Tempos e movimentos

Tempos e movimentos

Ao conversar com Carol em busca do tema desta crônica, ela sugeriu, com um sorriso safadinho, um assunto que é muito caro aos engenheiros de produção:

racionalidade e desempenho. E isso porque estamos numa fase da existência em que o tempo é uma variável cada vez mais relevante e que, por conta da pandemia, ele esteja sobrando pra nós dois, retidos em casa, sem poder ir a lugar algum.

Quando comecei a fazer o mestrado na UFRJ, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, enfrentava dois ônibus pra chegar lá e outros dois pra voltar pra casa. Gastava umas três horas no trânsito e, pra piorar, não podia fumar no coletivo. Logo depois que passei a ir de carona com amigos, o tempo no trânsito, ao invés de diminuir, piorou bastante com a queda do viaduto Paulo de Frontin, no caminho do Túnel Rebouças.

Em Brasília, sobrava tempo na minha vida de recém casado: gastava só uns cinco minutinhos para ir trabalhar no MEC, a bordo de um Corcel 73 novinho. Na época, havia quem dissesse que tempo sobrando acelerava os divórcios entre as primeiras levas de funcionários públicos transferidos do Rio. Lá não tinha engarrafamentos nem barzinho na esquina onde tomar cerveja com amigos.

No nosso caso, o convívio em tempo integral está muito agradável e produzindo bons resultados. Meio que virou uma boa oportunidade pra recalibrar a relação em busca de sorrisos e de obter satisfação fazendo muita coisa junto.

Na falta de quem as fizesse profissionalmente, passei a brincar de engenheiro de produção ao realizar as tarefas indispensáveis que me cabem no dia a dia. A brincadeira consiste em fazer bem feita cada uma delas, com pouco esforço e no menor tempo possível. Um dos desafios domésticos que tenho enfrentado é como conseguir lavar louças, talheres e panelas rapidamente e, de quebra, economizar água e detergente. Nessa mesma linha, venho tentando preparar, em poucos minutos, um café da manhã caprichado com o que estiver disponível na geladeira e adjacências, pra começar o dia bem alimentado e ganhar os primeiros sorrisos.

Profissional do ramo que sou, vou tomando emprestado princípios que Taylor, Fayol e Ford formularam, há mais de 110 anos atrás, para melhorar o desempenho da indústria americana. Aqui, o propósito é trabalhar achando bom e terminar tudo rapidinho, pra poder ir tratar do que não seja imposto pela rotina do lar: fazer muita colher, fotografar as fibras do bambu e minhas lixas velhas, escrever boas histórias, acompanhar as novidades nas redes, conversar com Carol, mexer nas plantas, brincar com Amora e tudo o mais.

Vitória, 23 de julho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Meu grande amigo Iveraldo

Meu grande amigo Iveraldo

Nestes tempos em que a morte vai se espalhando, por conta de pandemia nunca vista, eu perdi um grande amigo, chamado Iveraldo Lucena. Ele morreu na última terça feira, em João Pessoa, por doenças comuns a gente de idade avançada. Acompanhei de longe a evolução do quadro, sem qualquer chance de chegar perto para continuar uma conversa que começou em 1976, quando cheguei na Paraíba para atuar na universidade federal.

Foi amizade à primeira vista. Ela começou com um sorriso dele pra mim, durante uma reunião do Conselho Universitário, no dia seguinte ao da minha chegada. Talvez o único que recebi naquela sala enorme, onde homens engravatados me olhavam com cara desconfiada, depois de ter sido apresentado pelo Reitor. Eu estava com 28 anos e tinha adotado, faz tempo, meu visual riponga: os cabelos batiam nos ombros e a barba era preta e densa, dessas de espantar menino.

Na saída, ganhei dele o primeiro abraço, talvez de solidariedade, por saber da resistência que eu, forasteiro e cabeludo, iria enfrentar dali por diante. Logo depois vieram outros, agora fraternos, por eu ter trazido uma morena carioca e um filho recém-nascido pra viver longe dos nossos, em casa sem uma linha telefônica. Quando chegou cada uma das nossas duas paraibanas, ele foi o primeiro a nos visitar, já fazendo cara de avô.

Sou uma pessoa de sorte por ter encontrado Iveraldo. Homem animado, afável no trato e disposto, foi quem me ensinou, com abraços, palavras e atitudes, muito do que venho praticando vida afora. A lista é longa e inclui: valorizar a alegria de uma casa cheia e barulhenta, sentir emoções antigas diante de uma fogueira de São João, ter satisfação de fazer comida pra muitos, beber cachaça Rainha, destilada na terra onde ele nasceu. Mais do que tudo, com ele aprendi a relevância da ética, da justiça e dos valores humanitários, a importância de dizer não para filhos, amigos e colegas, e a obrigação de sempre fazer a conta inteira: multiplicando e somando tudo que seja bom, subtraindo o supérfluo e o ruim, dividindo quando preciso for.

Entendo ele não ter conseguido me ensinar a sabedoria de escutar o tanto que queiram nos dizer, a arte de enfrentar pelejas, com firmeza, mas sempre falando baixo, a sagacidade de comprar um sítio onde pudessem caber, também, as casas dos filhos nem os segredos de andar por praias e estradas, por dias inteiros, em companhia de muitos.

Hoje, vendo as centenas de mensagens e depoimentos sobre ele nas redes, tive a satisfação de comprovar que Iveraldo se tornou referência do que é ser um homem bom. Pensando nele, fui fazendo colheres, do mesmo gomo de bambu, pra seus quatro filhos queridos, usando somente a foicinha que ele me ajudou a conseguir, dias antes de nos abraçamos pela última vez.

Vitória, 09 de julho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

https://www.agazeta.com.br/colunas/alvaro-abreu/a-perda-do-amigo-que-me-ensinou–muito-do-que-venho-praticando-vida-afora-0720

Conforto e desconforto

Conforto e desconforto

A dinâmica da política está acelerada, com fatos relevantes e inesperados, se sucedendo em ritmo nunca visto. O intervalo entre crônicas quinzenais foi suficiente para prisões de comparsa familiar e seguidores desvairados, intimações e apreensões reveladoras, demissão de aliado vital, descarte de advogado de porta de cadeia, pedidos de informação, revogação oportunista de portarias incabíveis e muito mais. Na última crônica, já mais otimista, disse que o pelotão dos constrangidos estava cada vez maior e já engrossavam as tropas da oposição. Ameaças e xingamentos presidenciais, por expressarem desespero e perda de potência, já não intimidam. Instaurou-se um processo irreversível de enfrentamento político.

Há alguns anos, entrei numa peleja coletiva contra uma tentativa de ampliar um shopping e, de quebra, alterar radicalmente o gabarito de ocupação de uma área estratégica da cidade. Uma matéria na imprensa dava a coisa como certa e anunciava os passos acelerados a serem dados nos últimos dois meses do ano e dos mandatos municipais: apresentação do projeto a formadores de opinião convidados, avaliação e aprovação no âmbito do devido conselho municipal e autorização do prefeito para início das obras.

Depois de conversar com amigos, escrevi uma crônica sobre o que estavam pretendendo realizar sem ouvir as opiniões de quem seria afetado diretamente. O que seria uma reunião festiva em um restaurante, transformou-se, por ação de associações de moradores junto à Prefeitura e de cidadãos indignados nas redes sociais, em uma audiência popular, num cinema transformado em arena, como reza lei municipal que rege a matéria. Os defensores do projeto não deram conta das perguntas cabeludas e das críticas ácidas de cidadãos enfurecidos. Dirigentes de órgãos públicos se mostraram constrangidos. O projeto e penduricalho não foram aprovados.

Aquela experiência local e o andamento da crise nacional confirmam uma estratégia de enfrentamento político bastante eficaz, fundamentada no bom senso e passível de ser adotada individual e coletivamente, por pessoas físicas e jurídicas. Ela se materializa em dois tipos de ações, simultâneas e complementares: as destinadas a tirar o conforto de prepotentes e de quem se ache no direito de fazer o que bem entende, e aquelas que deem conforto para quem queira discordar e, sobretudo, para quem tenha a função e o poder legal de impedir e até de mandar prender.

Vitória, 25 de junho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Em andamento

Em andamento

Ao conferir no noticiário o que tenho pensado sobre a evolução do ambiente político, vi que crescem os blocos de constrangidos, inclusive o dos que estão ao lado do constrangedor mor, fazendo caras de tudo certo. Se campeonato houvesse, ao menos dois de seus ministros mereceriam medalhas, por acatar ordens constrangedoras.

A de ouro caberia ao da Saúde, por ter que tomar conta do chefe imediato, recomendar remédio perigoso e demitir subordinados competentes, por ver vetado seu indicado de alta potência, ser obrigado a mudar o padrão de informação sobre mortes e ter que anular a mudança que fez por imposição do STF. O general da Saúde, com fama de competente, deve estar tendo dificuldade para dormir e de se explicar pros colegas. A de prata caberia ao da Defesa por ter que soltar notas ambíguas, concordar com aumento das importações de armas e munição para abastecer malucos, andar de helicóptero sobre aglomerações indevidas, referendar autorização de compra de aviões para a tropa terrestre e ver o chefe voltar atrás sob pressão do pessoal que voa e, ainda, por ter que explicar a participação do filho do chefe nas negociações com fabricante de pistolas suíças.

Agora, por fatores diversos e interesses inconfessos, a palavra em evidência é Liberdade. Liberdade de expressão, pra ser mais exato. Cresce a insatisfação com o uso da liberdade de expressão para fazer política ameaçando, difamando, mentindo e muito mais. Muitas palavras estão sendo ditas e escritas para defender o direito de se falar o que se pensa, e também, por oportunismo, para embananar a regulamentação da punição dos que vivem de fake news.

Tem muita gente retomando a coragem que estava guardada no fundo das gavetas da alma e vindo a público defender o que pensa. Até antigas lideranças começam a voltar à cena política. Atitudes de conformismo e embates verbais vão dando lugar a providências práticas de enfrentamento: abertura de processos na justiça e de inquéritos policiais, pedidos de explicação, prorrogação de prazos de investigações, sem falar nos manifestos coletivos e na tomada das primeiras quadras de avenidas. O fato é que estão acontecendo reações em escala crescente e em várias frentes. O panorama está mudando, embora ainda não se saiba pra onde.

Vitória, 10 de junho de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mais sobre quem tem bico

Mais sobre quem tem bico

Como prometido, continuarei falando de Amora, mesmo porque o mundo lá fora ainda não melhorou. Começo dizendo que já está mais do que comprovado que a arara é quase um cachorro, por tão amiga do homem que pode vir a ficar. Com sua audição apuradíssima sabe muito bem quando estamos saindo de casa e quando estamos chegando de carro. Empoleirada numa cadeira da varanda nos espera pacientemente, tendo Pingo e Bill por perto. Não seria exagero dizer ela já acata ordens básicas, tipo: “sobe”, no poleiro, “solta”, as garras do meu braço e “vem”, pro colo do dono. Aprendeu rápido que é muito bom alguém coçar a sua cabeça, mas custou a aceitar que coçasse sua barriga, o que deve exigir entrega e confiança.

Falar, Amora não ela fala, mas emite sons parecidos com os das palavras arara, amora, carol e álvaro. Ao se despedir, antes de dormir, pode produzir beijinho, estalando a língua. Theo, nosso neto, escolheu seu nome para que ela pudesse se apresentar às pessoas, tal como Carol fez com Aurora.

Demonstra entusiasmo dando pulinhos de pés juntos pra frente, no chão ou sobre a mesa da varanda. Desconfio que ela sabe que eu acho graça e faz isso pra me agradar. Em compensação, volta e meia, atira pelos ares as cumbucas de aço inox com água e comida. É a maneira que encontrou pra protestar pelo abandono que esteja sentindo. Normalmente funciona.

Posso garantir que ela adora pelejar contra minha sandália havaiana. Dá gosto vê-la se armando, de prontidão, à espera do próximo golpe e, ao se sentir poderosa, partir para o ataque ao monstro azul. A disputa, sem vencedor, pode durar minutos de pura diversão.

Movida por algum instinto, Amora tem uma tremenda psique de ficar nas grimpas, no ponto mais alto de onde esteja. Adora tomar banho no chuveirão lá de fora trepada na escadinha, mas é totalmente avessa a água de mangueira de jardim, traumatizada por quem não entende de arara.

Come ração balanceada comprada na Vila Rubim, mas prefere queijo fresco, semente de banana da terra e castanha de caju. Volta e meia come ração dos cachorros da casa sem pedir licença. Sua convivência com eles é relativamente cordial, mas ela impõe respeito, ameaçando bicar, se necessário.

Ela dorme na área de serviço e fica feliz quando chego lá de manhã. Abre as asas para se espreguiçar e ganha os primeiros dengos. Gosta de ficar puxando meus cabelos, enquanto vou limpando a plataforma do poleiro e colocando água e comida. Sempre trocamos palavras sem nexo quando a levo pra fora, de onde ficará nos vendo na cozinha. O fato é que convívio intenso com Amora, nesta pandemia, está fazendo de mim um desses passarinheiros, que começam o dia tratando dos seus bichos de estimação.

Vitória, 03 de setembro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Contrangimento, s.m.

Constrangimento, s.m.

Sei de constrangidos confessos e imagino os muitos enrustidos nestes tempos de embates. A palavra constrangimento está na ordem do dia. Confirmei no Google que ela expressa muitos estados de alma, todos negativos e desagradáveis, incluindo: aborrecimento, acovardamento, aflição, arrependimento, desconforto, depressão, desconfiança, embaraço, encabulamento, impotência, insatisfação, introversão, raiva, recolhimento, vergonha.

Convivemos com situações constrangedoras as mais variadas, pontuais e abrangentes, eventuais e permanentes, de menor e maior alcance e impacto. As piores envolvem ameaça, assédio, imposição, coação, intimidação, opressão, repressão, violência física ou moral, atitudes muito associadas ao jogo de poder. Embora possa se abater sobre qualquer um, o constrangimento atinge mais pesadamente as pessoas de boa fé, crédulas, ingênuas, inseguras, temerosas e tímidas.

Ao se repetirem com frequência, esses acontecimentos podem gerar emoções silenciosas e cumulativas, em cadeia. Embora sentidas individualmente, podem afetar muitas pessoas ao mesmo tempo. Constranger sistematicamente é uma estratégia de enfrentamento temerária, nem sempre bem aceita. Na esfera do governo federal, por exemplo, seria interessante saber o grau de constrangimento dos que assinam notas de apoio, medem palavras em depoimentos, participam de reuniões toscas, não concordam que se arme a população nem que se façam visitas e ingerências indevidas, desaprovam o uso de fake news, agressões a jornalistas e a instituições, e barganha com cargos públicos.

Sei, por experiência, que sensações de alívio, indignação, rebeldia e de desejos de revanche são próprias dos que se livraram dos constrangimentos a que foram submetidos. Imagino que coletivos de ex-constrangidos podem surgir por empatia, identificação, compaixão, solidariedade e sensação de pertencimento, em favor de causas coletivas.

E daí? Otimista que sou, torço para que o bom senso e o discernimento ajudem a agregar, mobilizar e organizar os que vêm sendo constrangidos, os insatisfeitos e os indignados, onde estiverem. E assim, fortalecer poderes legítimos para enfrentar as fontes de constrangimentos e agir para ajustar o curso da política, enquanto é tempo.

Vitória, 28 de maio de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Muito chato, chatíssimo

Muito chato, chatíssimo

Sempre fui um homem caseiro, desses que não têm agonia de ir pra rua todo santo dia. Sei de muita gente que tem uma espécie de coceira quando fica muito tempo sem sair de casa. Saem pelas mais diversas razões e justificativas, plausíveis mas nem sempre verdadeiras. Mamãe era uma delas. Volta e meia telefonava pra dizer que estava com uma vontade danada de dar uma voltinha pra aproveitar a fresca e ver o fim da tarde ou, simplesmente, pra tomar um sorvete. Usava a argumentação de sempre, dizia que estava enjoada de ficar dentro de casa, independente de onde estivesse: na dela mesmo ou na de qualquer um dos filhos. Aqui em Vitória, em Guarapari ou no Rio de Janeiro.

De alma leve e sempre muito disposta, imagino que ela devia falar coisa parecida pra papai, no começo da vida de casada, lá em Cachoeiro: “Bolivar, meu querido, vamos dar uma voltinha na praça, pra ver o movimento?”. Nas férias, em Marataízes, o convite podia ser alguma coisa do tipo: “Ai, Bolo, estou com muita vontade de ver o mar. Deve estar uma beleza! Vamos lá?”

Depois de um infarto, fraco do peito e das pernas, fui obrigado a reduzir o ritmo da vida e a ficar em casa, de repouso, em busca de recuperação. Acabei aprendendo a fazer colheres de bambu e escrevendo muitas páginas sobre o que estava se passando na minha cabeça. Em alguma delas está escrito que eu tinha a certeza de que não estava na hora de morrer. É que naquele início de 1995, estavam começando os governos de Paulo Hartung em Vitória, de Vitor Buaiz no Estado e de Fernando Henrique Cardoso lá em Brasília. Lembro muito bem das boas emoções que sentia vendo aquilo. Cada qual no seu estilo, eles transmitiam confiança, seriedade e a impressão de que governariam pensando grande, para o bem comum. A sensação era a de que os próximos anos seriam um tempo muito bom pra quem estivesse vivinho da silva.

Pois bem, cá estou eu, novamente dentro de casa, também por imposição de cuidados com a saúde, fazendo uma colher após a outra, só que agora sem as boas perspectivas. Ando totalmente desesperançoso com o que vejo. Estou cansado de bravatas diárias e de disse-me-disses chatíssimos, tendo que assistir o toma-lá-dá-cá de sempre. Em plena pandemia, aqui estou eu: sem pai, sem mãe e sem governo pra chamar de meu.

Vitória, 14 maio de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vizinhança

Vizinhança

Fui criado em ruas onde todos se conheciam, sabiam onde cada um morava e de qual família era. Filho de beltrano, pai de fulano, mulher de sicrano. O trecho da rua 25 de Março, antes da ponte, em Cachoeiro, era ocupado pelas mesmas famílias há décadas. Em Vitória, a antiga rua da Árvore e a Madeira de Freitas tinham apenas 2 quadras. Nelas, afora uns poucos que se cumprimentavam de longe, seus moradores eram vizinhos.

Por vizinhos entenda-se aqueles que frequentavam a varanda do outro, eram convidados para as festas e, mais do que isso, faziam circular entre suas casas pacote de açúcar, meia dúzia de ovos, pedaço de broa, jambos, rabanadas e, também, bujão de gás, pregos, serrote e tudo o mais. Namoricos no nosso quarteirão eram raros, mas amizades consistentes era o que mais se via.

Pois esta quarentena faz brotar demonstrações de boa vizinhança. No meu caso, comecei fazendo, a pedido de Carol, duas colheres para nossa vizinha de muro, que ela retribuiu com pães fresquinhos da Monte Líbano. Depois, ofereci pro meu vizinho de duas casas adiante, e ele aceitou com satisfação, um dos abacaxis miúdos de Marataízes que acabara de comprar. No domingo, um casal de amigos, que dariam ótimos vizinhos, trouxe um saco de cajás deliciosos. Dei a metade pra meu irmão mais velho, que adora essa fruta de antigamente.

Ontem nos encontramos com um antigo colega de trabalho, que sempre caminhava em ritmo acelerado pelas ruas do bairro. De pé, no jardim da sua casa, ele empunhava um copinho de bebida. Puxando conversa, perguntei se era whisky e ele, com cara de entendido, respondeu que era a melhor cachaça do Brasil, feita lá em João Neiva, onde ele nasceu.

Fazendo cara de invejoso, falei que aquela era a cachaça oficial da nossa casa e que, naquele momento, meu garrafão estava totalmente vazio. Pois ele foi firme em dizer, agora com cara de orgulho, que iria lá dentro apanhar uma garrafa de dois litros pra mim. Enquanto esperava, tratei de finalizar a faquinha que estava fazendo para dar pra ele, tão logo recebesse aquele inesperado presente.

Deu tudo certo. Alisando aquela pequena peça de bambu com a ponta dos dedos, ele fazia cara de satisfação, igual a que devia estar fazendo ao segurar, com as duas mãos, a minha garrafa de cachaça.

Vitória, 30 de abril de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Minha preta pretinha

Minha preta pretinha

Tem morrido muita gente. Gente desconhecida e uns poucos que conheço. Acabo de saber que Rubem Fonseca foi um desses, de quem ouvi falar muito bem e de quem li, e gostei, uns dois ou três dos muitos livros que escreveu.

Dias passados foi Moraes Moreira que se foi, vítima de um infarto daqueles fulminantes. Sobre ele, acabo de ler a crônica emocionada de Gregório Duvivier, contando seus encontros quase diários a caminho da padaria e fazendo graça com o verso “assim vou lhe chamar, assim você vai ser”, da inesquecível música Preta, Pretinha.

Fui ao Google em busca de confirmações e detalhes sobre a letra que sei de cor e dos sons que guardo por justas razões. É que sou daqueles brasileiros que estavam no Rio de Janeiro no comecinho dos anos 1970, quando os Novos Baianos surgiram para alegrar a festa, junto com Jorge Ben e Tim Maia. Tenho a imagem quase perfeita do show animadíssimo que eles fizeram entre os pilotis do térreo do prédio central da PUC, na Gávea. Estava lotado de gente bonita, coloridíssima, cabeluda e sonhadora. Homens de barba e moças sem sutiã cantavam e dançavam ao ritmo envolvente de Preta Pretinha e repetiam, com convicção, um chamamento daqueles tempos: “abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”.

Curioso foi constatar algo de que não me havia dado conta até agora. Na letra de Preta Pretinha, se destaca o verso que diz “Eu ia lhe chamar, enquanto corria a barca”. O mundo dá voltas para nos fazer perceber direito situações vividas em voltas anteriores. Pois bem, só agora me dou conta que foi num final de tarde, bem na proa de uma barca que corria de Niterói para a Praça XV, que eu aproveitei o momento para chamar Carol pra casar. Pois foi com a melhor cara deste mundo que ela me disse que iria pensar.

Não me lembro dela me dizendo que aceitava se casar comigo. Mas o fato é que, dois meses depois, num dia ensolarado de dezembro, nos casamos. Foi uma festa animada, na casa de campo dos pais dela, em Itaipava, no alto da serra. Muitos familiares, amigos nossos e alguns alunos meus acompanharam atentos as palavras do juiz de paz e, logo em seguida, começaram a bater palmas, já ao som de Preta Pretinha.

Vitória 16 de abril de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de goiabas

Tempo de goiabas

Dia desses me mandaram uma foto histórica, na qual apareço abraçado ao tronco da goiabeira que existia no quintal da nossa casa, lá em Cachoeiro, com cara de moleque corajoso. Não devia ter mais do que uns 5 anos. Junto com ela veio a imagem que tenho na memória de papai me fotografando com uma máquina daquelas de sanfona. Mostrei-a pros netos, na expectativa de animá-los a aprender a trepar na goiabeira daqui de casa, que este ano está produzindo como nunca, sem parar.

As frutas estão perfeitas: graúdas, de casca grossa e, pela primeira vez, sem bicho, o que é fundamental. Imagino que essa fartura seja por conta de uma poda radical que fizemos em agosto passado, e das chuvas fartas que têm caído. Sem exagero, estamos tirando umas 40 goiabas por dia, tendo sido registrado o recorde de 58 unidades, o que pode ser facilmente comprovado por fotos e testemunhos pessoais.

O fato é que tirar goiaba virou um opção de diversão para os netos mais velhos. Malandramente criada por avô do tipo antigo, a atividade ganhou a disputa contra joguinhos de celular e desenhos na TV.

Instaurou-se uma acirrada competição entre eles, para ver quem tirava mais goiabas e também as maiores.

Galhos horizontais em paralelo, que permitem pisar e agarrar com as mãos, oferecem segurança e condições para se chegar nas grimpas, onde sempre ficam as frutas mais bonitas.

Sem dúvida, Gael foi o vencedor por boa margem, muito embora a norinha também tenha apresentado desempenho elogiável, bem acima dos resultados obtidos pelos filhos e pela sobrinha.

No que me cabe, a fartura e a qualidade das frutas desta safra têm possibilitado avanços importantes na produção caseira de doce de goiaba. Além dos tradicionais doces de orelha, feitos com pedaços grandes da fruta, também estão sendo realizadas, com sucesso, tentativas no segmento das goiabadas. Ainda não se conseguiu chegar na cascão verdadeira, talvez por usar pouco açúcar. Mas já foram produzidas panelas enormes de goiabadas cremosas, dessas de comer de colher, gemendo.

Vitória, 23 de janeiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA