos, em acompanhar o serviço de colheita, faz pensar na satisfação que ela deve ter em poder usar suas mãozinhas para arrancar jabuticabas, pitangas e goiabas pra colocar na boca, ali mesmo, sem lavar. Isso, sem falar no tanto que gosta de se ver nas fotografias, posando ao lado das frutas.

Nas últimas semanas, logo que chega aqui ela me pede pra tirar goiaba. Decidida, trata de pegar uma sacola, colocar as alças no ombro e, com carinha de menina esperta, me oferece a mãozinha pra irmos juntos até a goiabeira. Munido de vara com cestinha dentada na ponta, vou tirando uma por uma e trazendo pra perto dela, que as apanha com todo cuidado e coloca na sacola.

De volta à cozinha, faz questão de mostrar o resultado da colheita e de ver o avô escolher uma delas, descascar, tirar os caroços e cortar em pedaços. Come tudinho com cara boa e pede mais.

Outro dia, depois de tirar 4 abacates do alto do muro, pedi que Alice, neta já bem crescidinha, subisse no telhado pela goiabeira, mais uma vez, agora pra conferir se havia maracujás maduros. Deu super certo: além de colher 6 enormes e amarelinhos, que foi jogando pra eu pegar, ela aproveitou o sol do fim de tarde para projetar a sua sombra na parede da casa ao lado, fazendo graça pra prima e pros avós, que olhavam pra cima, morrendo de rir.

As fotos que fiz ficaram ótimas e, imagino, ajudarão a manter vivas, na cabeça das duas, as emoções daquela tarde.

Vitória, 15 de junho de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai pocar

Vai pocar

Esta sexta-feira é dia da abertura do ESX 23, na Praça do Papa. Soube que são esperados mais de 20 mil visitantes na faixa dos 20 a 25 anos, muitos vindos de outras cidades. A convite da TecVitória, estarei lá, ao lado de colegas das antigas, me emocionando ao ver o que verei.

Em 1987, depois de passar 4 anos em João Pessoa e outros 10 em Brasília, em duas temporadas, voltei pra Vitória. Vim animado em atuar na promoção do desenvolvimento tecnológico, mesmo sabendo que o pessoal que tratava disso por aqui cabia num Fusca. O estado ainda era bem carente de iniciativas nessa área, com expectativas de progresso centradas nos chamados grandes projetos.

Trouxe na bagagem experiências interessantes, algumas das quais pude colocar em prática no BANDES, ao lado de Ricardo Santos, sob a batuta de Odilon Borges. Começamos por criar linhas de apoio financeiro para atividades de capacitação, pesquisa e desenvolvimento, até então só disponíveis nas agências federais.

É dessa época a implantação de centros tecnológicos para atuarem na modernização de setores tradicionais da economia capixaba, incluindo os de mármore e granito, de metalmecânica e do café, que continuam a produzir resultados expressivos até hoje.

Como aquelas linhas de apoio foram extintas na gestão seguinte, por um presidente desavisado, trazido do BNDES, tratei de aproveitar os bons ventos que sopravam da Prefeitura de Vitória, sob o comando de Vitor Buaiz, Rogério Medeiros e Fernando Bettarello. A ideia de criar um fundo e um conselho para estimular e promover iniciativas e negócios, baseados em conhecimento técnico, inteligência e criatividade, foi muito bem recebida. Nossa capital sediava universidades, laboratórios, empresas e órgãos públicos, havia alguma demanda por produtos e serviços de base técnica e, importante, contava com dinheiro em caixa. A cidade inovou e tornou-se pioneira ao incorporar tais instrumentos à gestão municipal.

Seria uma rota alternativa para contornar, a médio prazo, as restrições impostas pela geografia do município, que limita a agricultura e a produção industrial em escala. Era estratégico estimular a criação de empresas de base tecnológica para produzir bens e serviços a serem exportados para outras regiões. Ajudaria a melhorar o balanço de pagamento do município, onde tudo o que é usado e consumido é comprado fora de seus limites.

Pra começar, a PMV mobilizou Governo do Estado, BANDES, FINDES, SEBRAE e UFES para criar a TecVitória, a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Espírito Santo. Há quem diga que ela nasceu de parto prematuro, dada a baixíssima procura pelas facilidades que oferecia. Na época, seus potenciais usuários estavam focados nas oportunidades de emprego oferecidas pelas grandes empresas. Pois lá se foi esse tempo dos empregos atraentes.

O ESX 23 é um evento para pessoas curiosas, inquietas e dispostas a criar seu próprio negócio e a correr riscos. Nele, elas poderão ver de perto as experiências das mais de 80 startups presentes, bem como conhecer instrumentos e modalidades de apoio ao empreendedorismo adotados por agentes públicos e privados, na disputa pelos mais talentosos e promissores.

Esta edição tem tudo pra pocar, como se diz por aqui.

Vitória, 31 de maio de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA