Férias em Cotia

Férias em Cotia

Meu pessoal adora se juntar pra festejar, seja lá o que for: aniversário, lançamento de livro, sucesso de exposição, casamento, chegada de ano novo e tudo o mais que se mostre um bom pretexto ou uma ótima oportunidade para reunir os adultos e a garotada dessa espécie de clã que vai se formando. Está comprovado que muitos se divertem tomando providências para viabilizar ajuntamentos familiares. Aproveitando expertises, preferências e disponibilidades de cada um, atuam em harmonia e com boa antecedência.

Definem as datas e os lugares, inventam os motes, compram o que for preciso, alugam o que for necessário, escolhem parcimoniosamente o menu, enfeitam as paredes pra ficar bonito, arranjam flores no jardim e compram em loja se preciso for, desenham figuras nos vidros das janelas, montam árvores de Natal e barraca na grama do jardim pras crianças, fazem fogueira se puder, selecionam as músicas, botam pra tocar e dançam sem parar, cozinham e botam pra assar, fazem bolo com cobertura, se for dia de aniversário de alguém, inventam saladas e risotos de vários tipos, fritam ovos, criam sanduíche especiais e canapés coloridos, fazem pão de queijo e tortas de maçã ácida e de limão, assam peru e pedem pra destrinchar e fatiar para servir, cortam, picam, temperam e mexem panelas, acendem a churrasqueira, amolam faca para cortar as carnes, lavam louça com pouca destreza e alguma má vontade, varrem se alguém pedir ou mandar, pedem tudo que precisam para quem vai ao supermercado.

Usam o celular o tempo inteiro, trocam mensagem de montão, fotografam tudo e postam imediatamente, bebem cerveja, gim, uísque, vinho, cachaça e muitos drinks com gelo, passeiam na trilha da floresta no parque, deitam ao sol de meio dia, jogam baralho seriamente e brincam com um jogo de palavras, ensinam a fazer colher e os segredos das gravuras, comem como gulosos ao lado de crianças que adoram pizzas, biscoitos e chocolate e disputam o último pedaço do bolo e o restinho do doce de leite.

Chutam bola pra todo lado, tentam fazer cesta no aro da tabela, se jogam na piscina fazendo careta, assistem filme na parede da sala em silêncio ou torcendo pro mocinho, brigam por quase nada e fazem as pazes rapidinho, praticam o vício de disputas em joguinhos eletrônicos, fazem manha pra que deixem jogar mais, dormem no sofá, acordam tarde, voltam a jogar autorizados ou escondidos.

Desta vez o ajuntamento aconteceu numa casa confortável de um condomínio antigo nos arredores de Cotia. As ruas tranquilas e arborizadas me trouxeram as minhas de antigamente, com a garotada indo e vindo sem qualquer dessas preocupações modernas. Amora e Pingo nos receberam com a alegria que uma arara e um cachorro podem demonstrar para os seus donos ​depois de longa ausência.

Vitória, 06 de janeiro de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Bem que merecemos

Bem que merecemos

No sábado passado fui à quarta festa desta pandemia. Antes disso, só um casamento, um lançamento de livro e um aniversário, eventos alegres sempre em ambientes espaçosos e abertos. Desta vez, foi em casa de amigos queridos, também um lugar amplo e arejado. Apertados só os abraços das pessoas com astral nas alturas, todas elas conhecidas há décadas e saudosas há meses. Mais uma reunião oficial de uma confraria de mulheres maduras, produtivas, animadíssimas e poderosas.

Pelo que imagino, a prática corriqueira de se encontrarem para se divertir conversando, bebendo, comendo e dançando, começou a acontecer na varanda, com vista para o mar da Praia da Costa, da casa de uma família de muitos filhos, pais festeiros e amistosos com seus respectivos amigos. Mais adiante a coisa foi ganhando força e se ampliando para além dos muros baixos da casa da família, incorporando paqueras, noras, genros e contra-parentes.

Conheço bem essa condição de pai de 5 filhos, morador de uma casa no caminho de praia frequentada por muita gente. Depois de décadas, ainda acontece de encontrarmos quem diga ter entrado para tomar uma chuveirada no jardim, beber água geladinha e trocar de roupa a caminho do mar.

Como o riso sempre correu frouxo e o papo animado, as garotas da casa foram trazendo colegas de escola e amigas do peito. Foi numa dessas que Carol entrou na roda e achou muito bom e pouco. Numa festa de aniversário, ela achou por bem me levar pela mão, prometendo que outros maridos estariam lá também. Foi assim que conheci uma turma inteira de pessoas que gostam de se reunir com frequência, pelo simples prazer do encontro e de conversas entusiasmadas.

Só vejo gente se abraçando forte, beijando bochechas alheias, alisando cabeças, elogiando as roupas e os cabelos já mais brancos, perguntando pelos filhos e netos, querendo saber se deu certo, o que está pensando em fazer agora. Isso, quando não estão requebrando um samba, gesticulando um rock antigo e rodopiando um foxtrote arretado. As garotas adoram dançar enquanto os garotos bebem cerveja e piscam os olhos de longe, em sinal de aprovação.

Pois, desta vez, foi ainda mais emocionante do que das vezes anteriores: foram 7 horas de festa, em ritmo de uma grande comemoração do reencontro da turma completa, depois de tanto tempo querendo estar junto sem poder. Como está provado, o convívio intenso pelo Whatsapp sustenta as relações pessoais mas nem de longe substitui o afago das mãos, a emoção dos abraços nem o estalo dos beijinhos.

Vitória, 21 de dezembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ventos vindos do Sul

Ventos vindos do sul

A chegada de um vento sul em Vitória sempre foi prenúncio de uma chuva contínua e acompanhada de alguma friagem e muita umidade. Pra muita gente é sempre motivo de transtornos e incômodos, seja por falta de agasalho, seja na movimentação de um lugar para outro, a pé ou de bicicleta. No final dos anos 1960, muito pouca gente tinha carro pra circular pela cidade, o bonde já não existia, os ônibus eram bem poucos e só rodavam pelas avenidas e ruas principais.

Por provocar dias de recolhimento forçado e gerar eventuais melancolias, temas constantes dos escritos de Carmélia de Souza, o vento sul me faz lembrar da minha querida cronista, que hoje desfruta das vantagens do céu ou do inferno ao lado de muita gente boa que partiu daqui. Imagino que ela possa estar abismada com as mudanças que a sua cidade experimentou nas últimas décadas, meio sem saber o que fazer com o slogan “Esta ilha é uma delícia”, meio debochado e cheio de ironia, que cravou para a Vitória de seu tempo.

Para uns poucos, abnegados como eu, que mergulhavam ao redor das ilhas do Boi, do Frade e nas pedras de Ponta Formosa em busca de lagostas, a chegada do vento sul era sempre muito bem vinda, festejada até. Era garantia de contar com uns poucos dias de água do mar transparente, condição indispensável para que a gente enxergasse suas antenas mais de longe e com maior facilidade.

Devo dizer que estou estranhando essa sucessão de temporadas de vento sul por estas bandas. Nos últimos meses foram muitas as frentes frias que chegaram por aqui, trazendo chuvas e baixas temperaturas, inclusive neste começo de dezembro. Pode ser bobagem minha, mas acho que elas devem ser mais uma expressão do desarranjo climático de que tanto se fala mundo afora.

Pois as recentes investidas desse vento frio vieram trazendo lá do sul uma enxurrada de más notícias, na forma de anulações de condenações de crimes e falcatruas bem conhecidas e comprovadas. Sob argumentos variados, homens poderosos da justiça anularam algumas das penas e processos que foram imputados a Eduardo Cunha, Flávio Bolsonaro, Lula, Sérgio Cabral e, de quebra, a Jacob Barata, o “rei dos ônibus” do Estado do Rio.

O que me intriga é constatar que tais decisões mereceram pouquíssimos espaços na imprensa e quase nenhuma crítica contundente de políticos por motivos que desconheço, mas que posso supor serem os mesmos de sempre. De uma coisa tenho certeza: essas decisões produziram muitas alegrias para os respectivos advogados de defesa. Isso, sem falar na felicidade inesperada dos que passaram a compor a fila dos injustiçados por obra e graça dos votos de uns poucos ministros do STF.

Vitória, 09 de dezembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nem parece o mesmo

Nem parece o mesmo

Abatido, fora de prumo, fraco e sem o charme e a convicção de sempre. Deu espanto e uma certa pena. O vigor, a agilidade mental e a sagacidade política parecem ter ido pro ralo. Passou a impressão de que está cansado, cumprindo tabela em missão pela Europa em busca de algo valioso e estratégico.

Nas imagens que pude ver, ele parecia estar numa sinuca de bico, completamente incomodado, doido para se livrar da arapuca em que tinha se metido. As duas repórteres pareciam decepcionadas, sem graça e demonstrando dó do entrevistado. O formalismo estava constrangedor pra os três. Não imagino quem tenha armado o circo, mas dá pra supor que seja coisa de profissionais do marketing do próprio candidato. A sua figura envelhecida, sem brilho nos olhos e firmeza nos gestos, nem de longe lembram aquelas captadas pelo seu fotógrafo de sempre. Em momento algum apareceu como um líder nato nem como um salvador de qualquer pátria.

Faz tempo, escrevi aqui que a melhor alternativa pra ele seria a de entrar para a história como o cara que abriu mão de ser presidente mais uma vez para ajudar a tirar o capitão do Palácio do Planalto. Fazendo as contas inteiras, ele se livraria do tiroteio e não precisaria ficar se defendendo nem ir trabalhar todo dia. A glória lhe garantiria auditório cheio para suas palestras remuneradas e seria curtida com os amigos de verdade, sempre na frescura das sombras e diante de comida boa e bebida honesta.

Muita gente deve ter achado graça da minha imaginação fértil e considerado a formulação totalmente fora de propósito e ingênua. O fato é que a imprensa nanica e atenta publicou que ele está avaliando se de fato vale a pena a aventura de se candidatar a mais um mandato nas condições que se apresentam.

Digo isso sem querer entrar no mérito das declarações dadas durante a tal entrevista. O bate-boca no partido e nas rodas de conversa já tratam disso, com um certo regozijo para quem é do contra e algum constrangimento para seus antigos admiradores. A sensação que me fica é a de que o homem perdeu potência.

Pelo que se pode ver, a entrada de Moro na disputa representa fato muito mais relevante do que se imaginava. Fera ferida, além de tirar votos do atual presidente, ele deverá bombardear duramente quem já foi presidente duas vezes, dando um troco contundente com conhecimento de causa e muita convicção pessoal.

Vitória, 25 de novembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Impressionante

Impressionante

A notícia foi recebida com emoções variadas aqui em casa. A queda de um avião era um fato ruim por si só e atiçou a curiosidade de todos: Pequeno ou grande? Onde foi? Muitos passageiros?

Na pandemia, as perdas sofridas e as mortes anunciadas ganharam condição de rotina para praticamente todos nós. Basta estar ligado em alguma fonte de informação pra ficar sabendo das mortes e dos números atualizados.

A notícia do desastre se tornou mais relevante ao se saber que se tratava de uma cantora muito famosa. Para mim, motivo de espanto: Como assim? Nunca ouvi falar nessa pessoa, jamais escutei seu canto nem vi sua imagem na TV. Ela cantava qual tipo de música? Sertaneja? Então deve ser por isso. Não gosto muito desse estilo musical e sou do tempo dos chitãozinhos e xororós, dos tonicos e tinocos.

Pouco sei sobre essas duplas que existem de montão por esse Brasil afora e se apresentam em cidades do interior, viajando em ônibus enormes com os nomes escritos nas laterais. Uma solução prática e econômica para movimentar músicos, equipe de auxiliares, instrumentos e equipamentos de som e iluminação, com vantagens de viajar ensaiando e compondo com parceiros, jogando baralho e vendo a paisagem.

Digo isso porque já tive um ônibus desses bem grandes, transformado em motorhome, com cama para 12 pessoas, duas mesas, pia, geladeira e banheiro a bordo. Uma alternativa para levar a família grande, com conforto e segurança, por lugares fora das rotas tradicionais, livre das incertezas, do entra e sai em hotéis, de idas e vindas de aeroportos, de carros alugados.

Fiquei impressionado com a quantidade desses ônibus estacionados ao longo de um trecho da estrada por onde passaram os caminhões de bombeiro com os corpos das vítimas. Uma espécie de reverência silenciosa, um último adeus para uma pessoa muito querida, uma irmã do peito, uma referência de vida, uma guerreira das nossas.

Vi muita gente de pé nas calçadas, aglomerada em lugares estratégicos, em filas enormes para se despedir da ídala. A solidariedade e a tristeza estampadas no rosto de cada uma, algumas desoladas por completo. Cenas que me fizeram lembrar dos cortejos fúnebres de Tancredo e Ayrton Sena.

Também fiquei impressionado com as declarações de amigos, parceiros e artistas consagrados, jovens e gente mais velha, de todos os estilos, além de jornalistas, profissionais do ramo. Unanimidade geral e irrestrita. Todos confessando sua dor e, sobretudo, a admiração pela pessoa muito especial que foi para sempre. A sensação de vácuo, de perda de uma criatura muito valiosa, que fez o bem em grande escala.

Mais chocante foi saber que eu nunca tinha ouvido falar dessa mulher tão querida e admirada e me dar conta de um Brasil vivo e pulsante que desconheço por completo.

Vitória, 11 de novembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Saudades de montão

Saudades de montão

Acabo de ver o pessoal do skate na Olimpíada de Tóquio vivendo em alegre harmonia, torcendo pelo sucesso de seus competidores. São cenas emocionantes que contrastam com a zorra instaurada em terras brasilis, por um presidente desvairado e obsessivo por poder. Decididamente, o que tenho visto nas esferas políticas por aqui não me inspira nem me alegra. Pelo contrário, me faz perder a graça e me preocupar com o que de indesejável possa estar a caminho.

Sinto saudades de Ulisses Guimarães, que comandou a Assembleia Nacional Constituinte de maneira digna e exemplar, acima de facções religiosas, grupos de gulosos, rebeldes irritados, milícias e proprietários de fato e de sempre. Ele foi capaz de fazer convergir e de criar um ambiente de tolerância, em favor de um acordo geral entre diferentes. Sinto saudades, também, de gente dotada de capacidade de conversar por horas a fio, sabendo ouvir e argumentar, com decência e convicção, sem se agredir ou inviabilizar convergências parciais, relevantíssimas.

Também tenho saudades dos tempos em que foi sendo ampliado o entendimento sobre o que deveria ser preservado e valorizado como patrimônio histórico e cultural de um lugar, de uma gente. Tenho fortes saudades de Gilberto Gil como Ministro da Cultura ou, se parecer mais adequado, de Ministério da Cultura sob a direção plural e incentivadora de Gilberto Gil.

Sempre me lembro dos técnicos, pesquisadores e dirigentes visionários, que ajudaram a criar uma mentalidade nacional em favor da proteção e valorização do meio ambiente, em especial de áreas estratégicas como a do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Sem a contribuição deles, estaríamos engatinhando e sem convicção para enfrentar a insensatez e as boiadas em geral.

Tenho saudade de figuras como Darcy Ribeiro, com sua compreensão do Brasil e do valor da educação, e de Juscelino, que estava sempre sorrindo, gostava de serenata e queria fazer tudo em 5 anos.

De situações mais recentes, tenho saudades de tardes diante da TV assistindo com atenção ao desenrolar do Mensalão e, como desdobramento, da Lava Jato, produzindo manchetes diárias sobre falcatruas políticas, negócios bilionários, processos e prisões inimagináveis. As notícias produziam uma sensação de “até que enfim” e alguma dose de esperança na melhoria dos padrões de governo. Bem sei que há quem não sinta esse tipo de saudade nem considere relevantes os bilhões de reais recuperados.

Tenho saudades das décadas em que a população brasileira tinha orgulho e confiança nas urnas eletrônicas do TSE.

De uma coisa estou absolutamente convicto: esse presidente e sua turma de seguidores não produzirão em mim, qualquer tipo de saudade, em tempo algum. Não me inspiram nem me fazem querer que fiquem por perto.

Sou da turma dos que sentem saudade do tempo em que não tinha reeleição.

Vitória, 05 de agosto de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Morrendo de rir

Morrendo de rir

A charge de Amarildo na edição do último dia 12 deste jornal previu o final de uma etapa do governo, caracterizado por bobagens, bravatas e ameaças. No desenho do nosso astuto chargista, uns tantos brasileiros estão rolando no chão de rir, diante de Bolsonaro declarando que não haverá eleições se o sistema de votação não mudar. De lá pra cá, a coisa só fez se agravar. A derrota da PEC do voto impresso é fava contada.

A substituição de um general de confiança por um político profissional, dotado de grande capacidade de mobilização de forças e apetites, será a marca da mudança de padrões. Trazer Ciro Nogueira pra dentro do Palácio é a expressão exata da capitulação do estilo capitão bravateiro. Com tal decisão, tomada por desespero, ele abre acesso aos seus segredos, delírios e intenções. E, mesmo não sendo rei, meio que fica nu e sem retaguarda confiável. Já não bastava ter Lira tomando conta do dinheiro e das votações, sempre de olho na unidade do Centrão e encantando boa parte da oposição.

O degringolamento do prestígio e do poder do presidente parece irreversível. Na impossibilidade de se manter impune no comando, só lhe resta ceder parcelas crescentes de poder e comprar apoios cada vez mais caros. E sem qualquer garantia de fidelidade e subordinação.

Não tenho conhecimento de situação tão bizarra, que até parece um torto semipresidencialismo. Teremos uma dupla de gulosos fazendo política do “venha a nós” 24 horas por dia, enquanto o Presidente engasga e rola na cama. É uma condição de sobrevivência inteiramente perigosa e incômoda para pessoas que agem por impulso e prepotência. Bom exemplo disso foi a aprovação do Fundo Eleitoral de valor astronômico, que transformou um aliado em inimigo, com ameaças de abertura de processo de impeachment.

Já se vê que muitos de seus fiéis seguidores estão ficando sem graça. Mais do que isso, já tem gente debandando. Li, esta semana, que “Weintraub articula candidatura ao governo de SP fora da órbita de Bolsonaro”.

As pressões de uma igreja evangélica multinacional sobre o presidente ultrapassaram limites e podem ter aberto mais um flanco. Na condição de enviado especial disfarçado, Mourão foi à África para reunião sobre língua portuguesa e na volta veio trazendo a negativa categórica do presidente de Angola em receber membros da bancada evangélica.

A aprovação de legislação que restringe nomeação de militares para funções no serviço público, que já conta com a simpatia do pessoal de farda, será petardo definitivo no discurso de “meu Exército”.

A esperteza de Kassab, ao defender o nome do presidente do congresso para as próximas eleições, deve ter provocado muitos soluços presidenciais, por quebra de expectativa de fidelidade eventualmente prometida. Por essas e outras, a terceira via vai ganhando força, gostem ou não os dois candidatos que se sentem invencíveis.

Vitória, 22 de julho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Jogar fora, nem pensar

Jogar fora, nem pensar

Assunto alegre é o que não falta por aqui: neta crescendo rapidinho, com cabelo de cima da cabeça arrepiado no melhor estilo cacatua; goiabeira meio maluquinha, produzindo adoidada em pleno inverno de vento sul insistente; perda de Bill, irmão do finado Kill, aos 16 anos, já bem magrinho e com andar robocop, depois de receber muitos dengos, inclusive o de poder dormir dentro de casa durante um mês inteiro; a imunização de praticamente todos os membros do nosso clã familiar expandido e do círculo de amigos; e as quedas progressivas nas perdas diárias de brasileiros por covid-19.

Mas não há como deixar de lado a insensatez e as maracutaias relacionadas aos processos de compra de vacinas pelo governo federal. A partir de uma denúncia muito bem calculada, feita ao Presidente numa tarde de final de semana, vai se descortinando uma espécie de guerra entre quadrilhas ou, para usar um termo mais em voga, entre facções, por dinheiro graúdo.

Basta prestar atenção nas notícias sobre fatos envolvendo civis e militares nomeados para cargos de chefia dos órgãos responsáveis por compras bilionárias, que afetam a vida de tanta gente, lá no Ministério da Saúde. Ao que se sabe, todos eles foram indicados por políticos e empresários conhecidos e com passado relativamente nebuloso. Em complemento, também se fica sabendo de um deputado, que lidera pelo governo, operando com potência e agilidade na aprovação de legislação e de providências relacionadas com compras governamentais estratégicas.

Para engrossar a complexidade do enredo e aumentar o suspense da novela, fica-se sabendo, também, que subiram ao palco novos atores, recém-saídos de malocas e esconderijos. Amadores e profissionais, inclusive um reverendo, oferecem ótimas oportunidades de negócio, posam de detentores de influência e de acesso a gente muito enfronhada no poder central.

O que se oferecia como uma pechincha, transformou-se numa fonte de fortunas potenciais e instigou ganâncias generalizadas. Ainda não se sabe os detalhes, mas tem todo jeito de guerra de foice no escuro. O pessoal da CPI acaba de acender a luz.

Começo a acreditar que a coisa está ficando esquisita e em bases definitivas. A divulgação de sucessivas descobertas de irregularidades e de conexões indevidas no trato do dinheiro público para salvar vidas produz estragos relevantes nos níveis de confiança no governo. Vai se consolidando a impressão de que a vaca já está indo pro brejo. Há até quem acredite que ela já teria ultrapassado o famoso ponto de não retorno, de onde ninguém, mesmo que se valendo de todo tipo de recurso e de habilidade, conseguirá tirá-la.

Ainda não dá para imaginar os próximos capítulos dessa história de terror, mesmo porque, o artista principal pode querer jogar o script oficial no lixo e tentar escrever um outro, a seu gosto e dos seus. Oremos mais um pouco.

Vitória, 08 de julho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Yara chegou

Yara Chegou (Serviços públicos)

Yara chegou. As dores começaram por volta das nove da noite e às duas da manhã ela já estava dando o primeiro choro, com a chegada do oxigênio nos pulmões. Tempo de lua cheia, a maternidade previamente escolhida estava inteiramente ocupada por crianças nascidas nos dias anteriores e grávidas aflitas. Esbaforida e demonstrando muita disposição, nasceu de parto natural num pronto socorro, sob cuidados de médica atenciosa, competente e querida. Compreensiva, nem reclamou.

Convicta e disposta, suga com tranquilidade os peitos da mãe. Serena, até hoje nunca golfou o que acabou de engolir. Uma grande contribuição para a qualidade de vida de quem a alimenta e que precisa de descanso e sossego entre as mamadas. Como era de se esperar, ela nasceu sabendo usar linguagem sonora por comida e trocas de fralda. Chora e berra, se necessário, sempre com justa causa.

Depois que desinchou, sua cabeça, que parecia redondinha, ganhou forma de manga espada, uma característica da saudosa bisavó Gracinha, da prima Manu e do avô que conta esta vantagem. A luz refletida na parede branca do quarto me fez acreditar que seus olhos são claros, puxando para os azuis. Seus cabelos escuros e fininhos produzem cenas de ternura quando alisados pela mãe, enquanto amamenta.

Sempre protegida dos golpes de vento, ela já está tomando banho de sol, só de fralda, no colo de alguém, com os cachorros da casa deitados na grama do jardim, ao lado, completando a cena para fotos.

Diferente do que aconteceu com todas as outras 12 crianças, filhos e netos, da família, estou acompanhando de perto os primeiros dias de Yara, sobretudo os que têm passado aqui em casa, sob atenções e cuidados da avó materna. Como não pego recém-nascido no colo, tento dengar a mãe no que posso. Por essas e outras, me dei conta de que a pandemia proporciona o convívio familiar para pais e avós desobrigados de sair de casa para ir trabalhar.

No começo da semana, mãe, avó e criança foram, em comitiva, ao Banco de Leite do HPM, em Bento Ferreira, em busca de instruções sobre amamentação. Ontem, elas voltaram da consulta ainda mais entusiasmadas, por saberem que, além das orientações, oferecem potinhos de leite materno pasteurizado e congelado para os bebês na UTIn e para as mães com produção insuficiente. Um verdadeiro serviço público de grande utilidade, digno de registro.

Encantada com o tratamento recebido, Carol se lembrou de mamãe contando, saudosa, que papai havia criado algo similar no Centro de Saúde que dirigia nos idos de 1950, em Cachoeiro. Operado por funcionários de sua total confiança, além de oferecer orientações às mães sobre higiene e cuidados pessoais, o banco assegurava seis mamadeiras diárias para alimentar os recém-nascidos da cidade.

Vitória, 10 de junho de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vem, vem

Vem, vem

Escrevo na última quarta feira de maio, data muito significativa para os apaixonados e os que se guiam pelos astros. É que hoje acontece uma conjugação astral muito excepcional: uma tal superlua, com direito a um eclipse lunar total.

Como nem tudo é perfeito, segundo a meteorologia, o céu estará encoberto nestas nossas bandas do hemisfério sul e para completar, segundo a astronomia, o eclipse completo somente poderá ser visto no extremo sudoeste do país.

Pra quem não sabe, a chamada superlua acontece em função da Lua estar passando pelo ponto mais próximo da Terra, o que faz com que apareça maior e mais brilhante do que as demais luas cheias. O eclipse, por sua vez, acontece pelo fato do nosso planeta impedir que os raios de sol possam atingir e se refletir na superfície que nós vemos daqui.

Eu mesmo nunca tinha ouvido falar em superlua até bem pouco tempo, embora tenha tido várias vezes a impressão de que ela estava bem maior do que de costume. Como pescador insistente que fui, as movimentações da Lua sempre estiveram sob minhas atenções. É que delas dependem os horários das marés e as flutuações de nível do mar ao longo de cada ciclo.

Por superstições e razões técnicas que desconheço, aprendi que os peixes comem com mais voracidade nos dias de lua no quarto crescente, sobretudo quando as marés estão subindo. Nos dias de lua minguante e maré morta, as iscas voltam intactas, indicando que os peixes passam longe delas, fazendo pouco caso da nossa oferta traiçoeira.

Tem quem acredite que tempo de lua cheia também é tempo de nascimento de crianças, mas, ao conferir na internet, constatei que os partos de nenhum dos nossos 5 filhos confirmam a crença. Apesar do alarme da noite passada, a ultrassonografia feita no começo da manhã indica que Yara, filha de Nélio, só vai estrear daqui uns bons dias, trazida à luz por Diana, nossa caçula.

Ela vai chegar sob ótimas emoções e encontrar tudo muito organizado, imaginado, preparado, testado, construído, montado, lixado, pregado, amarrado, pintado, retocado, costurado, cerzido, pendurado, lavado, esfregado, instalado, arrumado, empilhado e alisado pelo pessoal de casa e muitos pacotes de fraldas trazidos por amigos e parentes dos pais.

Além de primogênita, ela é a primeira “filha de filha” de Carol, o que me faz pensar que corro o risco de perder espaço na agenda dessa super avó de oito.

Contrariando as previsões meteorológicas, o tempo melhorou. Aproveitei para ir ver, com a minha companheira de sempre, a lua nascer enorme e vermelha, por cima dos navios fundeados na barra.

Vitória, 26 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.