Wei Wei na Oca

Wei Wei na Oca

A ceia de Natal deste ano foi em São Paulo, onde moram três dos nossos filhos e cinco netos, formando uma expressiva maioria. O pedido dengoso da filha para ajudar na arrumação da casa nova engrossou as motivações para mudar o lugar da festa. Viajamos com expressa recomendação de ver a exposição de Ai Wei Wei, que ocupa os quatro andares da Oca, no Ibirapuera. Trata-se de artista chinês de alta potência, ativista convicto e corajoso, que enfrenta as forças que governam seu país com mãos de ferro. Faz tempo que ouvi falar dele pela primeira vez, mas só mesmo vendo de perto para perceber a contundência do seu trabalho, fruto de vivência intensa de cada questão e fundamentado num conceito direto: “saber e não esquecer”. Tudo é muito bem registrado para ampla difusão.

Para denunciar a morte de mais de cinco mil alunos, provocada pela má qualidade das construções de mais de 700 escolas públicas que não resistiram à força de um terremoto, Wei Wei ocupou 60 metros corridos do subsolo, com centenas de toneladas de vergalhões de aço que recolheu nos escombros, para representar trincas e descontinuidades nos terrenos afetados pelo fenômeno. Todos eles foram retificados manualmente, com marretas, por muitos colaboradores, durante vários meses de trabalho. Em paralelo, mobilizou moradores de todos os lugares atingidos para conseguir informações sobre cada criança que morreu.

Para expressar sua solidariedade com as populações de refugiados, lá está um um enorme barco inflável repleto de crianças e adultos, todos iguais, usando coletes salva-vidas. Tudo em plástico preto.

Para criticar aqueles que ficam acompanhando a movimentação dos poderosos da vez, como fazem os girassóis com a luz do sol, ele mobilizou trabalhadores e artesãos de uma pequena cidade do interior da China, durante mais de um ano, para produzir mais de cem milhões de sementes de girassol, em porcelana pintada à mão. Um terço delas compõe o desconcertante tapete de sementes, de uns 400 metros quadrados e um palmo de espessura, que impacta e faz pensar quem vai ao andar de cima da Oca.

Vitória, 26 de dezembro de 2018.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Segunda foicinha

Segunda foicinha

Tenho uma espécie de fascínio pelas ferramentas. Algo parecido ao que acontece com quem gosta de motocicletas, de armas ou de joias. Sou usuário de chaves de fenda, martelos, serrotes e alicates ao fazer pequenos consertos caseiros, e de goivas, faquinhas, raspadeiras, e até cacos de vidro, quando faço colheres. No serviço de desbastar os pedaços de bambu, uso uma foicinha paraibana, bem leve, cabo de goiabeira, de minha grande estima. Com ela consigo chegar na forma básica da peça, no shape, como se diz.

Em junho, quando estive na Paraíba, me deparei com uma foice que eu nunca tinha visto. Ela estava sendo usada por seu Nelson, patriarca do assentamento de Tambaba, no caminho da praia dos pelados. Ele disse que tinha pago 20 reais por ela, na véspera. Demonstrei interesse e pedi que botasse preço, mas ele se fez de rogado, dizendo que eu poderia encontrar uma igual lá pelas bandas de Goiana, na estrada de Recife. Bem que procurei, mas continuei de mãos vazias e com ela na cabeça. Na semana passada voltei à Paraíba, para a inauguração do busto do professor Lynaldo Cavalcanti, com quem trabalhei por 13 anos e com quem muito aprendi. Dentre as centenas de feitos relevantes de Lynaldo, está a criação, em 1978, do curso de desenho industrial em Campina Grande, para enriquecer o ambiente universitário concentrado nas engenharias. Pois o que aquela tal foicinha tinha de especial era exatamente o seu design, projetado, com certeza, por alguém que entendia do ofício de cortar madeira. Sua lâmina, quase quadrada, é presa ao suporte do cabo em ângulo de uns 30 graus, o que reduz a obrigação de levantar o cotovelo para dar golpes certeiros. Lynaldo, que usava muito mais a intuição do que as mãos, apreciaria aquela ferramenta feita com aço de mola de caminhão.

Desta vez, depois de muita conversa mole, uma nota de 100 reais e do prestígio de meu amigo Iveraldo, consegui trazer pra casa a foice de seu Nelson, que ganhou, de quebra, uma história pra ser contada na fresca da varanda sobre um homem barbudo fascinado por foices.

Vitória, 12 de dezembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Antes que seja tarde

Antes que seja tarde

Em novembro de 2018, quase 5 anos passados, escrevi uma crônica intitulada Antes que seja tarde, que tratava de duas obras inacabadas que estavam à mostra no alto do edifício da FINDES, na Avenida Nossa Senhora da Penha, e um outra, enorme, na beira do mar do Canal de Vitória, bem diante do Convento da Penha. “Dá para supor que à imaginação de uns poucos dirigentes se juntaram a força dos egos e a vontade de deixar marcas na paisagem da cidade”.

Pelo que sei, a direção da FINDES deu por encerrado um longo período de aborrecimentos e constrangimentos gerados por uma estranha aranha de aço, visível de longe, e decidiu remodelar o espaço para abrigar usos mais compatíveis com as finalidades da instituição. Em breve ele estará sendo usado por quem trabalha com tecnologia e inovação, o que é muito bom.

Nada sei sobre as movimentações que culminaram na decisão de construir o chamado Cais das Artes. Hoje, ao término de mais um mandato do governador que achou por bem edificar aquela obra monumental com o propósito de incluir Vitória no circuito mundial das artes, fico pensando no destino daqueles esqueletos, agora sem pai nem mãe, expostos ao tempo e à maresia em época de vacas magras. Já apareceu quem defenda enfaticamente a sua demolição, e quem, em reação, tenha abraçado o tapume da obra.

Pois eu diria que é mais do que urgente conseguir que o Cais das Artes seja visto pelos capixabas como um poderoso instrumento de desenvolvimento das pessoas que vivem aqui. Só assim, apropriado pela população como um trunfo, seriam plenamente justificáveis os investimentos realizados e as verbas colossais para fazê-lo funcionar regularmente, quando pronto.

Nessa rota, é oportuno começar juntando as melhores competências disponíveis, aqui e alhures, para, livre de interesses rasteiros, megalomanias e atitudes ideológicas, formular uma agenda de ocupação e uso plural, inovadora e consistente, voltada prioritariamente para as nossas crianças, adolescentes e recém-adultos, a ser implementada de forma progressiva.

Vitória, 28 de novembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ensaio Geral

Ensaio Geral

Venho acompanhando, à distância e com alguma curiosidade, a escolha dos nomes do primeiro escalão e as marchas e contramarchas nas definições de como deverá ser o próximo governo. Quem esperava uma linha de conduta errática e muita bateção de cabeças, deve estar surpreso ao ver o presidente eleito se saindo razoavelmente bem até aqui. O enxugamento radical do conjunto de ministérios e órgão públicos vai concentrar poderes em mãos de uns poucos homens e pouquíssimas mulheres de sua inteira confiança, o que poderá facilitar a adoção de um estilo de governar baseado na delegação de poderes e no total respeito à hierarquia, que ele tanto preza.

De fora, sem saber dos bastidores e das movimentações de elefantes e camelos de diferentes origens em busca de espaços e poderes, pode-se dizer que as escolhas têm sido feitas de forma relativamente independente de interesses corporativos e da influência de partidos políticos. Seria promissor se assim também fosse a escolha dos dirigentes dos escalões inferiores, de quem coloca as mãos na massa e que, eventualmente, mete o pé na jaca. O tal aparelhamento do estado é um enorme nó górdio a ser desatado.

Posso estar enganado, mas acho que tem muita gente com as barbas de molho, fazendo cara de paisagem e, sobretudo, esperando a poeira baixar. Jogadores profissionais não se precipitam nem se comovem com as aparências nas primeiras cartadas. Usam a paciência e a avaliação cuidadosa da situação como armas estratégicas para a preparação do bote. É hora de tentar decifrar atitudes, conferir a direção e a intensidade dos ventos para tentar saber pra onde o rebocador está indo. Macacos velhos não enfiam a mão em cumbuca.

Com os adversários ainda lambendo as próprias feridas e procurando razões e responsáveis pelo tranco que levaram nas urnas, a marcação oposicionista ainda não começou. Também dá pra ver que as turmas do facebook estão bem mais calmas e que tem muita gente de ressaca cívica, já meio arrependida das bobagens que fez durante a campanha. Não deixa de ser animador.

Vitória, 14 de novembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Depois das eleições

Depois das eleições

Estive em São Paulo na semana passada. No domingo fui dormir tarde, depois de muito conversar sobre as eleições, incluindo uma tentativa de virada que não aconteceu e, especialmente, sobre a vitória de um candidato messiânico. Uma falha do Uber resultou numa longa espera em frente ao portão do edifício, sob vento frio, uma correria por avenidas quase desertas com imperdoável erro de trajeto, um desembarque apressado em pleno engarrafamento para acessar passarela e uma correria inútil, com o coração afobado, até o balcão da companhia. Por dois minutos não conseguimos despachar a mala no voo das 6:30h da manhã, pagamos 600 reais para remarcar a viagem para perto do meio-dia e enfrentamos uma longa espera em cadeira de aeroporto. Aborrecido e morrendo de sono, li dois jornais com matérias e artigos típicos de edições do dia seguinte ao das eleições.

Pelo que li, agora o país tem um presidente limpando a própria mesa com gestos de garçom experiente e um outro recém-eleito, ainda espantado, experimentando os primeiros impactos do inevitável choque de realidade. Para completar, vi que já são quatro os candidatos a presidente da república nas eleições de 2022, inclusive aquele que, depois de constatar que a vaca tinha ido para o brejo, fez um grande esforço para se mostrar capaz de tirá-la de lá.

À noite, em casa, rodei pelos canais da TV em busca de opiniões e palpites sobre o que vem vindo por aí. As campanhas, à base de slogans e acusações de toda ordem, praticamente inviabilizaram espaço para o bom senso, não dando margem para avaliações serenas sobre possibilidades e opções de futuro. Opiniões de companheiros e de partidários escondem motivações e interesses particulares e inconfessos que pouco tratam do que seria possível e desejável para corrigir rumos, fazer fluir a vida e proporcionar a felicidade geral.

É bom que se saiba que, até o presente momento, não me envolvi em bate bocas inconsequentes, não me aborreci com qualquer parente nem briguei com um amigo sequer por conta de opiniões e escolhas. Sou um homem feliz por isso.

Vitória, 31 de outubro de 2018.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No segundo turno

No segundo turno

Os resultados da pesquisa do IBOPE sobre as intenções de votos no segundo turno da corrida presidencial estão aí para quem quiser ver e meditar sobre o que representam. Os números são acachapantes. Variações de uns tantos pontos percentuais a favor ou contra um dos candidatos não alteram o cenário. A escolha do próximo presidente está com jeito de fato consumado. Isso, naturalmente, sempre que mantidas as atuais condições de temperatura e pressão e, sobretudo, se livre de fatos relevantes e explosivos, de forte impacto emocional, inclusive facadas e tiroteios. Os números da pesquisa nos colocam, a todos, e com boa antecedência, diante de uma realidade até bem pouco tempo inimaginável, sobretudo para os que idealizaram as estratégias e o plano de voo do PT, incluindo a escolha do opositor.

Uma generalizada insatisfação, até então recolhida, transformou-se em efetiva reprovação popular nesta eleição. Chega ao fim um estado de impotência que foi se instalando paulatinamente na alma de muita gente. As armações, as bandalheiras e os desgovernos foram tantos que produziram decepção e desengano com muitos personagens, lideranças e partidos políticos. No segundo turno, o basta ao que está aí fica patente na rejeição crescente a Haddad, captada na pesquisa e declarada por quase a metade dos eleitores entrevistados. Também ele paga o preço por ser mais um representante de tudo o que a maioria da população brasileira está considerando inaceitável.

Imagino que Haddad já tenha entendido que a vaca foi pro brejo e que por lá ficará por um bom tempo. A expressão de cansaço e a falta de brilho nos seus olhos demonstram quebra nas convicções e perda de potência, indispensáveis para sustentar um derradeiro esforço coletivo, na tentativa de reverter as previsões e certezas. Uma sequência de tropeços e de insucessos nas buscas por apoios relevantes deve estar gerando desconfortos e sensação de abandono. É bem provável que o desânimo se instale nos comitês de campanha, trazendo junto melancolia e algum arrependimento tardio.

Vitória, 17 de outubro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Piorou bastante

Piorou bastante

Que me perdoem os meus amigos e conhecidos que estão gastando emoções e energias contra e a favor de cada um dos dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais neste primeiro turno das eleições para presidente. É que não tenho a menor disposição para entrar nessa peleja e, muito menos, para votar em qualquer um deles. Acredito, sem nenhuma pretensão, que essas minhas emoções e certezas devem ser parecidas com as de uma enorme quantidade de pessoas, incluindo um outro tanto de amigos e conhecidos meus, que também estão se vendo diante de um mata-burro ou à beira de um precipício.

Sou dos que estão preocupados com a instabilidade potencial de um governo brotado em ambiente tão insensato. Não gostaria de ter um presidente submetido aos caprichos e traumas de um líder popular perito em organizar interesses em proveito de seu próprio projeto de poder. Nem de ver um governante quase desconhecido idolatrado como salvador da pátria, o que me faz lembrar da desastrosa experiência com um tal caçador de marajás.

Minhas preocupações ganham concretude ao fazer as contas dos votos: o próximo presidente terá sido eleito pelos que o escolheram por ser o melhor e pelos que eram radicalmente contra o outro candidato que também aparecia bem nas pesquisas.  Sendo assim, e é isso que me assusta, o que for eleito não deverá contar com o apoio da grande maioria dos milhões de brasileiros que preferiram o outro candidato, que votaram nos demais pretendentes, que anularam o voto por serem contra todos os concorrentes e, também, dos milhões que votaram em branco e que se abstiveram de votar. Em outras palavras: escolhido por uma parcela bem pequena do eleitorado. Como se não bastasse, dá pra prever que o ambiente hostil que se estabeleceu antes das eleições vigorará no decorrer do mandato. Se, por aqui, já se aprendeu a conviver com a barulheira colorida dos que se dizem de esquerda, ainda não se tem experiência com as práticas de uma direita convicta e assanhada, recém assumida, atuando a favor ou dando o troco.

Vitória, 03.10.2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções da quinzena

Emoções da quinzena

Esses meus últimos dias foram cheios de emoções. Adorei rever antigos frequentadores da Praia do Canto no encontro anual na Curva da Jurema e senti a morte de Marcos Murad, personagem relevante dos tempos de Praia Tênis Club. Vibrei com Claudinho Tovar, amigo daquela época, recebendo homenagem na abertura do Festival de Cinema de Vitória, e assisti o depoimento comovente de uma mulher que se despediu do Rio Doce e do mar de Regência, em documentário sobre a tragédia provocada pela SAMARCO.

Tentei fazer, pela primeira vez, duas colheres iguais, para dar de presente a um ex-aluno de 1972 e a um primo que eu não via há 50 anos, durante conversa amistosa sobre nossas vidas e especulações sobre o futuro que nos aguarda. Revi, satisfeito, casal querido e vibrante que, há mais de 30 anos, come raspa de casca de limão orgânico no café da manhã para manter a saúde perfeita. Recebi com alegria mensagem entusiasmada de amigo paulista se dizendo livre das 150 mg de ciclosporina que tomou durante 8 anos e que estavam lhe causando problemas, inclusive tremedeiras.

Conheci a amplitude deslumbrante do hipódromo do Rio, torci por cavalos que escolhi pelo jeitão na pista e observei tipos de aficionados do turfe. Caminhei em volta do Museu do Amanhã, visitei a exposição impecável de 10 pintores modernistas na Casa Roberto Marinho e assisti atônito, pela TV, a agonia do Museu Nacional. Passei boa parte de uma manhã às voltas com quadros, fotografias, desenhos e escritos deixados por mamãe, verdadeiros testemunhos de sua existência.

Ouvi no rádio do carro, com irritação, notícia de aumento da gasolina, justificado pela alta especulativa do dólar. Acompanhei, surpreso, o voto solitário do Ministro Fachin defendendo a eficácia de documento assinado por dois consultores da ONU em favor de candidatura proibida por lei brasileira. Constatei a convicção de onze entre treze motoristas de táxi do Rio de Janeiro de votar em candidato falastrão, o que me fez pensar, com inquietação, nos rumos da eleição para presidente deste nosso país.

Vitória, 05 de setembro de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Compras na Leitão

Compras na Leitão

Posso apostar que o pessoal mais novo não faz ideia do que vem a ser a loja (ou seria uma venda?) onde sempre vou quando preciso de alguma coisa fora do usual, aí incluindo cabo de enxada, preguinhos de aço ou canivete Corneta. Mesmo que não encontre o que esteja querendo, jamais perco a viagem naquela espécie de paraíso do consumo improvável e preventivo. Sou freguês do estabelecimento desde tempos bem remotos, quando o trecho norte da Leitão da Silva era calçado com paralelepípedos, tinha brejo por todo lado, algumas lojas de tinta, de material hidráulico e elétrico, além de galpões e pequenas casas. A nova loja de seu Emídio Paes deu outra vida ao lugar, atraindo compradores de material de construção. Não encontrando ali o que precisava, a gente ia na venda de seu Manoel Araújo, do outro lado da rua, um pouco mais adiante.

De lá pra cá, a loja daquele simpático português virou um shopping da construção e a outra, hoje a minha preferida, mudou-se para um galpão vizinho, bem maior, dispensou o velho balcão alto e adotou o modelo self service. Agora, o freguês encontra os mais variados e curiosos produtos, novos e usados, em bancadas e prateleiras nos corredores, fixados nas paredes, pendurados na estrutura do telhado e até mesmo no chão. Percebe-se uma boa dose de racionalidade na disposição dos estoques de pregos, parafusos, buchas, selas de cavalo, ganchos, louças de banheiro, holofotes, churrasqueiras, vassouras, marretas, tampas de bueiro e muito, muito mais.

Dia desses voltei lá para buscar um pau de enxada que o herdeiro de seu Manoel, meu colega no Irmã Maria Horta e no Salesiano, tinha me prometido. Ele, que sabe de cor o nome completo dos alunos da nossa turma e dos professores, me deu de presente seis varas bem retinhas de camará que mandou cortar no sítio onde ele cria umas poucas vacas e faz manteiga, queijo e requeijão. Com uma delas e a ajuda do simpático arco de serra já bem velho que acabei comprando por lá, fiz um grande balanço pra minha arara que, desconfiada, ainda não se acostumou com o brinquedo.

Vitória, 22 de agosto de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Seria muito bom

Seria muito bom

Nesses últimos dias, duas mortes me fizeram parar pra pensar: uma veio como contingência natural da vida, mas a outra pegou todo mundo de surpresa. As sensações de perda devem ter se somado na alma de muitos capixabas.

Com Helmut eu só convivi nos meus tempos de rapaz nadador, quando disputamos provas de 400m na piscina do Praia Tênis Club. Bem mais velho e lento, acho que ele se movia pelo prazer de competir. Morava numa casinha simpática no pé da ladeira do Hospital Infantil. Declarações de pessoas que trabalharam ao seu lado e sob sua batuta atestam que sua atuação como empresário contribuiu decisivamente para a felicidade e realização de muita gente.

O que marcará sua passagem por este mundo é a proeza de ter transformado a pequena fábrica de doces do seu pai em uma empresa enorme que produz os bombons das serenatas e que fez de Vila Velha uma referência no mundo dos que adoram chocolate.

Veio de muito longe a notícia da morte prematura de Pignaton, um professor de milhares de alunos, reconhecido como pessoa instigante e afável, um homem empreendedor que criou um colégio para um mercado nascente e promissor e se tornou um empresário de sucesso no mundo dos negócios educacionais. Meu contato com ele nunca passou do “boa tarde” e do “bom dia”, trocados no portão e no pátio do colégio onde uma nora dava aulas e dois netos pequenos estudavam.

O fato é que esses dois homens serão lembrados por seus contemporâneos pelo tanto que fizeram de concreto e objetivo em campos tão díspares. Para mim, eles demonstraram que, com méritos pessoais e muita determinação, é perfeitamente possível catapultar uma pequena fábrica de doces e montar uma grande escola de propósitos bem específicos.

Quem me dera que as próximas eleições fossem disputadas exclusivamente por candidatos de ficha bem limpinha, com trajetória de vida repleta de feitos relevantes e de interesse público, dignos da admiração dos variados grupos de eleitores. Seria mais fácil e seguro para cada um escolher aqueles que iriam representá-lo até a próxima eleição.

Vitória, 25 de julho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA