Ah, se eu pudesse

Ah, se eu pudesse (quem me dera 1)

Bateu uma baita nostalgia, dessas graves, que se alastram e podem provocar tristezas homéricas. Trata-se de uma emoção provocada por desgovernos e seus desdobramentos nefastos nesses últimos tempos e, desgraçadamente, pelo desânimo ao tentar imaginar o que pode estar vindo por aí, a galope.

Está complicado achar graça dos palhaços do circo que se foi armando, aceitar os novos anões do orçamento fazendo malabarismos no picadeiro e assistir à movimentação dos paus mandados nos bastidores e do lado de fora da lona. Impossível supor que o espetáculo possa melhorar, nem por um passe de mágica.

Já me bastam as tristezas pessoais e das pessoas próximas, as limitações de poder ir e vir, de abraçar apertado em segurança e as quebras de expectativas surgidas em função da pandemia que não sei se e quando acabará.

Pensando bem, perdi o direito de passar ao menos um dia inteiro sem ouvir, ver e ler notícias ruins e alarmantes na política e nas áreas de meio ambiente, da saúde e da educação. Ideal, mesmo, seria passar semanas sem gente importante falando abobrinhas, ameaçando cidadãos e instituições, alardeando providências descabidas, comprando apoios provisórios a peso do nosso ouro, tentando manter o apoio de quem pensa parecido.

É duro ter que conviver com as recentes maracutaias orçamentárias que garantiram os votos de parlamentares gulosos na eleição de comparsas para a presidência das casas. É cruel saber que há senadores da república defendendo que se deixe o assunto longe dos holofotes, para evitar problemas de segurança do Estado e, isso é hilário, riscos à suas respectivas honras e às de suas famílias. Já foram identificados problemas graves na aplicação de dinheiros do tal orçamento secreto na aquisição de tratores, por duas vezes e meia o preço de tabela. Ainda falta saber em quais bolsos foram parar os reais da diferença pra mais. Isso sem falar na quebra da equidade obrigatória entre os congressistas.

Sem medo de ser chamado de sonhador, digo que seria muito bom voltar a viver num lugar bonito por natureza, habitado por uma população gentil e animada e com a coisa pública sendo exercida por pessoas sérias, serenas, amistosas e prestativas.

A nostalgia só aumenta ao lembrar que vivi muitos anos em cidades tranquilas, jogando pelada na rua, andando de bicicleta sem capacete, dançando de rosto colado e circulando livremente por muitos lugares. Seria muito bom poder voltar a viver tempos de muito pouco dinheiro, quando os crimes mais graves eram por acerto de contas e os mais comuns eram bateção de carteira e roubo de galinha. Época em que a gratidão dos beneficiados por escolas rurais, viabilizadas por meu pai quando à frente da Secretaria de Educação, chegava lá em casa às vésperas do Natal, na forma de perus vivos.

Vitória, 13 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Para todos os gostos

Pra todos os gostos

Vacinados, eu e Carol aguardamos a imunização reforçada para circular pra mais longe e conviver de perto com nossos queridos. A gravidez da caçula, agora na lista dos grupos prioritários da vacinação e a chegada do primogênito pra matar saudades de mais de ano, somam alegrias. O texto de muitas páginas, escrito durante a pandemia, sobre o que gosto de fazer com bambu, já foi enviado para o crivo de amigos corajosos.

As notícias do mundo vegetal são ótimas: a goiabeira, carregada fora de época, mostra que é tão doidinha quanto a jabuticabeira, que produz sem parar; os cajás das redondezas proporcionam jarras de suco e paredinhas pra cachaça; e o abacateiro da vizinhança garante delícias variadas.

Enquanto isso, o Planalto Central treme com tramas, fatos e desdobramentos em ritmo frenético, alguns preocupantes e outros risíveis.

CPI instalada e fora de controle do executivo garante holofotes a senador com disposição para fazer sangrar muita gente.

Aliados dos potenciais sangráveis acionam a Corte Suprema na tentativa de destituir da relatoria o elemento perigoso, assinando requerimento redigido na Presidência. Fazem média e perdem tempo.

Senador filho de capitão reclama da ingratidão do presidente da Casa e faz muita gente gargalhar, ao argumentar cinicamente sobre os perigos de aglomerações durante as reuniões da Comissão. Deve estar de castigo.

Gente graúda do Palácio está preocupada com os brios e a sinceridade do general ex-ministro, diante de senadores curiosos dos seus segredos e, sobretudo, irritados com o que venha a dizer na Comissão. Este já está na história por bater continências sistemáticas.

Ministro generalizado e jeitoso confessa diante de câmeras indiscretas que tomou vacina escondido do capitão. Com isso, ganha lugar na história por demonstrar que hierarquia também tem limites. Tomei, tá tomado; quem não quiser, paciência.

Ministra zoiuda faz andar a denúncia-crime de ex-superintendente federal contra ministro preferido pelo chefe por proteger madeireiros fora da lei. Plenário unido transforma em réu deputado fortão por ameaça e incitação, estabelecendo sentença exemplar.

Ministro que deverá ser substituído por alguém terrivelmente evangélico obriga o Governo a realizar o Censo 2021, cancelado para atender gulodices de aliados de ocasião.

Ministro não faz economia de bobagens ideológicas sobre origem de vírus e qualidade de vacinas chinesas, em ambiente restrito, mas recua quando a gravação vai a público. Entrará para a história como nervosinho que foi desidratado no posto.

Embaixador aperta ainda mais os olhinhos, mostra os dentes e desembainha espada mortal ao ver a tal gravação. Fez crer que componentes e vacinas podem virar pó, se o desgoverno não tomar tenência. Isso, com o país inteiro aguardando desesperadamente pelo que vem da China.

Vitória, 29 de abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tá danado

Tá danado

As manchetes tratam das turbulências no ambiente político. Fazem crer que estamos vivendo um tempo de esgarçamentos, com movimentações de pré-guerra. Enquanto isso a pandemia avança, matando muitos, colocada no centro das disputas e servindo de razão e pretexto para a medição de forças. As tensões aumentam sem que surjam lideranças capazes de mediá-las, em nome da vida e do bom senso. Basta ver as notícias desses últimos dias.

Ministro das contas da União pede condenações severas por vergonhosa gestão do combate à pandemia. Procuradores federais movem ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro e auxiliares. Ministro do Supremo atrapalha os negócios religiosos em nome da saúde e irrita poderosos. Candidato disputa vaga no Tribunal com a bíblia na mão, mas só facilita pro concorrente.

Ministro manda instaurar CPI da pandemia engavetada pelo senador dono da pauta da casa. Colega do Supremo mostra serviço, paga faturas e marca posição. Presidente do Senado, contra a parede, de calças curtas e sem mineirice, encolhe e treme. Senador ex-presidente ressurge querendo botar moral no galinheiro e voltar aos holofotes.

Congressistas querem gastar dinheiro das despesas obrigatórias para tentar a reeleição. Presidente da Câmara, em luta pelo poder, impõe condições para os próximos assaltos. Ministro do posto de gasolina já nem sabe onde vai dar a estrada que passa bem em frente.

Senador coloca no ar irritações e bravatas presidenciais, mostra serviço e erra na dose. Presidente desvairado, perdendo apoio, desvaira mais, fala bosta e em dar porrada. Senador filho de bravateiro processa colega que diz ter bomba pra derrubar a República.

Senadores bem mandados esticam corda pedindo impedimento de ministro supremo. Presidente gargalha ao saber que ministro aliado relatará pedido de impedimento de ministro inimigo.

Ministros decidem em plenário sobre jogadas e conchavos de advogados do ex-presidente. Senador ressentido diz que Gilmar não tem limites e o próprio concorda se gabando disso.

Ministro da boiada quer deixar passar 200 toneladas de madeiras extraídas ilegalmente. Delegado federal abre notícia crime contra ministro por defender interesses de madeireiros.

Senador das armas consegue liberar quantidades e usos com simples golpe regimental. Ministra gaúcha usa o poder da justiça para vetar o que o tal senador conseguiu e comemora. Novas altas patentes fazem cara de paisagem e o capitão volta a falar em “meu exército.”  Presidente diz, também no cercadinho, que aguarda sinal do povo para tomar providências.

Opositores querem juntar os mais de cem pedidos de impeachment engavetados para disparar um só petardo. Ex-ministro poeta, à frente de comissão na OAB, produz arrazoado para pedir o impedimento do Presidente.

Oremus. Em latim.

Vitória, 15 de  abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Primeira dose

Primeira dose

Tenho visto imagens de artistas, políticos, de gente famosa, ex-isso e ex-aquilo sendo vacinados, todos mais ou menos velhinhos, e de anônimos dos grupos prioritários. Todos com cara boa e sorridentes. Uns com expressão de alívio e mãos coladas, outros fazendo o gesto de positivo, com o dedão pra cima, como que querendo dizer alguma coisa do tipo “siga o caminho do tigre”. Cheguei a ficar com uma certa inveja.

Volta e meia acho bom ter direito a atendimento preferencial, inclusive nos balcões dos açougues. Aprendi ainda menino a dar lugar para os mais idosos e para as mulheres. Nem sei se isso está sendo ensinado às crianças pequenas de hoje em dia. Chego a pensar que nesse mundo do salve-se quem puder, do prepare-se para conquistar, a educação de filhos deve estar sendo repaginada, como se diz. Mais do que bons modos e solidariedade, deve ter muita gente ensinando técnicas para alcançar objetivos, macetes para fazer sucesso, práticas para subir na vida rapidinho e coisas do gênero.

Pois após meses mantendo controle dos meus movimentos, a filha caçula e o marido trataram de fazer o agendamento e me levar para vacinar. Chegamos com antecedência de poucos minutos do horário marcado, entramos numa fila bem pequena e saímos poucos minutos depois. O posto de vacinação estava funcionando numa escola pública municipal muito bem cuidada.

Fui recebido com atenção, como se fosse alguém que estava sendo esperado, e saí agradecendo a cada um da equipe, por ter sido muito bem atendido. Quase dei um beijinho na enfermeira simpática que furou meu braço esquerdo e nas moças que confirmaram meu nome no sistema e me deram um cartão indicando a marca da vacina e data da segunda dose. Dei o meu melhor sorriso para a mocinha gentil que recebia os vacinantes no portão e indicava cadeiras para sentar.

Não senti nada, absolutamente nada. Nem dor, nem a agulha entrando. E olha que eu tenho boa experiência de tomar vacina e injeção e, pior de tudo, de tirar sangue pra exames. Bem que eu já tinha percebido que ninguém que vi sendo vacinado fazia cara de dor ou de arrependimento ao ser furado.

Com Carol foi ainda melhor: parei o carro ao lado da tenda armada numa rua larga e tranquila de Bento Ferreira para ela descer e fui estacionar a uns 30 metros adiante, ao lado de onde sairia, já vacinada. Pois ela nem precisou sentar para esperar a vez. Deu gosto ver a sua carinha radiante, de vitoriosa, vindo com uma mão apertando o algodão no outro braço. Ela me disse que também não sentiu nada. Diana registrou o evento e jogou na rede, como Nélio já tinha feito comigo. Parentes e amigos adoraram saber.

Digo tudo isso para atestar que tudo funcionou muito bem, proporcionando uma gostosa sensação de segurança e dando impressão de que estamos num país civilizado. Resta ver como o pessoal mais novo vai se apresentar pra vacinar.

Vitória, 02 de abril de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Praias em Março

Praias em Março

Gosto de andar na praia no começo das manhãs, sobretudo nos dias de lua cheia e de lua nova, quando a maré está bem baixa, a areia está mais dura e plana, o sol não está tão quente e o vento nordeste ainda está bem fraquinho. Pra quem não sabe, as marés de março são as maiores do ano. Por aqui, elas atingem a marca de 1,40m de altura, de 2,20m em João Pessoa e de incríveis 6,00m, em São Luís.

Pois as manhãs deste mês de março têm sido mais do que generosas com quem vai pra beira do mar em busca de saúde e distração, se lá isso for possível.

Somos pouquíssimos, os frequentadores habituais da praia da esquerda da Ilha do Boi nesse horário. Posso contar nos dedos: dois ou três casais com criança de colo, uma mulher com um cachorro desses pequenos e enjoados, um homem sarado que percorre, em boa velocidade, muitas idas e voltas, uma moça que se exercita com tiras de elástico, duas senhoras que, pela animação da conversa, devem ser vizinhas de longa data. Dentro d’água, um pequeno grupo de gente disposta faz ginástica sob orientação de um personal.

Outro dia, acompanhei a atracação de uma canoa havaiana com cinco remadores principiantes e um experiente, responsável pelo rumo da embarcação. Sorridentes e vitoriosos, eles rebocaram a canoa praia acima, fizeram selfies ao lado dela e voltaram a remar.

Lá estavam também os dois homens de cabeça branca, que conversam em pé, depois que nadam na beira, em paralelo à praia e sem pressa. Um deles, se interessou pela colher que eu estava fazendo e foi levando ela pra casa, prometendo trazer bambu da fazenda. O amigo fez olho comprido e pediu uma pequena, pra servir pimenta.

Na ponta oeste da praia, três pescadores com roupas apropriadas armavam suas varas e molinetes de última geração e dois rapazes, munidos de cavadeira, tiravam sururu graúdo nas pedras que ficam submersas quando a maré está alta. Pois foi lá também que encontrei um guruçá observando o mundo da boca do seu buraco. Fazia tempo que não via nenhum deles e nem as borbulhas de corrupto, um animal bem estranho, que tem cabeça de tatuí, barriga mole e cauda de camarão, a isca mais atraente que existe. Falando nisso, não tenho visto bateras e barquinhos com pescadores disputando quem pega mais carapaus, como é tradicional nos meses de março, quando eles passam por aqui em cardumes.

Também é comum acompanhar dois garis da Prefeitura rastelando, com boa disposição, a praia inteira e enchendo sacos com o lixo que recolhem, ver a dupla de salva-vidas arrumando o posto de observação do mar e das morenas e a chegada do primeiro vendedor de picolé.

Soube pela imprensa que estão avaliando a conveniência de interditar as praias por uns dias. Espero que o bom senso continue prevalecendo e as restrições se limitem às aglomerações, onde quer que elas aconteçam.

Vitória, 18 de março de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Canseira e esperança

Canseira e esperança

Ando muito triste com o que tenho visto, lido e ouvido nesses dias de acirramento da pandemia. Não é pra menos. Crescem em ritmo acelerado a contaminação, as mortes e o nível de ocupação dos leitos hospitalares em muitos lugares. Doentes graves começam a circular pelos ares em busca de leitos vagos.

Tenho preferido não acompanhar de perto as notícias trágicas nem conversar muito sobre o assunto. Me restrinjo a tentar saber das curvas de tendências. Os números por si já não me dizem muita coisa, exceto para demonstrar que a vaca está indo, sozinha, para o brejo. Carrego uma grande melancolia em viver um tempo tão ruim, desses que geram sensações de impotência em larga escala.

Não acredito na equipe do Ministério da Saúde faz muito tempo. Não vejo nela alguém em quem possa confiar. Todos, inclusive o ministro fortão, me passam a mensagem de que estão tentando me enganar, que estão mais preocupados em esconder o tamanho da tragédia anunciada e em disfarçar a falta de competência, seriedade e disposição para dar conta do recado. Já não sinto raiva nem tenho pena dessa equipe. Que a História cuide de cada um e que a Justiça faça com que todos se arrependam amargamente dos respectivos desmandos e descasos.

Como não existe vácuo de poder, vejo gente nova assumindo posição de enfrentamento da pandemia em busca de palmas e, sobretudo, de mais peso político. As eleições no Congresso mudaram radicalmente a distribuição de forças entre os Poderes da República. Os governadores e prefeitos ganham aliados importantes nessa peleja para conseguir vacinas.

Mas não há como deixar de ler as manchetes sobre as sandices e bravatas que esse presidente de alguns vai produzindo em escala. Já li, faz tempo, que ele se move de acordo com estratégia muito bem estruturada e objetiva, orientada para desgastar instituições, lideranças e valores. Isso, sem falar nos seus traços psicológicos e de personalidade, próprios dos que não aceitam contraposição, sinais de infidelidade e tudo o mais que possa expressar conspiração de qualquer natureza contra si e seus interesses. Não sei onde isso vai parar.

Sei de gente que acredita piamente nas palavras e investidas presidenciais e que apoia e acha bom que ele continue comprando briga, vendo chifre em cabeça de burro. Respeito o direito de escolha e de opinião, mas as pesquisas mostram que essa turma está encolhendo.

As eleições estão no fim do túnel. Daqui pra frente devem surgir movimentações políticas de toda ordem que vão provocar reações contundentes para tentar anulá-las no nascedouro, em favor de polarizações conhecidas.

Tenho preguiça de ver esse filme novamente. Torço para que o segundo turno das próximas eleições para Presidente ofereça ao menos uma alternativa para que eu possa dar um voto esperançoso.

Vitória, 04 de março de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pare e siga

Pare e siga

Não fomos conhecer Buenos Aires por conta da chuvarada no fim de semana. Eu tinha pedido uma chuva de limpar o céu, mas mandaram chuva pesada, de vento sul, que durou mais do que os 3 dias regulamentares. Fiquei sabendo de muita gente conhecida que já comeu a tal galinha pé duro com polenta e recebi sugestão de subir o morro no meio da semana, quando o lugar fica bem vazio.

O domingo de carnaval foi intenso. Resolvemos aceitar o convite de Thais Hilal para participar do encerramento da segunda edição do programa de residências artísticas Entre Nós, promovido pelo Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu. Um lugar meio mágico, idealizado e concretizado pelo monge Daiju, homem inspirado e determinado.

Tinha estado lá umas três vezes, há uns 20 anos, ainda bem no comecinho e quando a enorme ladeira era vencida a pé. No final do ano, fui com Carol, minha filha Bebel e seu Alex conhecer a estátua de Buda, no alto de uma pequena elevação à margem da BR 101, na entrada das terras do mosteiro. De grandes dimensões e muito bem construída, surpreende quem passa de carro e encanta quem chega perto e olha pra cima. Aproveitei a viagem pra comprar um garrafão de cachaça, a oficial da família, num antigo alambique na zona rural de João Neiva.

Neste domingo saímos cedinho, em companhia de nossa amiga Carmen, mas não conseguimos chegar lá. Um caminhão carregado com latas de sardinha tombou na estrada perto de Fundão, nos obrigando a voltar pra trás.

Pra não perder o humor, resolvemos ir comer moqueca em Santa Cruz, na beira do rio Piraquê-Açu, de memórias de vagabundagem. Também não deu certo. Encontramos o trânsito interrompido bem na entrada de Nova Almeida, onde Carol queria rever a igreja de Reis Magos e comprar quindim, pra comer de sobremesa.

Demos outra meia volta e, achando graça, resolvemos curtir a saudade dos sábados de carnaval de Manguinhos e almoçar à sombra das castanheiras do Vagão do casal Suely e Marlou, que não víamos faz tempo. Consegui finalizar duas colheres pequenas e dar pra eles, por merecimento.

Na terça, o passeio carnavalesco foi em casa de amigos no Morro de Setiba. Na estrada, quase chegando, uma moça empurrava um carrinho colorido onde se lia “Acarajé da Cris”. Parei o carro e dei marcha à ré. Surpresa e risonha, disse que me esperaria no campinho onde fazia ponto. Mas as conversas animadas e a fartura do junta-pratos me fizeram esquecer de ir lá.

Voltando pra casa com boca de acarajé, soube da prisão de um deputado fortão, desses bem prepotentes e sem papas na língua. Deu ruim, como se diz na Paraíba. A unanimidade da decisão do STF fez a quarta-feira de cinzas da pandemia virar data determinante na política brasileira, espécie de freio de arrumação, verdadeiro divisor de águas.

Vitória, 18 de fevereiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vendo de cima e de longe

Vendo de cima e de longe

Estamos em preparativos para ir passear em Buenos Aires, lugar no alto de uma montanha que não conheço e onde quero ir, faz tempo. É possível que o leitor possa pensar que eu esteja delirando, já que todo mundo sabe que a capital da Argentina fica no plano, à beira do rio da Prata. O lugar a que me refiro fica nas montanhas que são vistas da Rodovia do Sol e saindo de Guarapari pela estrada que vai dar na BR 101.

Tenho nas ideias que a vista lá de cima deve ser deslumbrante. Algo que, por si só, justifica encarar uma estradinha de barro, com cascalho nos trechos mais íngremes. Com tempo bom, de preferência depois de uma chuvarada, é provável que se consiga enxergar todas as cidades e os vilarejos à beira mar. Também estarão à vista, ao norte, os morros do Convento e do Moreno e os navios na barra e, ao sul, o Monte Agá. Ainda que minúsculas, também deve ser possível ver as Três Ilhas, entre Setiba e Ponta da Fruta, os Pacotes, no mar da Praia da Costa e, talvez até a Ilha dos Franceses, bem mais volumosa, diante de Itaipava e Itaoca. Foi nela que, ao descer do barco pra pescar, papai deu uma canelada tão violenta numa pedra que os amigos acharam por bem voltar pra trás.

É provável que os prédios altos de Guarapari bloqueiem a visão das Escalvadas, duas ilhas pequenas situadas a umas 6 milhas da costa. Mas, com certeza, será possível constatar que quanto mais longe de terra firmes as águas do mar vão ficando mais escuras e que, lá no fundão, elas são azul marinho, quase roxas.

A decisão de subir o morro foi tomada também por gulodice: é que soube que lá tem um restaurante que serve galinha “pé duro” ao molho pardo, acompanhada de polenta. Comida bruta, de lamber os beiços, que me faz lembrar do meu querido amigo Iveraldo Lucena, de João Pessoa, que adorava galinha à cabidela, como se diz no nordeste brasileiro. De barriga cheia e sem a menor pressa, ele ficava chupando os ossos enquanto a conversa corria frouxa. Como se não bastasse, também fiquei sabendo que, além de outros atrativos, lá em cima funciona uma fábrica de cerveja artesanal de boa qualidade.

As dicas são de um compadre que participa de um grupo que sai andando a pé, de bicicleta e sobretudo de van, para conhecer e aproveitar o tanto de coisa boa e de lugar bonito que ainda não foi detonado. Vão e voltam no mesmo dia, todos de máscara. Já estiveram no Parque do Forno Grande, no Caminho de Caravaggio, nas cachoeiras de Patrimônio da Penha, já andaram de Iconha a Rio Novo do Sul, e muito mais.

Escrevi isso com os olhos no que está acontecendo na Câmara dos Deputados. A decisão de colocar a deputada Bia Kicis na CCJ, seja por pretensão ou prepotência, é algo que dá preguiça e faz qualquer marmanjo pacífico, como eu, achar que estão brincando com fogo.

Vitória, 04 de fevereiro de 2021.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Com e sem pescoço

Com e sem pescoço

Assistindo um noticiário de TV, me dei conta da falta de pescoço do general que ocupa um dos mais importantes cargos do país em tempo de pandemia. Devo dizer que acreditei na informação de que ele era considerado um especialista em logística, algo extremamente relevante e estratégico em tempos de emergências, quando o abastecimento de produtos e meios se faz indispensável. Em países continentais e heterogêneos como o nosso, essa capacidade se mostra ainda mais indispensável à vida.

Morrer gente dentro de hospitais por falta de oxigênio é algo absolutamente vergonhoso e inaceitável. É uma espécie de crime de lesa pátria, uma boa justificativa para gente que é séria pedir demissão e, sobretudo, para que sejam emitidas ordens de prisão preventiva de todos os irresponsáveis.

Dói saber que estamos em pleno retrocesso na saúde pública. É mais do que sabido que o Brasil detinha, até pouco tempo, reconhecimento mundial por sua capacidade de vacinar sua população inteira, sempre que necessário. Nosso Ministério da Saúde e o SUS eram respeitados mundo afora, por oferecer serviços de alto padrão de qualidade e eficiência.

Como se isso não bastasse, está claro que a prepotência e a desfaçatez praticadas em larga escala pelo Governo Federal nas suas relações com outros países estão nos custando caro. Nas relações bilaterais e nos negócios, prevalecem as vontades, os valores e as razões dos poderosos, daqueles que decidem se pode ser, quando será e sob quais condições. É a lei do mais forte que impera, sempre. Com arrogância e idiotices não se vencem disputas, sobretudo as inventadas.

Convém não esquecer que o processo da vacinação está apenas começando e tomando forma. É algo pra durar mais de ano, sujeito a todo tipo de perrengues e interferências. É de se esperar que a China, a Índia e outros produtores de vacinas e de insumos vão fazer valer suas políticas e seus interesses de donos do mercado. Para seguir nos entendimentos, eu soube que pediram a cabeça do desvairado do Itamaraty.

Voltando ao pescoço do Ministro da Saúde, que praticamente não se vê, dá pra imaginar que ele será cortado em breve, a título de transferência de responsabilidade e em busca de sobrevivência política. O Presidente já deu mostras de que governa aos solavancos e defenestra quem esteja ao seu lado, ainda que obedecendo às suas ordens e passando vergonhas.

Vitória, 21 de janeiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para

A GAZETA.

Bodoque pra neto

Bodoque pra neto

Cá estou eu às voltas com um pedido de Biel, meu neto de sete anos. Nem imagino de onde saiu esse desejo dele de ter uma seta, um bodoque, daqueles que as crianças de antigamente usavam para brincar atirando bagas de mamona, e, os meninos mais velhos, para caçar passarinhos no alto dos morros, depois de produzir a própria munição. Passávamos horas enrolando pelotas de barro do tamanho de bola de gude, que depois secávamos numa chapa de ferro com fogo embaixo.

Doda, o caçula dos seis filhos de Bebeta e Seu Jorge, adoráveis agregados de papai e mamãe, era um exímio usuário de seta. Dono de pontaria invejável, ele acertava com facilidade rolinha pousada na ponta de um esteio e anu-branco se equilibrando num fio de baixa tensão. Caçar passarinho era programa frequente quando a gente ia passar uns dias em Cachoeiro.

Naquele tempo, a garotada fazia seus próprios brinquedos: botão de coco pra jogar futebol de mesa, pipas com papel de seda e rabiolas de pano, vara de pescar, carrinho de rolimã. Até hoje uso muito do que aprendi menino pra dengar neto.

Pra começar o serviço, precisei arranjar um bom gancho de seta, que fosse adequado para um menino canhoto. A firmeza é a alma da segurança e da pontaria. A forquilha deve permitir a passagem da pedra com folga e o cabo tem que oferecer pega cômoda e bem firme, com os três dedos pressionando a madeira contra a palma da mão. O polegar e o fura bolo são usados para controlar a angulação da forquilha, indispensável à precisão da mira.

Cortei com dó um galho da nossa fertilíssima goiabeira, para aproveitar uma bifurcação jeitosa que estava mais perto do chão. As tiras de borracha serão cortadas de uma velha câmara de ar de bicicleta e o porta pelota será feito de couro branco. Nas amarrações, usarei fio de tucum feito por índio.

Os dois elásticos, fixados nas pontas do Y e numa tira de couro, lugar da munição, deverão ser esticados com algum esforço com o braço se afastando do corpo e a mão sendo trazida para perto do olho de pontaria. Os movimentos de esticar os elásticos devem ser contínuos e precisos, de modo que a mira vá sendo calibrada durante o processo. É pá, pou! Nada de ficar mirando o alvo com os braços estirados, que começam a tremer.

A produção de pelotas será intensa nos próximos dias. Vou arranjar barro com uma amiga que acaba de virar ceramista. O problema vai ser ensinar o moleque a atirar pelotas na direção certa. Afoito que é, corre o risco de acertar cabeça de irmão e vidro de janela na vizinhança. Por precaução, vou fazer um alvo de madeira e pedir que Manu pinte direitinho.

Enquanto isso, o Presidente da nação, talvez ciente do que esteja vindo por aí, intensifica a falação de abobrinhas disfarçantes, ao tempo que o seu colega do norte perde de vez a compostura e o respeito.

Vitória, 07 de janeiro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA