Sorriso de Marina
Um conhecido meu, desses de longa data, me disse que encontrou com Marina Silva no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de janeiro. Encontrou é forma de dizer: a viu passando pelo saguão, em direção ao portão de desembarque. Ela andava com passos firmes rodeada de assessores, seguida de perto por um pequeno batalhão de fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Aparentando ter pressa, ainda assim ela cumprimentava, com um balançar de cabeça e acenos de mãos, as pessoas que ia encontrando pela frente. Fazia isso de forma bem comedida, sem a simpatia exacerbada, própria dos políticos em campanha.
Ele me contou que, pego de surpresa em meio ao pequeno alvoroço que se estabeleceu, retribuiu o sorriso discreto que recebeu dela ao passar ao seu lado. Sendo ela uma mulher bem miúda, ele precisou olhar para baixo para cumprimentá-la. Sendo ele um homem muito alto, imagino que ela precisou olhar para cima para encontrar os seus olhos. Um encontro fugaz entre um eleitor indeciso e uma candidata em ascensão vertiginosa nas pesquisas eleitorais. Ele é, talvez, a única pessoa que conheço que já tenha se encontrado pessoalmente com Marina. Pelo que me disse, ela deve ter percebido que não conseguira encantar aquele homem meio espantado que a olhava criticamente. Acho mesmo que ela já esteja acostumada com esse tipo de gente. E imagino que já tenha aprendido que, diferentemente de Eduardo Campos, ela nem sempre consegue estabelecer uma relação de empatia, de amor à primeira vista, com a maioria das pessoas.
Sei de muita gente que tem assistido suas entrevistas na TV, visto suas imagens em comícios e em reuniões com políticos e, mais recentemente, em caminhadas por ruas estreitas. Muita gente tem tido a oportunidade de vê-la com um sorriso aberto no rosto, surgido, talvez, da satisfação em se saber escolhida por um grande contingente de brasileiros que votarão nas próximas eleições. Imagino que tenha chegado à conclusão de que, depois de tanto batalhar, de enfrentar desvantagens e de fazer cara feia, já é possível começar a sorrir. O semblante totalmente sério, marcado por uma testa franzida, sobrancelhas arqueadas, olhar incisivo e uma boca triste, parece que já não cabe mais. É chegada a hora de se mostrar simpática, amistosa e agregadora.
Pelo que leio nos jornais e na internet, pelo que converso com amigos, a campanha eleitoral entra em uma nova fase a partir de agora. Passados os fortes impactos provocados pela tragédia, amainadas as fortes emoções e superadas as surpresas, é chegada a hora do preto no branco, do vamos ver. Passado o susto, constatados os estragos, fica-se com a impressão de que, daqui pra frente, vão entrar em uso a força das denúncias, a consistência das cobranças por coerência, a contundência da lei dos mais fortes, o poderes da intriga e a efetividade das armações ardilosas.
Fico tentando imaginar as reuniões nervosas de avaliação de cenário e de reformulação total das estratégias da campanha de reeleição que devem estar acontecendo em palácios, repartições públicas e residências oficiais. Assessores aloprados dando palpites impublicáveis, especialistas querendo mostrar serviço e profissionais de bom senso tentando abrandar a excitação e amenizar os ímpetos dos que preferem partir pro pau. Agora, pelo que sei, a palavra de ordem é desconstrução de imagem e a estratégia de campanha bem mais delicada: atacar a candidata Marina que, finalmente, encontrou uma boa razão para sorrir, porém sem vitimizá-la, para não entornar o caldo de vez.
Vitória, 03 de setembro de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
