Meu reencontro com Niède Guidon

Meu reencontro com Niède Guidon

Passamos 10 dias de abril passeando com amigos, vendo muita coisa boa e relevante no Piauí. Estive em Teresina em meados de 1980, a mando de Lynaldo Cavalcanti, Presidente do CNPq, para conversar com a arqueóloga Niède Guidon.

Ele queria saber o que ela estava precisando para continuar a pesquisar vestígios de ocupação remota na Serra da Capivara, no sul do Piauí. Na ocasião, conheci uma pequena mostra do que a sua equipe, formada por arqueólogas francesas, já havia descoberto.

Me contaram que tudo havia começado no início dos anos 1970, quando lhe apresentaram uma fotografia de inscrições rupestres, existentes no Piauí, que entendeu serem tão antigas quanto as que sabia existirem na França.

Depois disso, ela passou 5 anos estudando em Lascaux, sempre encasquetada com a ideia de que a presença do homem no lugar onde tinha sido tirada aquela foto era muito anterior ao que vinham indicando as pesquisas feitas em universidades dos EUA.

Voltei para Brasília impressionado com sua convicção em descobrir a verdadeira história da ocupação das Américas. E foi sua determinação que a fez seguir em frente, apesar da descrença e má vontade de muita gente, inclusive de governantes locais.

Para tanto, ela decidiu enfrentar o descaso, exigir decisões dos poderes públicos e buscar apoios internacionais. Brigou com deus e o mundo, até conseguir a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979, reconhecido, anos depois, pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Ela enfrentou poderosos e burocratas para seguir pesquisando e preparando o lugar para receber visitantes, incluindo abertura e pavimentação de trilhas e estradas. Para garantir integridade e proteção do Parque, conseguiu desocupar e reflorestar as áreas inteiras, engajando os moradores das comunidades da região a partir de seu desenvolvimento. Liderou a instalação de escolas e postos de saúde, de água encanada e energia, trouxe cursos de capacitação e criou oportunidades de trabalho para muitos.

Com a mesma determinação, ela conseguiu construir o Museu do Homem Americano, nos arredores de São Raimundo Nonato, que também ganhou aeroporto graças às suas insistências. No ano passado, inaugurou o Museu da Natureza, com 1600 m2, no alto de uma colina dentro do Parque. Ambos oferecem, com primoroso tratamento expográfico, conteúdos de grande impacto sobre a formação do planeta e sobre os homens que o ocuparam há milênios.

Faz tempo, estive empenhado em fazer um documentário sobre as relações do homem com as pedras. Destaque especial mereceriam as inscrições feitas por nossos antepassados distantes nas rochas, entendidas como as primeiras páginas de registro do que viam e faziam: incluindo lutas, caça, sexo e rituais. Procurei por ela, que prontamente prometeu gravar um depoimento, mas, infelizmente, o filme não vingou.

Encontramos a dra. Niede Guidon nos seus 90 anos, metida numa blusa vermelha, atenta e interativa, perfeitamente ciente do que fez de bom na vida. Contei pra ela, emocionado, minha grande admiração por tanta dedicação e perseverança em fazer o que achava certo.

Pra fechar a visita, lhe dei uma colher de bambu, fininha e comprida, que havia feito na véspera, sugerindo que a usasse para coçar as costas. Foi o bastante para fazê-la rir de satisfação. Pra minha sorte, ela é do tipo de gente que gosta de colheres.

Vitória, 27 de abril de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vivendo e aprendendo

Vivendo e aprendendo

Depois de algumas experiências, cheguei à conclusão que é muito bom fazer lançamentos de livro. Semana que vem vai ser a vez de fazer festa no Rio de Janeiro e, de quebra, dar uma palestra pra falar sobre como faço colheres.

Faz tempo que descobri que lançamento de livro não é acontecimento comercial e sim uma oportunidade para reencontros do autor com os amigos que não vê faz tempo e, importantíssimo, dos convidados entre si.

Indispensável que o lugar escolhido seja dotado de ambiente agradável e de espaço confortável para muitos. Ninguém gosta de desconforto, sobretudo ao enfrentar a fila de autógrafos, cada vez mais lenta em função da coqueluche dos selfies.

Um ex-aluno dos idos de 1972, que mantém a turma coesa em torno dos prazeres da amizade com convívio sistemático, sugeriu que optássemos por um dos restaurantes que funcionam no terreno do Jóquei.

Resolvido o lugar, a tarefa de localizar parentes, amigos e antigos colegas é absolutamente fundamental. Em se tratando de cidade distante, é uma tarefa penosa. A cadernetinha de telefones perdeu sentido e utilidade, os números dos celulares são desconhecidos, os endereços não são mais os mesmos, sem contar que muitos já não usam e-mail com frequência.

Mas posso garantir que a alegria se instala quando acontece de se localizar alguém que não se vê desde os tempos de grupo escolar, das pescarias de praia, das festas de debutantes, dos bancos da universidade, dos bailes, das paqueras livres de compromisso. A promessa do abraço apertado, a possibilidade de poder ver como o outro envelheceu, de saber quantos filhos e netos tem, o que anda fazendo com o tempo livre e tudo o mais. O lançamento é momento de lembrar dos tais bons tempos.

O fato de 3 dos nossos filhos morarem em São Paulo nos afastou do Rio, onde eu ia passear nos anos 1960 e lá morei ao fazer o mestrado na UFRJ, como era usual nos idos de 1970. Nessa época, os rapazes de Cachoeiro iam fazer faculdade e por lá ficavam, sempre vindo passar as férias de verão em Marataízes, viagem própria pra reencontros de amores antigos e de companheiros de pescarias e de redes de vôlei.  Sei de alguns desses esperando o dia da festa me ver. Isso faz um bem danado pra saúde.

Pra Carol, que nasceu e se criou naquela cidade maravilhosa e dela saiu casada pra ir morar em Brasília, está sendo muito emocionante ir, aos poucos, localizando e convidando gente querida que deixou pra trás.

Para aproveitar a viagem, aceitei convite de uma escola de design para dar palestra sobre como é fazer uma colher após a outra, sempre diferentes, por mais de 27 anos. Imagino que na plateia estarão pessoas que gostam do trabalho manual e que sabem de mim pelas redes. Estou preparando o roteiro e escolhendo as fotos para criar um ambiente que favoreça o interesse e a sensibilização.

As inscrições antecipadas comprovam que colher de bambu atiça a vontade de tocá-las e a vontade de aprender a fazê-las. Eu não acredito que garfos e facas tenham poderes parecidos.

Vitória, 16 de março de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cozido de despedida

Cozido de despedida

Fazer cozido pra muita gente deveria ser considerado esporte olímpico, tamanha a trabalheira que dá. Digo isso baseado nos que andei fazendo desde quando os filhos ainda moravam conosco.

“Pai, faz um cozido pra comemorar meu aniversário?”.

“Pra quantas bocas?“

“Umas 40…”

Engenheiro de produção, ao longo dos anos e na base da tentativa e erro, fui aprimorando os métodos de trabalho, sempre sob a supervisão de Sara, nossa cozinheira desde sempre. Mas o que fez a diferença foi um poderoso macete que garante controle total do processo.

Tantos foram os cozidos, que minha irmã Beatriz me deu, com cara de interesseira, um belo panelão de 60cm de diâmetro e uns 20cm de altura, inaugurado numa festa de aniversário de Afonso, gêmeo dela. Isso faz um bom tempo.

Desta vez, a motivação foi a despedida de nossa Margô Dalla, que em breve volta pra Holanda, onde mora com saudades daqui. Era comida pra umas 25 bocas sorridentes.

Para tanto, na sexta cedo compramos carne de porco e barriguinha com costela na feira de Santa Lúcia e, no sábado, embutidos e defumados na barraca de Alex, na de Jardim da Penha, onde sempre compro carne seca atraente, carne de sol confiável, farinha de mandioca branquinha e aipim que desmancha na boca.

O projeto desse cozido incluiu: abóbora vermelha, banana da terra madurinha, cebola miúda, milho e batatas dos tipos inglesa, doce e baroa, para contrastar com os verdes da couve, da vagem, do jiló escuro e do quiabo tortinho. Pra completar a paleta de cores na arrumação das travessas, trouxemos cenouras e dois repolhos roxos pequenos. Isso, sem falar na dúzia de ovos caipira para, cortados ao meio, contribuírem, também, na apresentação.

Descascar e dividir os legumes em partes adequadas, que facilitem montar pratos sortidos, é um servicinho bom de fazer, mas meio trabalhoso. Picar boa quantidade de alho, cebola, salsinha e cebolinha é atividade prioritária, indispensável para refogar e cozinhar as carnes cruas e, também, a seca, depois de ter sido amolecida na panela de pressão. Em pouco tempo, forma-se uma cena borbulhante que faz acreditar que o cozido vai dar certo. Prontas, é recomendável reservar as carnes no forno aquecido.

A etapa seguinte é a de cozinhar os legumes. É aqui que mora o perigo do cozido desandar. Como se sabe, cada legume tem um tempo específico de cozimento, e é absolutamente fundamental garantir que todos eles estejam inteiros e durinhos, em perfeitas condições de compor o espetáculo na mesa e produzir água na boca dos convidados, todos com os pratos vazios nas mãos.

Terminada essa operação, é a vez de preparar, com aquele caldo rico e colorido, um pirão dos deuses, meio ralo, e uma cumbuca de pimenta saborosa e educada.

É bom saber que foi com Lulu Beleza, que nos deixou faz pouco, que aprendi o tal macete que fez de mim, além de um colhereiro contumaz, um cozideiro (sic) eventual.

É bem simples: deve-se colocar cada um dos legumes em uma daquelas redinhas de nylon, garantindo que fiquem folgados para serem arrumados no fundo da panela, imersos no caldo e, eventualmente, reorganizados. Aqueles finos e compridos devem ser amarrados com linha de costura, para que não escapem da redinha e se dispersem.

Feito isso, é só acender as bocas do fogão, ficar de olho na panela e ir tirando, com todo cuidado, cada legume que estiver no ponto exato de cozimento e reservar. Na sequência, é hora de abrir as redinhas com uma tesoura e derramar os recheios em travessas, sob orientação rigorosa de Carol, interessada em arrumá-las para atiçar a gulodice.

Teve quem dissesse, ao se despedir, que esse também estará no rol dos cozidos inesquecíveis.

Vitória, 02 de março de 2023.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vamos nessa, pessoal

Vamos nessa, pessoal?

Na semana passada fui visitar a Stone Fair, no parque de exposição em Carapina. Entrei sem precisar de crachá de visitante, por gentileza dos filhos de Ilsinho e Cecília Milanez, que sempre tocavam a feira. Depois de ficarem anos sem poder realizá-la, os três estavam felizes e orgulhosos com o que tinham pra apresentar.

Nem bem entrei no galpão, a animação nos corredores apinhados de gente e a movimentação nos estandes me fizeram lembrar das primeiras edições da feira de mármore e granito de Cachoeiro, que ajudei a criar e coordenar.

Elas eram uma espécie de festa de comemoração dos esforços coletivos para fortalecer o que se mostrava promissor para muitos, além de ótima oportunidade para rever amigos e abraçar pessoas que só se comunicavam por telefone e fax.

Quem esteve na primeira delas, há de se lembrar dos estandes montados nos galpões das baias para touros e vacas do parque de exposições. Por conta dos improvisos, além da queda da energia logo na abertura, faltou água no restaurante do Curuca por volta das 10 da noite.

Tenho em ótima conta o que fizemos em favor da modernização das condições de produção e de gerenciamento das empresas de extração, beneficiamento e comercialização de mármore e granito. O movimento envolveu um grupo de empresários do setor e contou com entusiasmo de fornecedores de máquinas, insumos e serviços.

Em prazo bem curto, foi possível conseguir saltos extraordinários na produtividade dos teares, redução relevante dos custos das serradas, melhor qualidade das chapas, com consequente aumento significativo na lucratividade das empresas. Tanto, que ficou comprovado que olho grande e inveja boa são fatores de desenvolvimento empresarial e deu no que deu.

A existência da feira modernizou as práticas comerciais em vigor, a começar pela marcação da data e do local pra mostrar, comprar e vender pedra. Um caderno especial da antiga Gazeta Mercantil mostrou ao Brasil que Cachoeiro era a capital do mármore e granito e estimulou atitudes e providências para atrair visitantes de lugares distantes, inclusive do exterior.

Dentro daquele galpão refrigerado, três décadas depois, vi estandes enormes e sofisticados, expondo placas de materiais coloridos, muitos deles translúcidos e cheios de veios que devem ter feito brilhar os olhos de arquitetos e decoradores. Pelo que soube, os negócios foram animadores.

Saí da feira me sentindo uma pessoa importante, tamanhas as atenções que recebi de herdeiros dos pioneiros Scaramussa, Nemer e Secchin, os abraços de ex-alunos, agora bem sucedidos empresários do ramo. Em meio ao alvoroço, confirmei mais uma vez que valeu a pena dar o empurrãozinho que faltava nos conterrâneos que fizeram Dona Gracinha, minha mãe, se gabar e me dizer, nos idos de 1985, que Cachoeiro estava cheio de indústrias.

Vitória,16 de fevereiro de 2023.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Haja emoção

Haja emoção

Passei um bom tempo longe do teclado para compor uma crônica. A última foi publicada aqui às vésperas do primeiro turno das eleições, semanas antes do meu aniversário. Nela, sem muita esperança, pedi, de presente antecipado, a vitória dos meus candidatos. De lá pra cá, muita coisa aconteceu.

O final de 2022 e começo deste ano foram tempos de fortes emoções, a começar pelas festas de lançamento do livro que escrevi sobre a produção prazerosa de colheres de bambu. Em Cachoeiro, num bar na beira do rio Itapemirim, foi ótimo rever conterrâneos de infância e companheiros de realizações relevantes. Em São Paulo, naquele varandão do Museu da Casa Brasileira, abracei e fui beijado por amigos queridos e por muitos convidados dos filhos que moram lá. Aqui, num restaurante da Curva da Jurema, não senti cansaço ao passar 5 horas dando autógrafos para muitas das 350 pessoas que lá estiveram. Em Brasília, em ritmo de confraternização, revi velhos amigos dos anos que trabalhei no CNPq.

Com o coração nas mãos, acompanhei a apuração da disputa apertadíssima pela presidência da República e tomei duas cachaças em comemoração. Depois, temeroso, acompanhei as movimentações descaradas de forças insatisfeitas com os resultados do segundo turno das eleições.

A festa de comemoração dos nossos 50 anos de casados, em meados de dezembro, foi animadíssima e varou a madrugada e, de quebra, marcou a reabertura da famosa colônia de férias da Vovó Carol, para mais de mês de casa movimentadíssima e cozinha a pleno vapor. Num período chuvoso, foi uma maratona de muitas alegrias e alguns perrengues com a participação direta de cinco filhos, uma nora, dois genros e oito netos. Pena que a goiabeira não deu um fruto sequer, impossibilitando a realização do famoso campeonato infantil de tira-goiabas.

Senti alguma esperança ao ver imagens das cerimônias de posse dos eleitos e de pessoas nomeadas. Com tristeza, acompanhei pela TV a demonstração de desatino de um bando de bolsonaristas imbecis e mal intencionados, marcando o dia 8 de janeiro de 2023 na história. Indignado, comecei a torcer por um tranco bem dado, com sabedoria e efetividade, nos executores, mentores e patrocinadores daquele absurdo. Com satisfação, venho acompanhando as tais providências cabíveis, acreditando que podem surtir efeito.

Na quarta-feira, também pela TV, acompanhei as eleições nas duas casas do Congresso. Na do Senado, confesso, só senti alívio pra lá da metade da apuração. Na da Câmara dos Deputados, a vitória esmagadora de Lira me fez pensar que, obstinado por poder, ele fará tudo pra ficar com os méritos de ter conseguido aprovar reformas relevantes.

Vitória, 02 de fevereiro de 2023

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quem me dera

Quem me dera

Faço aniversário no dia 23 de outubro, junto com Pelé. Por conta disso, somos considerados, pelos entendidos em astrologia, como legítimos escorpiões. Desta vez, vou completar 75.

Só por curiosidade, fui ao Google e encontrei escrito, bens nas primeiras linhas, que pessoas de escorpião “tendem a ter força e capacidade de se reinventar, mesmo diante de situações desafiadoras.”

Achei interessante e, pensando bem, a mania de fazer colheres de bambu, que incorporei na vida depois de um infarto aos 46 anos, pode servir pra confirmar tal característica.

O fato é que, independentemente do que dizem os astros, passei uma boa parte da manhã imaginando qual o presente de aniversário que gostaria de ganhar este ano.

Outra arara? Quando completei 70, meu pessoal fez uma vaquinha pra me dar Amora de presente. Acho que ela não iria gostar de dividir as atenções e os dengos que lhe dou com uma concorrente.

Um carro novo? Além de ser um presente caríssimo, não estou precisando.

Cadeira de balanço? Já tenho uma super confortável, daquelas com assento de lona grossa, comprada na Paraíba, quando moramos lá nos anos de 1970. Tem sido usada, sobretudo, pra balançar nossos netos.

Rede de balanço? Temos umas três, das cearenses, que uso com boa regularidade pra ficar matutando alguma coisa interessante na fresca das tardes mais quentes.

Foice, faquinha ou goiva pra cortar bambu? Seria um presente muito adequado, mas já tenho ferramentas pro gasto, inclusive algumas ainda sem uso e bem guardadas.

Lixas variadas? Não caberia, pois mantenho um bom estoque das que mais uso e, quando preciso, gosto de ir comprar lá no Manoel Araújo, na Leitão da Silva.

Tênis, nem pensar. Apesar de ter casado com Carol usando um branco, pra combinar com a calça, não adotei a moda por motivos que não sei explicar. Guardo um, sem cadarço, que usava quando ia pescar do alto de pedra ou dentro de uma lancha potente, em alto mar.

Relógio de pulso? Nunca tive um e não vai ser agora que vou começar a usar. A hora exata está nas telas de computadores e celulares, acabando de vez com a velha desculpa de atraso por perder a hora.

Um filhote de basset seria ótimo, mas Carol teria que aceitar de bom grado. Ela tem bons argumentos pra quebrar a tradição da casa de ter sempre dois ou três deles, pra felicidade de adultos e, sobretudo, das crianças.

Ainda que meio fora da data, as vitórias dos meus candidatos pra deputado estadual e federal, senador e presidente, seriam ótimos presentes. Escolhi os nomes por livre e espontânea vontade e os manterei em segredo.

Homem prudente, pacífico e já quase sábio, achei por bem fazer assim para evitar bate-bocas e o que mais possa vir a acontecer antes, durante e depois da votação  e, sobretudo, depois que os resultados das eleições forem divulgados.

Vitória, 29 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Depois de tanto, falta pouco

Depois de tanto, falta pouco

Durante a pandemia – sob total controle dos filhos – passei meses sem sair de casa. Caseiro inveterado, não foi difícil aceitar as restrições. Sempre inventei serviço pra aproveitar meu tempo, de preferência, algo que desafie minhas habilidades, incluindo consertos de brinquedos de netos e de coisas da casa.

Mexer com jardim também é algo que costumo fazer: podar o que estiver precisando, trocar terra de vaso, transferir planta para lugar sem sol direto, pendurar vasos e ajudar o jardineiro a cortar galhos de árvores. Melhor ainda, é colher jabuticabas, pitangas e goiabas antes que os passarinhos comam umas e comecem a bicar outras.

Revolver e adubar a terra da horta, arrancar mato, reposicionar pés de tempero e regar com fé, são servicinhos facilitados pelo fato da nossa ser suspensa, como fazem na Paraíba, onde tratam por banguê.

Pois nesse tempo de recolhimento forçado resolvi dedicar atenção às belezas dos bambus. Nessa frente, me concentrei nas fibras, que descobri durante a recuperação de um infarto nos idos de 1975. Para fotografá-las como bem merecem, usei a lente macro do celular de Carol. Para bem captar suas características e belezas, tratei de caprichar no acabamento das superfícies resultantes dos cortes de topo, inclinados e longitudinais feitos num gomo escolhido.

Ao fotografar, me veio uma vontade mansa de escrever sobre as colheres que venho fazendo há quase 30 anos, usando só foices, goivas, faquinhas, lixas e cacos de vidro. Quanto mais escrevia, mais me lembrava dos fatos, dos lugares e das pessoas e, sobretudo, das boas emoções que foram

se acumulando e formando histórias interligadas.

Sem qualquer pressa e achando bom, comecei a vasculhar gavetas, pastas e arquivos. Rever fotos, matérias de revistas, cartas e mensagens, foi trazendo à luz muito do que estava armazenado na alma e no coração.

Como se as histórias não bastassem, achei por bem tentar entender o que estaria por trás dessa mania de fazer colheres de montão. Aos poucos foi possível sistematizar os processos de trabalho que adoto e mapear os conceitos e as expectativas que orientam as minhas escolhas.

Durante meses fui escrevendo sobre o que merecia atenção, ajustando a redação, pedindo opinião de gente corajosa, reescrevendo páginas inteiras, refazendo a ordem dos textos e escolhendo fotos para ilustrar as passagens, a ponto de chegar ao que poderia ser um livro com pé e cabeça.

Amainada a pandemia e depois de muitas idas e vindas, os originais finalmente foram enviados a uma gráfica, que prometeu entregar 1000 exemplares no começo de outubro. Agora só falta definir as festas de lançamento lá em Cachoeiro, no Rio de Janeiro e em Brasília. As de São Paulo e Vitória estão confirmadas pra os dias 15 e 25 de outubro.

Vitória, 14 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Relatório de viagem no tempo

Relatório de viagem no tempo

Estivemos por 4 dias em Brasília, depois de anos sem voltar lá. A última vez tinha sido corrida, sem tempo para rever amigos que deixamos quando viemos para Vitória em 1987. Uma viagem de amizade.

Fizemos uma programação de visitas com base no tamanho da saudade e no bom senso possível. Ficamos hospedados na casa de nossa amiga que me trata por “marido” há quase 50 anos. Providência fundamental para colocar a conversa em dia, dormir com total conforto, tomar café da manhã e tricotar com liberdade e vestígios de pimenta.

Começamos o périplo na tarde de quinta nos arredores do Jardim Botânico, visitando uma amiga que esteve adoentada de doer coração. De cabelos totalmente brancos, animadíssima, ela nos apresentou sua casa em detalhes, demonstrando orgulho por ter construído um lugar tão bonito e funcional. Seus dois filhos, que só vimos pequenos, nos receberam carinhosamente como tios.

Na manhã seguinte, tomamos café com um amigo desde os idos de 1970, quando conversamos sobre um projeto ousado que tenho na cabeça faz tempo e que, por pura afinidade de nossos valores e emoções, agora também está na dele.

Depois de visitar a SQN 104 e fotografar o bloco onde moramos por 3 anos, caminhamos até a SQN 303 para rever um homem de quem fui aluno na pós-graduação, seu monitor na graduação, seu colega de trabalho, chefe e subordinado. Ele estava meio frágil das pernas, mas com a cabeça a mil, como sempre. Disse que quer escrever um livro sobre as grandes guerras da humanidade.

Depois fomos à SQS 216, para rever um amigo muito especial, sempre crítico ao que se passava em volta e intransigente com o que não estivesse dentro dos conformes. Pai de 4 e agora avô de 7, ele está ainda mais firme em suas convicções.

A feijoada de sábado aconteceu num belo apartamento reformado na SQS 215, com gente muito querida rindo alto, na alegria do reencontro. Seguindo a tradição, após as discussões acaloradas de sempre, instalou-se a mais famosa mesa de carteado do pedaço.

De lá, fomos ver o casal querido da SQS 211, onde falamos sobre um projeto para enfrentar o problema do mercúrio nos garimpos enquanto comíamos torta de frango de Pirenópolis. Ganhamos um belo livro que atualiza as andanças de Saint-Hilaire no sertão de Goiás com a contribuição dos dois. Conversa sem fim, quase sem ponto parágrafo.

No domingo estivemos na casa de candangos bolivianos na SHIN QI 14 para comer saltenha, delícia que conheci ainda menino em La Paz e nunca mais esqueci. Visitamos a plantação de lúpulos, bebemos cerveja artesanal e conversamos sobre alternativas para o lançamento do meu livro sobre colheres.

No caminho paramos na SHIN QL 3 para rever amigos dos tempos de João Pessoa. Nossas reminiscências foram prejudicadas pelo bando de capivaras que domina um pequeno lago que faz divisa com o terreno. Em casa, ninguém achou graça no primeiro debate na TV.

Vitória, 01 de setembro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá se foi Ronaldo

Lá se foi Ronaldo

Fazia um bom tempo que não o via. Talvez uns 4 ou 5 anos. Não tínhamos amizade com convívio direto e específico. Nunca esteve na minha casa e eu nunca entrei na dele. Nossos encontros eram quase sempre em lugares públicos, cheio de gente. Nossa satisfação em rever-nos era recíproca e os abraços fraternos, como convém às pessoas que se conhecem há muito tempo, se gostam e se respeitam. Sempre magro, era fácil de ser envolvido e apertado por completo.

Me lembro que o olhar dele era sempre inquisitivo, como que querendo saber como estava a minha saúde, como estava no trabalho, como iam os meus parentes e contra parentes. Sua voz anasalada era normalmente alta e contundente. As frases eram ditas com convicção, com a boca bem aberta, mostrando os dentes, e espichando as palavras relevantes da frase.

Nunca vi ou soube que se exercitava com frequência e disposição, em busca de saúde e bem estar. Na verdade, Ronaldo Nascimento era um cidadão de um tempo em que essas práticas ainda não existiam por aqui. Na Vitória antiga, pouquíssimas eram as pessoas que faziam exercícios regularmente, fora as que remavam na Baía de Vitória, um punhado de halterofilistas e uns poucos nadadores como eu. No mais, os homens disputavam campeonatos de futebol de salão, vôlei, basquete, tênis nas quadras de clubes e muita pelada na rua e frescobol na praia. A imensa maioria das mulheres, no máximo, ficava na torcida.

Dá pra pensar que ele achava graça dessa mania de caminhar em ritmo acelerado nas calçadas, com expressão compenetrada. Mais ainda, dos que andam de bicicleta de capacete, sozinhos, em duplas e em pequenos grupos, usando roupas coloridas, próprias dos ciclistas profissionais.

De uma coisa, eu tenho certeza: Ronaldo adorava a noite e, sobretudo, as madrugadas. Era formado em festas de brotos, com pós-graduação em Baile de Debutantes. Para a rapaziada mais aguerrida e as moças mais avançadinhas que circulavam por aqui no final dos anos 1960, ele se transformou numa espécie de Rei da Noite ao abrir, e manter funcionando por um bom tempo, a boate Boteko, na curva do Saldanha. Foi lá que surgiu a primeira pista onde se dançava Satisfaction com os olhos fechados, os braços pra cima e o corpo balançando no ritmo do rock and roll.

A sensação que me veio é que Ronaldo foi levando junto uma época extremamente tranquila e prazerosa que vivemos aqui. Para os saudosos, informo que meu irmão Afonso, seu vizinho de muro por décadas, sabe imitar perfeitamente a sua voz.

Vitória, 18 de agosto de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na reta final

Na reta final

A tirar por notícias recentes e opiniões de quem acompanha a política, o Presidente está ficando irritado e nervoso, com o que vai percebendo a cada dia que passa, exigindo dele atitudes cada vez mais ousadas, contundentes e até agressivas.

Como ele dorme pouco, é bem possível que esteja dando telefonemas madrugada adentro para subordinados e parentes, em busca de escuta e, sobretudo, de concordâncias para as iniciativas eleitoreiras que adotará depois que o sol raiar.

A impressão que se tem é que está em andamento uma etapa crucial de um processo preocupante, há muito anunciado. O que se vê, é um homem dotado de poder legítimo agindo de forma obsessiva, guiado por uma espécie de fanatismo messiânico:

se há corda, que seja esticada; se existe poder de compra, que seja exercido; se há medo, que se amedronte; se há mérito, que se desmereça; se há limite, que se exploda, e assim por diante.

Dá pra supor que chegará o dia em que não haverá quem consiga fazer algo que possa demovê-lo da obsessão, como se faz com criança mimada que chora aos berros, dá pulinhos balançando os braços só pra ficar com o brinquedo do irmão.

É de se supor que suas decisões e atitudes desvairadas têm produzido, de forma crescente e cumulativa, constrangimentos e vergonhas variadas em pessoas aliadas e interesseiras que o cercam, e provocado arrependimentos em uns tantos que já o apoiaram no passado. Percebe-se que o silêncio em torno dele aumenta progressivamente e se expande para fora dos palácios.

Por suas provocações estarem acontecendo em ritmo e intensidade crescentes, pessoas, instituições e entidades que se sentem desrespeitadas e cansadas de bravatas começaram a se contrapor de forma clara. Milhares e milhares têm feito isso com seu nome, CPF e endereço declarados nas redes.

Está dito e feito e não adianta ele espernear nem desprezar a convicção dos que assinam o que aprovam e defendem. Fazem-no livremente, sem atitudes de salve-se quem puder, de espírito de porco e de Maria vai com as outras. Trata-se de um basta bem firme e com traços de esperança.

Pra complicar um pouco mais, o Presidente já deve ter percebido os sinais de que a turma do Centrão começa a preparar a debandada de fininho, traiçoeiramente, conforme previsto. Pra esse pessoal pacato e interesseiro é fundamental atuar sempre ao lado dos detentores da chave do cofre e do poder da caneta.

Nem imagino o que poderá acontecer no 7 de setembro, no Rio de Janeiro. Se fosse prefeito da cidade, manteria o desfile no lugar de sempre, por puro bom senso e precaução.

Vitória, 04 de agosto de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA