Respeito e arrependimento

Respeito e arrependimento

Na semana passada recebemos a visita de Mário Duayer, querido amigo que conheci em 1971 quando fazia o mestrado na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Colegas de turma em praticamente todas as disciplinas, nosso convívio era diário e se estendia para além da sala de aula. Em caravana, viajamos de carro para passar o carnaval em Salvador e montamos acampamento sob os coqueiros, da praia de Piatã.

Eu participava de um programa de capacitação de professores idealizado por Máximo

Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da UFES, como alternativa para poder contar com pessoal qualificado para ministrar disciplinas mais especializadas. Fiz parte da terceira turma de recém-formados que fizeram a pós-graduação e voltaram para serem contratados pela Universidade. Naquele tempo, a cidade era bem carente de profissionais habilitados em muitas das áreas da engenharia. Viver uns tempos na antiga cidade maravilhosa era também uma oportunidade para tomar um bom banho de civilização. O Rio era a capital cultural do país. A zona sul fervia ao ritmo das novidades e experimentações.

A convivência com Mário colocou na berlinda atitudes típicas de rapazes capixabas, incluindo a gozação e o uso de apelidos pejorativos. Ele defendia fervorosamente o respeito à individualidade alheia, algo inteiramente novo para mim. Pois foi de tanto ouvir suas reclamações, que deixei de manter contato com uma morena interessante que estava de pé no corredor do ônibus quando embarquei no centro da cidade. O interesse foi recíproco e verdadeiro logo ao primeiro olhar e foi crescendo ao longo do Aterro do Flamengo. Enquanto balançava, fui juntando forças para vencer a minha natureza e fazer prevalecer o tal do respeito. O ônibus passou pelo Túnel de Copacabana e logo que dobrou na Barata Ribeiro, a morena deu sinal para descer. De pé, na calçada, fora de alcance, ela me lançou um olhar de total desaprovação da minha atitude passiva. O fato é que por respeito, porém inteiramente arrependido, perdi aquela morena. Mário morreu de rir da história.

Vitória, 12 de junho de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Enxergando e ouvindo melhor

Enxergando e ouvindo melhor

Meu oftalmologista, companheiro de muitas pescarias, me contou que há poucas décadas a operação de catarata demandava anestesia geral e internação hospitalar. Hoje, ela é feita em poucos minutos com anestesia que se usa para medir a pressão ocular. A preparação do paciente, que dura umas duas horas, inclui pingação de umas gotas no olho a ser operado, ingestão de uma espécie de calmante, para minimizar eventuais temores e ansiedades, e termina com a troca da roupa por um daqueles aventais ridículos, que constrangem os pacientes hospitalares.

Dito e feito. Depois de vestir minhas roupas de cidadão saudável, recebi instrução de usar dois colírios específicos e proibição de lavar a cabeça até segunda ordem. Me deram um óculos de proteção, daqueles que operários usam em ambientes hostis, agendaram a consulta de revisão e, para finalizar, ganhei abraços dos meus velhos amigos, donos da clínica. Voltei pra casa dirigindo e pensando no tanto que minha vida vai melhorar depois de operar o outro olho. É que ficarei livre de uma espécie de nuvem amarelada que esconde os detalhes das imagens e ofusca a visão de quase tudo, quando se olha contra um ponto de luz. Agora, mesmo com o serviço pela metade, ler um livro já voltou a ser uma atividade confortável.

Pois foi no começo deste mês de maio que também consegui uma melhora substancial nas minhas combalidas capacidades auditivas. Conto isso por imaginar relevante para muita gente que existe por aí, surdinha como eu, e que, quase sempre, também como eu, reclama do retorno nada compensador dos investimentos em aparelhos auditivos caríssimos, sobretudo se comprados aqui. Usuário desses recursos tecnológicos há uns 10 anos, enfim consegui encontrar, lá em São Paulo, fonoaudióloga capaz de calibrar adequadamente os meus aparelhos. Fazia tempo que nutria as expectativas de conseguir sustentar uma conversação em ambientes barulhentos, assistir TV em volume baixo e voltar a ouvir quase todas as notas das músicas gravadas nos velhos LPs que tanto botei para tocar. Em breve volto lá para os ajustes finos.

Vitória, 28 de maio de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Desapegando

Desapegando

Depois de conviver com obras dentro de casa, transferir o escritório para outro cômodo tem me exigido decisões e providências. É serviço que gosto de fazer e que começa com a definição da disposição dos móveis, com destaque para o lugar da mesa de trabalho. Aprendi que a luz natural deve chegar, preferencialmente, pelo lado esquerdo, para garantir conforto visual ao trabalhador. Um novo ponto de internet, sem o que não se vive hoje em dia, deverá ser providenciado.

Como certamente acontece com muita gente madura, difícil mesmo tem sido resolver o que fazer com tudo aquilo que ocupava as paredes do antigo escritório. Aos poucos, durante muitos anos e sob boas emoções, fomos trazendo pra casa livros, fotografias, quadros, objetos curiosos e simpáticos que fomos coletando nas andanças mundo afora, nos convívios e nas realizações. Assim, o cômodo foi se transformando em lugar das coisas do passado, das boas lembranças e das referências pessoais. Eram muitos ítens. Basta dizer que ocupavam uns 10 metros de prateleiras largas, 6 nichos grandes e preenchiam completamente uma das paredes.

Depois de descartar muita coisa, foi preciso resolver o que fazer com os livros. Tinha de tudo um pouco e muitos sobre alguns assuntos. Numa primeira triagem, separamos e demos boa destinação para uma grande quantidade deles sobre patrimônio histórico, antropologia, sociologia e assuntos afins. Algumas caixas com romances, livros de contos, poesias, história, biografias estão prontas para serem levadas para a biblioteca municipal de Anchieta, mas ainda resta inventar para onde levar as dezenas de bons livros técnicos, já sem qualquer serventia para os moradores. Falta também resolver o destino dos livros de história, de capa dura e letras grandes, espécie de tesouro da infância de Carol. Decidimos manter e deixar acessível tudo aquilo que foi produzido e publicado pelo pessoal da casa, por nossos parentes e amigos, por gente com quem convivemos e por autores que tomamos como referência. Posso garantir que já ando me sentindo bem mais leve.

Vitória, 15 de maio de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Casa cheia

Casa cheia

A danada da gripe que se apoderou de mim durou muito mais do que o usual. Ela abrandou mas voltou a reinar por mais uma semana. Sem aviso prévio, me obrigou a passar mais três dias na cama, a zanzar silencioso de um lado pro outro e a tomar vários banhos por dia, depois de suar frio, em busca de bem-estar. O fato é que, mesmo sem tosse, nariz escorrendo ou febre, ainda hoje não estou seguro de que ela já tenha acabado realmente.

Para complicar um pouco mais a vida do gripado, uma pequena obra estava sendo feita dentro de casa, a toque de caixa. Transformar uma espécie de escritório em uma suíte exigiu abrir vão de porta, colocar marco e soleira, regularizar o piso, rasgar paredes para trazer água quente e fria pro chuveiro, instalar o blindex do box e pintar tudo direitinho. Para completar o serviço, foi preciso desmontar estantes, prateleiras, a grande mesa de trabalho, e retirar todos os quadros e fotografias das paredes para repintar o quarto. Por mais ingênua que possa parecer, uma obra é sempre incômoda. Além do barulho e da poeira, todo pedreiro pede, diariamente e com urgência, que se compre alguma coisa fundamental.

Como se não bastasse, a obra tinha data pra terminar: na noite da véspera do dia em que chegariam os primeiros ocupantes da benfeitoria, um casal de ingleses com duas filhinhas. Viriam junto com nossa Manaíra, o maridão e os dois filhos. E eu, depauperado, sem graça e sensível a choro de criança. De surpresa, um grande amigo, que há dez anos não via, resolveu aceitar nossos insistentes convites e vir passear em Vitória, exatamente naquele fim de semana de casa cheia. A gripe deu trégua suficiente pra um almoço festivo e um passeio turístico, incluindo visita a museu, compras no mercado da Vila Rubim e subida no morro da televisão. Agora, nestes feriados gordos, uma cunhada e um casal de amigos fraternos de Brasília enchem a casa de conversas amenas e risadas gostosas. Lá fora ecoam notícias sobre a morte da cantora querida e impróprias palavras ministeriais. Na próxima semana chegarão amigos de Petrópolis.

Vitória, 20 de abril de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Gripe danada

Gripe danada

Acabo de sair de uma experiência relatável, mas não transmissível via jornal: uma gripe fortíssima que durou cinco dias completos. O que começou com um pequeno ardido na garganta, evoluiu para uma coriza progressiva e renitente, seguida de sessões de tosse seca. A certeza da doença, se é que gripe é doença, se instalou de vez quando percebi uma redução acentuada da capacidade auditiva e uma rara perda de apetite. Daí em diante, a coisa tomou rumo previsível e em ritmo crescente até me jogar na cama por dois dias completos. Percebi que, aos poucos, o mundo foi perdendo o interesse e a graça. O estado gripal faz aumentar a irritabilidade do acometido e tem o poder de provocar letargia e alienação. No auge do processo, o umbigo assume o controle geral da situação e faz valer o seu poder.

Desta vez, a tal gripe reduziu a quase zero minha sensibilidade aos noticiários sobre a vertente imobiliária do poder das milícias, as malandragens da concessionária que cobra pedágio e não duplica, a gulodice de ICMS, praticada por anos seguidos pela siderúrgica, as operações da Federal nas casas e escritórios de gente esperta e poderosa, a soltura instantânea de mais um preso precioso, sem falar na tentativa descarada, conduzida por dois indignos ministros do Supremo, de instalar a censura à imprensa no país.

Por mais relevantes, as notícias do mundo não comovem nem geram indignação em quem for apanhado por uma simples gripe viral, dessas que ficam à espreita de gente que sofre um choque de temperatura ao sair do carro ou ao entrar em lugar com ar condicionado no máximo. Por essas e outras, tomo a liberdade de sugerir um gripezinha maneira, com direito a dias de cama, chá de limão, alho gengibre, mel e uma pitada de cachaça, aos meus amigos do peito e a quantos também estejam indignados e se sentindo impotentes e desanimados com a escalada das barbáries nacionais. O corpo ficará doído de tanto ficar deitado porém, passados os dias de sofrências, a alma estará bem mais leve e descansada, prontinha pra aguentar o tranco e dar o troco.

Vitória, 17 de abril de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

É de chorar

É de chorar

Segunda feira assisti a entrevista do professor Mozart Ramos, no programa Roda Viva da TV Cultura. Ele é um dos dirigentes da Fundação Ayrton Senna, criada para atuar de forma inovadora em favor da educação plena e integral de crianças e adolescentes pelo país a fora. Mozart foi Secretário de Educação de Pernambuco e Reitor da UFPe.

Eu o conheço de vista e acompanho sua atuação pela imprensa. Fiquei animado com a sua possível nomeação para dirigir o Ministério da Educação, onde trabalhei por três anos, no início dos anos de 1970, ao lado de professores das universidades federais de Minas, Paraná, Paraíba, Santa Catarina e Bahia.

O corpo técnico do antigo Departamento de Assuntos Universitários era bem precário, mas seu diretor era um engenheiro paraibano arretado. Lynaldo Cavalcanti era conhecido por sua capacidade de trabalho, sua visão de futuro e seu compromisso permanente com a geração de resultados expressivos. Para ele, estar à frente de um órgão público era uma oportunidade para produzir fatos relevantes e transformadores.

Arrojado e intuitivo, ele se valia de três poderes mágicos: o de pautar questões estratégicas e bem delimitadas; o de convocar pessoas físicas e jurídicas capazes de contribuir para o equacionamento de tópicos específicos, delegando-lhes atribuições e correspondente autoridade; e o de conectar expectativas e interesses aderentes ao que precisasse ser feito.

Dava gosto de ver o pessoal trabalhando com afinco e determinação, fazendo as coisas acontecerem praticamente do nada. A mim, ainda um mestrando em engenharia de produção, me coube criar uma metodologia para distribuir recursos entre as universidades federais e coordenar a elaboração do primeiro Plano Nacional de Pós-graduação.

Hoje, em vez de um gestor competente e comprometido com a causa da educação à frente do ministério, foi nomeado um professor visivelmente despreparado para o exercício do cargo. O MEC virou um campo de batalha, onde grupos ideológicos, religiosos e até militares se digladiam feito loucos, diante de todos nós.

Vitória, 03 de abril de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Coisas de Março

Coisas de Março

Nestes tempos em que as pessoas estão cada vez mais envolvidas por tramas e arapucas da vida agitada em cidades que crescem sem parar, muitas coisas vão perdendo o sentido e a relevância que tinham quando o ritmo dos acontecimentos e o modo de se relacionar com as pessoas e os lugares eram outros. Percebo que muita gente já não se dá conta de que março é um mês especial.

Além do calor intenso, que este ano tem sido sufocante, março, ao lado de setembro, é tempo das maiores flutuações das marés no ano. O jornal de hoje, dia 20, informa, no pé de página, que os eventos de preamar, a popular maré cheia, acontecerão, com a certeza, às 02:54h e às 14:56h, atingindo as marcas de 1,6m e 1,7m, respectivamente. Isso no Porto de Vitória, porque no Porto de Tubarão o mar atingirá a sua altura máxima exatos 3 minutos antes, por estar situado algumas milhas a leste, de onde vêm e pra onde voltam as águas oceânicas. As marés baixas de março também são radicais: a menor de hoje atingirá a marca negativa de – 0,1m às 21:37h, lá no Centro da cidade.

É bom lembrar que março tem também a capacidade de alegrar pescadores de beré, em especial os que se divertem pescando carapaus, peixinhos valentes que só, que nadam em cardumes por aqui, religiosamente. A pescaria é feita nas águas entre o Iate Club e a Ilha do Frade e do entorno das Andorinhas, a bordo de botes de madeira e barcos de alumínio. Varinha flexível e camarão descascado são requisitos básicos. Trata-se de atividade que exige perícia, concentração e, mais do que tudo, capacidade de aceitar gozação. É que, em um mesmo barco, é comum acontecer que um dos pescadores passe a tarde inteira sem fisgar um único carapau, para o deleite dos colegas bem-sucedidos.

Tudo isso acontece por influência direta da lua cheia, que nestes dias estará brilhando no céu para quem tiver curiosidade e tempo de contemplar. A depender do estado de alma, a pessoa poderá ter, nem que seja por alguns instantes, uma agradável sensação de estar vivo e em perfeitas condições para a prática de boas emoções.

Vitória, 20 de março de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pierre das colheres

Pierre das colheres

Há uns 3 anos recebi e-mail de um francês que vive em Lyon, na França. Apresentou-se como colhereiro, dizendo que tinha visitado o meu site sobre as colheres de bambu que venho fazendo desde que me recuperei de um infarto do coração. Ele tinha uma curiosidade objetiva: queria saber se, de fato, eu não vendia as peças que faço.

Tratei de responder prontamente, confirmando que as fazia por pura diversão, sem qualquer motivação comercial. Aproveitei para dizer que muitas delas eram para presentear pessoas queridas e que atendia a encomendas sem ao menos fazer charme ou corpo mole. Pierre François, esse é o nome dele, se mostrou entusiasmado com as minhas informações: “Então somos bem parecidos. Eu também não vendo minhas colheres.”

Semanas depois recebi um pacote com um bilhete amistoso e 2 colheres, super simpáticas e bem acabadas, próprias para a gente ficar admirando e alisando, enquanto pensa na vida. Achei por bem fazer 3 para retribuir e as mandei pra França, acompanhadas de mensagem própria de um colega de hobby e atitudes. Enquanto trabalhava nelas, fui revivendo o acontecido e refletindo sobre o quanto é instigante fazer algo para uma pessoa que nunca vi e com quem tenho coisas relevantes em comum.

Pois então, há poucos dias, minha filha Bebel usou toda a potência do facetime para colocar, frente a frente, os dois colhereiros que não misturam colheres com negócios.

Confesso que fiquei emocionado ao conhecer o sorriso largo de Pierre e constatar o seu ar de cumplicidade ao me mostrar caixas repletas de colheres de todos os formatos. Em retribuição, apresentei pra ele as da nossa cozinha, a minha bancada de trabalho, as ferramentas que uso e as plantas do nosso jardim, com destaque para a jabuticabeira carregada.

Fiz questão também de que ele visse Amora abrindo as asas enquanto o convidava para vir nos visitar e fazer uma exposição aqui em Vitória. Soube depois que ele adorou a ideia de vir ao Brasil e ajudar a compor mais um capítulo da emocionante história sobre a magia que envolve as colheres.

Alvaro Abreu

Vitória, o6 de março de 2019

Escrita para A GAZETA

Carrinho de rolimã

Carrinho de rolimã

Recebi, com satisfação, o pedido de Dani, minha nora, para que fizesse um carrinho de rolimã para Biel, o caçula dela. Disse que o moleque tinha visto um deles num parque em São Paulo e ficou completamente vidrado. Carrinho de rolimã é algo que povoa a cabeça de muito marmanjo velho que conheço. Eu mesmo tenho boas lembranças de descer ladeiras em Cachoeiro a bordo de carrinhos feitos com tábuas de caixote e rolimãs conseguidos em oficinas de automóvel. Sou da turma dos que não puderam, por ter nascido antes do tempo, aproveitar as fortes emoções proporcionadas pelo skate, sobretudo quando se desce, em alta velocidade, estradas de regiões montanhosas, como se vê na TV.

Para quem não sabe, usa-se dois rolamentos maiores na traseira e dois menores no eixo dianteiro, que é pivotado no centro da parte da frente do carrinho, condição para que possa ser movido com os pés na hora de curvar. Como era pra criança, resolvi comprar quatro rolamentos iguais, novinhos e blindados. Gastei 40 reais e sai da loja achando que tinha feito um ótimo negócio. As madeiras, comprei lá no Colodetti, onde sempre acho o que preciso nessas empreitadas. Paguei meio caro por um caibro de angelim e uma sobra de compensado naval de 10 milímetros, mais leve e fácil de carregar. Na volta pra casa, fui maquinando o projeto básico do bólido. O ideal seria minimizar o trabalho com serrote, usar só quatro parafusos e fixar os rolimãs na madeira valendo-me somente do poder de fixação dos encaixes de alta precisão, dispensando travas e cunhas. Usaria freios dianteiros acionados com calcanhares, pressionando pedaços de sandália havaiana contra o chão, e instalaria um cabresto de cordão com empunhadura de bambu, para proporcionar sensação de segurança ao piloto.

Ontem, ao levarmos os netos para ver a lua cheia nascendo atrás do porto, vi que no final de rua tem uma excelente pista de teste, dotada de boa inclinação, piso regular e uma curva larga na parte baixa. É toda ladeada por muro de concreto, que impõe respeito e exige perícia do estreante.

Vitória, 23 de janeiro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Rotina matinal

Rotina matinal

Fiz questão de começar o ano sem compromissos sérios, liberado de obrigações sociais e despojado de expectativas relevantes. Preferi, por vontade própria e genuína, me sentir abanado pela brisa fresca da lestada, flutuando em rio manso, balançando em rede larga à sombra da acácia rosa em flor, vendo os cachorros da casa dormindo despreocupadamente de barriga pra cima. Engenheiro de produção que sou, resolvi adotar uma rotina matinal leve, tentando racionalizar os movimentos indispensáveis para conseguir maior eficiência e rapidez. Isso, por pura diversão, sabendo que tempo é o que não falta por aqui.

A lista das atividades correntes inclui: tomar o remédio para tireoide logo ao chegar na cozinha, conferir as horas no relógio do micro-ondas (para dar início ao jejum obrigatório), encher a chaleira, acender a boca grande do fogão, posicionar o filtro de papel no coador e colocar três colheres de café no filtro. Enquanto a água não ferve, passarinheiro que já fui, corro para tratar de Amora: limpar a plataforma do poleiro, lavar e abastecer os potinhos com água fresca, pedaço de mamão e ração extrusada. Tudo isso intercalando coçadas debaixo das asas e assobiando melodia que ela conhece muito bem.

De volta à cozinha, escaldo a garrafa térmica e começo a coar o café. Tento acertar a quantidade de água para encher a garrafa até a borda, sem sobrar nem faltar, o que nem sempre consigo. Bebendo a primeira xícara, vou conferir as mensagens recebidas, visitar o blog do meu amigo Eduardo Lunardelli, rastrear as manchetes de quatro jornais e ler as matérias e artigos que mais me chamaram a atenção. Na mesa posta, vou comentando com Carol os crimes e falcatruas da véspera, rindo (para não chorar) das bobagens recentes produzidas pelo pessoal do novo governo, xingando os donos das toneladas de pó preto que caem por aqui. Para completar a rotina, é a vez de continuar tentando convencer Amora de que não é perigoso subir no meu braço. Insegura, talvez traumatizada, ela ainda reluta em fazer o que é natural para qualquer arara caseira.

Vitória, 09 de janeiro de 2019.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA