Futebol e eleições

Futebol e eleições

A Copa do Mundo não deveria apresentar muitas surpresas. Muito embora grande parte das seleções esteja apresentando desempenho acima da média, até a eliminação da Alemanha, estava fácil prever as que chegariam às semifinais. É que além de bom futebol, o preparo psicológico e a experiência de participar de jogos decisivos são requisitos altamente relevantes na busca por vitórias. A genialidade, a sorte e a ajudazinha de juízes, em que pese a inovação que possibilita a análise posterior dos lances, também são fatores determinantes de resultados a favor dos melhores, dos mais espertos, dos mais fortes. O fato é que as equipes da Itália e dos USA foram eliminadas ainda nas eliminatórias e o pessoal do Panamá foi jogar nos gramados da Rússia.

Muitos desses fatores e acontecimentos próprios das disputas nos gramados também deverão estar presentes nas próximas eleições. Por enquanto, o que se vê é muito barulho, jogo de cena e muita movimentação nos bastidores. É de se esperar que encerrada a participação da seleção canarinho no certame, a eleição para escolha do futuro presidente passe a ser a bola da vez. Embora totalmente improvável, seria muito bom que se instaurasse um ambiente propício ao debate entre candidatos sobre o que deve ser feito para tirar o país do atoleiro em que se encontra. Já foi o tempo em que eu era otimista com o poder das eleições, talvez porque acreditava que candidatos e partidos pudessem estar realmente comprometidos com mudanças e melhorias.

Agora, olhando em volta, não consigo acreditar que algum dos candidatos venha a receber das urnas um expressivo credenciamento para implementar suas propostas de campanha, condição indispensável para que possa enfrentar, com algum sucesso, as bancadas da bala, da bíblia, do boi e, também, do banco, da boleia, da bandidagem, da bola…, todas elas agindo despudoradamente em causa própria, em todas as instâncias do poder público. Dói só de pensar no que vem por aí. Torço para que, tendo sofrido mais um futuro inglório, aprendamos a escolher os nossos mandatários.

Vitória, 27 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Futebol e política

Futebol e eleições

A Copa do Mundo não deveria apresentar muitas surpresas. Muito embora grande parte das seleções esteja apresentando desempenho acima da média, até a eliminação da Alemanha, estava fácil prever as que chegariam às semifinais. É que além de bom futebol, o preparo psicológico e a experiência de participar de jogos decisivos são requisitos altamente relevantes na busca por vitórias. A genialidade, a sorte e a ajudazinha de juízes, em que pese a inovação que possibilita a análise posterior dos lances, também são fatores determinantes de resultados a favor dos melhores, dos mais espertos, dos mais fortes. O fato é que as equipes da Itália e dos USA foram eliminadas ainda nas eliminatórias e o pessoal do Panamá foi jogar nos gramados da Rússia.

Muitos desses fatores e acontecimentos próprios das disputas nos gramados também deverão estar presentes nas próximas eleições. Por enquanto, o que se vê é muito barulho, jogo de cena e muita movimentação nos bastidores. É de se esperar que encerrada a participação da seleção canarinho no certame, a eleição para escolha do futuro presidente passe a ser a bola da vez. Embora totalmente improvável, seria muito bom que se instaurasse um ambiente propício ao debate entre candidatos sobre o que deve ser feito para tirar o país do atoleiro em que se encontra. Já foi o tempo em que eu era otimista com o poder das eleições, talvez porque acreditava que candidatos e partidos pudessem estar realmente comprometidos com mudanças e melhorias.

Agora, olhando em volta, não consigo acreditar que algum dos candidatos venha a receber das urnas um expressivo credenciamento para implementar suas propostas de campanha, condição indispensável para que possa enfrentar, com algum sucesso, as bancadas da bala, da bíblia, do boi e, também, do banco, da boleia, da bandidagem, da bola…, todas elas agindo despudoradamente em causa própria, em todas as instâncias do poder público. Dói só de pensar no que vem por aí. Torço para que, tendo sofrido mais um futuro inglório, aprendamos a escolher os nossos mandatários.

Vitória, 27 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Viagens no tempo

Viagens no tempo

Gosto muito de ir ao cinema, mas evito os que funcionam nos shoppings, especializados em filmes campeões de bilheteria, cheios de explosões ensurdecedoras, muita pancadaria, tiroteios de grosso calibre, homens e mulheres potentes e truques sensacionais. Tudo para garantir fortes emoções do começo ao fim da sessão. Nesses dias assisti dois filmes relevantes: o clássico Easy Rider e o recente Ellen e John. O primeiro deles tem tudo a ver com emoções sentidas nos anos 60 e que fizeram de mim um barbudo de cabelos compridos. O outro me trouxe saudades de uma grande aventura em família, que começou com a ideia de percorrer os 2800 km entre Brasília e João Pessoa a bordo de um ônibus usado que transformamos num simpático trailer mambembe. Naquele 1986, nossa caçula nem tinha três anos de idade. Ambos narram longas viagens em busca de lugares idealizados por seus protagonistas: uma festa de carnaval de rua em Nova Orleans, onde a diversão é liberada, e uma casa no sul da Flórida, onde Hemingway viveu, agora transformada em museu.

Numa história impactante sobre a intolerância e o conservadorismo da sociedade americana, estradas vazias e paisagens sem fim, vistas em plano aberto de cima de motocicletas novinhas e reluzentes, expressam a inquietude e os sonhos de dois rapazes californianos dos tempos do movimento da contracultura, expostos aos preconceitos e à violência de prováveis futuros eleitores de Trump.

O outro filme conta a viagem improvável de um casal de idosos no velho trailer da família, totalmente livres das limitações impostas pelo controle dos filhos. Ellen, uma determinada senhora portadora de doença grave, resolve aproveitar seus últimos dias ao lado do homem que escolheu, pondo em prática a melhor alternativa que encontrou. O marido John, um risonho ex-professor de literatura, magistralmente encarnado por Donald Sutherland, vive distraidamente os momentos presentes. Carinhoso e bem disposto, segue as instruções da mulher munido das poucas e boas lembranças que lhe restam. Uma inspiradora história de amor maduro.

Vitória, 13 de junho de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Santas montanhas

Santas montanhas

Por pouco a greve dos caminhoneiros e donos de transportadoras detonou o plano de subir as montanhas até Santa Teresa para ouvir muita música boa, beber minha cerveja artesanal preferida, curtir um friozinho amistoso, chupar mexerica de beira de estrada de montão, comer comida italiana (agora cheia de estilo), descansar do rame-rame dos políticos de plantão, desviar as atenções dos milhares de problemas nacionais e, melhor, reencontrar gente que a vida moderna esconde das nossas vistas. Foi preciso encher o tanque com antecedência, conferir se havia bloqueio nas estradas, desprezar a previsão de chuva grossa com vento sul – que encharca alma e faz doer os ossos – e, mais do que tudo, preparar o espírito para o que desse e viesse. Encontramos a cidade arrumada pra festa e o Santa Jazz com público relativamente pequeno, pela fama que tem.

De tudo que assisti, Stanley Jordan foi, de longe, a maior atração e ficou mais do que provado ser um músico excepcional, daqueles que operam em frequências muito além daquelas próprias dos homens normais. Virtuoso, ele passou uma hora inteira tirando sons melodiosos aos borbotões com a ponta dos 10 dedos, fazendo do braço do violão uma espécie de teclado com cordas. Sua destreza me fez lembrar de um garoto oriental que vi na internet resolvendo, simultaneamente, três cubos mágicos, que jogava para o alto e ajustava as peças enquanto cada cubo pousava nas suas mãos durante frações de segundo. Também acompanhei, embasbacado, Amaro Freitas, pianista de Recife, tocar músicas fora dos padrões usuais em perfeita sintonia com um baixista competente e um baterista de muitos sons. Isso, madrugada a dentro, diante de muitas cadeiras vazias e sob frio intenso.

Por sugestão de amiga viajada fomos percorrer o Circuito Caravaggio, onde brotam sítios e pousadas por todo lado, fora do perímetro urbano. Lá, numa rampa de voo livre instalada na cota 910m, de onde se tem uma vista panorâmica deslumbrante, fizemos selfies tendo como fundo uma boa parte da região oeste do Espírito Santo.

Vitória, 30 de maio de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Emoções futebolísticas antigas

Emoções futebolísticas

Vi na TV que o Tite havia anunciado a lista dos jogadores convocados para disputar a Copa do Mundo lá na Rússia. No avião, na falta do que fazer, li todas as matérias e opiniões de especialistas sobre as escolhas do treinador, suas filosofias de arrumação do time e suas estratégias para controlar o jogo, coisa que não faço há muitos e muitos anos. Faz tempo que parei de ler o jornal de trás pra frente e nem sei explicar as razões de ter abandonado as páginas sobre esportes em favor das que trazem notícias sobre política e economia. Nunca fui vidrado em futebol, mas percebo que meu interesse por jogos, clubes, jogadores e CBD agora está bem perto do zero. Imagino que algo parecido esteja acontecendo com muitos brasileiros e não acredito que seja apenas em função do tragicômico 7×1 contra aqueles alemães profissionais.

Na infância, torcia a favor do Cachoeiro e, mais do que isso, contra o Estrela, nosso inimigo dentro de campo. Isso tudo por influência de papai, um torcedor convicto. Mais tarde, a exemplo do que todo capixaba fazia, adotei um time carioca, o Fluminense, pra chamar de meu. Na nossa rua, o tricolor tinha uma torcida expressiva e vibrante, liderada por Dona Ormandina Benezath. Aqui na ilha, o Rio Branco nunca me entusiasmou e acabei adotando o Vitória, sem que tenha ido a campo para vê-lo jogar uma partida sequer.

Me lembro como se fosse hoje de ter acompanhado pelo rádio o jogo em que nosso escrete conquistou a Copa do Mundo, em 1958, mas guardo poucas cenas da conquista em 1962, no Chile. Assisti na televisão colorida da casa dos vizinhos de frente os jogos do Brasil na Copa de 70 e ajudei a popularizar os palavrões nas comemorações lá no centro da cidade. Se das conquistas nos USA e no Japão restam lembranças embaralhadas, guardo viva a decepção com a desclassificação, imposta por Portugal, em 1966. Os ônibus que levavam os atletas capixabas para os Jogos Universitários, em Curitiba, pararam num posto de gasolina para que pudéssemos acompanhar o final da partida. Melhor se tivessem seguido viagem.

Vitória, 16 de maio de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Siviréu

Siviréu

Outro dia contei um pouco do passeio que fizemos num parque em São Paulo, quando fiquei observando um encontro de escoteiros, algo que não via há uns cinquenta anos. O escotismo me ensinou muita coisa, inclusive a tomar gosto pela arte fascinante de improvisar soluções.

Isso se soma ao que trago do Colégio Salesiano, de onde guardo boas lembranças, muitas revigoradas pelas histórias que Afonso, meu irmão mais velho e um dos alunos mais bagunceiros da época, não se cansa de contar nos mínimos detalhes. Destaco o que aprendi nas aulas de português do padre Bonifácio, que exigia que os alunos desenvolvessem a capacidade de oratória, e nas de trabalhos manuais, do professor Genésio, quando cheguei a fazer uma cabeça de índio com um coco seco, que me encheu de orgulho. Na Escola Politécnica, além dos conhecimentos necessários aos engenheiros mecânicos, aprendi, praticando no escuro e sem a ajuda de manuais, os mistérios da revelação de fotografias em preto e branco, depois de ter ajudado a montar o laboratório fotográfico.

Lembrei-me disso tudo enquanto dividia ao meio um rolo dessas fitas crepe mais largas de modo a duplicar a metragem disponível aqui em casa, para atender a demanda que recebi de Diana, minha caçula, em pleno feriado nacional, que precisava proteger o rodapé da tinta da parede a ser pintada. Uma macgaivice, diria minha filha Bebel, ou mais um ato do mais puro siviréu, digo eu. É atitude que incorporei na vida e que professo toda vez que um filho se declara diante do que considero dificuldades contornáveis, carências passageiras, necessidades relativas e assim por diante. Com expressão de desafio no rosto, solto um sonoro: “Se vira, moleque; cai no siviréu”, na mesma pegada do também já famoso “Toma um banhozinho, que passa”.

Hoje comprovei, mais uma vez, que esse método de criar menino produz resultados: acabo de ser informado que Diana, sem saber que iria ganhar a fita que eu tinha dividido ao meio, tratou de fazer a mesma coisa com o rolo de fita larga que encontrou lá no apartamento dela.

Vitória, 02 de maio de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sempre alerta

Sempre alerta

Desta vez, a programação familiar em São Paulo incluiu um animado piquenique em pleno sábado de sol, num agradável parque municipal meio vazio e como bem manda o figurino: panos estendidos no gramado, muita fruta, comida leve, bebida farta, menino fazendo manha, garoto chutando bola, conversas frouxas de montão. Logo ao chegar acompanhei, surpreso e com algum saudosismo, o comecinho de uma espécie de conclave de escoteiros. Eram uns 60 adolescentes vestidos a caráter: bermuda longa, cinto com fivela, camisa com emblemas e broches. Todos de lenço no pescoço, com duas pontas enfiadas num anel abaixo do gogó. Os bonés e os quepes coloridos serviam para identificar a origem e o status do usuário. O terreno em declive valorizava a importância dos chefes e seus imediatos.

Apresentações formais de participantes, gritos de saudação, muitos apitos, palavras de ordem, instruções e distribuições de tarefas foram a tônica enquanto fiquei por ali. Assisti, com a mesma aflição de todos, a agoniante preparação do hasteamento solene da bandeira nacional, amarrada numa cordinha comprida e passada por cima de um galho bem alto duma mangueira frondosa. Constatei que ainda vigora o brado de Sempre Alerta, conjugado ao tradicional gesto firme da mão direita: os três dedos centrais colados e estendidos para cima e o polegar pressionando o mindinho contra a palma. A flor de liz continua presente.

Fui escoteiro junto com praticamente todos os moleques da Rua Madeira de Freitas e arredores. Descobriu-se que quem fosse escoteiro do mar por mais de 3 anos, recebia o certificado de reservista de terceira categoria da Marinha, dando por prestado o serviço militar obrigatório. As reuniões do nosso grupo eram esparsas e apenas uns poucos levavam as atividades e obrigações a sério, como o saudoso Chefe Xisto tanto gostaria. Da minha parte, aprendi muita coisa de boa utilidade, incluindo os segredos de acender fogueira, montar e desmontar barraca, fazer cama suspensa, cozinhar macarrão, remar em sincronismo e fazer os nós que tanto uso durante a vida inteira.

Vitória, 18 de abril de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Haja estômago

Haja estômago

Envio minhas crônicas para o jornal no começo da tarde das quartas feiras. Esta, que segue esse padrão, foi escrita horas antes da sessão do STF para o julgamento do habeas corpus preventivo em favor de Lula. Os prognósticos são favoráveis à concessão do direito de ele não ser preso, embora a última decisão do colegiado, em pleno vigor, seja em favor da possibilidade de prisão após esgotados os recursos ao tribunal de segunda instância. O Supremo está em situação muito precária, desacreditado, no entender de muita gente. É bom que se diga que foram alguns dos próprios ministros que colocaram a corte nessa espécie de sinuca de bico, bastante desconfortável para muitos deles e extremamente temerária para todos nós.

Debates e acusações ganharam força na imprensa e nas redes sociais. Acompanhei a movimentação de senadores e de mais de 5.000 juízes e promotores em defesa da legalidade de tais prisões, algo de proporções inimagináveis. Também fiquei sabendo de um manifesto supostamente subscrito por mais de 3.000 advogados, em defesa da liberdade de criminosos já condenados, sobretudo daqueles que cometeram safadezas políticas, crimes contra a nação, tráfico de drogas e coisas do gênero. Com a devida vênia, fico com o pessoal da primeira turma, dado que na segunda estão os que operam movidos pelos interesses de seus negócios. Condenados endinheirados investem verdadeiras fortunas para conseguir ficar fora das grades pois, mesmo sabendo que a justiça pode mandar prendê-los um dia,  o fazem confiantes de que seus processos irão prescrever.

Logo após enviar a crônica, sentarei diante da TV para acompanhar a sessão histórica. Otimista, conto com os votos legalistas da gaúcha elegante e do decano prolixo. Imagino que, numa eventual situação potencial de derrota no voto, vai ter ministro pedindo vistas ou colocando na mesa, no linguajar corrente na corte, processos que permitam tentar rever decisão firmada pelo plenário em favor da prisão. Seriam atitudes desesperadas para garantir impunidade, sem qualquer compromisso com a democracia.

Vitória, 04 de abril de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sinto muito

Sinto muito

Os próximos dias serão decisivos para o futuro de Vitória: a Câmara Municipal deverá votar a proposta de revisão do Plano Diretor Urbano – PDU, que estabelece as normas relativas ao uso do solo do município nos próximos dez anos. Trata-se de um documento elaborado pela Prefeitura ao longo de meses, com a participação de muita gente representando interesses e expectativas as mais diversas e por vezes conflitantes. Eu mesmo estive em animadas reuniões para debater as condições de ocupação da gleba destinada ao Parque Tecnológico, em Goiabeiras. Convidado, estive na Câmara para opinar sobre esse tema em plenário e nos gabinetes de dois vereadores, sempre junto com outros dirigentes de uma associação de empresas do setor de tecnologia.

Dias atrás, acompanhei, calado, uma audiência organizada pela Comissão de Políticas Públicas da Câmara Municipal. Saí bem desanimado, ao confirmar que existe uma movimentação orquestrada para anular o que está consagrado no PDU de Vitória desde 1992: a designação da última gleba de terra disponível no município para instalação do Parque Tecnológico, um instrumento poderoso para estimular a realização, em larga escala, de atividades ligadas à produção de bens e serviços densos em conhecimentos técnicos, inteligência e criatividade. O fato é que tem gente operando para permitir o uso residencial naquela pequena e estratégica gleba, exatamente quando o Parque começa, finalmente, a ganhar concretude, com a construção do Centro de Inovação.

De lá pra cá, me dei conta de que a expressão “sinto muito” não me saía da cabeça, sempre presentes em frases pesarosas por perda relevante e em desajeitados pedidos de desculpas aos que também embarcaram em ideia tão promissora. Passado o baixo astral, agora me vejo na obrigação de usá-la em manifestações formais de licença para discordar de argumentações inconsistentes dos que resolveram remar contra a maré e emparedar o futuro da cidade. Aliás, acho bom que cada um converse com seu vereador em defesa do Parque. Antes que seja tarde.

Vitória, 20 de março de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Com arara e sem parque

Com arara e sem parque

Amora chegou no começo da noite de sexta feira. Fomos em comitiva apanhá-la na setor de cargas do aeroporto. Estava estressadíssima dentro de uma pequena caixa de madeira comprida, onde passou muitas horas vendo um mundo totalmente estranho, através de uma tela de arame. Nossa primeira troca de olhares não foi nada animadora. Ela gritou com força e me fez ficar preocupado com a possibilidade de ter sido criada uma antipatia definitiva. Em casa, achei por bem deixá-la ficar diante da gaiola com as quatro calopsitas de Manu. Pelo silêncio, acho que percebeu que estava em ambiente familiar, mas não quis sair da caixa enquanto estivemos por perto. O criador nos disse que ela poderia ficar dois dias sem querer comer ou beber.

Passei o sábado por conta dela, tentando provar ser pessoa confiável. Para tanto, lancei mão de uma varinha de bambu e lasquei uma das extremidades em muitas varetas, algo bastante atraente para quem gosta de bicar o que esteja por perto. Antes mesmo de ter gasto toda a sua raiva atacando a varinha, mergulhei a ponta na água e ofereci pra ela. Deu gosto vê-la bebendo as duas primeiras gotas. Passei um bom tempo repetindo a operação com movimentos suaves até que matasse a sede. Em seguida, prendi um pedacinho de mamão entre as lascas e estendi pra ela que, depois de vencer o que restava de desconfiança, recolheu a comida com a parte superior do bico e comeu com esganação. O fato é que, de gota em gota e de pedaço em pedaço, ela foi enchendo o papo amarelo e abrindo o coração, a ponto de deixar que eu usasse a tal varinha para dar as primeiras coçadas na cabeça dela. Se arara sorrisse, Amora teria sorrido pra mim. Tranquila a bordo do seu poleiro móvel, tomou um bom banho de mangueira e passou o resto do dia prestando atenção na conversa de adultos animadíssimos, comendo jabuticabas tiradas do pé, servidas na ponta dos dedos.

Vi que compensa esperar um filhote de arara por alguns meses, mas começo a acreditar que foi totalmente em vão esperar 26 anos pelo Parque Tecnológico de Vitória.

Vitória, 07 de março de 2018

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA