Rota de escape

Rota de escape

Como se sabe, a dificuldade inicial de quem escreve crônicas é encontrar um bom assunto, de qualquer natureza, que possa ser usado como tema central do texto ou como pano de fundo para uma história boa de se ler.

Isso é ainda mais complicado quando se quer escapar das pautas toscas que o presidente insiste em plantar, de forma sistemática para os brasileiros, emporcalhando páginas de jornais, ocupando tempo de noticiários de TV, abastecendo as redes, consumindo horas de convivência e muito mais. A obsessão desse homem é incurável e, sobretudo, muito chata.

Sorte minha é poder encontrar refúgio em temas familiares. É que a nossa casa, normalmente sossegada, está funcionando com capacidade máxima e em regime de colônia de férias. Minha cunhada do Rio veio passar o aniversário com a irmã, uma das filhas que moram em São Paulo veio comemorar a passagem de 44 invernos com os parentes diretos e amigos de antigamente. Trouxe dois filhos pequenos e uma sobrinha, nossa neta mais velha. Pra animar a festa, dois netos que vivem aqui vieram passar uma semana conosco. Tem gente dormindo no sofá do escritório.

É fácil imaginar que teria muito o que dizer sobre as preferências de cada um deles, contar que fiz um time de botão de mesa, consertei o arco que tinha feito e ensinei a descascar laranja na maquininha que comprei em Brasília faz décadas; que fizeram animados passeios ao Parque da Pedra da Cebola e à Praça das Ciências, que brincaram na Praia da Esquerda e remaram em dupla nos caiaques alugados na Curva da Jurema; que as netas me pedem pra levar pra pescar e que uma delas fez uma montanha de panquecas; que todos disputam celulares e tablets permanentemente e que levamos o menor de todos para fazer exame de sangue, tentando embromá-lo.

A danação foi ficar sabendo da reunião do presidente com embaixadores para pregar contra as urnas eletrônicas. Mesmo sem conhecer detalhes, me fez pensar que faz parte de uma estratégia política muito esperta, de propósitos ainda disfarçados.

Mesmo que as últimas medidas para distribuição de dinheiro público para populações carentes e políticos vorazes possam aumentar as intenções de voto, Bolsonaro já deve ter entendido que sua derrota nas urnas será acachapante.

Assim, muito melhor do que perder nos votos, seria conseguir ser impedido de participar das eleições por atitudes que, vedadas pela Constituição, regulam o processo eleitoral. Sem precisar explicar a derrota, ganharia para sempre a condição de mártir injustiçado por um bando de “comunistas”, o que lhe cairia muito bem.

Excluído da disputa, mas ainda na presidência, intensificaria as movimentações em favor da desestabilização política do país, visando consolidar a liderança de seus fiéis seguidores. Findo o mandato, lhe restaria agir como um animal indomável em busca da sobrevivência.

Vitória, 21 de julho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Roçando mato

Roçando mato

A Praia da Esquerda estava deserta e a maré baixa garantia areia dura, boa para caminhar. Do alto de um pequeno mirante, guarda-vidas observavam o mar liso daquela manhã plácida, certos de que o dia passaria sem qualquer ocorrência que demandasse pronta intervenção.

Na calçada, vi chegar um grupo de uns 15 homens. Todos falantes e paramentados: macacão cor-de-abóbora, avental de plástico preto, capacete na cabeça, botas, luvas de couro, óculos de segurança no nariz e protetor de ouvido pendurado no pescoço.

Trouxeram umas 10 roçadeiras daquelas dotadas de um guidom para movê-las com facilidade, de um lado para outro, quando penduradas no ombro. Nelas, um motorzinho a gasolina faz girar, na outra extremidade de uma haste comprida, um carretel contendo nylon bem grosso. Em alta velocidade, o pedaço de nylon se transforma numa poderosa ferramenta de cisalhamento, capaz de decepar até galho taludo. Uma geringonça de grande utilidade, pois roçar mato com foice é tarefa cansativa e de baixíssimo rendimento.

Desci para andar na areia e, ao chegar pela segunda vez no final da praia, parei para acompanhar aqueles homens que vinham trabalhar no serviço de poda do capim colonião que cresce ali desde sempre.

Dava gosto de ver aquela espécie de espetáculo. Parecia uma coreografia, com movimentos certeiros e sincronizados. Na linha de frente, empunhando roçadeira mais potente, um deles atacava o mato com muita disposição, abrindo uma passagem central para os dois colegas que vinham atrás, cada qual cortando as moitas num dos lados.

Em pouquíssimos minutos, o matagal existente naquele patamar criado por um muro de arrimo foi inteiramente abatido, e os três partiram para acabar com o que tinha brotado nas fendas das lajes de pedra escura que existem ali.

Em complemento, outros dois homens desbastavam, no mesmo ritmo e igual sucesso, as capoeiras que existiam no pé do muro e, em seguida, aparavam a grama que cresce na areia da praia, propiciando ao lugar um aspecto simpático e amistoso.

Aquelas cenas me fizeram lembrar de Sorriso, o varredor de rua que fez sucesso no carnaval do Rio, sambando com uma vassoura na Sapucaí. Pois aqueles homens, coloridos e animados, bem que poderiam formar um bloco de carnaval com seus componentes cantando marchinhas conhecidas, levantando suas roçadeiras para saudar o público.

Vitória, 07 de julho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Festa nas montanhas

Festa nas montanhas

Foi muito bom rever Santa Teresa e constatar que está a cada ano mais movimentada, bem tratada e com comércio pujante e jeitão de polo turístico. Por todo lado se avista prédios em construção, casas enormes no alto dos morros e lojas e pousadas às margens da estrada.

Fui com amigos para mais um festival de música, festa aberta e tranquila, com muita gente usando roupa quentinha que comprou pra viajar pra longe. Desta vez, vi muitas pessoas com uma taça entre os dedos e uma garrafa de vinho na outra mão. Algumas fazendo estilo, se achando, como se dizia.

Assisti a dois shows impactantes: um grupo paulista fazendo base para Taryn Szpilman, cantora afinadíssima e performática que, ao descer do palco para circular na plateia, gostou do meu chapéu e acabou ganhando um beijo na mão.

Emocionante ver Jimmy Burs, músico americano de quase 80 anos, tocando blues melodiosos com poucas notas e regendo, com olhares, uma banda de Belo Horizonte, cujo baterista, dono de uma pegada muito forte, é dos melhores que já vi.

Por todo lado, gente animada abraçando quem não via desde antes da pandemia. Pois foi muito bom ser reconhecido por dois homens sorridentes, já quase sessentões, dizendo que foram meus alunos no começo dos anos 90, do século passado. O mais falante, de nome inesquecível, tratou de me incluir num grupo de engenheiros no WhatsApp que haviam criado, mas devo ter dado endereço errado.

Guardo ótimas lembranças de professores que tive, sobretudo dos que me ensinaram a gostar de engenharia de produção e, sem se darem conta, me ajudaram a ser o que sou.

Santa Teresa está limpa, colorida e animada. Muitas das casas nas ruas principais estão ocupadas por lojas, cafés e restaurantes. O que escolhemos estava lotado de turistas barulhentos, mas a nossa reserva de mesa funcionou. Não comi massas italianas feitas à mão, mas enfrentei um joelho de porco alemão muito bem acompanhado.

Entre uma garfada e outra, notei a naturalidade com que moças e rapazes atendiam os fregueses e, também, iam tomando providências para manter o lugar arrumado. Tudo feito com movimentos rápidos e precisos, como que sincronizados.

Curioso, quis conhecer o responsável por orientar cada uma daquelas pessoas em busca de harmonia e alto rendimento. Fui informado que a gerente era a moça bonita e simpática que nos recebeu e que foi embora logo depois.

Sem precisar de ordens ou orientações, aquela equipe parecia funcionar no automático, movida a satisfação pessoal, algo que só acontece em empresas muito especiais. Para mim, era mais uma clara demonstração da evolução que acontece naquela cidade do interior.

Vitória 09 de junho de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Vale a pena

Vale a pena

Na semana passada, mandei de presente, para uma amiga de longa data, um potinho de geleia feita com jabuticabas do nosso quintal, colhidas de uma pequena jabuticabeira que plantamos há uns 30 anos nos fundos do terreno. Ela não tem mais do que 3 metros de altura e 2 de diâmetro, dimensões pouco maiores das que ela tinha quando chegou aqui na carroceria de um caminhãozinho da Sempre Verde, que existia pertinho do antigo aeroporto. Foi comprada como sendo de enxerto e sob a promessa de que já estava produzindo, o que se confirmou logo depois.

Com o passar dos anos, a danada tomou gosto e passou a dar duas, três, cinco safras por ano, provavelmente em função do regime de chuvas do período, para usar uma linguagem mais técnica.

O fato é que os moradores da casa, visitantes eventuais e, sobretudo, os passarinhos que frequentam o quintal em busca de comida farta e fresca, são agradecidos por tamanha produtividade. Em caso de descrença do leitor, sou capaz de mostrar fotos das frutas agarradas nos troncos e enchendo uma das peneiras compradas, faz muito tempo, na calçada do mercado de Guarapari, de um homem já bem velho que as fazia em Anchieta.

A encomenda seguiu para o Rio de Janeiro na mala de Cláudio, meu irmão. Depois de colocar o vidro de geleia em um saco bem amarrado na boca, procurei, sem sucesso, uma caixa de tamanho adequado e resolvi usar como embalagem uma garrafa de água de côco.

Para isso, cortei com cuidado quase o perímetro inteiro da garrafa na parte perto do gargalo, o suficiente para acomodar o vidro da geleia no fundo dela, preenchendo o vazio restante com um pedaço de plástico com bolhas de ar, guardado para eventualidades. Aproveitei para colocar também uma espátula de bambu para que a minha amiga pudesse se servir da geleia. Em seguida, voltei a fechá-la, agora com a ajuda de fita adesiva fixada em cima do corte, não sem antes incluir um pequeno bilhete para a destinatária.

Pra completar, colei um rótulo com o nome da amiga em letras grandes, para que não restassem dúvidas ao porteiro do edifício que estivesse trabalhando quando ela fosse lá buscar a encomenda.

Pelo que ela disse em áudio no WhatsApp, o presente fez um enorme sucesso, fosse pelo gosto travante da geleia da fruta preferida, fosse pelo design do potinho que Carol havia comprado na Vila Rubim, da espátula que fiz com bambu trazido da Suíça e do invólucro padrão Magaiver da TV. Mais do que tudo, pela descoberta de que havia um bilhete dentro da garrafa, que a fez lembrar daquelas lançadas ao mar por náufragos esperançosos. Ela contou que a emoção gerou um grande alvoroço, a ponto de atrapalhar o serviço de abrir o presente.

Moral da história: compensa ter jabuticabeira em casa, produzir geleia, fazer espátula, escrever mensagem e embrulhar tudo e pedir que um irmão leve pra uma amiga que não se vê há mais de 50 anos, nem em fotografia.

Vitória, 26 de maio de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pequenas heranças

Pequenas heranças

Imagino que muita gente já se deu conta de que as laranjas-bahia, as minhas preferidas, estão começando a aparecer, embora meio verdes e com pouco caldo. Ainda estão escassas as de bom tamanho e de casca lisa, que formam parelha com as mexericas azedinhas de muitos caroços que, felizmente, também já podem ser encontradas.

Talvez por serem produzidas em pequena escala, tanto umas como as outras, nunca são vendidas nos supermercados, que preferem oferecer produtos mais padronizados e de fornecimento garantido. Nas barracas das feiras livres, elas ficam sempre em caixas colocadas em posições de menor destaque. Acho que pouca gente sai de banca em banca procurando por elas, como costumo fazer em tempo de safra.

Fora de época só se vê aquelas de casca amarelo forte, oferecidas como importadas, que me nego a comprar por ter me sentido enganado, faz tempo. Creio que elas sejam de uma espécie geneticamente desenvolvida para atrair o olhar dos potenciais compradores pelo visual: belas por fora, mesmo que passadas por dentro.

Tendo conseguido umas tantas laranjas-bahia promissoras, é a vez de me sentar para chupar algumas delas com toda a calma desse mundo, sempre me valendo de uma faquinha de lâmina curta e perfeitamente amolada para a ocasião, e quase sempre sob olhares interesseiros do pessoal da casa.

Descascar cada uma sem ferir a pele que fica na parte de baixo da parte branca da casca é desafio que enfrento há décadas e que tem quem afirme ser mais uma mania do velho. A tal pele funciona como divisor entre a parte de fora da casca, dotada de sumo que faz arder os olhos dos desprevenidos, e da parte de dentro, que contém o caldo da laranja.

Trata-se de uma película fina, flexível e resistente, que envolve cada um dos 8 ou 10 gomos, todos contendo centenas de pequenos favos alongados e durinhos. Tenho na mais alta conta essa solução de revestimento, uma engenharia natural capaz preservar o conteúdo de cada favo contra contaminantes saídos de algum outro, que esteja comprometido.

Às vezes tento produzir uma longa tira de casca que as moças de antigamente giravam em torno da cabeça enquanto iam dizendo os nomes de rapazes conhecidos, até que se rompesse. O último nome dito por cada uma era o de com quem ela iria se casar. Embora lembrar disso me divirta, nada sei que confirme tal crença.

Escoteiro e pescador de praia, aprendi cedo que casca seca de laranja é um combustível poderoso, muito útil para acender fogueiras. Avô experiente, na semana passada comecei a introduzir Yara, a neta caçula, nos prazeres de chupar laranja-bahia. Ela começou fazendo careta, franzindo a testa e, logo, logo, passou a pedir mais outros pedaços, boa boca que é.

Vitória, 12 de maio de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Jogos perigosos

Jogos perigosos

É com satisfação que informo aos leitores, sobretudo os mais velhos, que a proposta de reunir forças e convicções de avós em favor da defesa de nossos netos contra os males dos joguinhos eletrônicos mereceu declarações de apoio e solidariedade. Vários deles se disseram preocupadíssimos com o que estavam vendo. Duas pessoas queridas, que passarão à condição de avós em breve, prometeram se preparar para enfrentar a situação quando o problema se apresentar.

Amiga de Brasília contou que sua filha, mãe da sua neta, não tem conseguido dar conta de negar o “posso jogar?”. Atenta, passou a oferecer papel, pincel e lápis de cor para induzir a menina a desenhar, tendo, inclusive, autorizado que pintasse na porta do seu guarda roupa. Em conversa com ela sobre o valor dos quadros de Chagall, a danadinha lhe perguntou se ela iria vender a tal porta do armário.

Em uma outra linha de enfrentamento, um velho amigo, lá de Viena, disse que já está tomando as devidas providências: resolveu se aperfeiçoar no controle de sticks e botões para jogar contra os miúdos, que agora se gabam, com os amigos, de que o avô performa.

Por aqui, tratei de fazer a espada que Biel me pediu e já estou me programando para produzir um arco e flecha poderoso, atendendo o pedido de Quim Quim, de modo a que Bento, meu filho, possa levar para São Paulo, na próxima semana.

Numa outra frente de batalha, trato de acompanhar as movimentações políticas neste ano de eleições. Aqui, o que tenho visto não me faz tranquilo nem esperançoso. O lenga-lenga e a desconfiança parecem tomar conta da cena.

A terceira via ainda não conseguiu avançar a ponto de gerar expectativas animadoras e atrair apoios expressivos e votos dos indecisos e insatisfeitos. O lançamento do nome de Bivar como candidato para compor a chapa, deixa claro o propósito de reforçar seu partido nas bancadas federais e nos estados, para além da disputa pela cadeira de presidente. Ao que tudo indica, Ciro Gomes deverá se manter em posição confortável, fora da linha de tiro, explorando oportunidades para crescer nas pesquisas e ir para o segundo turno.

Enquanto isso, o candidato à reeleição, totalmente livre de embaraços e escrúpulos, inteiramente focado na campanha, vai nadando de braçada, voando pra todo lado em avião da presidência, comprando apoios com dinheiro público, distribuindo ameaças com convicção, tendo que se esquivar das denúncias de corrupção que brotam diariamente, envolvendo ministros e aliados. Pesquisas de opinião já indicam que a estratégia adotada está surtindo efeito, atenuando o clima de “já perdeu”, vigente até pouco tempo.

A candidatura de Lula, por sua vez, vai perdendo fôlego por obra do próprio candidato que, destreinado, sem o antigo vigor e com alguma culpa no cartório, não consegue atrair apoios, irrita potenciais aliados, se junta a dono de malas de dinheiro e, sobretudo, não oferece caminhos que possam trazer de volta antigos eleitores desiludidos e encantar quem esteja chegando. Destituído do poder da caneta e prejudicado pelo esquecimento de seus méritos antigos, parece enfrentar dificuldades em gerar certezas dentro do seu próprio partido e em núcleos organizados de interesse e de poder. A elevada rejeição ao seu nome, restrição dificilmente contornável, limita o universo dos votos úteis no primeiro turno. O antigo clima do “já ganhou” começa a se mostrar inconveniente e perigoso.

Vitória, 13 de abril de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Missão de avós

Missão de avós

Ganhei de Denis Barreto, colega do grupo escolar em Cachoeiro, 4 pedaços de bambu balde, trazidos de seu sítio em Vargem Alta. Eles têm mais de metro de comprimento, uns 15 cm de diâmetro e paredes bem grossas. Pesadíssimos e portadores de destino nobre, ficaram encostados, um ao lado do outro, no muro do jardim, para serem apreciados até de longe. Deitado na rede, me dei conta de que um deles era tudo o que eu precisava para fazer a espada, dessas de samurai, que Gael me pediu de presente de aniversário: gomo de 70 cm de comprimento para uma lâmina grande, e metade de um outro, para o cabo a ser segurado por duas mãos.

A notícia correu no grupo da família e um áudio de Biel, neto que mora em São Paulo, me fez prever que a inveja vai se instalar na alma de moleques querendo espada para lutar contra guerreiros do mal, desses que estão por todo lado nas redes.

Gael bem que tentou facilitar o meu serviço, segurando bambu, apanhando ferramentas, dando palpites, aprovando as formas que iam surgindo, mas sempre com um joystick nas mãos e os olhos na pancadaria na TV, ao lado. Numa das vezes que pedi ajuda, ele falou que não podia parar, porque estava jogando com outra pessoa. Quis saber contra quem, mas ele disse não saber e que poderia ser alguém em qualquer lugar do mundo.

Sem interromper o que estava fazendo, pedi que desligasse tudo pra gente conversar um pouco sobre espadas, joguinhos viciantes, perda de tempo e, também, sobre o ato de produzir alguma coisa e a satisfação que se sente ao ter feito algo bonito ou com alguma utilidade. Na medida em que fui enaltecendo o poder das mãos, a capacidade de inventar, a vontade de fazer cada vez melhor, a carinha dele foi ficando a de moleque sagaz e os olhinhos ganharam brilho.

As mudanças nos hábitos das crianças de hoje, provocadas pelo poder de comunicação das redes e por estratégias sofisticadas de marketing que incluem publicidade sedutora e uso de influenciadores digitais, vão ocupando as atenções, consumindo o tempo livre da garotada, empobrecendo o universo das experiências de brincar e de aprender. Isso tudo, além de restringir os momentos de convivência com os mais velhos da família, frequentemente vistos como retrógrados e ultrapassados.

Fazendo a espada, fiquei pensando na função nobre dos avós no mundo de hoje. Avós que viveram em outros tempos, quando as partidas eram disputadas cara a cara, nas mesas de pingue-pongue e de sinuca, nas caixas de totó, nos campos de futebol de botão, e também na porrinha, no pique esconde, no carrinho de rolimã, nas pipas e peladas de rua.

Gosto de pensar que somos pessoas experientes, informadas e sabidas, donas de ótimas lembranças e histórias interessantes para contar, ainda que insuficientes para enfrentar a concorrência digital e os males da overdose de joguinhos eletrônicos que vêm afetando nossas crianças e adolescentes.

Está mais do que provado que iniciativas de os afastar dos celulares, tablets e joysticks podem resultar em protestos de toda ordem, choros desvairados, xingamentos infantis e até em argumentações constrangedoras de pais já derrotados em tentativas anteriores.

Sendo assim, convém que cada um de nós esteja munido da disposição do exército de Brancaleone, da imaginação de Leonardo da Vinci, da paciência de Jó e da sabedoria de Buda para irmos à luta por netos saudáveis, criativos, corajosos, participantes e realizadores.

Vitória, 31 de março de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Banana, café e mamão

Banana, café e mamão

Na semana passada estive no sítio de Carlinhos e Flavinha Larica, amigos de décadas, para fazer uma foto para um livro que estou finalizando. Queria mostrar a varanda da casinha construída por imigrantes italianos, onde começou essa minha mania de fazer colheres de bambu. Ele fica na região de Batatal, na beira da estradinha que sai de Marechal Floriano e vai dar em Alfredo Chaves.

Achei muito bom ver que, passados mais de quarenta anos, os caseiros Antônio e Alício, junto com suas esposas, ainda estão por lá trabalhando. Melhor ainda foi ver que seus filhos são prósperos produtores rurais, cada qual vivendo com sua família em casas amplas com todo conforto. Todos na lide da banana e do café. Na volta, Carlinhos disse, com uma ponta de orgulho, que eles aprenderam a usar técnicas modernas que favorecem os resultados.

Não faz muito tempo, o pessoal da região cortava as bananeiras e deixava os cachos no pé dos morros até a hora de empilhar no reboque do Tobata para despejar no terreiro e, depois, jogar na carroceria do caminhão. Para arrumar a carga, acabavam pisando nos cachos de bananas. Por isso, quando vejo bananas com manchas escuras na casca, me vem a figura de um homem bronco andando sobre elas.

A conversa me fez lembrar de quando ajudei a criar o Centro de Desenvolvimento Tecnológico do Café – CETCAF, ao lado de técnicos do governo e de associados e dirigentes da cooperativa de São Gabriel da Palha, liderados por Frederico Daher e Dário Martinelli. Até então, o setor cafeeiro era controlado por grandes produtores e por poucas empresas exportadoras, que nunca se dispuseram a promover e investir na melhoria das condições de cultivo e trato do café, nosso principal produto agrícola, e que sustenta uma boa parcela da população capixaba. Depois de trinta anos, dá gosto ver a produção de café de qualidade e saber que muitos produtores colocam seus produtos em mercados exigentes, mundo afora, recebendo um bom dinheiro por saca.

A evolução observada nas cadeias produtivas da banana e do café me lembrou de uma passagem da história de sucesso do mamão capixaba, que pouca gente conhece. Ao saber que o mamão de Linhares não estava fazendo sucesso no Ceagesp, em São Paulo, Ricardo Santos, com quem eu trabalhava no BANDES, mobilizou a contribuição de uma agrônoma para investigar as razões do problema e sugerir soluções.

Anita, esse era o nome dela, adotou uma abordagem bem prática: depois de acompanhar de perto a colheita das frutas e colocá-las num caminhão, viajou ao lado do motorista até o destino. Em meio à agitação do lugar, identificou rapidamente uma explicação elementar: as frutas não estavam separadas por tamanho nem por estágio de maturação. Oferecidas nessas condições, caberia aos compradores de grandes quantidades escolher, separar, embalar e encaixotar as frutas que gostariam de levar. Como daria muito trabalho e a pressa era muita sempre, jogavam o preço pra baixo ou saíam em busca de outros fornecedores com cargas mais organizadas.

Na volta, ela reuniu os produtores mais interessados e sugeriu que as atividades de classificação e embalagem fossem incorporadas ao processo de produção. Mais ainda, que era urgente encontrar quem produzisse caixas de madeira de eucalipto, padronizadas para colocar mamão. O sucesso das vendas veio de imediato no mercado nacional e as exportações ganharam escala.

A danação é o nosso mamão Formosa está sendo oferecido a R$12 por quilo, bem mais caro do que melão que vem lá do Nordeste.

São Paulo, 17 de março de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Mares de lagosta

Mares de lagosta

Comecei a mergulhar em busca de lagostas com uns 13 anos. Éramos uns 4 ou 5 moleques que passavam horas no mar procurando antenas e tentando acertar as pontas do tridente na carapaça de lagostas miúdas.

O material de mergulho era bem simplório: tridentes e bicheiros eram feitos em casa e meu par de pé-de-pato foi achado na calçada. A chegada das lagosteiras Helmar, de mola, foi um grande avanço. Ninguém tinha roupa de borracha pra se proteger do frio e a gente torcia pela chegada de vento sul, que garantia águas mais limpas.

Os primeiros mergulhos foram nas pilastras do trampolim que existia em frente ao Miramar e no paredão que ia da Praia do Barracão até a casa da família Michelini. Logo passamos a explorar a encosta da Western e a orla entre a Pedra do Relógio, no Iate Clube, e a praia do colégio das freiras.

Remando, exploramos, sempre em duplas, a ilha das Andorinhas, a borda quase completa da Ilha do Frade, com destaque para as pedras das praias da Castanheira e das Panelas, sem falar no famoso Pegador. Mergulhar nas águas profundas do Pesqueiro Grande e da ilha Rasa, áreas de lagostas maiores, exigia mais tarimba e fôlego apurado. Logo passamos a pescar também no lado norte da Ilha do Boi e das Gaeta de Dentro e de Fora. A bordo da lancha Bacanau, ficou fácil chegar na Ponta de Piranhem, hoje Tubarão, e nas águas frias das ilhas de Itapoã, dos Pacotes, das Escalvadas e das Três Ilhas. De carro, não se perdia viagem aos arrecifes escuros de Manguinhos, Jacaraípe e Nova Almeida. Comer lagosta crua ajudava a matar a fome.

Ao entrar no mar, num final de tarde da semana passada, bateu uma enorme saudade do meu tempo de rapaz arrojado e uma vontade danada de mergulhar, o que não fazia desde 1994, quando infartei.

Pedi a Nélio, meu genro, que me emprestasse seu material pra que pudesse observar novamente trechos do fundo do mar, que conhecia de cor. Em especial, eu gostaria de inspecionar uma toca relativamente espaçosa, situada pertinho da beira, onde sempre havia uma lagosta das grandes. Por habitar lugar tão improvável, ela ficava escondida dos mergulhadores desavisados.

No dia seguinte, sob olhares incrédulos do meu pessoal e no foco das lentes dos celulares, lá fui eu devidamente armado e paramentado, em busca do meu passado. Cumprindo um ritual antigo, passei cuspe no vidro da máscara antes de vesti-la, calcei os pés-de pato já dentro d’água, conferi as pontas do bicheiro e do tridente e, em seguida, armei a lagosteira. Tudo sob as melhores expectativas de sempre. Ao afundar, o frio da água percorreu as costas e fez tremer o corpo e acelerar o coração.

Batendo os pés sem pressa, acalmei a respiração e fui em frente, sempre observando o fundo, até chegar na região da bendita toca. Com a água limpa, foi fácil encontrá-la de longe. Emocionado, permaneci um tempo boiando, respirando fundo antes de me aproximar daquele lugar meio mágico. Seria uma verdadeira glória dar de cara com uma logostona esverdeada me esperando.

Foi duro constatar que a tal loca estava totalmente aterrada, impedindo sua utilização por lagostas de qualquer tamanho. Dei mais uns mergulhos e voltei pra casa sem o trunfo e uma história fantástica pra contar no resto da vida. Bento editou um vídeo safadinho sobre a façanha do pai e jogou nas redes pra quem quiser conferir.

Vitória, 03 de fevereiro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

De utilidade pública

De utilidade pública

Panela antiga, grande, própria para fazer comida pra muitas bocas. Parte valiosa da herança que me coube na divisão das coisas da casa da minha mãe. Veio pra se juntar a uma outra, bem menor, mas de mesmo design, sem quina viva no encontro do fundo com a parede lateral. Feita de alumínio grosso, tem a parte de baixo abaulada, muito útil pro serviço de fritar alho e cebola para os refogados. Pois foi na nossa cozinha, depois dos tantos anos de uso diário, que o seu cabo se soltou.

Tenho boa experiência em consertar panelas velhas, inclusive colocando cabos de bambu de gomo curto, que proporcionam excelente pega. Mais uma vez tentei “fazer o meu melhor”, como se diz por aí, agora usando araldite, poderoso recurso para usos variados que, nesse caso, se mostrou insuficiente para resistir aos esforços de tracionamento demandados.

A cena da queda da panela, patética e perigosíssima, aconteceu longe dos meus olhos, mas ouvi o barulho e a gritaria vindo da cozinha. Ao tirar do fogo, ela foi ao chão com o peso da água e das jabuticabas que colhi no jardim durante 3 dias seguidos, para fazer geleia, dessas azedinhas e travadas, que prefiro.

Soube, por fonte de confiança, que na feira do Bairro de Lourdes tinha um senhor que consertava cabos e, relevantíssimo, tampas de panelas de pressão. No domingo passado, lá fui eu levando a minha, disfarçadamente, numa dessas sacolas de fazer compras. Não foi difícil encontrar a banca apinhada de ferramentas, vidros de doce repletos de parafusos, rebites, arruelas, suportes, um martelo de borracha, um pé de ferro e muito mais. Confesso que fiquei com inveja do martelinho de cabeça redonda usado para golpear o que requer precisão.

Ele trabalhava sentado num banquinho, com um pano grande cobrindo as pernas e as costas apoiadas no paralama traseiro de um Fiat desses pequenos bem surrado. Sempre que necessário ele se virava para o lado, de modo a acessar o banco traseiro, espécie de prateleira repleta de cabos de todos os tipos, tampas variadas, panelas consertadas esquecidas pelos donos e coisas afins.

Mostrei o que havia levado e recebi a promessa de que consertaria em seguida. Aproveitei pra ir comprar 3 cordas de caranguejo, meio quilo de chouriço de porco e umas flores que tinha visto na vinda. Quando cheguei de volta ele estava começando o serviço. Escolheu o cabo, separou 2 arrebites, o suporte e o parafuso e, conferiu se daria certo, colocou tudo no seu respectivo lugar e testou. Para completar o reparo, tratou de desamassar a borda, com o martelo de borracha e olhar de pontaria.

Perguntado, disse que o valor do conserto era 17 reais. Quis saber porque não cobrava 20 e ele reafirmou, sem pestanejar, que era só 17 e mais não disse. Aquilo me fez pensar que aquele homem é um dos últimos que se dedicam à arte dos consertos e reparos de coisas que vão quebrando e se desgastando com o uso diário. Um nobre e valioso cidadão, desses de grande utilidade pública, como são os sapateiros e os alfaiates.

Vitória, 20 de janeiro de 2022

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA