Férias em Cotia

Férias em Cotia

Meu pessoal adora se juntar pra festejar, seja lá o que for: aniversário, lançamento de livro, sucesso de exposição, casamento, chegada de ano novo e tudo o mais que se mostre um bom pretexto ou uma ótima oportunidade para reunir os adultos e a garotada dessa espécie de clã que vai se formando. Está comprovado que muitos se divertem tomando providências para viabilizar ajuntamentos familiares. Aproveitando expertises, preferências e disponibilidades de cada um, atuam em harmonia e com boa antecedência.

Definem as datas e os lugares, inventam os motes, compram o que for preciso, alugam o que for necessário, escolhem parcimoniosamente o menu, enfeitam as paredes pra ficar bonito, arranjam flores no jardim e compram em loja se preciso for, desenham figuras nos vidros das janelas, montam árvores de Natal e barraca na grama do jardim pras crianças, fazem fogueira se puder, selecionam as músicas, botam pra tocar e dançam sem parar, cozinham e botam pra assar, fazem bolo com cobertura, se for dia de aniversário de alguém, inventam saladas e risotos de vários tipos, fritam ovos, criam sanduíche especiais e canapés coloridos, fazem pão de queijo e tortas de maçã ácida e de limão, assam peru e pedem pra destrinchar e fatiar para servir, cortam, picam, temperam e mexem panelas, acendem a churrasqueira, amolam faca para cortar as carnes, lavam louça com pouca destreza e alguma má vontade, varrem se alguém pedir ou mandar, pedem tudo que precisam para quem vai ao supermercado.

Usam o celular o tempo inteiro, trocam mensagem de montão, fotografam tudo e postam imediatamente, bebem cerveja, gim, uísque, vinho, cachaça e muitos drinks com gelo, passeiam na trilha da floresta no parque, deitam ao sol de meio dia, jogam baralho seriamente e brincam com um jogo de palavras, ensinam a fazer colher e os segredos das gravuras, comem como gulosos ao lado de crianças que adoram pizzas, biscoitos e chocolate e disputam o último pedaço do bolo e o restinho do doce de leite.

Chutam bola pra todo lado, tentam fazer cesta no aro da tabela, se jogam na piscina fazendo careta, assistem filme na parede da sala em silêncio ou torcendo pro mocinho, brigam por quase nada e fazem as pazes rapidinho, praticam o vício de disputas em joguinhos eletrônicos, fazem manha pra que deixem jogar mais, dormem no sofá, acordam tarde, voltam a jogar autorizados ou escondidos.

Desta vez o ajuntamento aconteceu numa casa confortável de um condomínio antigo nos arredores de Cotia. As ruas tranquilas e arborizadas me trouxeram as minhas de antigamente, com a garotada indo e vindo sem qualquer dessas preocupações modernas. Amora e Pingo nos receberam com a alegria que uma arara e um cachorro podem demonstrar para os seus donos depois de longa ausência.

Vitória, 06 de janeiro de 2022.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

Quem poderia prever

Quem poderia prever

Dezembro está fértil em acontecimentos políticos significativos, sem contar aqueles diretamente associados à pandemia. Na terça feira, acordei com a notícia da prisão de Crivella, prefeito do Rio. Não gosto daquela pessoa, que incluo na turma ruim da política brasileira que mistura ações de governo, falcatruas gordas e negócios religiosos. Ele tinha recebido endosso do presidente da República na eleição pra prefeito, mas perdeu fragorosamente. Perderam, pra ser mais exato.

Também fiquei satisfeito em saber que a Procuradoria Geral da República pediu ao STF que anule a decisão monocrática do seu mais novo ministro. Demonstrando claramente o que veio fazer na Corte, em nome de quem o indicou e o aprovou para um cargo vitalício, ele tratou de reduzir as penalidades da Lei da Ficha Limpa. Com isso, virou uma espécie de bucha de canhão e, como tal, deverá levar um corretivo dos colegas, para tomar tenência, como se diz.

A eleição de prefeito de oposição em Macapá, por sua vez, deve ter deixado mais uma marca profunda no espírito de jogador aloprado do Presidente. Durante a campanha, ele declarou apoio ao então candidato favorito, irmão do presidente do Senado, com quem estava em pleno conchavo político. O apagão de energia elétrica no Amapá deixou a nú o padrão de desgoverno e irritou profundamente os eleitores. Os Alcolumbre foram pro vinagre.

A coisa também ficou muito ruim pro Presidente lá no Congresso, a ponto de ele declarar que não mais pretende influir na escolha dos dirigentes das duas casas. Na Câmara, sob a batuta de Rodrigo Maia, político hábil que se viu instado a medir forças, a oposição se armou e adotou a independência e autonomia do Poder Legislativo como mote eleitoral, um lema rico em corporativismo agregador. É provável que o PT queira fazer bonito somando votos contra o candidato, às voltas com a justiça, do Presidente.

Também deve estar aumentando bastante o desassossego do Presidente ao ver o pessoal da justiça e da polícia fazendo andar processos de investigação e denúncia de gente da sua família. Nos últimos dias, para engrossar o caldo, entrou na mira oficial algo muito delicado, dotado de poder explosivo: os relatórios oferecidos por gente da Agência Brasileira de Informações para municiar os advogados de defesa no processo das rachadinhas de um dos seus filhos zero à esquerda.

O fato é que, por essas e muitas outras que vêm vindo por aí, vou entrar em 2021 com otimismo na alma, bem diferente do que senti no começo de 2020, quando tudo indicava que teria que encarar 8 anos seguidos de prepotência e crimes diversos. Minha impressão é a de que o governo Bolsonaro começou a acabar, de vez.

Vitória, 23 de dezembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Começou a temporada

Começou a temporada

Com a chegada de Manu, Quim Quim e Tom Tom, trazidos de São Paulo por Manaira e Gustavo, tios de uma e pais dos dois, comemoramos a abertura oficial da famosa Creche da Vovó Carol. Para animar a festa, na próxima semana, também vindos de lá, entrarão pelo portão Tetheo e Biel e a mãe Dani. Os netos Alice e Gael, residentes na cidade, já passaram o sábado com os primos e voltarão com boa frequência para as risadarias, as correrias, os lero-leros, as implicâncias e as disputas de costume.

Os preparativos do local incluíram montar uma árvore de Natal até o teto, fazer um par de baquetas de bambu, trocar as pilhas do controle da TV lá da frente (para evitar amontoação de menino na minha cama), tirar do armário farto material de desenho, caixas de joguinhos infantis e nem tanto, além de brinquedos e bola de futebol, lubrificar as rodas do carrinho de rolimã do verão passado e providenciar a instalação de um pula-pula de uns 3 metros de diâmetro na varanda da frente.

Numa ida preventiva ao supermercado compramos biscoitos, pão de queijo e frutas para todos e brócolis para Tom Tom. Da Vila Rubim, trouxemos um saco com um quilo de jujuba para distribuição em momentos adequados, de uma em uma, sempre a título de recompensa por bons modos e bem feitos. Trata-se do melhor investimento de R$9,00 que se pode fazer, tamanho o sucesso dos rendimentos.

Ontem, a pedido de Quim Quim, cortei galhos carregados de vagens secas do pé de pata de vaca na rua, pra ele tirar as sementes e levar na bagagem de volta. Talvez por acreditar nos super poderes do avô, ele também pediu uma casinha em cima de uma árvore, o que dificilmente conseguirei atender nesta temporada.

Como parte dos festejos, no sábado, aconteceu um longo e animado churrasco de adultos, enquanto as crianças maiores faziam piquenique em cima da casa, subindo e descendo pela nossa gloriosa goiabeira. Falando nisso, o campeonato de “quem tira mais goiaba” já está em andamento, com Manu na liderança, mesmo assistindo aulas e fazendo provas on line e cuidando de um filhote de Bem-te-vi, recolhido no caminho de volta da praia. Satisfeito com a mistura de fubá e ovo e batizado de Beija-mim, ele fica chamando a mãe, aos gritos, pousado no dedo da sua ama seca.

Para não perder a mania, fui fazendo colheres para dar de casamento para a minha primeira sobrinha neta que, espantada pela minha cara barbuda, me chamava de Papaco. Inclusive ao levar os netos menores lá do final da rua pra ver navios, ondas, tartarugas, aviões e urubus voando.

Tudo isso em meio às notícias de um querido amigo com covid e da perda do grande Hélio Demoner, a quem não via faz muito tempo.

Vitória, 10 de dezembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Em compensação

Em compensação

As notícias de jornais indicam que os números negativos da pandemia voltam a crescer e que as curvas de contágios e de internações voltam a ser ascendentes, como que anunciando a tal segunda onda, ainda mais perigosa e aterrorizante. Fica-se com a impressão de que esteja morrendo mais gente do que nunca, pelo fato de que, agora, a morte está atingindo um maior número de pessoas conhecidas e parentes ou amigos de alguém que se sabe quem seja.

Tenho me mantido em estado de resguardo, praticando protocolos e recomendações, evitando, sempre que possível, aproximação e contato físico com outras pessoas, sobretudo com as que circulam por ambientes sabidamente de maior exposição ao contágio. A condição de participante de grupo de risco elevado me colocou sob controle rigoroso, quase neurótico, exercido por cinco filhos, deixando pouca margem para circular pela cidade, mesmo que em carro com janelas fechadas. Isso me exige o uso de uma sonseira mansa para garantir um mínimo de satisfação de estar ao lado, guardando distância prudente, de gente muito amiga, que faz falta.

Em compensação, como algo que mostra que tem sempre o outro lado da moeda e como argumento otimista de que nem tudo está perdido, fui um dos dois primeiros a saber de uma baita novidade: em meados do próximo ano serei avô de mais uma criança, vinda de Diana, nossa caçula, e de Nélio, que está bobão, bobão.

Desde ontem, quando a notícia da gestação do oitavo neto foi liberada para o grande público, Carol, completamente feliz e animada, não solta o celular, entoando uma espécie de grito de auditório: “oitavinho vem aí, pampam pampampampam, oitavinho vem aí”. Mais comedido, fico achando graça e imaginando como vai ser bom ter mais gente em volta, pedindo pra consertar brinquedo, querendo me ver fantasiado de Papai Noel.

Pelo que sei, esse mesmo tipo de compensação está acontecendo com quatro de dez casais que sempre encontramos nas reuniões de comemoração e festas de aniversário. São pessoas mais novas do que eu, cujos filhos estão começando a ter seus primeiros filhos agora.

Dá pra imaginar o tititi das avós contando vantagens dos netinhos recém nascidos, dos netos que vão dormir pela primeira vez na casa delas, das noites maldormidas da criança e da avó, da roupinha que compraram pro neném, enfim, conversas leves, próprias para ocupar o tempo e distrair as atenções daquelas senhoras festeiras, avós de primeira.

O tamanho da amostra é bem restrito, tudo bem, mas proporção tão relevante de famílias grávidas, faz pensar que tantos nascimentos podem representar, para além de mera coincidência, uma reação natural em favor da sobrevivência de uma espécie ameaçada.

Vitória, 26 de novembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Lá e cá

Lá e cá

Devo dizer, sem ao menos corar, que senti uma inveja boa ao assistir à festa de comemoração dos resultados da eleição nos USA, realizada num palanque iluminado e protegido por vidro contra tiros, na cidade natal do presidente eleito. Um acontecimento muito alegre, eminentemente familiar, restrito à participação dos respectivos cônjuges e dos filhos, netos, genros e noras dos eleitos e eventuais agregados. Boa parte da inveja foi por conta das caras sorridentes, leves e amistosas. Não identifiquei ninguém com jeitão de bandido de origem, de malandro na espreita, de mocinho falcatrua e de mocinha piriguete.

Gostei sobretudo do sorriso largo e do jeito franco de mulher positiva da senadora Harris. Depois de vê-la comemorando a vitória, li com atenção redobrada um release sobre suas origens, incluindo as atitudes e os valores de seus pais, que foram, ainda adolescentes, estudar nos USA por convicções pessoais. Posso estar redondamente enganado, mas fiquei com a impressão de que ela vai chegar à presidência do país, seja em substituição ao titular ou eleita, nas eleições de 2024.

Também gostei do discurso do presidente eleito. A serenidade e a firmeza de suas palavras abrem espaço para convergências consistentes em torno de questões graves, de repercussão no futuro do país e de alhures. Me pareceu que elas foram ditas com sinceridade, atestando a serenidade e a determinação de um homem público muito experiente.

Também assisti a figura patética e arrogante de um canastrão posando de poderoso, incitando seus seguidores a não aceitarem os resultados das urnas. Tudo para juntar gente para sustentar jogadas políticas posteriores. Ao que tudo indica, esse teatro profissional só terminará com a posse do novo presidente, em fins de janeiro.

Por aqui, vejo o Itamaraty e o Planalto sem saber o que fazer para disfarçar a encrenca em que se meteram ao não reconhecer a derrota do topetudo lá de cima, da qual, forçosamente, vão ter que sair. Sob a crescente pressão do tempo, quanto mais se esquivarem de enfrentar a realidade dos fatos, pior será para seus respectivos mandatários. Sabe-se que apenas um deles é demissível com caneta bic.

Sem querer rogar praga, acredito que os resultados das nossas eleições, no domingo, vão tirar mais um pouco de terra do chão do chefe e jogar pra dentro dos seus sapatos. O incômodo deverá aumentar ainda mais sua irritação e sua insegurança, e acelerar a produção de rompantes desvairados e altamente desgastantes. Sempre na linha do tiro de pólvora seca que deu no pé pra comemorar uma falsa vitória na peleja contra a vacina inimiga.

Tudo isso com o Centrão achando bom e pouco, querendo muito mais. Nessa altura do campeonato, a novidade é a turma das beiradas se assanhando com as oportunidades que vão surgindo de graça e já ensaiando botar as garras pra fora. Quem viver, rirá.

Vitória, 12 de novembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempos modernos

Tempos modernos

Amora está novamente dócil e conversadeira, após uns cinco dias gritando que nem uma arara doidinha e mal-educada. Ficamos preocupados que o barulho estivesse incomodando a nossa vizinha de muro, sua admiradora declarada. Não tenho explicações sobre o que a fez ficar nervosa nem o que contribuiu para sua volta à normalidade. Tratei de pedir novamente ajuda a uma amiga cachoeirense que se vale de Florais de Bach para curar estados de alma dos bichos, incluindo os de ciúme, carência, ira, desconfiança, possessividade, traumas e um tal comportamento de reizinho mandão.

Fico imaginando que a chegada de Bebel, nossa filha do meio, para passar uns dias conosco, pudesse ter sido o gatilho que desencadeou praticamente todos esses comportamentos, tão humanos, em um animal coberto de penas e com um bico poderoso. Nestes tempos de recolhimento, de casa vazia, é bem provável que Amora estivesse se considerando dona do pedaço, merecedora de todas as atenções do casal. Vai saber.

É bom que se diga que ontem ela passou o dia muito bem. Não gritou nem uma vez, não jogou os potinhos de água e comida no chão, aceitou docilmente que Bebel coçasse sua cabeça e foi dormir de barriga cheia, sem reclamar.

Só não sei como ela vai reagir ao notar que as cascas de frutas e legumes estão sendo dadas para as minhocas da composteira que Carol achou por bem comprar.  As duas moças que vieram entregá-la se mostraram entendidas no assunto e entusiastas da tal permacultura. Elas trouxeram uma de três andares dotada de rodinhas, um tanto de compostagem já pronta, 270 minhocas californianas e um pacote de serragem, além de folhetos informativos. Daqui pra frente, ao menos em tese, não será preciso comprar adubo para colocar nas plantas do jardim e na nossa horta suspensa.

A coisa tem tudo pra dar certo, a exemplo do que acontece com a que nossa filha Manaira, instalou, com sucesso total, na varanda do seu apartamento, em São Paulo. Faz pouco tempo, uma grande amiga nossa, dona de jardim exemplar, aderiu à novidade e também está aguardando os primeiros resultados.

Nunca me ocorreu que um dia teríamos minhocas trabalhando o dia inteiro pra que pudéssemos adubar sistematicamente as duas jabuticabeiras, os pés de pitanga, de romã, de cajá, a goiabeira campeã de 2020 e, de quebra, o ipê branco que plantamos na entrada da casa, que cresce muito lentamente e ainda não se dignou a florir.

Ao juntar a chegada da composteira com a aquisição recente de uma potente câmera fotográfica dotada de celular, posso dizer, sem medo de errar, que aos poucos a modernidade está se instalando por aqui, provavelmente pra ficar.

Vitória, 29 de outubro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cultura na mira

Cultura na mira

Mais uma vez eu tenho vontade de escrever crônica falando de Amora, tamanhos os disparates e contrassensos que pipocam lá em Brasília. Basta lembrar que na semana passada um conselho nacional, criado para cuidar da proteção do meio ambiente, se prestou a tentar desmantelar uma legislação que protege os nossos manguezais e as nossas restingas contra a ganância de uns poucos brasileiros espertos. Quero crer que a Justiça vai conseguir recolocar as coisas nos seus devidos lugares, garantindo a continuidade da proteção aos caranguejos, aratus, siris, e todas as espécies de peixes e moluscos que se utilizam dessas áreas para viver e para reprodução.

Como se tal insensatez colegiada não fosse suficiente para estragar a semana de muitos cidadãos, um jornal paulista estampou, na terça-feira passada, uma foto do secretário nacional de cultura posando com uma metralhadora, dessas bem grandes e potentes, nas mãos. A cena demonstra evidentes sinais de prepotência e pobreza de espírito. É uma imagem patética, porque faz crer que a gestão cultural agora vai ser feita com rajadas de balas de grosso calibre, e que divergências de opinião e uso descontrolado da criatividade e do pensamento independente estão na mira. E quem achar ruim, que se mude daqui.

Convenhamos, uma pessoa que se mune de metralhadora pra fazer média com seus admiradores não tem condição de liderar as ações governamentais numa área onde atuam brasileiros que pensam com a própria cabeça e, sobretudo, que optam por viver dos sons, das cores, dos traços, das palavras, dos gestos, dos movimentos, das imagens e das formas, que fazem bonito e inusitado para fazer graça, emocionar, provocar, surpreender, impactar e encantar.

Me dá um frio na espinha, só de imaginar que esteja circulando nas redes sociais a fotografia de uma autoridade federal segurando uma arma poderosíssima, posando de homem de confiança do chefe, com delegação para intimidar quem, por função e obrigação, deveria apoiar, estimular e valorizar para o bem do país. Pode ser que eu esteja fazendo suposições infundadas, mas, se verdadeiras, convém que o pessoal do Centrão dê uma boa guaribada nessa área, também. E, que seja bem rapidinho.

Vitória, 01 de outubro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Fechando o bico

Fechando o bico

Pra esgotar o assunto, ao menos por enquanto, conto mais sobre meu convívio com Amora nestes tempos de pandemia. Começo dizendo que, dia desses, recebi vídeos sobre peripécias de araras Canindé: uma delas acompanhando ciclistas e pousando no braço de um deles e outra abrindo e levantando um coco com o bico pra beber a água.

Impressiona a habilidade da espécie em manipular semente de girassol, amendoim com casca, jabuticaba e tudo o mais usando apenas seu poderoso bico e sua língua seca, de grande mobilidade. Ela rompe o que apanhou, separa o que lhe interessa, joga fora o que não quer e come o resto. Faz isso quebrando e comendo os coquinhos que trago da Praça do Papa. Isso, na próxima safra. Pretendo filmar essas cenas em câmera lenta e bem de pertinho, para que as crianças e os velhos possam ver e achar sensacional.

Por essas e outras, estabeleci uma norma de defesa pessoal: não pego minha arara no colo quando estou vestindo camisa de abotoar. É que ela adora quebrar os botões e o faz de bate-pronto, pressionando a parte debaixo do bico contra o centro do botão, seu ponto mais frágil, onde estão os furos para passar a linha.

Dia desses, fotografei de pertinho uma pena azul e publiquei no Instagram. Suas cores e suas formas perfeitas fizeram o maior sucesso. Recolho todas as penas que ela vai soltando para enviá-las para amigas nossas usarem em sua escolinha de arte, em Brasília. Elas e os alunos adoram.

Três penas do meio das asas cortadas é o preço da liberdade de viver solta e da garantia da minha tranquilidade. Uma vez ela voou e pousou numa casa perto da nossa. Ao apanhá-la, deu dó de ver sua cara espantada e arrependida.

Me lembrei de ter visto, nos idos de 1965, duas araras empoleiradas ao lado da porta dos fundos da casa de amigos meus, ali perto da Gruta da Onça. Talvez as primeiras que tenha visto de perto. Recentemente, ao conferir com a irmã deles, ela confirmou minha lembrança. Contou que a mãe adorava araras, que criou muitas e que algumas faziam ninho embaixo da cama dela. Verdadeira prova de amizade e intimidade familiar.

O convívio com Amora me faz lembrar do bicudo de mamãe, que papai ganhou de Augusto Ruschi pouco antes de morrer e que ficou com ela muitos anos. O canto dele era melodioso, meio triste, talvez. Guardo uma foto que fiz dela tratando dele pela manhã, com as mãos perto da gaiola e ele olhando pra ela com atenção de passarinho manso. Morreu de velho. Era uma amizade e tanto, aquela. Acho que lhe trazia lembranças do marido.

Vitória, 17 de setembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempos bicudos

Tempos bicudos

Para não falar de assuntos desagradáveis, grandes tragédias e temores crescentes, achei por bem escrever sobre Amora, minha querida arara Canindé, que ganhei de presente no meu aniversário de 70 anos de meus filhos, irmãos e amigos próximos. Disseram que era pra me fazer companhia e matar as saudades da Aurora, que tinha vindo pra nós ainda bem novinha lá em Brasília. Ela veio conosco pra Vitória se equilibrando na barra de alumínio, um poleiro improvisado, atrás da minha cadeira de motorista do nosso ônibus. Viveu conosco por uns sete anos, circulando livremente pela varanda, no quintal e sobre os muros. Fugiu e foi levada umas oito vezes e eu não consegui recuperá-la na última vez.

Amora foi comprada de um criador credenciado no Estado do Rio e chegou no aeroporto de Vitória totalmente estressada e agressiva, com uma anilha numerada na canela direita. Gastei uma manhã inteira para ganhar sua confiança, usando uma varinha de bambu para lhe oferecer água fresca e mamão maduro. Um treinador me disse que comida e carinho são elementos básicos para firmar amizade duradoura com os animais e me informou que as araras vivem setenta anos.

O viveiro de bom tamanho que ganhamos permanece sempre aberto e está colocado diante da janela da cozinha para que Amora possa ficar, de cima de seu telhado, acompanhando a movimentação, sempre fazendo graça, se exibindo e pedindo comida.

Fiz um balanço de dois andares com paus de enxada, que ganhei de Manoel Araújo, antes que fechasse a sua utilíssima loja na Av. Leitão da Silva, e o pendurei com arame na viga da varanda. Amora adora ficar nele, sobretudo quando tem gente por lá. Para chamar a atenção ou se divertir, ela bate as asas com força suficiente para ganhar impulso e poder ficar balançando pra lá e pra cá, de cabeça pra baixo e peito aberto, dando gritinhos.

Para que ela pudesse viver solta e perto da gente, inventei um super-poleiro móvel, montado sobre um pé de cadeira de escritório com cinco rodinhas, que permite levá-la pra todo lado, em especial ao lado da minha bancada, para ela poder ficar observando atentamente o que eu esteja fazendo. Ali, vou lhe dando lascas de bambu, que ela mastiga e estraçalha sem dó. Me impressiona o enorme poder de destruição de seu bico, com o qual consegue esticar arame, partir coquinho e arrancar prego. Nisso, as araras são como cachorros em crescimento, que roem pés de mesa, esburacam tapetes e destroem brinquedos, só pra coçar os dentes.

Ninguém previu que aquele presente, meio inusitado, seria tão útil na quarentena. Tanto, que vou precisar de mais uma crônica para contar as suas peripécias e a evolução da nossa amizade.

Vitória, 20 de agosto de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa na pandemia

Casa na pandemia

Comecei a usar bambu ainda moleque, lá em Cachoeiro, para fazer pipa, vara de pescar, gaiola e alçapão. De lá pra cá, junto com borracha de câmara de ar, o bambu mantém posição relevante no rol dos recursos de “pau pra toda obra”, de grande utilidade para soluções rápidas e eficientes. Gosto de dizer que sou colhereiro especializado, pois só faço colheres com bambu. Tento tirar proveito da sua constituição, sobretudo das suas fibras, que além de proporcionar flexibilidade, resistência e durabilidade, podem apresentar formas muito simpáticas.

Nestes tempos de recolhimento, inventei de fotografar as fibras do bambu, que se revelam na forma de linhas escuras, círculos e elipses, conforme a direcionamento do corte. Sua espessura e densidade variam bastante em função do tipo da planta e da posição que ocupam em relação à casca e ao longo do gomo, sobretudo nos nós, onde perdem os padrões de organização e distribuição.

Fui fotógrafo profissional por uns meses, num tempo de grandes descobertas e satisfações com a primeira Minolta, filmes de 135 ASA, imagens em preto e branco reveladas em laboratório caseiro. Agora, estou às voltas com os avanços tecnológicos da câmera fotográfica do celular xing ling último tipo. Tento dominar o uso das suas lentes poderosíssimas para fotografar as fibras bem de pertinho e conseguir captar a sua bela estética. A danação é a enorme quantidade de recursos técnicos disponíveis e acessíveis a um toque da tela, muitos deles escondidos sob siglas e ícones, e em lugar desconhecido por gente como eu.

Nessa peleja, nossa casa vai ganhando uma nova função: a de estúdio fotográfico. Isso depois de ter sido lar de família numerosa, lugar de adolescentes animadíssimos, inclusive de ensaio de banda de rock, ambiente de restabelecimento de infarto e operações, ambiente para test drive de casamento da caçula, espaço de festas e celebrações emocionantes, de feijoadas e cozidos para muitas bocas, colônia de férias de netos e muito mais. Nesta pandemia, com frequência limitadíssima e sem previsão de normalidade, já transformamos quarto vazio em estúdio para Carol se divertir e, aos poucos, a sala de televisão, onde muita gente se esparramava, vai se consolidando como minha adorável oficina multiuso. É nela que vou instalar a geringonça de fixar a câmera fotográfica que ganhei de Vítor Nogueira, o fotógrafo primeiro das minhas colheres, e criar condições de iluminação propícias ao que pretendo realizar.

Só vai faltar aprender bastante sobre cada recurso da câmera e, muito mais difícil, dominar o uso conjugado de vários deles, para fotografar o bambu sob diferentes condições de iluminação e conseguir produzir imagens interessantes e surpreendentes.

Vitória, 06 de agosto de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA