Pescaria em Barra Grande

Pescaria em Barra Grande

Escrevo num computador pequeno, plugado em uma das torres de tomadas da sala de embarque do aeroporto de Salvador, tal qual um desses viciados em internet ou daqueles executivos que aproveitam o tempo de espera forçada para colocar o serviço em dia. A bem da verdade, quando comprei a passagem, os voos entre Vitória e Ilhéus eram diretos, sem escala. Fiquei azul de raiva ao saber que a companhia aérea alterara o trajeto, incluindo, na ida e na volta, uma escala na capital baiana. Pra piorar, teria que gramar quatro horas de espera em cada conexão e outras tantas voando à toa. Ao todo, um dia inteiro da minha semana de férias.

O destino era Barra Grande, na baía de Camamu, lugar apregoado como paraíso pelo pessoal lá de casa. Com muito sol, praias de água quentinha e muita sombra de coqueiro, ele estava incluído há tempos na nossa lista de passeios. Agendamos a ida para meados de março para fugir da doideira da alta estação. A vila é bem pequena e o que se vê é pousada e restaurante pra todo lado, muito buraco nas ruas e uma grande quantidade de quadricíclos chineses circulando com até quatro pessoas. Isso no seco, porque nas águas estão lanchas e barquinhos de pesca, simpáticas canoas e escunas solenes.

Sou dos que vivem à sombra, por imposição da pele muito branca. E cada vez mais, apesar de reconhecer e não dispensar a eficiência dos filtros solares e das roupas que bloqueiam os raios ultra-violeta. Por prudência, levei pedaços de bambu e ferramentas, para me divertir longe dos ambientes excessivamente ensolarados, desejados por todos. Viajamos em companhia da minha irmã caçula e meu cunhado e de mais um casal de amigos. O marido, conheço desde os tempos de moleque na Rua Madeira de Freitas, lugar das peladas mais famosas da Praia do Canto nos idos dos anos sessenta. Cidinho era o melhor de todos com a bola nos pés. Jogava morrendo de rir dos dribles que dava e dos gols que fazia. Ele também tinha fama de exímio pescador de berés. Tanto que, durante muitos anos, curtimos uma ferrenha disputa para ver quem matava mais, quem pegava o peixe maior.

A especialidade dele sempre foi a pesca de varinha de mão. A gente tirava os bambuís na encosta da ladeira do colégio das freiras e os desentortava com o calor da chama de uma vela. Desta vez, pachorrento que só e animado pelas possibilidades, ele se deu ao trabalho de ir comprar as varas lá no mercado da Vila Rubim. Escolheu as mais retinhas e firmes, como devem ser as varinhas para pegar peixes pequenos e valentes. Ele sabia que, mais uma vez, a peleja seria travada em bases acirradas, com brinde de cachaça ao vencedor e tudo o mais.

Eu, que não pesco faz tempo, teria a oportunidade de sentir novamente a vara tremendo com as beliscadas na isca, de dar, no reflexo, o safanão que garante a ferrada e de sustentar com firmeza o bambu sendo envergado pela força do bicho puxando para o fundo. Bem sei que nessas horas não pode haver pressa nem afobação: o pescador tem que tentear o danado e, se necessário, deixar que ele leve a linha e até mesmo um bom pedaço da vara pra dentro d’água. Todos torcem para o peixe.

Pois foi exatamente assim que tudo aconteceu. Com a memória ativada pelos movimentos singulares e específicos de quem prepara uma pescaria e fica horas pescando até debaixo de chuva, me vi sentindo as mesmas emoções e tendo as mesmas atitudes de quando, há décadas, a gente se divertia com os carapaus, os bocas de velha, os sabonetes e os ariocós na ilha das Andorinhas, na Gaeta de Fora e na Pedra do Índio.

Vitória, 19 de março de 2014

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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