Sobrevivência

Sobrevivência

Recebi de um amigo das antigas uma mensagem em busca de cumplicidade. O assunto do e-mail era “da nossa época” e o texto dizia: “Você já viu isso? Abraço, Marcos”. O arquivo era uma apresentação em power point com letras coloridas, tendo Help, dos Beatles, como fundo musical, intitulada “Como você pôde sobreviver?”.

Nela o autor lembra as condições enfrentadas pela garotada durante os anos sessenta e setenta nas cidades brasileiras. Uma listagem de arrepiar pais e mães criados em tempos de atitudes politicamente corretas, neste mundo certinho das práticas reforçadas pelos que vendem produtos e serviços para manter crianças a salvo e reduzir as aflições dos adultos responsáveis: descer ladeira em carrinhos de rolimã, nunca usar capacetes, joelheiras e cotoveleiras, beber água de torneira, jogar pelada no meio da rua, andar de carro sem cinto nem travas de segurança nas portas, guardar remédio em armários sem chave, e vai por aí a fora. Saudosista, o autor lembra também que as pessoas almoçavam em casa, que cachorro tomava banho com sabão de coco, que não se falava em obesidade, dislexia, falta de concentração, hiperatividade e que ninguém ia a psicóloga ou psicoterapeuta. As brincadeiras e as brigas de meninos aconteciam na rua e no quintal das casas dos amigos, onde se entrava sem bater.

Tendo lido tudo com atenção, posso dizer que sou dos que sobreviveram às condições adversas daquela época e, melhor do que isso, dos que aproveitaram as vantagens da vidinha calma e rotineira de uma cidade pequena, na qual algumas pessoas, personagens seria o termo correto, ajudavam a compor a cena urbana. Vejo agora que elas formam muitas das imagens que guardo daquela época.

Começo pelas figuras dos pescadores: mestre Don Don, que virou nome de restaurante, e o sisudo Dr. Franklin de Carvalho, que gostava de pescar da calçada em frente da Chácara Von Schilgen. Dos vendedores ambulantes, lembro-me de Zé do Coco empurrando um carrinho de mão pelas ruas da Praia do Canto, de um velho que carregava verduras em duas enormes peneiras e de Baiano, que vendia camarão no portão das freguesas. Na Praia do Barracão ainda consigo acompanhar as braçadas compassadas de Gringo, que vinha a pé do centro da cidade. Quem não se lembra de Noguerinha, presidente de honra do Praia Tenis Club, segurando um copo de cerveja, de Carioca, um enérgico treinador de basquete e natação, de Otinho, na sua simpatia apressada, sempre segurando folhas de papel ao maço pelas calçadas e de Carmélia de Souza, que movimentava os poucos bares da ilha. Seu Henrique, ao lado da igreja Santa Rita, e Zé Pretinho, em Santa Lúcia, eram donos de bar igualmente mal humorados, enquanto Ataré, de frente ou de ré, era o eterno candidato a vereador nas eleições municipais. Pedrinho, o carteiro, sempre se sentava na varanda lá de casa para tocar de violão e Adotivo, um preto risonho, cantava “Não sou o réu, mas a justiça me condena”. Morris Brown, atleta campeão em muitas modalidades, era dos poucos que tinha motocicleta por aqui. No Colégio Salesiano, o padre Crico tentava ensinar os segredos das células para alunos desatentos.

Em Vitória muita gente era conhecida por apelidos que expressavam estilo pessoal, comportamento ou condição social: Foguetão, Pé de Burro, Bardal (o melhor amigo do seu carro), Cereba, Mococa, Paru (que até virou sobrenome de família), Paçoca, Fureba, Banal, Chupetão, Cadeado, Brocoió, Xiru, Bodão, Pé de Pato, Mela o Bico e Maria Tomba Homem. Volta e meia encontro quem ainda me chame de Cabeção.

Vitória, 29 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pauta congestionada

Pauta congestionada

Todo mundo sabe das dificuldades que se tem na hora de escolher o tema de uma crônica. Volta e meia experimento as agonias desse processo de busca nervosa por um assunto que possa ser de interesse do leitor e passível de ser debulhado com três mil e quinhentos toques. Digo processo porque é alguma coisa que fica presente durante um bom tempo na cabeça, disputando atenção com as demais atividades do dia a dia. Nervosa porque se trata de um jogo, com data marcada para entregar o texto ao jornal.

Como sempre, assunto é o que não falta. Nesta semana, a lista dos preferidos foi encabeçada por dois fatos relevantes. O primeiro deles foi a publicação de normas federais para garantir boas condições de visualização do Convento da Penha aos que circulam por avenidas e calçadas de Vitória e também de Vila Velha. Mesmo acreditando que isso possa parecer irrelevante aos que andam sem olhar em volta e aos que não se importam em viver emparedados, sei que sou um dos muitos que comemoram tal providência. Bato palmas aos responsáveis, sabendo que a decisão contraria interesses dos que teimam em bloquear a paisagem urbana. Trata-se de uma efetiva demonstração de cuidado com a cidade e com seus frequentadores de hoje e de amanhã.

O outro é o imbróglio que envolve a aplicação de pesada multa federal aos responsáveis pelo campo do Santa Cruz, em Santa Lúcia, lugar de memoráveis peladas em barro úmido de mangue, derradeiro espaço para ensinar futebol e bons modos para a garotada do bairro e adjacências. Pelo que pude ler, a Prefeitura da cidade pretende aprovar lei proibindo a construção de prédios naquele lugar, inclusive de autarquias do governo federal que já demonstraram interesse. Por certo, isso daria uma crônica raivosa, dessas de comprar briga com autoridades responsáveis pela cobrança da tal taxa de marinha, uma verdadeira sandice legalizada, que inferniza muitos moradores de cidades litorâneas deste nosso Brasil.

Também caberia escrever uma crônica leve contando que as mulheres daqui de casa andaram fazendo biscoito de nata, usando a receita deixada por mamãe. É mais do que sabido na família, sobretudo pelos netos mais gulosos, que Dona Gracinha costumava esconder um pote cheio desses biscoitos bem no fundo do seu guarda-roupa, para oferecer aos que iam lhe fazer uma visita. Mulher sábia e experiente, ela dizia que se deixasse à mostra, o pessoal comeria tudo de uma vez, sem qualquer cerimônia ou compostura. Pois bem, ontem, trabalhando em dupla, uma nora e uma neta dela produziram três tabuleiros de biscoitos feitos com nata comprada na feira de Jardim da Penha e farinha de araruta especialmente trazida de Itabuna. As duas concordaram que o gosto ficou parecido, mas que a consistência ainda precisa melhorar bastante, para que o biscoito se dissolva na boca. Só assim ajudará a matar as saudades dos biscoitos. Prometeram fazer outra fornada, tentando ajustar as proporções dos ingredientes.

Tendo escrito isso, devo dizer que consegui vencer o impulso de dar preferência às notícias amargas sobre as roubalheiras na nossa petrolífera, tráfico de influências ministeriais, obras paradas que enriquecem uns e bancam a eleição de outros, passeio de companheiro poderoso em avião pago por bandido reconhecido, previsões catastróficas no setor energético, assuntos que martelam diariamente a minha cabeça de eleitor. Bem sei que tudo isso pode ser tratado depois, mesmo porque as revelações sobre acontecimentos político-criminais ganharão ainda mais destaque na companha eleitoral.

Vitória, 16 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sob controle

Sob controle?

Tenho viajado bastante, quase sempre de avião. Quando os aeroportos estão cheios, a fila dos passageiros preferenciais é sempre uma boa alternativa para minimizar esperas e chateações. Resolvido o check in, tomado um café caro e comido o tradicional pão de queijo preventivo, é a vez de enfrentar a fila da revista e os tais procedimentos de segurança.

Depois do atentado às Torres Gêmeas americanas, percebe-se que a coisa vem num crescente. Agora equipamentos de Raio X estão por todos os lados e os funcionários, sempre muito bem vestidos de preto, dão instruções e fazem exigências com expressão de simpatia profissional, dessas que são ensinadas em cursos especializados.

Embora nessas ocasiões se tenha sempre a impressão de estar sob suspeita, percebo que muita gente, sobretudo o pessoal mais novo, já incorporou os procedimentos de controle em sua rotina. Tem quem adore ficar em fila em porta de boates e casas de show. Não imagino o que as velhinhas sentem ao passar por revista de aeroporto. Talvez achem que estarão seguras a bordo e que a vida está cada dia melhor.

Homem prevenido, tenho o costume de carregar o canivete suiço que ganhei de presente quando fiz trinta anos. Pode ser que apareça laranja pra descascar, parafuso para apertar ou alguma coisa para aparar com a tesourinha. Pois um dia, e isso já faz tempo, fui barrado na revista e tive que correr ao balcão da companhia para entregar o canivete para que viajasse aos cuidados da tripulação e me fosse devolvido na chegada. Agora ele sempre viaja na mala, junto com as goivas e faquinhas que antigamente eu usava para ir cortando bambu durante a viagem, sobretudo nas longas, quando o tempo custa mais a passar.

Acho que as normas e os tais procedimentos padrão estão em permanente aprimoramento. Tem sempre uma novidade. Dia desses descobri, na prática, que é proibido passar no detector de metais com as mãos nos bolsos e tive que repetir a operação com as mãos ao vento. Isso depois de ter que colocar os bilhetes de embarque na caixa de plástico na esteira, junto com o meu chapéu panamá de palha bem fininha. Ao mostrar a única nota de 5 reais que carregava na calça, me lembrei de Caetano cantando “nada nos bolsos ou nas mãos”.

Lembro-me de uma das primeiras vezes em que me senti sob suspeita num aeroporto. Foi em viagem a serviço para Salvador, acompanhado de um colega de Ministério. No embarque de volta para Brasília, fomos barrados sem qualquer cerimônia. Nós dois usávamos barba e a minha era dessas bem escuras e espessas. Ao conferir nossos documentos, o policial não queria aceitar as nossas carteiras de identidade porque nas fotografias éramos dois simpáticos rapazes imberbes. Ele nos deixou passar só depois de muita argumentação. Ao devolver o documento a cada um, disse que, embora sem barba, dava para reconhecer perfeitamente a gente. Seguramos o riso até entrar no avião com nosso documentos trocados.

Tenho visto, meio indignado, o raio-x apitando acusatoriamente ao detectar a presença de metal do fecho éclair das botas de cano longo. As cenas que se seguem são de puro constrangimento para as mulheres mais sensíveis. Elas são convidadas a usar uma espécie de pantufa para merecer a aprovação do equipamento, enquanto suas botas passam solenemente pelo crivo de um olhar entediado, pousado na tela de um monitor colorido.

Se no ar a segurança está sendo garantida, em terra firme a sensação de insegurança e impotência diante da violência cresce assustadoramente, sem qualquer sinal de reversão.

Vitória, 01 de abril de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pescaria em Barra Grande

Pescaria em Barra Grande

Escrevo num computador pequeno, plugado em uma das torres de tomadas da sala de embarque do aeroporto de Salvador, tal qual um desses viciados em internet ou daqueles executivos que aproveitam o tempo de espera forçada para colocar o serviço em dia. A bem da verdade, quando comprei a passagem, os voos entre Vitória e Ilhéus eram diretos, sem escala. Fiquei azul de raiva ao saber que a companhia aérea alterara o trajeto, incluindo, na ida e na volta, uma escala na capital baiana. Pra piorar, teria que gramar quatro horas de espera em cada conexão e outras tantas voando à toa. Ao todo, um dia inteiro da minha semana de férias.

O destino era Barra Grande, na baía de Camamu, lugar apregoado como paraíso pelo pessoal lá de casa. Com muito sol, praias de água quentinha e muita sombra de coqueiro, ele estava incluído há tempos na nossa lista de passeios. Agendamos a ida para meados de março para fugir da doideira da alta estação. A vila é bem pequena e o que se vê é pousada e restaurante pra todo lado, muito buraco nas ruas e uma grande quantidade de quadricíclos chineses circulando com até quatro pessoas. Isso no seco, porque nas águas estão lanchas e barquinhos de pesca, simpáticas canoas e escunas solenes.

Sou dos que vivem à sombra, por imposição da pele muito branca. E cada vez mais, apesar de reconhecer e não dispensar a eficiência dos filtros solares e das roupas que bloqueiam os raios ultra-violeta. Por prudência, levei pedaços de bambu e ferramentas, para me divertir longe dos ambientes excessivamente ensolarados, desejados por todos. Viajamos em companhia da minha irmã caçula e meu cunhado e de mais um casal de amigos. O marido, conheço desde os tempos de moleque na Rua Madeira de Freitas, lugar das peladas mais famosas da Praia do Canto nos idos dos anos sessenta. Cidinho era o melhor de todos com a bola nos pés. Jogava morrendo de rir dos dribles que dava e dos gols que fazia. Ele também tinha fama de exímio pescador de berés. Tanto que, durante muitos anos, curtimos uma ferrenha disputa para ver quem matava mais, quem pegava o peixe maior.

A especialidade dele sempre foi a pesca de varinha de mão. A gente tirava os bambuís na encosta da ladeira do colégio das freiras e os desentortava com o calor da chama de uma vela. Desta vez, pachorrento que só e animado pelas possibilidades, ele se deu ao trabalho de ir comprar as varas lá no mercado da Vila Rubim. Escolheu as mais retinhas e firmes, como devem ser as varinhas para pegar peixes pequenos e valentes. Ele sabia que, mais uma vez, a peleja seria travada em bases acirradas, com brinde de cachaça ao vencedor e tudo o mais.

Eu, que não pesco faz tempo, teria a oportunidade de sentir novamente a vara tremendo com as beliscadas na isca, de dar, no reflexo, o safanão que garante a ferrada e de sustentar com firmeza o bambu sendo envergado pela força do bicho puxando para o fundo. Bem sei que nessas horas não pode haver pressa nem afobação: o pescador tem que tentear o danado e, se necessário, deixar que ele leve a linha e até mesmo um bom pedaço da vara pra dentro d’água. Todos torcem para o peixe.

Pois foi exatamente assim que tudo aconteceu. Com a memória ativada pelos movimentos singulares e específicos de quem prepara uma pescaria e fica horas pescando até debaixo de chuva, me vi sentindo as mesmas emoções e tendo as mesmas atitudes de quando, há décadas, a gente se divertia com os carapaus, os bocas de velha, os sabonetes e os ariocós na ilha das Andorinhas, na Gaeta de Fora e na Pedra do Índio.

Vitória, 19 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Serviços especializados

Serviços especializados

Uma casa tem sempre alguma coisa precisando de conserto. Normalmente são coisas simples, sem muita importância funcional ou estética, mas que, na convivência do dia a dia, nos obrigam a tomar providências. É porta de armário que não corre direito, é cadeira precisando de aperto, grade com ferrugem, boca de fogão entupida. Vez por outra tem mangueira de jardim furada, pé de mesa em falso, goteiras persistentes do caramanchão, grama precisando de poda e planta, de adubo. Nessa lista sem fim cabe também a faxina periódica no quartinho dos fundos, usar o jato d’água pra tirar pó de minério incrustados nas pedras do chão da entrada e nas paredes da casa e, eventualmente, de amarrar a tela que garante sombra pras orquídeas e trocar a lâmpada que ilumina a mesa lá de fora. Também não se pode deixar faltar comida para os cachorros e alpiste para os canários da terra.

Por certo, torneira pingando é situação corriqueira na maioria das casas dos brasileiros. Sobretudo se for torneira do box, que fica longe dos olhos dos moradores durante praticamente o dia inteiro. A gente só se lembra dela na hora do banho e ninguém vai interromper uma boa chuveirada para dar jeito numa mera pingação, sobretudo, se a quantidade de pingos por minuto não for suficiente para aumentar significativamente a conta de água no final do mês. É tipo do probleminha que faz a mulher reclamar diariamente e que obriga o marido a arranjar desculpas esfarrapadas e prometer que vai resolver tudo no dia seguinte.

Aliás, promessa é algo que jamais falta em situações como essa. Enrolação e falta de vergonha também. A meu favor, posso garantir que muitas e muitas vezes me vi diante de prateleiras de material de construção tentando me lembrar do que estava precisando e sair de lá sem as benditas carrapetas para a torneira do chuveiro. O fato é que com a demora em resolver o problema, a situação foi ficando crônica, a ponto de me obrigar a tomar uma providência radical: trocar as duas torneiras inteiras e acabar, de vez por todas, com as dores nos dedos dos pés, quando golpeados pela maçaneta de metal que vez por outra caía no chão por falta do parafusinho que a mantinha no devido lugar. Em agradecimento, recebi um “até que enfim”.

Homem prevenido, tenho um pequeno armário com um pouco de tudo: barbantes, fio urso e linhas variadas, colas, parafusos e pregos de todo tipo, fitas isolante, fita crepe, arames de aço, fios de nylon, arruelas, prendedores, além de pedaços de couro, de câmara de ar de bicicleta e uma grande quantidade de coisas inservíveis, como se fala no serviço público. Tudo de grande utilidade para fazer reparos emergenciais e magaivices variadas. Devo deixar claro que tenho medo de choque. Até conserto fio de abajur e de ferro de passar roupa, mas quem quiser que faça os devidos testes. Em eletrônica, sou zero à esquerda. Uma limitação grave, na medida em que as casas foram incorporando equipamentos recheados de sistemas digitais, incluindo os computadores e os aparelhos de TV e de ar condicionado e os portões automáticos acionados por controle remoto.

Não tenho explicações, mas sei de muitas casas que nem martelo têm e, muito menos quem serre, aparafuse e remende qualquer coisa. Talvez por isso sempre encontro cartões de técnicos e de empresas oferecendo serviços de reparos em geral na nossa caixa de correios. Outro dia uma amiga me contou, feliz da vida, que havia contratado um desses “maridos de aluguel” e ele resolveu, praticamente, todos os problemas que havia no seu apartamento.

Vitória, 05 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Olimpíadas e bicicletas

Olimpíadas e bicicletas

Acompanhei o quanto pude as Olimpíadas de Inverno na Rússia. A diferença de fuso horário não me permitiu ver algumas das competições de que gosto mais, como aquele esporte parecido com bocha, que a nossa talianada joga por esse interior a fora. Vi provas, monótonas, de dezenas de abnegados atletas esquiando, contra o tempo, em circuitos fechados morro acima e ladeira abaixo. Quase todos caem ao chão, exaustos, logo após cruzarem a linha de chegada. Vi partidas de hóquei no gelo, corridas de alta velocidade em pistas ovais e provas de patinação artística, onde a tensão toma conta dos competidores e os faz chorar por erros cometidos, sentados ao lado de técnicos desapontados, diante de câmeras impiedosas. Patrocinados por empresas e governos, os atletas olímpicos vivem para ultrapassar limites.

Assisti provas de esqui em pistas com trajetórias em zig-zag, em ladeiras íngremes com rampas para saltos de todo tipo. Em uma delas os atletas chegam a voar, solenes e estáticos em seus esquis enormes, por mais de cem metros. Em outra, a rampa cheia de morrinhos de neve faz com que os joelhos do atleta se movimentem em ritmo frenético antes do salto. Gostei de ver a alegria dos rapazes e moças que competem sobre pequenas pranchas, em modalidades só agora introduzidas nas olimpíadas. Diferentes da grande maioria dos atletas, esses se divertem e se mostram solidários com os brothers que vencem ou perdem.

Por aqui, a caminho do aeroporto na manhã de domingo, vi pela primeira vez a pista exclusiva para bicicletas em pleno uso e fiquei bem impressionado com a quantidade de gente pedalando sob o sol quente. Solitários, em casais, em bicicletas velhas e novinhas, carregando cachorro na cestinha, andando ao lado do filho aprendiz. Quase todos usando capacete que, embora recomendável, faz alguns ficarem meio ridículos.

Digo isso porque sou do tempo em que bicicleta era meio de transporte e diversão e pouca gente tinha uma. A minha era azul claro, aro 26, sem para-lamas nem bagageiro. Freio, só na traseira, próprio para dar freadas fazendo curva com pé no chão, derrapando a roda traseira no barro duro. As ruas da Praia do Canto eram cobertas por uma base de solo-cimento para receber o asfalto, que só veio em meados da década de 70. Os postes eram no meio da rua. Não posso dizer que tenha sido um ciclista de competição, mas posso garantir que era uma grande emoção descer a chamada ladeira do Iate. Emocionante por que íamos em dois e sempre carregando o saco com as velas e as escotas do Tan Tan, o snipe da família Ramos. Toda destreza era pouca porque se viesse um carro não haveria como frear e, pra piorar, sempre tinha areia frouxa na parte de fora da curva, ponto de passagem obrigatória.

Em certas ocasiões, andar de bicicleta era também um esporte de exibição. Equilibrar com os pés na roda da frente, subir meio fio e tirar fininhos eram algumas das demonstrações de habilidade para conquistar admiradoras. Sem internet, celular, montoeira de carros e perigos em geral, a moçada se reunia nas calçadas, inclusive em torno de uma concorridíssima rede de vôlei na Rua Joaquim Lírio. Mas foi em frente da casa de Julita que passei dos limites. Tentando impressionar as garotas que conversavam na calçada, resolvi fazer uma manobra nova e radical: levantar a roda traseira ao máximo. A empolgação foi num crescente até que, lá pela quarta vez, fui de cara ao chão, com bicicleta caindo por cima de mim e tudo o mais. Um tremendo de um vexame que, felizmente, Carol não estava lá pra ver.

Vitória, 18 de fevereiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempo de Manjubas

Tempo de Manjubas

A curiosidade me fez parar o carro para conferir de perto o que estava acontecendo naquele lugar, normalmente freqüentado por despreocupados banhistas. Movimentação diferente para um fim de tarde chuvoso, de vento sul. Muita gente na areia da praia. Calçada repleta de pequenos grupos de pessoas visivelmente atentas e falantes.

Verdadeiro alvoroço em volta de um monte de peixe. Uns 200 ou 300 quilos acabados de tirar das águas faziam o espetáculo da fartura. O olhar experiente permitia saber que eram manjubas e sardinhas. Muito mais manjubas que sardinhas. Embora parecidas, as sardinhas são mais roliças e as manjubas mais largas, achatadas. Todas têm dorso azul e barriga prateada, brilhantes.

Um homem moreno, agitado, parecia querer organizar os movimentos e as providências de uns tantos ajudantes improvisados. Tinha urgência, mas demonstrava pouca prática na função. Sem qualquer dúvida, ali estava um calejado pescador às voltas com a difícil tarefa de vender aquela grande quantidade de peixe que acabara de pescar.

Ele parecia saber que havia concorrência por perto. Teria que ser rápido para aproveitar a oportunidade de ganhar um dinheirinho extra, tratando de atender os fregueses que disputavam sua atenção. Muita gente, entusiasmada com aquela cena inusitada, queria saber o nome dos peixes, os preços, a maneira de cozinhar, se tinham muita espinha e coisas do gênero. O homem tentava responder com alguma gentileza, mas aflito em atender quem efetivamente quisesse comprar.

A cada pedido, os peixes iam sendo colocados em sacolas usadas de supermercado para serem pesados em uma balança no chão. Nenhuma preocupação com a precisão. Quatro ou cinco peixes a mais garantiam a satisfação do cliente, abrindo espaço para o sorriso. A tal lei da oferta e procura estava em pleno vigor naquela calçada e o tempo trabalhava contra todos os pescadores. A chegada da noite afastaria os fregueses, favorecendo a vida dos atravessadores.

Bem perto dali, grandes quantidades de peixe estavam sendo trazidas da beira do mar em um balaio feito de pedaços de rede. A carga era suspensa por dois remos apoiados nos ombros de seis homens animados, que venciam a areia fofa com passos miúdos e acelerados. Os peixes, muitos ainda vivos, eram derramados dentro de uma batera estrategicamente colocada rente à calçada. As viagens eram sucessivas e em ritmo frenético.

Pedi dois quilos de sardinha. Pretendia preparar uma conserva que havia aprendido na teoria: azeite, vinagre, cebola, louro, pimenta branca, sal e 20 minutos de panela de pressão. Um simpático aposentado, que também esperava a vez, confirmou a receita, sem revelar detalhes.

Meu pedido foi transmitido por aquele homem, que já demonstrava cansaço, ao menino que parecia ser seu filho. Era preciso catar uma a uma as sardinhas perdidas em meio às manjubas. Em menor quantidade e mais saborosas, elas custavam três vezes mais. Mesmo assim, o preço estava bom.

Nem bem paguei e já recebia a oferta dos serviços da turma que atuava na limpeza dos peixes. Mulheres entusiasmadas trabalhavam com os pés na areia, encurvadas sobre a calçada, que elas usavam como bancada. Com facas de todo tipo, tratavam de tirar as escamas, cortar a cabeça e abrir a barriga do peixe para tirar as tripas. Movimentos rápidos e certeiros faziam o trabalho render. As crianças, em volta das mães e irmãs, ajudavam no que podiam. Depois de tratadas, as sardinhas eram lavadas em baldes com água trazida do mar por meninos que estavam por perto. O preço da limpeza também era compensador.

A chuva, que até então ameaçava, começou a cair aos poucos, fria, vinda do sul. Isso aumentou a aflição do pescador e fez surgirem caixas de plástico do baú de um caminhão que estava estacionado do outro lado da rua, como se esperasse a hora de atacar. As caixas traziam a marca de uma empresa de pesca.

Terminada a fila dos fregueses, restou ao pescador autorizar que seus peixes fossem colocados nas caixas com a ajuda de uma pá de plástico improvisada. Uma balança daquelas grandes, com rodinha e pescoço, surgiu do nada. Depois de pesadas, as caixas iam sendo levadas para o caminhão por rapazes de olho na gorjeta prometida pelo motorista. No papel de único comprador, ele negociava abatimento significativo no preço do pescado, usando cara de desdém para dizer ao pescador exausto que era pegar ou largar.

No mar, dois homens em um barco pequeno se preparavam para fazer o último lançamento do dia. O que ia sentado na proa remava de costa. O outro, de pé, olhava as águas em busca de sinais do cardume. Entre eles uma rede cuidadosamente empilhada no fundo da embarcação, pronta para ser lançada. A ponta de uma das suas cordas tinha sido deixada em terra e a outra chegaria à praia, trazida pelo barco. No centro da rede uma espécie de balão, feito de malha bem menor, completava a armadilha.

Mesmo de longe, dava para ver que ambos estavam de prontidão. Precisavam localizar os peixes e, rapidamente, tratar de cercar o cardume antes que ele escapasse, levando embora as alegrias da pesca. O movimento tremulante e a cor escura das águas eram os únicos sinais da presença das manjubas. Em terra, olheiros ajudavam a localizá-las e tentavam, com gritos e gestos largos, orientar os que estavam a bordo.

Um senhor, com os olhos brilhando no rosto marcado pelo sol de muitos anos, repetindo, para quem quisesse ouvir, que estava apenas começando a temporada da pesca da manjuba. Dizia que elas sempre apareciam entre janeiro e abril. Perguntado, ele não soube dizer de onde elas vinham nem para onde iriam. Assim como não sabíamos os caminhos dos cardumes de carapaus que divertiam muita gente a cada mês de março da minha juventude nas águas da Praia do Canto.

Eram muitas as redes naquela praia. Perto dali, começava a retirada da que tinha sido lançada ao mar um pouco mais ao sul. Dois grupos de pessoas enfileiradas se mobilizavam para o serviço, esticando as pontas da corda, ainda bem distantes uma da outra.

A pesca de arrastão é coisa que só pode se feita por muita gente junta. Agarrados às cordas, homens e mulheres puxam a rede lentamente praia acima, fazendo força na medida das suas possibilidades. Vêm com os corpos jogados para trás, movidos pelo sentido de cooperação. No rosto de cada um a expectativa de conseguir retirar do mar uma boa quantidade de peixes.

Atividade muito antiga, a pesca de arrastão tem a caoacidade de nos levar de volta às origens, nem que seja por alguns instantes, num final de tarde de chuva fria, em pleno janeiro, na praia de Itapoã.

Vitória, 14 de fevereiro de 2007.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Sinais dos tempos

Sinais dos tempos

Fevereiro começou com festa de comemoração dos trinta anos da nossa caçula. Festa animada, dessas de quase varar noite, som alto na caixa em pista de dança improvisada, cardápio a base de comida tailandesa, carregada na pimenta, e regada a cerveja, prosseco e muitos mojitos. Meu pessoal gosta de inventar moda e juntar amigos e parentes para comemorar alguma coisa que justifique e mereça a trabalheira que dá fazer festa em casa. E posso garantir que, também desta vez, não foi pouca não.

A preparação começou, faz tempo, com pesquisa de receitas e ingredientes na internet. Não participei dessa etapa, mas posso imaginar as dúvidas em escolher os pratos do cardápio, sem ao menos conhecer os sabores. Ao que tudo indica, os critérios privilegiaram aspectos relacionados com a facilidade do preparo e praticidade para servir porções individuais. Fora isso, foi inteiramente produzido um grande lustre com colares de contas, pendurou-se muitos enfeites de papel de seda colorido feitos em por mãos familiares, distribuiu-se pelos cantos da casa grande quantidade de flores tropicais trazidas do sítio do pai de um grande amigo e montou-se lá fora uma base de apoio para o pessoal preparar bebidas personalizadas. Uma seleção de música do tipo bate estaca, rock pesado, axé e funk fora especialmente feita por um outro amigo, aprendiz de DJ. A cozinha foi arrumada para facilitar a finalização das comidas e canapés em escala. Só não foi possível minimizar o calorão nem fazer circular um ventinho sequer. O pessoal derreteu na pista.

Bem me lembro de quando Carol completou trinta anos. Morávamos em Brasília e ela já tinha quatro filhos e logo depois estaria grávida da nossa raspa de tacho. Os tempos eram outros, bem diferentes. Casava-se bem mais cedo e os filhos, muitos ou poucos, nasciam nos primeiros anos do casamento. Até ai tudo bem, mas ser chamada de trintona por um grande amigo foi o suficiente para ela reagir de uma forma contundente, para espanto dos que participavam do jantar de comemoração. A expressão trintona deve ter soado como uma bomba na sua alma de mulher jovial. Deve ter doído bastante ao se pensar pela primeira vez como uma balzaca. Para aliviar, um dos convidados achou por bem cantar trecho de um famoso samba canção que enaltecia a mulher de trinta. Cantou com voz anasalada, bem ao estilo do cantor Miltinho, que durante décadas fez sucesso com ele.

Ao ouvir a história da mãe trintona durante o almoço de muitas bocas, a aniversariante centro das atenções, disse que não era trintona coisa nenhuma. Cheia de si e com cara de poderosa, declarou em alto e bom som, que estava mesmo é se sentindo uma “trintíssima”, no que foi aplaudida com entusiasmo pelos comensais.

Sinal dos tempos mesmo aconteceu na véspera: a novela oficializou o beijo gay e, ao que tudo indica, recebeu a aprovação geral. Por certo, um divisor de águas nos valores da população brasileira. No final dos anos setenta, pude constatar a força de impacto da TV no Brasil caboclo, inovando costumes e autorizando comportamentos. Convidados por um casal de amigos, fomos bater em um baile de clube numa cidadezinha do interior da Paraíba onde, praticamente todas as mulheres haviam adotado a moda do bustiê, deixando à mostra uma faixa de barriga de largura inversamente proporcional a da autoridade paterna. A novela, não me lembro se Água Viva ou Dancing Days, mostrava a vida das mocinhas charmosas de Ipanema para as do interior do nordeste.

Vida longa e animada para as “trintíssimas”!

Vitória, 04 de fevereiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pode acreditar

Pode acreditar

Domingo acordei com preguiça completa. O tempo ruim, visto da cama pela janela do quarto, era de desanimar qualquer um: lá por volta das oito e meia, estava totalmente sem vento, com nuvens escuras e homogêneas indicando que programas à beira mar e em calçadas e praças poderiam ficar inviáveis durante o dia inteiro. Antigamente, um domingo chuvoso era apenas um domingo chuvoso. As pessoas ficavam em casa, resolviam fazer uma comida, inventavam um joguinho de baralho, esperavam a hora da transmissão do futebol. Com dois ou três telefonemas, a restrição estava perfeitamente contornada e a alegria de viver reestabelecida.

Não sou do tipo que adora sol. Já fui. Hoje em dia tenho preferido mais e mais a sombra, quando muito o solzinho das primeiras horas da manhã. Não acho graça em protetores solares e ainda não aderi a essas roupas modernas que funcionam como um bloqueador. Até já ganhei uma de manga comprida, mas não a uso regularmente, por uma razão qualquer.

O propósito turístico do domingão era o de atravessar a ponte para ir almoçar na Barra do Jucu. Como no sábado havia soprado um inesperado vento sul, é bem provável que as anchovas tivessem aparecido por lá. Elas costumam se aproximar das pedras quando o tempo esfria. Não tenho a menor explicação técnica para oferecer, mas posso assegurar que falo a verdade e que isso pode ser perfeitamente comprovado. Durante muitos anos frequentamos por lá um restaurante cuja especialidade era anchova assada. Peixe de carne muito tenra, precisa de muito pouco tempo de forno para ficar no ponto. Torço para que ele ainda esteja funcionando e sob a direção da mesma dona. É um ótimo lugar para ficar tomando cerveja, falando bobagens, vendo o movimento das marés e o voo das garças carrapateiras nos fins de tarde.

Pretendia aproveitar o passeio para conferir se ainda está por lá uma enorme concha marinha. Digo enorme porque ela deve ter uns oitenta centímetros de diâmetro. Bem sei que tem gente que vai logo dizer, e com alguma dose de razão, que isso é coisa de mentiroso. Realmente é difícil imaginar que exista uma concha tão grande assim. E foi exatamente por isso que fiquei entusiasmado quando a vi num canto de uma sala menor, junto com outras coisas do mar, naquele restaurante que fica diante da igreja. Era a contra prova que eu precisava.

Pode até ser que a TV já tenha mostrado algo parecido. Mas por aqui, ao vivo, se falar que existe, ninguém acredita. E foi exatamente por isso que resolvi manter em solene segredo por muitos anos a história da concha que eu tinha visto lá em Abrolhos, no sul da Bahia. Não contei nem para o pessoal que estava mergulhando junto comigo. Somente consegui vê-la do alto: só existia a parte de baixo, que estava presa na beirada de um grande coral e aberta pra cima. Era dessas de beiço ondulado e devia estar a uns nove metros de profundidade. Com os pulmões e tímpanos destreinados, só consegui me aproximar uns três metros dela, mas com a água cristalina a vi perfeitamente. Custei a acreditar. Com o coração acelerado, voltei à tona para respirar, sempre de olho na sua posição e mergulhei novamente, agora com disposição para chegar mais perto. Bem sei que peixes, lagostas e conchas aumentam de tamanho quando vistos dentro d’água, mas aquilo era realmente algo inacreditável. De volta à tona, enquanto recuperava o fôlego boiando a deriva, acenei para um colega para que pudesse ver também. Como ele custou a chegar, acabei perdendo o lugar onde ela estava e ficou por isso mesmo.

Vitória, 21 de janeiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Se sujou, pague para limpar

Se sujou, pague pra limpar

Normalmente começo a semana com a crônica praticamente pronta, restando apenas fazer pequenos ajustes na forma e, às vezes, também, no conteúdo. O distanciamento ajuda a localizar o que pode melhorar. Reler o texto um tempo depois aproxima quem escreve da condição do leitor de jornal. Tanto daqueles que não têm obrigação de ler o que está impresso, como dos que interrompem a leitura por desinteresse no assunto, por discordar do que está sendo dito ou, o que é pior, por achar o texto chato, sem humor ou boa consistência. O mais difícil para quem escreve é conseguir prender a atenção do leitor até a última linha. E aqui estou eu fazendo mais uma tentativa, a primeira de 2014.

Começo esclarecendo que escapei mais uma vez de me vestir de Papai Noel para fazer graça para os netos mais crescidinhos. Como não conseguiram arranjar a fantasia a tempo, me fizeram usar um gorrinho na hora de tirar fotografias para o álbum de família. Melhor assim. Melhor ainda é que o fim das chuvas aconteceu justamente na noite de Natal, abrindo para muitos a contagem de um tempo de recomeço, de respirar fundo, trabalhar duro e seguir em frente. De lá pra cá as águas baixaram e o sol de céu lavado ajudou a secar o que esteve encharcado durante muitos dias e, inclusive, a acabar com a goteira do nosso quarto.

Depois de tanta chuva, o verão se instalou com força total e as praias estão lotadas. No mar, tem muita gente acelerando os motores de lanchas e jet skis, posicionando as velas de barcos, remando em canoas e em cima de pranchas. Em terra firme, muitos andam, alguns correm, outros pedalam, guardinhas multam e vendedores de picolé fazem a festa. Nos ares, o vento nordeste tem soprado muito forte, trazendo, involuntariamente, grandes quantidades do pó preto que sai das chaminés e das pilhas de minério lá das bandas da Ponta de Tubarão.

Em animada roda de amigos em casa de parentes, um professor atento lembrou que este ano a poeira deve piorar bastante com a entrada em funcionamento de mais uma usina de pelotização e a retomada do ritmo da produção de aço na siderúrgica. Foi o suficiente para que muitos se declarassem cansados de esperar por providências por parte dos governos. Acho que hoje praticamente já não existe mais quem aceite calado esta situação. Quando muito, tem gente que prefere não reclamar da sujeira na presença de desconhecidos e autoridades. Em agosto de 1987, quando viemos morar em Vitória, reclamar do pó de minério era coisa de uns poucos cidadãos destemidos.

Para abastecer a conversa contei que começara o ano lavando o tronco e os galhos da nossa jabuticabeira, cobertos que estavam por uma grossa camada preta. Em tom amargo, um dos amigos disse que sempre que o pó preto aumenta muito ele perde carpas que cria em um laguinho no jardim. Reforcei dizendo que uma das nossas filhas havia comprovado por A + B que o pó de minério interfere negativamente na reprodução de ouriço do mar e que até ganhou prêmio da Prefeitura por suas pesquisas.

Ao escrever novamente sobre essa espécie de tragédia crônica que aporrinha tanta gente, fiquei me perguntando se caberia entrar com uma ação no juizado de pequenas causas exigindo que as empresas poluidoras pagassem a diária da faxineira que passou a segunda feira limpando o pó preto que cobria a casa inteira. É que, por recomendação expressa do pessoal que veio fazer a dedetização geral no sábado pela manhã, tivemos que passar dois dias fora de casa, deixando as venezianas das janelas abertas para acabar com o cheiro forte do veneno.

Vitória, 07 de janeiro de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA