Natal no mato

Natal no mato

Meu pessoal sempre foi muito animado. Abrir a casa pra comemorar aniversário, formatura e casamento, juntar amigos para comer caranguejo, fazer cozido pra muitos – tudo isso faz parte da vida dessa nossa família numerosa. Desta vez alguém deu a ideia, prontamente aceita por todos, de alugar uma casa grande para passar o Natal. Quando vi, já estava tudo arrumado e resolvido. O lugar escolhido foi um sítio localizado naquele vale enorme que fica à direita de quem vai para Domingos Martins. As informações que me chegaram eram bem poucas e achei que deveria deixar o barco correr.

Chegar aqui foi fácil, difícil foi conseguir sair de casa. Foi preciso usar quatro carros para levar os pais, cinco filhos, dois genros, uma nora e sete netos. Deu trabalho conseguir arrumar as malas, mochilas, caixas com as compras, isopor com bebidas e comidas congeladas, sacos de carvão, sacolas de presentes e, ainda por cima, um violão. Pena que não me deixaram trazer Amora.

Faz tempo que não via um lugar tão bom pra soltar crianças e deixar que exercitem, longe dos olhos adultos, o ir e vir, o subir e descer. Uma piscina de água cristalina saída de fonte na mata, sauna pra quem gosta, campo de futebol com grama impecável, campo de bocha com piso de carpete, ponte pênsil de matar adulto de medo, água percorrendo uns cinquenta metros pedra abaixo antes de virar bica poderosa. Tudo isso sem contar três touceiras de bambu e um pé de lichia carregadinho, como eu nunca tinha visto. Faz tempo que não ouvia tanto sapos, pererecas e grilos cantando uma espécie de sinfonia da natureza.

Neste ambiente, não há mau humor de adulto nem birra de menino que vigore. Disputas só mesmo no carteado e no modo de fatiar a carne do churrasco. Melhor de tudo tem sido o convívio familiar sem a interferência da internet. É bom que se saiba que estamos todos vivendo perfeitamente sem acessar mensagens, notícias boas e ruins e, sobretudo, aquela enorme quantidade de bobagens inúteis. Neste meio de mundo, os celulares viraram simples máquinas fotográficas. Cenas inspiradoras tem de montão por aqui. Agora só falta ir lá na sede do distrito tentar enviar esta crônica para o editor.

Biriricas, 26 de dezembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tá doendo

Tá doendo

Tem bem uns 15 dias que estou às voltas com uma baita herpes zoster, dessas pra ninguém botar defeito nem dizer que teve uma mais grave do que a minha. Não sei se existe algum tipo de concurso ou competição relacionada a essa ziquizira, mas posso garantir que a minha experiência tem sido extremamente desagradável, mobilizando praticamente todas as minhas atenções e paciências. Tem sido praticamente impossível pensar em outra coisa que não seja nos incômodos, ardências e dores instaladas no entorno das costelas do lado direito do corpo. Não quero fazer drama e muito menos me vangloriar por estar conseguindo conviver silenciosamente com essa doença que, pelo que fui sabendo aos poucos, abate os mais parrudos e simpáticos cidadãos e as mais aguerridas e charmosas cidadãs. Soube, por fontes credenciadas, que ela é provocada pela reativação do vírus da catapora e que ocorre quando uma doença ou medicamento enfraquece o sistema imunológico. Também ouvi dizer que a falta de tranquilidade e de sorriso farto pode ajudar a deslanchar o processo e que já existe vacina.

O fato é que, se o ambiente geral piorou bastante com a lamentável decisão do STF de acabar com a prisão da bandidagem graúda, sob aplausos dos escritórios de advocacia de primeira linha, as dores diminuíram ainda mais a vontade de acompanhar o noticiário. Mesmo assim, assisti, apenas de relance, cenas da soltura mais defendida de todas, acontecida em clima de um revival xoxo. Na sequência, tenho tomado conhecimento das libertações de condenados prepotentes, operadores profissionais e mutreteiros comprovados. Imagino que essas notícias devem estar abastecendo a insatisfação de muita gente, fazendo prever desdobramentos políticos não devidamente avaliados pelos ministros que votaram a favor dos processos penais intermináveis. As confusões no Chile e na Bolívia surpreenderam muita gente e podem estimular movimentações populares por aqui também. Melhor se o Congresso atuasse com presteza para sanar tais distorções, garantidas pela legislação vigente. Enquanto isso, torço para minha doença sarar logo.

Vitória, 14 de novembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pode não dar certo

Pode não dar certo

O noticiário político está de dar enjoo e preguiça em quem não pratica vale tudo nas redes sociais. A brigalhada vem vindo num crescendo, em várias direções, sem limite nem controle. Me peguei lembrando do aviso escrito na tabuleta pregada na entrada da gafieira. Era curto e grosso: “O ambiente exige respeito”. Não dava detalhes nem explicações, mas parecia se mostrar suficiente para garantir ordem e decência naquela casa de diversão, frequentada por gente de todo tipo e calibre. É certo que uns tantos folgadões tenham sido convidados a se retirar do recinto, com palavras ou aos empurrões, para que o samba pudesse continuar fluindo. Isso para que os frequentadores voltassem a desfrutar a noite, dançando de rosto colado ou, simplesmente, tomando uma cerveja e conversando frouxo, sempre de olho nos movimentos de certos quadris ou em algum sorriso amistoso e promissor.

Melhor seria se esse pessoal nervoso voltasse a usar os dedos das mãos só pra coçar a cabeça, ajeitar a gravata, segurar os óculos ou qualquer outra coisa que não fosse digitar agressões e bobagens toscas no teclado. Dizem que muitas delas são fruto de brincadeira, arroubo juvenil ou problemas emocionais graves. Mas há também quem diga que se trata de ação orquestrada, parte de um projeto maquiavélico de poder familiar. A estratégia seria a de viralizar uma pauta sempre excitante e polêmica, pensada para chamar a atenção e abastecer as conversas de pessoas mais desavisadas. Seu objetivo político seria o de manter a coesão e de ampliar a adesão aos grupos simpatizantes de uma direita emergente que vem tentando se organizar por aqui também.

Sou dos que não entram nesse tipo de peleja nem gostam de participar de brincadeiras de mau gosto. Os últimos acontecimentos, incluindo denúncias e reações, fazem pensar que a movimentação dessa turma vai deixando de lado a razão, a confiança e o respeito, elementos indispensáveis ao convívio. É mais do que sabido que toda vez que o leão erra a patada ou perde o equilíbrio, as hienas mordem com vontade.

Alvaro Abreu

31 de outubro de 2019

Escrita para A GAZETA

Carros e vitrines

Carros e vitrines

Faz tempo que meu pessoal me fala pra trocar o carro. Não que ele esteja velho e com defeitos, tem só uns pequenos arranhões. Foi comprado novinho em folha para as férias de 2011 e, como ando pouco, ele é um legítimo seminovo, no linguajar do mercado. Até então eu sempre comprei carro de segunda mão, pouco rodado, por achar a relação custo benefício favorável. O valor do zero km costuma cair bons pontos percentuais tão logo se ultrapasse, orgulhoso, o portão da concessionária.

Hoje já não tenho disposição para sair por aí lendo anúncios no jornal, telefonando para ofertantes, ouvindo elogios enganosos, indo conferir in loco o estado geral do carro e o levando à oficina de confiança para avaliação mais completa. Antigamente, a procura era facilitada pelo reduzido número de modelos e de marcas existentes e, sobretudo, de carros à venda. Não havia essa fartura de hoje em dia. Agora, para complicar, como se não bastasse a diversificada oferta de bons carros nacionais, há também enorme variedade de importados interessantes.

Qualquer cidadão que, como eu, pouco consegue acompanhar as inovações automotivas, se vê cheio de incertezas diante do crescente cipoal de opções e novidades. Abre-se aqui espaço para o marketing digital especializado, que pretende capturar cada comprador potencial com a oferta de produtos que atendam às suas expectativas de consumo, quase sempre criadas por campanhas anteriores.

Nessa rota, quando qualquer um de nós, por distração ou ingenuidade, clica sobre uma fotografia de um carro simpático na tela, faz brotar anúncios que primam pela sofisticação das imagens e que logo chateiam pela insistência. Foi depois de muito sofrer esse tipo de assédio digital que me ensinaram a navegar por sites de marcas e lojas especializadas, usando uma tal janela anônima. Ela até garante a defesa pessoal, mas nem sempre ajuda a tomar uma decisão.

Tudo isso me fez lembrar do poeta Mário Quintana, que dizia adorar andar pelo comércio de Porto Alegre para ficar olhando as vitrines repletas de coisas que ele não precisava comprar.

Vitória, 16 de outubro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Na varanda da casa em João Pessoa

Na nossa casa em João Pessoa

Deitado na rede, na varanda interna da casa, podia-se ver o progresso diário daquela construção de barro que o maribondo fazia.

Aquele parecia ser o melhor lugar da casa para a gente ficar. Os 3 pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da posição do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da casa ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda.

Quero dizer com isso que aquilo ali era quase perfeito para um profissional de rede, como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitasse pudessem se sentar por perto, em volta.

Dependendo da intimidade, o visitante poderia esticar-se em uma outra rede e, nessas ocasiões a conversa correria bem mais lentamente. Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som das palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.

Na rede, em compensação, as conversas sempre rangem como os ganchos nos prendedores, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física. Os olhares – quando possíveis – são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.

Daquele telhado, praticamente, conhecia tudo: as terças entre pilares, os caibros da parede às terças, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barros. Da marca impressa em baixo relevo não sei se lembro: talvez Santa Rita, talvez Itamaraju.

Que diferença faria, saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.

As casas de marimbondo se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas das casinhas davam evidentes sinais de abandono, de já terem comprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?

As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansado, perturbado, agoniado e tudo o mais que se pode sentir em situações de dilema, dúvida, ânsia e incerteza. Muitas vezes descarreguei nelas o que sentia e não conseguia dividir com ninguém. Depois acabava dormindo tranquilo.

Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede mas falta o telhado. Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: o liso do reboco e o branco da tinta, não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.

Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retém quase tudo que chega até elas.

Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando as telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, no trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de alta responsabilidade.

Alvaro Abreu

Escrita idos de 1997

Contra a maré

Contra a maré

Comecei a semana tentando acabar com um hábito matinal antigo. Deveria ter sido na segunda feira, mas foi possível adiar em função de uma cortesia sagaz da concorrência, que fez chegar ao meu jardim um exemplar do seu jornal, recém-saído da impressora. Uma iniciativa repleta de ousadia e senso de oportunidade. Imagino que ela possa ter estimulado leitores mais turrões a se decidir por assinatura com entrega diária das notícias por cima do muro. À moda de antigamente, como se dirá em breve.

O fato é que, tendo passado os olhos na versão moderna, pude manter, por mais um dia, o hábito de tomar café lendo as notícias e me despedir, uma vez mais, das palavras e imagens grafadas no papel. No domingo, a despedida tinha sido silenciosa e meio melancólica, com atenção maior para as matérias relacionadas às decisões e expectativas empresariais, às mudanças nos processos de trabalho e aos impactos na vida de quem fazia a gráfica funcionar e dos que cuidavam de preparar os jornais para a distribuição.

Assim, só li exclusivamente a versão digital deste jornal na manhã de terça feira. Fiz isso, confesso, não sem antes ter ido ao jardim para conferir se havia mais algum exemplar de cortesia. Na falta dele, lá fui eu começar a aprender a ler A GAZETA na tela, como tinha feito com jornais paulistas, hoje minhas referências digitais. Lá estavam as notícias de destaque na página de entrada e muitas outras acessáveis com movimentos de rolar a tela ou de clicar no mapa do site. Tive a impressão que a quantidade de matérias e de opiniões aumentou bastante, pela facilidade de deixar disponíveis informações que, mesmo já publicadas, ainda não tenham perdido a atualidade, o que é muito interessante.

De curioso, em meio à grande quantidade e variedade de manchetes, encontrei uma que fala dos catraieiros que atravessavam passageiros na Baía de Vitória. Eles querem indenização pelo fim de suas atividades centenárias, suspensas pelo poder público em 2015, por questões de segurança. Eu mesmo, até hoje, nunca soube de acidentes com catraias.

Vitória, 02 de outubro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vai faltar papel

Vai faltar papel

Não sou dos que acompanham de perto, e em estado de aceitação plena, a evolução acelerada das coisas e dos processos. Digo isso mesmo tendo atuado por muitos anos no desenvolvimento das ciências e das tecnologias. Acho que acabei por me tornar um conservador de tipo específico, desses que acha que mais perde do que ganha com a modernidade. Não que desaprove ou despreze o novo, o que seria uma bobagem. Mas por sentir uma resistência pacífica e silenciosa a muito do que vai surgindo incessantemente com a pretensão de facilitar a vida, fazer mais rápido e seguro, equacionar problemas do cotidiano e assim por diante. Com a chegada das soluções inovadoras, vê-se que muitos novos negócios aparecem e outros tantos desaparecem. Fazer a conta inteira dos ganhos e das perdas fica a critério de cada um.

Pois bem: como leitor diário deste jornal, eu soube que, a partir de data marcada, a edição impressa somente acontecerá aos sábados. Durante os demais dias da semana, terei à minha disposição uma edição digital com informações sempre atualizadas, novidades variadas e tudo o mais. Como já sou leitor das manchetes e de textos escolhidos nas edições on line dos principais jornais do país, aproveitarei para ler no computador o noticiário local. Ao longo do dia vou continuar passando um olho nas últimas notícias para ficar informado tanto quanto queira.

O fato é que, em breve, não mais lerei jornal no café da manhã, quebrando um hábito de vida inteira. Para complicar, a nossa casa ficará sem a pilha de jornal velho, um insumo de grande utilidade e de uso corrente, incluindo os de enrolar fruta para amadurecer, secar xixi de cachorro e proteger o piso durante a pintura das paredes. Em tempos remotos, quando ainda não existia isopor, a gente usava folhas de jornal para embrulhar e manter as iscas congeladas durante as pescarias inteiras. Agora, em função da mudança anunciada, também vou ter que substituir o método prático, asseado e eficaz que criei para descartar a sujeira do poleiro de Amora, que consome duas folhas de jornal por dia.

Vitória, 18 de setembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Do bairro e das pedras

Do bairro e das pedras

No final de agosto vivi emoções próprias dos idosos. Boas, diga-se de passagem. Primeiro foi a vez de encontrar, lá na Curva da Jurema, gente que frequentava a Praia do Canto em meados dos anos 70. Uma baita festa de reencontro que cresce a cada ano, atraindo os que aproveitaram o que havia de bom no bairro. Foi tempo de saber de parentes e amigos distantes, relembrar passagens curiosas, matar saudades que nem se sabia existirem. A farta distribuição de simpatia facilitava a aproximação até de quem mal se via naquela época. A leitura do livro de memórias, lançado no dia, foi feita de arranco e terminou na madrugada de domingo, deixando a alma ainda mais leve.

Na semana passada estive na abertura da trigésima edição da Feira do Mármore e Granito, em Cachoeiro. Fui receber, ao lado de outras pessoas, homenagem por ter participado da sua criação e de ter ajudado a torná-la um fator estratégico para o desenvolvimento do setor de rochas ornamentais aqui no estado e por aí a fora. Para os dinossauros como eu, foi uma emocionante noite de saudade, de pura confraternização. Para os que chegaram depois, a solenidade foi de reconhecimento do mérito de um pequeno grupo de sonhadores, formado por empresários e gente do governo. Os discursos dos dirigentes das entidades, do prefeito e do governador soaram como verdadeiras convocatórias para acelerar o fortalecimento do setor como um todo, que hoje conta com cerca de mil e quinhentas empresas e impacta a vida de uns oitenta mil capixabas.

Teve quem dissesse que ali se comemorava a ousadia de uns poucos que realizaram, sob a descrença de muitos e a surpresa de alguns, evento tão relevante em lugar tão improvável. É que na primeira edição da feira, os estandes dos expositores foram instalados nos galpões das baias de bois do Parque de Exposições e o transformador, não suportando a demanda de energia, explodiu minutos antes de começar a solenidade de abertura. Sinceramente, eu não me lembro de gente reclamando do improviso, da escuridão nem do calorão cachoeirense de novembro.

Vitória, 04 de setembro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Saudosismo na veia

Saudosismo na veia

Newton Braga inventou a Festa de Cachoeiro há uns 80 anos para celebrar reencontros. Naquele tempo, quem tinha condições ia estudar no Rio e vinha passar as férias em casa. Como o dia de São Pedro, padroeiro da cidade, é 29 de junho, bem na boca das férias escolares, ele resolveu aproveitar a data e marcar a festa. Deu certo. Dá gosto de ver meus conterrâneos se abraçando, rindo e falando alto quando se encontram lá na terrinha.

Pois então. Amanhã acontecerá a sexta edição do Encontro dos Amigos da Praia do Canto, lá na curva da Jurema. É um movimento idealizado por Marisa Guimarães, minha colega de piscina, para reunir em lugar aberto, perto do mar, pessoas das mais diferentes turmas e patotas de antigamente. Não sei como a ideia vingou, mas deve ter sido por conta do saudosismo fundamentado que acomete muita gente madura como eu, que passou a sua juventude na Praia do Canto e, também, na Praia de Santa Helena e na Praia Comprida, que saiu do mapa.

Sem exageros, esse pedaço da ilha de Vitória era lugar próprio para criar amizades e encontrar amores, andar de bonde e de bicicleta sem freio, subir morro para ver o mundo do alto, pegar lagosta miúda, pescar carapau valente, remar mar adentro, velejar por curtição e em regatas oficiais, jogar pelada e vôlei na rua e frescobol nas areias da praia do Barracão, nadar contra o relógio no Praia Tênis Club, pegar onda em Camburí, não perde festa de debutante, esperar a vez na fila do galeto no Iate Club, ouvir músicas inspiradoras, namorar muito, dançar apertadinho e voltar pra casa a pé, sem medo.

É bom saber que será lançado um livro com histórias e relatos escritos por pessoas que tiveram o privilégio de morar naqueles bairros tão especiais, então livres de prédios enormes e trânsito pesado. Quero crer que a vida mansa, alegre e cordial que vivemos ali tenha sido idealizada pelo sanitarista Saturnino de Brito ao projetar, lá pelos idos de 1890, o chamado Novo Arrabalde, com ruas largas e traçado que valorizava as enormes formações rochosas existentes. Quem viveu, viveu.

Vitória, 21 de agosto de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No hospital

No hospital

Estive fora do ar por mais de trinta dias, a ponto de não conseguir mandar três crônicas para os editores deste jornal. Preocupei muita gente, mas ganhei uma torcida atenta e carinhosa. A maior parte desse tempo passei às voltas com exames, clínicas e médicos por conta de incômodos provenientes do funcionamento imperfeito dos intestinos. Os demais dias foram vividos no hospital, sendo a metade deles dedicados à investigação da natureza e da extensão de algo diagnosticado inicialmente como sendo uma diverticulite. Sob demandas de um anjo da guarda de jaleco, novos exames deram o caminho das pedras para que o cirurgião fizesse seu trabalho.

Já deitado na maca, ao informar à enfermeira quem iria me operar, recebi dela um comentário efusivo e altamente tranquilizador para quem está a caminho do centro cirúrgico: “Ai, que bom! Esse doutor faz operações maravilhosas!”. Dito e feito. Saí de lá sem um pedaço das tripas e livre de uma tal bolsa externa. O sorriso e a segurança do cirurgião fizeram com que os cinco dias de risco de uma eventual complicação, e todos os demais, corressem sem qualquer preocupação.

Ao entrar no hospital decidi que seria um paciente exemplar, desses que têm paciência e boa disposição para enfrentar a tiração sistemática de sangue, a medição da temperatura, da pressão e da glicose, a aplicação de injeções para evitar coágulos, a tomação, com hora marcada, de remédios líquidos e em pílulas, sem contar a fazeção de exercícios para fortalecer os pulmões e o incômodo de ficar preso a um porta-frasco de soro e de antibiótico difícil de empurrar de um lado para outro.

Na falta do que fazer, passei a prestar atenção nas sobrancelhas das enfermeiras. Muitas delas optaram por desenhos discretos enquanto outras, talvez as mais entusiasmadas, adotaram uma solução chamativa e radical: uma sobrancelha que começa com uma reta vertical próxima ao nariz, com espessura bem larga que vai afinando, em curva, em direção à orelha. Fiquei com a impressão de que todas elas estão usando esse truque para se fazerem mais charmosas.

Vitória, 31 de julho de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA