Começou a campanha
Esse pessoal do marquetingue político não é fácil. Eles já identificaram que denúncias de desvio de verba federal, estadual ou municipal, assim como de compra de apoio nas votações no congresso, nas assembleias e nas câmaras já não produzem impactos significativos nas emoções de eleitores. Sei de muita gente que já nem se interessa mais em conhecer os pormenores dos esquemas de desvio de dinheiro e corrupção em vigor nas diferentes esferas do poder público. Eu mesmo tenho lido essas matérias na diagonal, com curiosidade suficiente para manter a indignação em níveis razoáveis, sem que afetem meu fígado ou façam de mim um homem triste ou raivoso.
Terminada a Copa, curtida a ressaca pelo fracasso da seleção da CBF, definidos os novos dirigentes que terão a incumbência de salvar o que resta do futebol brasileiro, lá veio a primeira declaração de guerra no campo da política nacional. Recebi de um amigo, desses bem roxos, cópia da matéria de capa da Folha de São Paulo deste domingo, estampando o que seria uma grande mutreta acontecida durante a gestão do candidato mineiro a presidente, quando à frente do governo de Minas Gerais. Segundo a reportagem, o que era uma pista de pouso em uma fazenda de parentes seus foi transformada, com dinheiro público, em um pequeno aeroporto. Mais do que tudo, o que chamou a minha atenção foi a fotografia de uma porteira fechada com corrente. A carga simbólica daquela imagem ajudava a engrossar a denúncia: a chave do cadeado ficava em poder dos donos da fazenda, que controlariam o uso da pista de pouso e de instalações que haviam sido construídas com verbas governamentais.
Sou forçado a acreditar que os conteúdos só agora divulgados pela imprensa tenham sido preparados com boa antecedência e que permaneciam guardados a sete chaves em alguma gaveta poderosa, em função do seu potencial de produzir estrago na imagem do candidato opositor. Afinal, sendo informações relativamente atemporais, são passíveis de serem utilizadas em momentos convenientes, rigorosamente agendados pelas equipes de campanha. Valores, projetos, contratos com empreiteiras, destinações para campanha do candidato e tudo o mais deveria ser mostrado, mas o que mereceria ser bem destacado era o controle da chave do bendito cadeado. Isso, sim, teria algum poder de indignar a alma de eleitores, a ponto de afetar sua convicção e redirecionar seu voto. Nesta segunda feira, matéria no Jornal Nacional da TV Globo repercutindo o assunto deve ter feito muita gente esmurrar o ar, dar pulinhos de alegria, babar de felicidade. Considerando isso, pode-se aferir a precisão do uso político de um material coletado para produzir a denúncia e declarar aberta a temporada de caça aos votos dos eleitores no país da Copa das Copas, da seleção que perdeu tão feio as últimas duas partidas do mundial.
Confesso que não consigo estabelecer hierarquia ou relação direta entre o acontecido em terras mineiras e a indicação de Dunga como o novo técnico da seleção da CBF. Já tem gente dizendo que ele foi escolhido a dedo, como parte de estratégia para blindar o pessoal que o nomeou, agora sem qualquer credibilidade após o fiasco futebolístico. É bem provável que o pessoal de marquetingue da CBF tenha proposto o perfil de um ferrenho guardião de meio de campo para tal função, desses que dão muita canelada e chute abaixo da cintura. Como se sabe, Dunga é do tipo que não leva desaforo pra casa, mas vi na internet que ele tem rejeição de quase 80%. Devo dizer que implico com o penteado milimétrico do presidente da entidade.
Vitória, 22 de julho de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
