Substituição de última hora

Substituição de última hora

No rádio do carro, ouvi notícia sobre um acidente de helicóptero em Santos. Na TV, logo depois, as vi imagens da tragédia com um avião. A confirmação de que Eduardo Campos estava a bordo junto com assessores me fez pensar na vida e na força do acaso.  Havia acompanhado a entrevista dele no Jornal Nacional e tinha ficado com uma boa impressão. Me pareceu uma boa pessoa, que respondia com simpatia e convicção sobre temas delicados. Mostrava-se preparado para a disputa e seguro de que a sua votação subiria durante os dois meses de campanha.

As imagens do lugar do acidente, as declarações dos bombeiros e de moradores não deixavam dúvida sobre as dimensões da tragédia. Todos estavam estupefatos, ninguém tinha explicações. Passei horas assistindo as mesmas cenas, sempre tentando encontrar alguma coisa reveladora, alguma informação que ajudasse a entender as causas da queda daquele avião de última geração. Possivelmente um urubu teria entrados na turbina ou um desses pequenos drones que estão voando por aí.

Declarações de cansaço publicadas na internet fizeram pensar em falha humana, em desorientação e tudo o mais. Vi uma senhora magrinha, com sotaque de portuguesa, dizendo ter visto o avião vindo dos céus, pegando fogo. Ela me pareceu uma pessoa confiável. Vi um senhor dizer que uma das turbinas estava em chamas. Declarações oficiais quebraram as expectativas de muita gente: os diálogos entre os pilotos durante aquele curto voo entre o Rio de Janeiro e Santos não haviam sido gravados, por razões desconhecidas. Ouvi, também, suspeitas de sabotagem. Técnicos do fabricante do avião chegaram de longe para acompanhar o trabalho de perícia. Fiquei com a impressão de que jamais saberei alguma coisa sobre as causas do acidente.

De uma coisa ninguém duvida: o acidente mudou completamente o ambiente político do país e deve ter desdobramentos relevantes nas eleições presidenciais. Os resultados de pesquisas de opinião divulgados no começo desta semana já mostram os primeiros impactos sobre o que se mostrava líquido e certo, e deixando os analistas políticos estão em polvorosa. A impressão que tenho é a de que a morte de Eduardo Campos pode criar um ambiente propício ao surgimento de uma liderança, de um estadista capaz de alterar radicalmente o rumo das coisas. A indignação que invadiu as ruas no ano passado ainda está presente na alma de muitos brasileiros insatisfeitos e desgostosos, passível de ser mobilizada. Não sei se Marina seria capaz de cumprir o papel de catalizadora das expectativas da maioria dos eleitores nessas eleições e, caso seja eleita, se teria capacidade para transformar descrença em disposição para melhorar o país.

Nesse processo de dores e incertezas, pude conhecer a figura de Dona Renata, uma mulher que transmite firme disposição para enfrentar dificuldades que surgem. No velório, ela abraçava os filhos com muito carinho e serenidade, demonstrando que os quer ao seu lado, de pé e olhando pra frente, porque a vida segue. Bem sei que, hoje em dia, poucas mulheres se aventuram a ter cinco filhos e a deixar à mostra seus cabelos grisalhos. Disseram que era uma atenta conselheira do marido. Acho que foi por essas e outras que muita gente chegou a sonhar em vê-la ao lado de Marina Silva, disputando as eleições. Duas mulheres de personalidade forte, de origens e religiões diferentes, metidas na política até os últimos fios de cabelo, cada qual a seu modo. Uma chapa liderada por uma guerreira destemida segundada pela mãe dos muitos órfãos de Eduardo Campos.

Vitória, 20 de Agosto de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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