Sem choro nem vela

Sem choro nem vela

A Copa está chegando e ainda não vejo entusiasmo nas pessoas nem gente correndo pra comprar aparelhos de TV. Sei de um único casal que comprou ingressos para ver uma dessas partidas mixurucas e de gente querendo completar seus álbuns de figurinhas, alguns de capa dura, de fazer inveja. Dizem que essa brincadeira movimentará uns dois bilhões de dólares mundo a fora.

Nas ruas, volta e meia, vejo comboios de radiopatrulhas e motocicletas federais se preparando para garantir segurança e proporcionar trânsito livre ao pessoal da Austrália e de Camarões que se hospedarão aqui. Uma movimentação propositadamente barulhenta, que me fez lembrar um representante do Ministério da Educação que só circulava pelas ruas de Recife em carro oficial dotado de sirene, dessas bem histéricas. Era um senhor sem qualquer competência educacional, mas com prestígio junto aos militares dos anos de chumbo. Embora os tempos sejam outros, imagino que o tal aparato policial vai querer furar sinais e pretender passar na frente de cidadãos já irritados com a lentidão do trânsito. Não será uma cena simpática nem inspiradora de bons modos.

Tenho boas lembranças da Copa de 58. Adultos e crianças em volta de um enorme rádio de madeira na sala de visitas da nossa casa, lá em Cachoeiro. A família havia se mudado recentemente para Vitória e papai resolveu nos levar para matar as saudades da terrinha. Lembro dos muitos gols que fizemos, mas não me recordo de comemorações na rua. Da nossa conquista no Chile, em 62, só me recordo das aflições pela contusão de Pelé. Apesar do clima de “ame ou deixe-o”, a Copa de 70 foi de emoções num crescendo até a vitória. Armamos uma espécie de arquibancada para uns vinte torcedores na garagem da casa de amigos da nossa rua. A televisão, colocada bem no alto, mostrava pela primeira vez imagens coloridas de futebol e um potente rádio Transglobe garantia vibrações complementares, nas vozes dos locutores de sempre. Mas, justamente no dia da grande decisão, mamãe pediu para levá-la a Cachoeiro, para o enterro de um parente. Na volta, com o rádio ligado, mas de pouca serventia, vim acelerando forte numa estrada totalmente vazia. O jogo já estava quase terminando quando estacionei o carro na Praça Costa Pereira e fomos festejar a conquista na frente do Britz Bar. Era um pequeno mar de gente animada e feliz entoando sem parar o grito de guerra “araruta, araruta, hei, hei, filho da puta”, que oficializou a liberação do palavrão na vida da classe média brasileira.

Na Copa de 86, um amigo meu sentiu enorme tristeza com a desclassificação do Brasil e  chorou que nem criança. Embora tivesse uma forte resistência ideológica em relação ao futebol, ele foi se entusiasmando com a sequência das vitórias até conhecer, na prática, a dor de um torcedor de verdade ao ver seu time perder uma partida decisiva. Das derrotas mais recentes, tenho duas raivas específicas: a do lateral esquerdo arrumando o meião na cabeça da área durante lance fatídico e a do nosso goleiro mais queixudo, que engoliu um frango mortal. Ainda tenho dó da fera italiana que perdeu o pênalti que nos deu o título de 94 em gramados americanos, mas não guardo sequer uma cena da conquista da Copa de 2002 lá no Japão.

Sou dos que acreditam no sucesso da equipe de Felipão, mas hoje acordei me perguntando o que acontecerá caso ela seja eliminada ainda na fase de classificação. E se ela conseguir chegar na final e perder na prorrogação, como o Atlético de Madrid? Será que o país inteiro ficará em silêncio como em 1950?

Vitória, 27 de maio de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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